Meu amigo José Clauber, cantor, compositor e jornalista, enviou-me um e-mail em que fala do artista baiano Sândalo Nogueira, nascido em Formosa do Rio Preto, mas morador de Brasília, onde aposentou-se na área de tecnologia do Banco do Brasil.
Sândalo é compositor de mão cheia e faz belos arranjos para suas músicas, em parceria com Laercio Correntina, baiano também, nascido na cidade de Correntina, como o próprio nome indica. Os dois ajudam a entender a riqueza musical e poética do nosso Brasil imenso.
A fonte de inspiração de Sândalo é a região do rio Preto, que dá nome à sua cidade natal, no oeste da Bahia, situada a mais de mil quilômetros de Salvador. O rio é profundo, por isso suas águas, na superfície, ficam turvas. Faz parte da bacia hidrográfica do rio Grande, o maior afluente da margem esquerda do São Francisco, o Velho Chico.
Sândalo é poeta e defende a preservação ecológica da região, que tem uma exuberante vegetação, formada pelo cerrado, resquícios da caatinga e da Mata Atlântica. A voz do rio e a natureza rica e bela tocam o coração e falam ao ouvido sensível do artista.
Como disse o Clauber em seu e-mail, melhor do que tomar banho nas águas do rio Preto é ouvir a Voz do Rio, canção composta pela dupla e interpretada, no vídeo abaixo, por Laercio Correntina. As imagens que aparecem são todas da região.
Wellington Werner, diagramador e ilustrador de extraordinário talento, foi quem fez o cabeçalho deste meu blog. Trabalhamos juntos em campanha eleitoral e outros momentos da vida. Hoje cedo, recebi e-mail dele em que diz no assunto: Poesia de mãe. Mandou um link com a seguinte advertência: para quem gosta de poesia!
Claro, fui até lá. Li, reli e gostei muito. A mãe dele é essa figura simpática aí na foto. Não a conheço, mas, com certeza, uma pessoa de extraordinária sensibilidade. Em seu perfil está escrito: “Bisavó da Marina, apreciadora das pessoas e da natureza. Externo o que sinto e penso em esculturas, pinturas e poesia”.
Agora, entendi de onde vem todo o talento e sensibilidade do Wellington. Estava escrito nas estrelas. Segue uma das poesias postadas no blog de Cy Mesquita. Para quem quiser conhecer todo o trabalho dela: http://cy-poesiasineditas.blogspot.com/.
Agora, só tenho um desejo: conhecer a Marina, deve ser mais um talento neste mundo.
Sequestro...
Cy Mesquita
Ah!
O desejo
desesperador
de resgatar
o brilho,
extraordinário,
daquele olhar...
Tornar-se,
última vez,
uma batterfly,
livre,
leve,
solta,
a adejar
sobre guirlandas
coloridas,
cheias de vida...
Construir
um mosaico,
único,
de pensamentos
originais,
enriquecendo,
cada segundo,
seu existir
no mundo...
E, sair,
por aí,
a bailar,
ansiando,
aspirando,
ser sequestrada
pelo teu olhar...
Ah! a cor
do teu olhar!
Quando era garoto, entrando na adolescência, em Uruaçu, lá pelos meados dos anos 60, tinha verdadeira paixão por uma frase escrita na traseira de uma charrete de aluguel do seu Mané Vermelho, como era conhecido o marido da Florisbela, a dona Flor, vizinha da casa dos meus pais e que gerenciava uma pensão. A charrete passava, e eu ficava admirando a frase: Eu, ela e o luar... Que delícia!
Ontem, quando vi essa bela foto acima do meu amigo Ferreirinha, o fotógrafo Ronaldo Silva (veja matéria sobre ele neste blog), não tive dúvidas: vai pro blog. Juscelino Kubitschek e Dona Sarah, sentados ao luar, em frente ao Memorial, lembraram-me da frase da charrete e dos bons tempos das serenatas no interior de Goiás.
Sim, fazíamos muitas serenatas naquele pequeno Uruaçu, antes cortado pelo córrego Maxombombo e banhado pelas águas do rio Passa-Três, e hoje pousado às margens do Lago da Serra da Mesa. Juscelino também era um apaixonado por cantorias e ajudou a consagrar a tradição das serenatas mineiras, principalmente em Diamantina, sua cidade natal, que já cultivava as serenatas há dois séculos.
