sexta-feira, 30 de março de 2012

O trânsito nosso de cada dia nos dai hoje; amanhã, não


Final de tarde em Brasília, pelas lentes de Ronaldo Silva
Brasília tem um céu lindo, um final de tarde que inspira os poetas. Já publiquei várias fotos aqui mostrando as belezas da nossa cidade, com suas flores do cerrado, final de tarde e alvorecer que mudam de acordo com as estações do ano.
Mas o trânsito está fazendo desaparecer essa beleza. O brasiliense já não aguenta mais tantos engarrafamentos provocados pelo excesso de carros nas ruas da cidade. O fotógrafo Ronaldo Silva, nosso Ferreirinha já tão conhecido aqui no blog, registrou um desses terríveis momentos do nosso dia-a-dia, na Estrada Parque Guará (EPGU), no sentido Plano Piloto ao Guará, em frente ao Zoológico de Brasília.
O brasiliense, mesmo quem mora perto do trabalho, está deixando de ir almoçar em casa – o que é um hábito saudável e sinônimo de qualidade de vida – por causa do trânsito, principalmente nos acessos às superquadras, tesourinhas e pistas que passam por baixo dos três eixos norte e sul.
Para completar o caos, Brasília tem o maior número de manifestações por metro quadrado do mundo. Não apenas os protestantes que vêm de fora, mas também os daqui adoram agregar aos seus movimentos um engarrafamento de trânsito e a consequente irritação dos transeuntes.
Brasília ainda tem um transporte público de baixa qualidade, o que faz aumentar o número de pessoas que preferem enfrentar o trânsito engarrafado em seus próprios veículos, com ar condicionado e música. A maioria dos carros particulares circula com apenas uma pessoa no interior, quando muito, com duas.
São as consequências da expansão da indústria automobilística, com financiamentos fáceis e baixos investimentos em transportes de massa, como metrô e trem, por exemplo. Desde Juscelino, a opção foi preparar o Brasil pra andar de quatro rodas. Agora, cá estamos nós, de quatro, a sofrer mazelas de um trânsito que a cada dia se torna mais insuportável.
O remédio é fazer poesia. Dormir e esperar que tudo não tenha passado de um pesadelo.

Sinais trocados
José Carlos Camapum Barroso

Paz em trânsito
Quando transito
Tranquilo pelos
Meus sonhos
Desengarrafados
De ansiedades

Paz no trânsito
Quando tranquila
Dorme a cidade
Na madrugada
De ruas enluaradas
E sinais vazios

Transito em paz
Até o amanhecer
Quando o sonho,
Então, se desfaz
Em pesadelos reais
Até o adormecer...

quinta-feira, 29 de março de 2012

Didi e a falta que nos faz um jogador talentoso e elegante

Didi foi o clássico meia-armador, dono da camisa 8 e de muita elegância
A cultura do futebol brasileiro nos ensina que alguns jogadores refletem e são refletidos pela antológica camisa 10 da Seleção Brasileira e dos seus respectivos clubes. Pelé é o maior exemplo deles no âmbito nacional e internacional. Zico, Rivelino e Rivaldo, entre outros, entram nesse time de craques “camisa 10”.
Mas, a camisa 8, tradicionalmente associada ao meia-direita, ao meia-armador, ao cara responsável na seleção, ou no clube, pela criação das jogadas, também tem vida própria na nossa rica e gloriosa história do futebol brasileiro. O primeiro nome que nos vem à cabeça é o de Didi, o “gênio da folha seca”, e, depois, o de Gérson, o “canhotinha de ouro”, ambos consagrados no Botafogo.
Didi era um negro esguio, elegante, calmo, criativo e inteligente. O gesto dele na final da Copa do Mundo de 58, na Suécia, quando o Brasil levou o primeiro gol e tudo fazia crer que um novo “Maracanaço” se abateria sobre o esquadrão de ouro, entrou para a história das nossas conquistas. Não por acaso, foi considerado o jogador número um da primeira copa conquistada pelo Brasil.
Pelé chora no ombro de Didi, na Copa do Mundo de 58
Didi, calmamente, foi ao fundo das redes, apanhou a bola, colocou-a debaixo do braço e foi caminhando de cabeça erguida para o centro do campo. Disse para os companheiros, inclusive para o garoto Edson Arantes do Nascimento, o Pelé, então com 17 anos recém-completados:
- Acabou a sopa deles. Agora é nossa vez. Vamos encher a caçapa desses gringos de gols!
Não deu outra: o Brasil venceu os donos da casa por 5 a 2, sagrando-se campeão pela primeira vez. Ali, como viria a dizer muito oportunamente Luis Nassif, “começaria a nascer o Brasil”. Um país moderno, rico culturalmente e o maior expoente do bom futebol mundial. O jornalista cunhou essa frase numa bela entrevista em que apresentou uma música composta por ele para registrar esse momento histórico do futebol. No vídeo abaixo, mais um exemplo da inteligência brasileira, da nossa sensibilidade e da junção tão interessante entre futebol e música, mais particularmente o samba.
Depois de Didi, sem dúvida, veio Gérson. Depois do canhotinha, poderia ter se firmado como um clássico meia-armador, Geraldo, o meia do Flamengo que morreu muito novo, de choque anafilático, em uma cirurgia de garganta. Geraldo encarnava esse espírito da elegância, categoria, perfeito domínio de bola e caminhava com a bola nos pés como se ali estivesse um bailarino jogando futebol.
O nosso universo de histórias do futebol é muito rico. Luis Nassif foi muito feliz ao resgatar esse momento à altura do gesto empreendido por Didi. Este vídeo, de apenas quatro minutos e meio, ajuda a nos prepararmos para a sexta-feira, que, felizmente, chega daqui a pouco. Para arrematar, Chico Buarque, com muita categoria e talento, canta a sua clássica definição de "O Futebol".






quarta-feira, 28 de março de 2012

O humor inteligente perde mais um talento: Millôr Fernandes

Manhã difícil esta do dia 28 de março. Depois da notícia da morte de Adelmide Fonseca, veio a informação do falecimento do jornalista, escritor, humorista, dramaturgo, desenhista e tradutor Millôr Fernandes, ontem, às 21h00, em sua residência, no Rio de Janeiro, vítima de falência múltipla dos órgãos. O corpo será velado amanhã, a partir das 10h00, no cemitério Memorial do Carmo, no Caju, e depois será cremado no Crematório da Santa Casa.
Millôr Fernandes era um gênio e contribuiu muito para “fazer a cabeça” de várias gerações, principalmente a da nossa, que éramos adolescentes nos difíceis anos da ditadura militar e no lançamento do Pasquim, em 1969. No próximo dia 27 de maio, faria 88 anos de idade. Sua saúde estava abalada há alguns anos, chegando a ser internado por duas vezes no ano passado.
Seu nome de nascimento era Milton Viola Fernandes, mas descobriu, aos 17 anos, no cartório, que por um problema de caligrafia fora registrado como Millôr – o corte da letra “t” mais parecia um acento circunflexo. Adotou o nome e ficou conhecido e famoso como Millôr Fernandes. Também existem dúvidas sobre a verdadeira data de seu nascimento. Embora conste em sua carteira o dia 27 de maio de 1924, familiares dizem que nasceu em 16 de agosto de 1923.


No jornalismo, Millôr começou em 1938, na revista Cruzeiro, como contínuo e repaginador. Depois, no início da década de 40, voltaria para contribuir com o sucesso da revista, que chegou a publicar 750 mil exemplares por edição. É dessa época a sua famosa coluna Pif-Paf, que incluía desenhos do autor.
Depois de passar pelo jornal português Diário da Manhã e pela revista Veja, participaria da fundação do jornal O Pasquim, ao lado dos cartunistas Jaguar e Ziraldo e dos jornalistas Tarso de Castro e Sérgio Cabral. Com um jornalismo crítico e um humor inteligente, o semanário fez sucesso e se consagrou como ferramenta importante na luta pela redemocratização do país.
No teatro, como dramaturgo, Millôr colecionou prêmios e deixou obras antológicas como “Um elefante no caos”, “É...”, “Liberdade, liberdade” (em parceria com Flávio Rangel) e “O homem do princípio ao fim”, entre outras. Como tradutor, deu-nos “Rei Lear”, a moderna “As lágrimas amargas de Petra Von Kant” e o musical “Chorus Line”, entre tantas outras maravilhas.
Millôr vai fazer uma falta impossível de ser calculada. Em compensação, sua obra, inspirada num humor fino, inteligente, carregada de humanismo e de uma visão cética do mundo, vai continuar para sempre incomodando os medíocres, os tiranos e tirando do comodismo todos, até mesmo os que têm capacidade mínima de raciocínio.
Millôr é parte essencial da nossa história cultural. Foi junto com Ademilde Fonseca, muito próximo de Chico Anysio e vai se juntar a toda turma de bambas que andam lá pelas alturas. O Brasil fica mais pobre e mais triste; porém, o Paraíso, esse sim, com certeza, sai fortalecido.
Abaixo, uma pequena amostra de frases geniais de Millôr e um vídeo com um de seus belos poemas.