Na foto, em Diamantina, no final dos anos 60, JK pousou com jovens artistas mineiros. Alguém pediu para que Milton Nascimento, o Bituca, cantasse uma música. Gentilmente, Milton perguntou ao presidente o que ele gostaria de ouvir. JK apenas cochichou alguma coisa no ouvido do Bituca. Perguntado sobre o que o presidente falou ao seu ouvido, Milton respondeu: “Por favor, toque qualquer coisa, menos Peixe Vivo”.
Todo dia 12 de setembro, data do nascimento de JK, Diamantina realiza o Dia da Seresta. A cidade também promove festivais de serestas. Juscelino chegou a participar da gravação do disco Diamantina em Serenata, em 1967, que acabou saindo com o título de JK em Serenata (veja capa). Depois do AI-5, o Long Play desapareceu e virou raridade de alguns colecionadores. Abaixo duas canções de serestas, interpretadas pelos seresteiros amigos de JK.
O terceiro CD da carreira do cantor e compositor Eduardo Rangel (foto) está pronto e terá um show de pré-lançamento no próximo sábado (30.04), às 17h00, na Vila Planalto. O CD Eduardo Rangel – Estúdio é o primeiro do artista gravado exclusivamente em estúdio. Os dois primeiros – Pirata de Mim (1998) e Eduardo Rangel e Orquestra Filarmônica de Brasília (2006) – foram gravados ao vivo.
Carioca de nascença, mas criado em Brasília, Rangel sofreu influência da modernidade brasiliense em seus trabalhos. Além de uma voz bonita, canta com personalidade e sentimento. Todas as canções do novo CD são de sua autoria, com exceção apenas para Minha Alma (A paz que eu não quero), que é da banda Rappa, com letra de Marcelo Yuka.
Eduardo Rangel – Estúdio traz também canções antigas com roupagem nova, como a bela Noves Fora, gravada com a Orquestra Filarmônica de Brasília e que pode ser apreciada no vídeo abaixo.
Tive a oportunidade de conhecer Eduardo Rangel no chá de panela dos amigos Solange Nunes e Ocelo Mendonça, que também é músico e toca na Orquestra Nacional do Teatro Cláudio Santoro (veja matéria sobre ele neste blog). Rangel é boa praça, curte os amigos e tem aquela tranquilidade que Deus só concede aos músicos.
A direção musical do novo CD é do tecladista Léo Brandão. No acompanhamento estão músicos brasilienses da nova geração, como o contrabaixistaAndré Vasconcelos e o saxofonistaDaniel Musy, que dividem os créditos com músicos veteranos: o saxofonista Leo Gandelman e o violonista Torcuato Mariano.
A Vila Planalto, no final da tarde de sábado, terá um momento musical inesquecível. Se somarmos todos os músicos que vão aparecer por lá, e tirarmos a prova dos noves, com certeza, o resultado será: noves fora, tudo!
Pouco acima do cruzamento da Rua dos Guajajaras com a Rua São Paulo, no número 750, em Belo Horizonte, vivi sonhos e fantasias de uma adolescência que não acabaria jamais. Por ali passaram amigos e amigas, colegas de escola e de pensão. Os sonhos eram tão fortes que mal enxergávamos a realidade dos anos tão cruéis da ditadura militar, que matava e torturava sob o silêncio imposto pela censura aos veículos de comunicação.
Ah, sim! Tínhamos o Pasquim, que nas linhas e nas entrelinhas, nos traços de tantos talentos, nos dava o alento de poder respirar e sonhar com novos tempos.
Belo Horizonte ainda tinha um horizonte razoavelmente belo. Tinha a vida noturna que, com o passar dos anos, revelaria aos brasileiros uma tradição de botecos de qualidades etílicas e culinárias incomparáveis. Tinha os mesmos Atlético, Cruzeiro e América a exalarem paixões pelo belo Mineirão e pelas ruas de BH afora.
Na verdade, não é o tempo que destroi sonhos e lembranças. Quem os extingue são os homens com suas ambições desmedidas e incontroláveis.