Algumas frases de Millôr Fernandes:

“Numa vida média de 50 anos, 80 a 100 dias são empregados pelos homens só no ato de fazer a barba. Ignora-se o que as mulheres fazem com esse tempo.”

“O cara só é sinceramente ateu quando está muito bem de saúde.”

“O melhor movimento feminino ainda é o dos quadris.”

“O pior casamento é o que dá certo.”

“O poder é o camaleão ao contrário: todos tomam a sua cor.”

“Ontem hoje / E amanhã / O homem o cabelo parte / Parte o cabelo com arte / Até que o cabelo parte.”

“Quando um chato diz: ‘Eu vou embora’, que presença de espírito.”

“Quem mata o tempo não é assassino mas sim um suicida.”

“Roube ainda hoje! Amanhã pode ser ilegal.”

"Esnobar é... exigir café fervendo e deixar esfriar."

"Nos dias quotidianos é que se passam os anos."

"Viva o Brasil, onde o ano inteiro é primeiro de abril."

"As nuvens, meu irmão, são leviandades da criação."



Ademilde morre aos 91 anos e deixa os chorões de luto

Ademilde, a rainha do choro, viveu a vida com muita alegria
O Brasil amanheceu mais triste. Os amantes da boa música começam o dia de hoje cabisbaixo. Ademilde Fonseca, a rainha do choro, morreu no final da noite de ontem, vítima de um mal súbito. Ademilde tinha acabado de completar 91 anos de idade no dia 04 deste mês, sendo 71 deles plenamente dedicados à música.
A rainha do choro tornou-se conhecida internacionalmente e ajudou a universalizar canções brasileiras, como Tico-tico no Fubá e Brasileirinho. Estava em plena atividade. No último fim de semana, realizou show em Porto Alegre, no Rio Grande do Sul – no lado oposto do Brasil em que ela nasceu: no Rio Grande do Norte, município de São Gonçalo do Amarante.
Ademilde deu alegria a várias gerações de apaixonados pelo chorinho e pela música popular brasileira. Com um virtuosismo impressionante e muito talento, ela ajudou a institucionalizar o choro cantado, que já era tradicional e grandioso nos instrumentos de Pixinguinha, Jacob do Bandolim, Ernesto Nazareth e tantos outros.
Ademilde será enterrada hoje, no cemitério São João Batista, no Rio de Janeiro. Com certeza, os cariocas saberão render as últimas homenagens a essa extraordinária artista brasileira.
O blog rende suas homenagens com a bela interpretação dada por ela ao chorinho Delicado, de Waldir Azevedo e Ary Vieira -  nesta gravação com a participação do próprio Waldir  e de Jacob do Bandolim. Claro, também, Tico-tico no Fubá, que o foi o primeiro choro que Ademilde cantou, mostrando que conhecia a letra desde criança – composição de Zequinha de Abreu e letra de Eurico Barreiro. Depois disso, o chorinho nunca mais parou de ser cantado – e continuará assim eternamente..