O velho sobrado 750 da Guajajaras, entre Rio de Janeiro e São Paulo, nada mais é do que o número 740, com um muro pixado, um portão de metal enigmático, coberto por ameaçadora cerca elétrica, que protege... Ninguém sabe dizer bem o quê. O velho e tradicional colégio Anchieta não passa de mais um estacionamento entre centenas que estacionaram pelas ruas da cidade, entre prédios e engarrafamentos.
Quem sobreviveu, e sobreviverá por muitos e muitos anos ainda, é o Mercado Central, na esquina da Rua Curitiba com Augusto de Lima. Esse tem gente, povo, sonhos e não sucumbe à ânsia da modernidade. É um patrimônio histórico desde 1929.
Não tive tempo de ver e conferir outros pedaços da minha história belorizontina. Se esse locais evoluíram, regrediram, ou simplesmente foram extintos, não sei.
Mas, felizmente, foi possível verificar que o povo mineiro continua, na sua mineiridade, maravilhosamente hospitaleiro. Não apenas porque estávamos em casa, acolhidos por familiares, mas principalmente porque essa é essência da alma mineira, com seu jeitinho manso, prosa boa e falar bonito.
Aquilo que é do povo, e está arraigado em sua cultura, resiste às ambições do progresso e faz ressuscitar os sonhos. Assim como Jesus Cristo voltou à vida no sábado. Aleluia.
Grupo Deolinda é uma das mais belas revelações da nova música portuguesa
Nossos patrícios portugueses vivem atualmente uma grave crise
econômico-financeira, com forte repercussão na área social. A dívida externa,
que era de 64% do Produto Interno Bruto português, passou para o índice
assustador de 100% do PIB, o que vem reduzindo investimentos, aumentando o
desemprego e o custo de vida.
Alguns parlamentares de esquerda alertaram recentemente que a
situação social em bairros mais pobre chega a ser “gravíssima”. Pedem solução
emergencial e criticam os sucessivos planos de austeridades impostos pelo
primeiro-ministro José Sócrates.
Enquanto isso, Portugal, neste domingo, comemora 37 anos da
Revolução dos Cravos. A mesma que levou Chico Buarque a compor os versos “foi
bonita a festa pá, fiquei contente, ainda guardo renitente um velho cravo para
mim”.
Se os ventos não sopram lá muito bem para nossos colonizadores no
campo econômico, político e social, tal fato parece não acontecer, felizmente,
na área cultural. Artistas consagrados como Paulo de Carvalho, Jorge Palma e o
grupo Deolinda estarão neste domingo nas ruas e praças cantando, com o povo,
para comemorar a Revolução dos Cravos.
O grupo Deolinda é composto de dois irmãos, Pedro e Luís José, da
prima Ana Bacalhau e do baixista José Pedro Leitão, que é marido da vocalista.
Fazem uma música inteligente, bonita, carregada de ironia e de temas modernos.
Ouçam, vejam e acompanhem a letra dessa interessante “Parva que eu sou”. Mais
embaixo, na interpretação de Paulo de Carvalho, a belíssima canção “Os meninos
de Huambo”, de Rui Monteiro, compositor Angolano.
Parva, segundo o dicionário, é pessoa de pouca inteligência,
idiota, bobo. Huambo é uma província de Angola.
Sou da geração sem remuneração
E nem me incomoda esta condição.
Que parva que eu sou!
Porque isto está mal e vai continuar,
Já é uma sorte eu poder estagiar.
Que parva que eu sou!
E fico a pensar,
Que mundo tão parvo
Que para ser escravo é preciso estudar.
Sou da geração 'casinha dos pais',
Se já tenho tudo, para quê querer mais?
Que parva que eu sou!
Filhos, marido, estou sempre a adiar
E ainda me falta o carro pagar,
Que parva que eu sou!
E fico a pensar
Que mundo tão parvo
Onde para ser escravo é preciso estudar.
Sou da geração 'vou queixar-me para quê?'
Há alguém bem pior do que eu na tv.
Que parva que eu sou! Sou da geração 'eu já não posso mais!'
Que esta situação dura há tempo demais
E parva não sou!E fico a pensar,
Que mundo tão parvo
Onde para ser escravo é preciso estudar.
Com fios feitos de lágrimas passadas
Os meninos de Huambo fazem alegria
Constroem sonhos com os mais velhos de mãos dadas
E no céu descobrem estrelas de magia
Com os lábios de dizer nova poesia
Soletram as estrelas como letras
E vão juntando no céu como pedrinhas
Estrelas letras para fazer novas palavras
Os meninos à volta da fogueira
Vão aprender coisas de sonho e de verdade
Vão aprender como se ganha uma bandeira
Vão saber o que custou a liberdade
Com os sorrisos mais lindos do planalto
Fazem continhas engraçadas de somar
Somam beijos com flores e com suor
E subtraem manhã cedo por luar
Dividem a chuva miudinha pelo milho
Multiplicam o vento pelo mar
Soltam ao céu as estrelas já escritas
Constelações que brilham sempre sem parar
Os meninos à volta da fogueira
Vão aprender coisas de sonho e de verdade
Vão aprender como se ganha uma bandeira
Vão saber o que custou a liberdade
Palavras sempre novas, sempre novas
Palavras deste tempo sempre novo
Porque os meninos inventaram coisas novas
E até já dizem que as estrelas são do povo
Assim contentes à voltinha da fogueira
Juntam palavras deste tempo sempre novo
Porque os meninos inventaram coisas novas
O cantor e compositor Ataulfo Alves (foto) recebeu uma homenagem inusitada. O dia da sua morte, ocorrida em 20 de abril de 1969, transformou-se em o Dia Nacional do Disco Vinil. Ataulfo é autor de canções populares como Amélia, Pois É, Meus Tempos de Criança – que muita gente conhece com Professorinha – Laranja Madura, Atire a Primeira Pedra, entre outras.
Ataulfo era uma figura simpática, alto e magro, que tinha certa semelhança física com o presidente dos Estados Unidos, Barak Obama. Suas composições eram simples e voltadas para temas do dia-a-dia, o que faz com que elas sejam cantadas e guardadas na memória popular. Os versos “ai que saudades da Amélia, aquilo sim é que era mulher de verdade”, foram imortalizados e transformaram Amélia em sinônimo de mulher subserviente, submissa.
A homenagem é justa porque o disco de vinil foi muito popular, transformou-se em relíquia e até hoje é preservado com carinho. Eu, por exemplo, tenho bem guardados cerca de mil discos de vinil, alguns são jóias raras. Ataulfo chegou a gravar sete discos de vinil.
Pra matar a saudade, vamos ver e ouvir o próprio Ataulfo Alves cantando Pois É, num raro vídeo que, infelizmente dura apenas 53 segundo. Em outro vídeo, seu filho, Ataulfo Alves Júnior, interpreta a mesma música e conta o motivo que levou seu pai a fazer essa bela composição.
Maria Callas tornou-se um mito da ópera não apenas pela bela voz e os papeis que imortalizou com suas interpretações geniais, mas também pelo seu temperamento forte e pela conturbada vida pessoal. Polemizou durante os anos 50 e 60 com Renata Tebaldi (clique aqui), com quem chegou, algumas vezes, às vias de fato. Depois, rompeu um casamento de dez anos com seu empresário, e viveu uma tórrida relação com o milionário grego Aristoteles Onassis, com quem não conseguiu ser feliz, mas propiciou uma enxurrada de manchetes aos jornais sensacionalistas.
Alguns críticos consideravam a voz de Renata Tebaldi mais bonita, porém não tinham dúvida em afirmar que Maria Callas foi a maior celebridade da Ópera do século XX e a maior soprano de todos os tempos. Suas interpretações eram intensas e costumava abordar suas personagens com expressiva carga dramática.
A diva viveu apenas 54 anos, mas interpretou dezenas de óperas dos mais diversos estilos. São belíssimas suas interpretações como Medea, Norma, Tosca, Violetta, Lucia, Gioconda, entre outras.
Maria Callas interpretou com genialidade Norma, de Bellini, um papel considerado dificílimo. Sua interpretação de Casta Diva, que podemos ouvir abaixo, é inesquecível. Apreciem.
Juracema, minha irmã querida, enviou-me por e-mail relato de um episódio triste que ocorreu com Cleonice, que fazia serviços temporários de doméstica no rancho de Uruaçu, onde eventualmente passamos alguns dias para aliviar o estresse. Juracema, a dona do rancho, até vai mais amiúde por lá. Eu, quando muito, uma vez por ano.