domingo, 25 de março de 2012

"Les aux de mars", de Jobim, para Itaney e Stela Márcia

A vida é um eterno aprendizado. E esse aprendizado é eterno, duradouro, enquanto for prazeroso. Isso me veio à mente enquanto ouvia essa belíssima interpretação abaixo, de uma das canções mais bonitas da música popular brasileira: Águas de Março, de Tom Jobim, que já foi postada neste blog e será sempre que for oportuno. A fonte, na qual bebi essa delícia, foi o blog do meu amigo Maranhão Viegas.  A interprete é a cantora americana de jazz Stacey Kent, numa versão impecável chamada “Les aeux de Mars”, que aproveito para homenagear Itaney e Stela Márcia.
Os dois dedicam boa parte de seus preciosos tempos a aprender a língua francesa, com aquela musicalidade toda especial e aqueles biquinhos charmosos que a língua obriga os falantes a falarem. Itaney, desembargador e poeta, é frequentador assíduo deste blog, seja como leitor ou como participante com seus textos e poesias maravilhosas. Stela Márcia, minha mulher, é a razão de ser de muita coisa que foi postada por aqui.
Quando vi e ouvi este vídeo, não tive dúvidas. Vou postá-lo em homenagem a essas duas pessoas, ao empenho dos dois no aprendizado da língua francesa e a todos que amam a música e a cultura. Acho que até já escrevi demais, o vídeo fala por si só.
Um bom final de domingo para todos.



Les eaux de mars
Composição: Tom Jobim
Canta: Stacey Kent

Un pas, une pierre, un chemin qui chemine,
Un reste de racine, c'est un peu solitaire,
C'est un éclat de verre, c'est la vie, le soleil,
C'est la mort, le sommeil, c'est un piège entr'ouvert.

Un arbre millénaire, un noeud dans le bois,
C'est un chien qui aboie, c'est un oiseau dans l'air,
C'est un tronc qui pourrit, c'est la neige qui fond,
Le mystère profond, la promesse de vie.

C'est le souffle du vent au sommet des collines,
C'est une vieille ruine, le vide, le néant,
C'est la pluie qui jacasse, c'est l'averse qui verse
Des torrents d'allégresse, ce sont les eaux de mars.

C'est le pied qui avance, à pas sûr, à pas lent,
C'est la main qui se tend, c'est la pierre qu'on lance,
C'est un trou dans la terre, un chemin qui chemine,
Un reste de racine, c'est un peu solitaire.

C'est un oiseau dans l'air, un oiseau qui se pose,
Le jardin qu'on arrose, une source d'eau claire,
Une écharde, un clou, c'est la fièvre qui monte,
C'est un compte à bon compte, c'est un peu rien du tout.

Un poisson, un geste, comme du vif argent
C'est tout ce qu'on attend, c'est tout ce qui nous reste,
C'est du bois, c'est un jour le bout du quai,
Un alcool trafiqué, le chemin le plus court.

C'est le cri d'un hibou, un corps ensommeillé,
La voiture rouillée, c'est la boue, c'est la boue.

Un pas, un pont, un crapaud qui coasse,
C'est un chaland qui passe, c'est un bel horizon,
C'est la saison des pluies, c'est la fonte des glaces,
Ce sont les eaux de mars, la promesse de vie.

Une pierre, un bâton, c'est Joseph et c'est Jacques,
Un serpent qui attaque, une entaille au talon,
Un pas, une pierre, un chemin qui chemine,
Un reste de racine, c'est un peu solitaire.

C'est l'hiver qui s'efface, la fin d'une saison,
C'est la neige qui fond, ce sont les eaux de mars,
La promesse de vie, le mystère profond,
Ce sont les eaux de mars dans ton coeur tout au fond.

É pau, é pedra, é o fim do caminho
É um resto de toco, é um pouco sozinho...
Un pas, une pierre, un chemin qui chemine,
Un reste de racine, c'est un peu solitaire.

sexta-feira, 23 de março de 2012

Morre Chico Anysio, mas fica o humor, a poesia, a música...

Não morreu Chico Anysio, o homem, o ser que as biografias dirão que tinha 80 anos, era humorista, casado seis vezes, com tantos filhos e quantos netos. Morreu, sim, uma parte significante e significativa do Brasil, de todos os brasileiros que amam a arte, a cultura, o humor, a música, o cinema, o teatro e a poesia.
Chico Anysio era tudo isso e muito mais. Os personagens que criou, e para os quais deu vida própria, representam um pouco de cada um de nós, brasileiros, principalmente os nordestinos, com nossas angústias, sofrimentos e fraquezas. Tudo isso, Chico Anysio criou e retratou com engenho e arte e o sobrenome de humorismo.
Chico é o nosso Charles Chaplin tropical. Seu personagem clássico, o professor Raimundo é um exemplo disso. Trouxe para o universo do riso e da alegria, o sofrimento do professor, com aquele salário ó, uma sala de aulas cheia de problemas e de alunos problemáticos, mas não pode perder a calma e o humor.
Caricatura feita por Lucas Leibholz
Chico Anysio deixa todos nós entristecidos, cabisbaixos, pensativos e humilhados. Como iremos sorrir amanhã? Quem nos garante que será possível sorrir amanhã? Como enfrentar todas as mazelas da vida, o dia-a-dia, as dificuldades que são inerentes à nossa sobrevivência, sem ter alguém que saiba tão facilmente nos fazer sorrir?
A morte é muito mais do que o fim da vida de um ser. Sua força arrasta o homem e ameaça levar junto o artista, aquilo que construiu em vida, os exemplos que deixou e tantas coisas que estiveram em volta de sua existência... Mas a arte é forte, resiste e segue incólume e grandiosa. Cada vez mais grandiosa.
Chico Anysio, no vídeo abaixo, durante entrevista no programa do Jô Soares, fala um poema de sua autoria, chamado “Mundo Moderno”. O texto do poema, a interpretação e a forma como Chico canta “What a Wonderful Word”, lembrando Louis Armstrong, são suficientes para tentar fechar este dia triste e abrir uma janela alegre para os que virão...
Confesso que diante do vazio que se abateu sobre todos nós, não encontrei outra forma de fazer a minha (nossa) homenagem a esse extraordinário artista.




Mundo Moderno
Chico Anysio

Mundo moderno, marco malévolo, mesclando mentiras, modificando maneiras, mascarando maracutaias, majestoso manicômio. Meu monólogo mostra mentiras, mazelas, misérias, massacres, miscigenação, morticínio – maior maldade mundial.

Madrugada, matuto magro, macrocéfalo, mastiga média morna. Monta matungo malhado munindo machado, martelo, mochila murcha, margeia mata maior. Manhãzinha, move moinho, moendo macaxeira, mandioca. Meio-dia mata marreco, manjar melhorzinho. Meia-noite, mima mulherzinha mimosa, Maria morena, momento maravilha, motivação mútua, mas monocórdia mesmice. Muitos migram, macilentos, maltrapilhos. Morarão modestamente, malocas metropolitanas, mocambos miseráveis. Menos moral, menos mantimentos, mais menosprezo. Metade morre.

Mundo maligno, misturando mendigos maltratados, menores metralhados, militares mandões, meretrizes, maratonas, mocinhas, meras meninas, mariposas mortificando-se moralmente, modestas moças maculadas, mercenárias mulheres marcadas. Mundo medíocre. Milionários montam mansões magníficas: melhor mármore, mobília mirabolante, máxima megalomania, mordomo, Mercedes, motorista, mãos… Magnatas manobrando milhões, mas maioria morre minguando. Moradia meia-água, menos, marquise.

Mundo maluco, máquina mortífera. Mundo moderno, melhore. Melhore mais, melhore muito, melhore mesmo. Merecemos. Maldito mundo moderno, mundinho merda.

quinta-feira, 22 de março de 2012

Código Florestal e a sabedoria dos 103 anos de Luiz Beltrame

Luiz Beltrame, poeta e lavrador aposentado, nessa belíssima foto de Orlando Brito
 Completei 14 anos / E escrever eu já sabia / Já assinava o meu nome / Lia as coisas que eu queria / Sempre prestando atenção / E fazendo minhas poesias / Aí deixei meu sertão / No estado da Bahia / Vim parar aqui em São Paulo/ Trabalhar de boia-fria / Então resolvi casar / e oito filhos teria.”