Mas Cleonice, que em outros tempos foi viciada em drogas e álcool, prestava um bom serviço, sempre cordial e muito alegre. Nunca aparentou depressão e, ao que sabemos, não fazia uso de drogas ou bebidas no período em que trabalhou para Juracema.
No dia 07 de fevereiro, Cleonice decidiu antecipar sua passagem por este mundo, deixando duas filhas de 8 e 10 anos. Ela estava em sua própria casa, e naquele dia embriagou-se e fez uso de drogas. Juracema se diz chateada por que não chegou a perceber que ela andava mal... Não concordo, acredito que Cleonice foi feliz nos anos em que trabalhou lá no rancho e minha irmã, com certeza, deu sua contribuição para que ela tivesse alguns momentos de alegria.
Mas deixemos que os versos do poema contem a história nos termos adequados...
Cleonice (Juracema Barroso Camapum)
Sopra-me no rosto a saudade...
Ríamos muito na varanda
Dos seus deslizes juvenis,
Da sua alegria contagiante.
Agora nem o Lago, nem o córrego
Contará com sua presença...
Tão pouco uma sombra
Nas árvores solitárias.
Não verás a copa dos grandes
Coqueiros prateados pela lua cheia.
Hás de galgar para o refúgio dos Deuses
E encontrar consigo mesma.
A noite tão cheia de estrelas...
E você ausente no calor da fogueira.
Sua alma em pânico e delírios
Se exilou sem súplicas,
Nos deixando em prantos e melancolia.
Este blog faz dois meses de existência e eu só tenho muito a agradecer a todos que com ele colaboraram. Foram 60 dias dedicados, dentro das nossas limitações de tempo e espaço, a promover a cultura, por meio de vídeos e áudios de músicas, poesias, crônicas, artigos e notícias. Viajamos juntos pelas tragédias do Japão e do Realengo, pelas fotos de cerejeiras e de flores do cerrado de Brasília, pelo canto lírico e o popular, pela literatura de cordel, a poesia, a psicologia, o jornalismo e tantas outras estradas.
Para comemorar dois meses, rendo minhas homenagens àquela que é a inspiração constante do meu dia-a-dia. Ela que é a nossa luz brilhante e aquecedora das horas mais escuras e frias de nossa passagem por esta vida. Com sua atenção, cultura, inteligência e memória fotográfica, faz surgir no rosto o sorriso que brota nessa foto acima, tirada no milênio passado.
O que ela representa em minha vida, dos nossos filhos, familiares e amigos é muito mais do que os versos abaixo conseguem retratar. Versos que foram feitos para uma noite de Natal, e que ficaram registrados no livro Verbo Interior, uma coletânea de poetas e poesias de Uruaçu. Espero que essa luz ajude a iluminar e a aquecer o domingo de todos os amigos, seguidores, colaboradores e comentaristas que ajudaram nessa ainda pequena caminhada do ZecaBlog. Obrigado.
Pixinguinha na igreja que ele faleceu vítima de infarto
Por ter falado em Pixinguinha (clique aqui), lembrei de uma bela homenagem ao grande músico brasileiro, feita por Moacyr Luz. A letra é perfeita e a melodia, digna do homenageado. Moacyr Luz é compositor de mão cheia, parceiro de Aldyr Blanc, Martinho da Vila, Hermínio Bello de Carvalho e tantos outros.
Em janeiro, no Rio, eu e a Stela tivemos a oportunidade de assistir a um show de Moacyr Luz, no Rio Cenário, na Lapa. Um espetáculo deslumbrante em ritmos e melodias. O CD Batucando, gravado pela Biscoito Fino, é antológico.
Moacyr Luz é uma página marcante da Música Popular Brasileira. A composição abaixo, feita para homenagear Pixinguinha, tem detalhes interessantes da vida do compositor. Diz que “só quem morre numa igreja, vira Orixá, louvado seja Senhor, meu Santo Pixinguinha”. Pois é isso mesmo, nosso mestre morreu de enfarte, em uma igreja de Ipanema, quando ia ser padrinho de um batizado, há 38 anos.
Pra fechar o sábado, vamos acrescentar essa homenagem a Pixinguinha. Apreciem o vídeo e a letra.
Nasceu no Rio de Janeiro
Dia do santo guerreiro
Naquele tempo que passou
Foi o maior mestre do choro
Tinha um coração de ouro
E que bom compositor
Foi carinhoso e foi ingênuo
E na roda dos boêmios
Sua flauta era rainha
E em samba, choro e serenata
Como era doce o som de prata, doutor
Que a flauta tinha
O embaixador dessa cidade
Meu Deus do céu, ai que saudade que dá
Do velho Pixinguinha
Filho da terra de sangue
Sangue de Malê
De uma falange do reinado
Filho de Ogum, de São Jorge, no Batuquegê
De Benguelê, de Iaô
Rainha Ginga
É que sua avó era africana
A rezadeira de Aruanda, vovó
Vovó Cambinda
Só quem morre dentro de uma igreja
Virá orixá, louvado seja Senhor
Meu santo Pixinguinha
E em samba, choro e serenata
Como era doce o som de prata, doutor
Que a flauta tinha
O embaixador dessa cidade
Meu Deus do céu, ai que saudade que dá
Do velho Pixinguinha
Ele é de Benguelê
Ele é de Iaô
É do Batuquegê
Ele é do Reinado
É sangue de Malê
É santo sim senhor
A Música Popular Brasileira, pela sua riqueza de melodias, letras e ritmos, com certeza é a que mais se aproxima, em qualidade, da música norte-americana. Na matéria postada neste blog sobre o gaúcho Vitor Ramil (clique aqui), falamos da riqueza de ritmos e melodias que percorrem o Brasil de Norte a Sul e de Leste a Oeste.
Lá na raiz de tudo isso está Alfredo da Rocha Vianna Filho, um dos maiores responsáveis por essa riqueza. Ainda criança, começou a ser chamado de “Pizindin” (menino bom), pela avó africana de nascimento, porque atendia prontamente aos pedidos para que fosse dormir mais cedo. A molecada da rua preferia chamá-lo de “Bexiguinha”, numa referência às marcas que a varíola (bexiga) deixara em seu rosto. Logo, logo, a mistura dos dois termos gerou o Pixinguinha.
Antes de Pixinguinha chegar ao mundo musical, os primitivos da MPB popularizaram modinhas, lundus, valsas e outros ritmos que circulavam pelos salões da elite aristocrática. Entre eles, Xisto Bahia, Francisco de Brito, Joaquim Antônio da Silva Calado e Laurindo Rabelo. Logo depois viriam os contemporâneos José Luís de Morais, o Caninha, Donga, João da Baiana e Heitor dos Prazeres.
Neste momento, o batuque dos morros começou a virar samba, e o talento de Pixinguinha foi fundamental para nossa música. Tinha um domínio impressionante da técnica e capacidade de improvisação só encontrada nos grandes músicos do jazz.
Com a música intensa e animada dos Oito Batutas, Pixinguinha abriu espaço para novos músicos populares e atraiu o interesse da elite para os instrumentos afro-brasileiros, que desceram do morro e saíram dos terreiros de macumba.
Graças ao talento que Pixinguinha adicionou ao ritmo rico do samba, a música brasileira conheceu Cartola, Paulinho da Viola e, mais recentemente, Teresa Cristina, entre outros. Pixinguinha também abriu caminho para orquestradores como Radamés Gnatalli e Gaó, que trouxeram novos estilos e novas sonoridades. Com ele, a música brasileira tornou-se robusta e expressiva. Seu improviso, sua capacidade de brincar com a melodia, desaguou no chorinho e na inesquecível dupla Pixinguinha (sax) e Benedito Lacerda (flauta), que gravou tantos choros belíssimos.
A música “Lamento”, que mais tarde receberia letra de Vinícius de Moraes, é um exemplo clássico da influência que Pixinguinha recebeu das melodias e até mesmo dos ritmos da música dos norte-americanos.
Pixinguinha é sem dúvida nenhuma um divisor de águas na história da música brasileira. Depois viria Tom Jobim, mas aí é outra história... Antes, vamos ver e ouvir o próprio Pixinguinha tocando "Lamento", acompanhado do jovem Baden Powel e do veterano João da Baiana na marcação. Depois, a mesma música com letra de Vinícius de Moraes, na interpretação do MPB4.