Luiz Beltrame é isso. Um cidadão errante, caminhante, sem riquezas, mas cheio de sonhos e poesias. Um homem que sabe agarrar e defender o mourão da cerca de arame, assim como derrubá-lo e ultrapassá-lo sempre que for preciso e necessário. Um líder nato, respeitado e admirado por todos, que traz no rosto o sinal dos tempos, a experiência e a sabedoria acumuladas nos 103 aninhos de vida, que neste 2012 chegará a 104 anos.
Beltrame agarra-se ao pau da cerca sem medo dos arames farpados, que sempre ameaçam a pele curtida pelo tempo, o sol e a poeira da estrada. Pele grossa protegendo uma alma leve, sensível, que caminha pelas estradas da vida com a convicção dos justos e os ideais dos poetas sonhadores.
Luiz Beltrame nasceu em Paramim, na Bahia, mas viveu e continua vivendo para todos, embora tenha cultivado seu pedaço de chão em um acampamento do MST, no interior do Estado de São Paulo. Hoje, aposentado, vive numa casa modesta, em Coroados, perto de Araçatuba (SP). Já publicou dois livros – Sonho com a vida e Sonho com a terra. Sua poesia é composta de versos simples (como ele mesmo) e rimados, geralmente dedicados a agradecimentos, brincadeiras, exaltações, homenagens e reflexões.
Sua vida vai além dos versos. Está repleta de lutas, caminhadas pela reforma agrária que nunca sai no Brasil e manifestações pelo país afora. Tem oito filhos, 47 netos, 75 bisnetos e 20 tataranetos – uma família que, sozinha, engrossa uma passeata.
Beltrame, numa de suas caminhadas pela reforma agrária (divulgação)
Luiz Beltrame é o que as duas fotos desta página retratam: um homem agarrado aos seus ideais, sem nunca ter tirado o pé da estrada para realizar seus sonhos. Um cidadão de expressões firmes, decididas – convicções que as marcas do tempo não conseguem apagar.
Neste mês em que o Congresso Nacional deve definir o Código Florestal, buscar inspiração em Luiz Beltrame é obrigação de todo bom brasileiro, consciente de suas responsabilidades e compromissos com o futuro. Quem deseja absorver um pouco dessa grande sabedoria, acumulada nesses quase 104 anos de poesia e de luta, deve assistir ao vídeo abaixo. São apenas pouco mais de seis minutos. Os congressistas que vão definir o Código Florestal – que certamente terá repercussão direta na reforma agrária –, deveriam assisti-lo mais ainda.



sábado, 17 de março de 2012

Brasília fica fora do roteiro de homenagens a Elis Regina

Show de Maria Rita em homenagem a Elis Regina, que hoje completaria 67 anos, não tem Brasília no roteiro. Não é raro a capital do país ser alijada das turnês de grandes artistas, o que é uma pena porque Brasília tem um público que valoriza a boa música e o fã clube de Elis por aqui é bem representativo. Os shows vão do dia 24 de março, começando em Porto Alegre, cidade natal da cantora, até o dia 29 de abril, quando termina no Rio de Janeiro, depois de ter passado por São Paulo, Belo Horizonte e Recife.
Além desses shows, que serão gratuitos, a cantora também será homenageada em uma exposição de objetos doados por seus fãs, que ocorrerá simultaneamente ao lançamento de duas publicações: uma biografia organizada pelo jornalista Júlio Maria e o livro Viva Elis, que conta a história da trajetória da artista e será distribuído para bibliotecas e instituições educacionais.
Elis é, sem dúvida, uma das mais importantes cantoras da música brasileira. Já escrevi sobre os seus tempos de roqueira (para ler, clique aqui), quando gravou seu primeiro disco Viva a Brotolândia. De lá pra cá Elis Regina gravou discos e canções antológicas, permeando a memória de todos nós que acompanhamos seu sucesso e conhecemos bem seu talento.
Neste aniversário da cantora, fique o protesto deste blog pelo fato de Brasília não ter sido incluída na turnê. Não seis se ainda dá tempo, mas acho que deveríamos iniciar uma corrente nas redes sociais reivindicando o direito de nossa cidade ser incluída no roteiro. Fica também um apelo ao secretário de Cultura do DF, Hamilton Pereira da Silva, para que ele faça todo o esforço possível para incluirmos Brasília na agenda da cantora Maria Rita. Hamilton tem feito um bom trabalho à frente da Cultura, inclusive trazendo espetáculos importantes para a capital da República, como foi o Festiva de Ópera (para ler, clique aqui e aqui), realizado no ano passado.
Enquanto não conquistamos esse sonho, vamos matar a saudade da Pimentinha, o Furacão Elis, vendo e ouvindo duas interpretações impecáveis.
Saravá, Elis, você continua entre nós. Está preservada em nossas e mentes e bem guardada em nossos corações.