Meu amigo Douglas Umberto de Oliveira, dos bons tempos da UnB, tem veia poética e musical. Depois da faculdade, nos afastamos um pouco. Cada um trilhou seu rumo profissional, constituímos família e os encontros tornaram-se raros e casuais. A música, principalmente, passou a ser o elo que propiciava esses encontros nas encruzilhadas da vida.
Foi assim, na despedida de solteiro do músico Ocelo e da jornalista Solange Nunes, onde nos encontramos e tivemos a oportunidade de ouvir, e conhecer, uma dúzia de músicos de excelente qualidade, tocando diversos instrumentos, num sarau inesquecível. Depois, aconteceram outros encontros casuais, sempre ligados à música ou à poesia.
Recentemente, comuniquei ao Douglas e ao Nelson Luís de Oliveira, o Nelsinho, que tinha criado o ZecaBlog, um espaço cultural que estaria aberto aos amigos para sugestões e colaborações, sempre que estivessem dispostos.
Há uma semana, recebi e-mail do Douglas sobre uma composição dele com o músico Leonardo Almeida Filho. O Léo, segundo ele, era um grande amigo e tinha acabado de publicar na internet algumas músicas. Entre elas, estaria Carne-de-Pescoço, com letra que o Douglas tinha feito para “homenagear” o polêmico jornalista e empresário de Comunicação, Assis Chateaubriand, tão bem retrato por Fernando Morais, em “Chatô, o Rei do Brasil”.
Gostei da letra que veio pelo e-mail. Fui até o site e ouvi a música. A parceria ficou boa e a interpretação, valorizada pela voz do Leonardo. Não tive dúvidas, pensei na hora: essa vai para o blog. Será compartilhada com meus amigos, leitores e seguidores. Então, ouçam a gravação e acompanhem a letra.
A unidade 3 da Usina de Fukushima, nos primeiros dias, estava assim...
...A situação hoje, um mês depois da tragédia, preocupa autoridades japonesas
A situação do vazamento na usina nuclear de Fukushima, no Japão, é muito mais grave e preocupante do que se imaginava. A descoberta de plutônio no solo e alta radiação na água levaram o governo japonês a considerar a situação “muito séria”, comparada ao desastre de Chernobyl, na Ucrânia.
Com o agravamento da situação desde sábado, as autoridades consideram que o quadro é “imprevisível” e exige pleno acompanhamento. Ao mesmo tempo, o governo japonês começa a questionar o uso de energia nuclear, tendo em vista o seu potencial devastador.
O debate inevitavelmente chegou ao Brasil, que projeta aumento nos investimentos desse tipo de energia, mesmo sendo um país com grande potencial para energia hidráulica. Segundo Ildo Sauer, doutor em engenharia nuclear e professor da Universidade de São Paulo (USP), “até 2040, 2050, quando tivermos 200 milhões de habitantes, mesmo dobrando o consumo da população, será preciso usar apenas 70% do nosso potencial hidráulico, ainda sobra energia”. Não apenas ele, mais vários outros especialistas consideram que a situação do Brasil é muito confortável.
Outro aspecto conspira contra a instalação de novas usinas nucleares. Os estados que receberiam os empreendimentos já começam a questioná-los. Governadores da base aliada, inclusive, como Eduardo Campos, de Pernambuco, e Marcelo Déda, de Sergipe, já avisaram que vão repensar a viabilidade da construção de parques nucleares.
Por enquanto, o governo brasileiro concordou em fazer uma avaliação das condições de seguranças das usinas nucleares de Angra I e II. Mas as obras de Angra III continuam e a disposição para construção de mais outras quatro usinas, também.
É vital a abertura do debate sobre a ampliação do parque energético nuclear, que prevê o aporte de um volume altíssimo de recursos. Só Angra III deve custar R$ 8 bilhões e vai gerar 1.345 megawatts. Segundo especialistas, essa energia poderia ser produzida pela matriz hidráulica, eólica ou de outra fonte. As usinas nucleares previstas para serem construídas no entorno do Rio São Francisco teriam um custo da ordem de R$ 80 bilhões. Usando outras matrizes, bastariam investimentos da ordem de R$ 20 bilhões para substituí-las.
A abertura do debate, portanto, é imprescindível. Não é mais uma reivindicação apenas de ambientalistas xiitas, como se dizia no passado. A sociedade brasileira quer debater o assunto e o governo não tem mais como evitá-lo.
Em Chernobyl, foi erguido monumento aos bombeiros que morreram no acidente
Desculpem-me os antiflamenguistas fanáticos, mas Flamengo é cultura. Taí a Academia Brasileira de Letras para provar e comprovar o que estou dizendo. Nas comemorações dos 110 anos do nascimento de José Lins do Rego, o homenageado foi Ronaldinho Gaúcho, sobre quem eu já escrevi neste blog (clique aqui), elogiando principalmente a sua maneira alegre de jogar futebol.
Já escrevi também sobre a alegria que o nosso saudoso José Alencar, que morreu há duas semanas, tinha pelo seu Flamengo do coração (clique aqui). Quando o assunto futebol tem um lado curioso, artístico, cultural, vira matéria para esse cantinho do ZecaBlog. Não vamos tratar aqui de resultado de jogos, andamento de campeonatos – isso tudo fica para o jornalismo esportivo.
Mas, é curioso saber que o jantar de homenagem a José Lins do Rego, pela sua eleição como presidente da ABL foi justamente oferecido pelo Clube de Regatas do Flamengo, em 1955, quando o clube rubro-negro se tornaria tricampeão carioca, e deixaria mais feliz ainda o escritor paraibano, um apaixonado por futebol e pelo clube da Gávea.
Alguém mais despeitado pode até questionar: conceder a medalha Machado de Assis, a máxima honraria da ABL, para um jogador de futebol? Ronaldinho nunca escreveu um livro – será que já leu algum? Isso tudo é verdade. Ele sabe apenas tocar pandeiro e jogar futebol. Mas, e daí? Executa sua tarefa de jogador com arte, alegria, e proporciona aos escritores inspiração para crônicas esportivas. Imaginem José Lins do Rego, ou Nelson Rodrigues, escrevendo sobre o estilo Ronaldinho de jogar futebol... Claro, seria infinitamente melhor do que os textos piegas de Pedro Bial.
Marcos Vilaça, presidente da ABL, brincou: “A Academia vai fazer a iniciação literária de Ronaldinho”, e presenteou o craque com o livro “Flamengo é puro amor”, de José Lins do Rego.
Lá fora, a charanga do Jaime tocava... No cardápio do almoço, bacalhau.
Um mês depois da tragédia que abalou o mundo, o Japão tenta juntar, literalmente, os cacos. Tenta aglutinar o que sobrou, à base de muita solidariedade, para reconstruir as regiões mais atingidas pelo terremoto, pelo tsunami e pelos vazamentos nucleares. Em meio a tudo isso, ainda enfrenta terremotos, como o de hoje que chegou a 6,6 pontos na Escala Richter.
Depois do terremoto de 9 graus no dia 11 de março, que deu origem a um tsunami devastador, o Japão já registrou 400 tremores de terra. O número de mortos já passa de 13 mil, e os desaparecidos são 14.348. Na busca desesperada para encontrar os corpos, o Japão mobilizou ontem uma equipe de 22 mil soldados, 90 aviões e 50 navios. A esperança é a de que os corpos levados pelas ondas gigantes para o Oceano Pacífico voltem à superfície.
Ontem também terminou o período auge das cerejeiras brancas e rosas, que vai de 26 de março a 10 de abril (veja matéria neste blog).
O primeiro-ministro japonês, Naoto Kan, publicou, nesta segunda-feira, uma carta em vários jornais do mundo para agradecer a ajuda recebida pelo Japão. "Em um momento de desespero, pessoas de todo o planeta se uniram a nós. Elas nos inspiraram com esperança e coragem", afirma Kan no texto, que tem como título "Obrigado pelo Kizuna (vínculos de amizade)", publicado em jornais de países como China, Coreia do Sul, Estados Unidos, França e Rússia, entre outros.
Enquanto isso, cidadãos japoneses visitam os locais da tragédia e levam flores para homenagear os mortos e os desaparecidos, como na foto acima.