sexta-feira, 16 de março de 2012

A Justiça e o Samba itinerantes de Gláucia Foley

Juíza Gláucia recebe o prêmio Innovare, ao lado de Márcio Thomaz Bastos
A arte de cantar samba entrou na vida de Gláucia Falsarella Foley muito cedo. O sonho de fazer Justiça veio um pouco depois, mas de maneira segura e significativa - foi dela, como juíza do TJDF, a ideia de implantar a Justiça Itinerante em Brasília, que depois iria evoluir para a Justiça Comunitária e se multiplicar para outras regiões do país. Em ambas as vocações, Gláucia sempre mostrou talento, dedicação e sabedoria.
Na música, principalmente no samba, teve o apoio e o estímulo do pai, que, ao criar seu próprio boteco na cidade de Passa Quatro (MG), reservou um cantinho, com microfone e violão, para Gláucia cantar. Daí para as rodas de samba, botecos da cidade natal e de Brasília, posteriormente, foi um pulo.
Como juíza, ficou conhecida por dirigir o projeto de Justiça Itinerante, graças à sua vocação democrática e à vontade de fazer chegar às comunidades menos favorecidas os instrumentos da Justiça. O projeto cresceu e fez brotar uma ideia ainda mais interessante: capacitar o próprio cidadão para buscar consenso entre as partes. Nascia, assim, a Justiça Comunitária que depois seria exportada para outros estados, inclusive para as favelas onde foram implantadas as Unidades de Polícia Pacificadoras, no Rio de Janeiro.

Em Brasília, Gláucia encontrou um campo fértil junto aos sambistas da ARUC – a escola tantas vezes campeã do Carnaval de Brasília – e aos chorões da cidade, como Evandro Barcellos, também sambista e multi-instrumentista, que convenceu a juíza-cantora a gravar o seu primeiro CD.
Gravar o disco Meu Canto foi um passo importante. Fez brotar outro talento de Gláucia Foley: o de garimpeira de canções pouco conhecidas da Música Popular Brasileira. O CD resgata, por exemplo, Rio Seco, uma bela canção que foi gravada na voz de Elizeth Cardoso, composição de Romildo Souza Bastos e Toninho Nascimento. O repertório é de excelente qualidade, passando por Nei Lopes, dona Ivone Lara, Cartola, Elton Medeiros, Paulo César Pinheiro, Jacob do Bandolim e tantos outros.
A voz de Gláucia é suave, intimista, não arrisca a enfrentar a grandeza da voz de uma Elizeth Cardoso, dona Ivone Lara, Beth Carvalho ou Clara Nunes. Mas coloca a voz com muita precisão, o que dá às interpretações uma personalidade própria, valorizando as melodias e as inflexões.
Se algum dia na minha vida, que Deus me livre e guarde, vier a cometer algum delito, espero cair nas garras da juíza-cantora. Quero chegar lá com um violão nas costas, um pandeiro debaixo do braço e um cavaquinho amarrado na cintura. Vou ficar calado e aguardarei humildemente que ela decrete a sentença.
Depois – se for possível, claro –, vamos pra um barzinho cantar samba...

quarta-feira, 14 de março de 2012

Castro Alves, a voz dos escravos e da poesia nacional

Hoje é Dia Nacional da Poesia. Uma homenagem aos poetas brasileiros por meio de Castro Alves, que nasceu no dia 14 de março de 1847 e completaria hoje 165 anos de idade. Escolha mais do que justa. Castro Alves deu voz aos escravos, que não tinham nem o direito de gemer suas dores físicas, quanto mais demonstrar o sofrimento que traziam na alma diante de tanta humilhação. Muito menos ainda podiam sonhar com a liberdade que lhes fora roubada pelos caçadores de escravos, invasores de um continente em que homens, mulheres e crianças viviam livres.

O poeta chileno Pablo Neruda, com todo o seu talento e sensibilidade, percebeu a riqueza e a grandeza dos versos do poeta brasileiro. Dedicou a ele uma poesia de rara beleza, chamada Castro Alves do Brasil, no livro Canto Geral. Diz que nosso poeta cantou para a flor, cujas pétalas não tinham orvalho; para águas (negras) que não tinham palavras, como normalmente as têm quando, em formosura, se chocam com as pedras; para olhos que viram a morte; para o amor, mas, por trás desse amor, ardiam os martírios; e para uma primavera salpicada de sangue.

A escolha da data de nascimento de Castro Alves para homenagear a poesia nacional tem a força de um verso arrancado da alma brasileira. Estamos todos nós, brasileiros, representados neste dia de hoje – pela grandeza do representante, a beleza da poesia que elaborou e a pureza de uma alma que encantou o mundo. Castro Alves deu à poesia nacional a cara e a dimensão do Brasil: um país continental em forma de coração.

Falar em poesia no dia de hoje é falar em Castro Alves. Uma boa maneira de comemorar essa data é lendo a poesia de Pablo Neruda em homenagem ao nosso poeta. Depois ouvir Navio Negreiro, na voz bela de Paulo Autran, com imagens do filme de Steve Spielberg, Amistad, no vídeo postado abaixo. Aí, sim, podemos dormir em paz, sonhar com os poetas, imaginar a poesia brasileira percorrendo nossos sonhos e, por fim, acordar amanhã livres, graças a uma liberdade conquistada por muita luta, suor, sangue e versos como os de Castro Alves.

Castro Alves do Brasil
Pablo Neruda

Castro Alves do Brasil, para quem cantaste?
Para a flor cantaste? Para a água
cuja formosura diz palavras às pedras?
Cantaste para os olhos para o perfil recortado
da que então amaste? Para a primavera?

Sim, mas aquela pétalas não tinham orvalho,
aquelas águas negras não tinham palavras,
aqueles olhos eram os que viram a morte,
ardiam ainda os martírios por detrás do amor,
a primavera estava salpicada de sangue.

- Cantei para os escravos, eles sobre os navios
como um cacho escuro da árvore da ira,
viajaram, e no porto se dessangrou o navio
deixando-nos o peso de um sangue roubado.

- Cantei naqueles dias contra o inferno,
contra as afiadas línguas da cobiça,
contra o ouro empapado de tormento,
contra a mão que empunhava o chicote,
contra os dirigentes de trevas.

- Cada rosa tinha um morto nas raízes.
A luz, a noite, o céu, cobriam-se de pranto,
os olhos apartavam-se das mãos feridas
e era a minha voz a única que enchia o silêncio.

- Eu quis que do homem nos salvássemos,
eu cria que a rota passasse pelo homem,
e que daí tinha de sair o destino.
Cantei para aqueles que não tinham voz.
Minha voz bateu em portas até então fechadas
Para que, combatendo, a liberdade entrasse.

Castro Alves do Brasil, hoje que teu livro puro
torna a nascer para a terra livre,
deixam-me a mim, poeta da nossa América,
coroar a tua cabeça com os louros do povo.
Tua voz uniu-se à eterna e alta voz dos homens.
Cantaste bem. Cantaste como se deve cantar.



terça-feira, 13 de março de 2012

Exportação de jegue para a China enlouquece internautas

Chinês de olho nos jumentos do Nordeste - alimentação e cosmético
Convênio que prevê a exportação de 300 mil jegues por ano do Nordeste brasileiro para a China está provocando uma revolução na internet. Os chineses utilizam asnos na indústria de cosméticos e de alimentação. Atualmente, abatem cerca de 1,5 milhão de burros por ano, animais criados na própria China, na Índia e na Zâmbia. Querem aumentar esse abate para cerca de dois milhões por ano.
Os asininos brasileiros estão sobrando nos estados que vão da Bahia até o Rio Grande do Norte. O aquecimento da economia brasileira, graças ao crédito fácil e ao financiamento a perder de vista, encheu as cidades nordestinas, inclusive as do interior, de motocicletas, além de ter aumentado a utilização de máquinas pesadas nas lavouras e nas fazendas de gado. Como consequência, os jegues estão sendo subutilizados no trabalho pesado e no transporte.
Os chineses, com tino comercial de milênios, não demoraram a perceber que poderiam tirar proveito dessa situação. Empresários percorreram as fazendas e sítios nordestinos oferecendo crédito para quem se dedicar à criação desses animais para exportação. Como o jegue está abandonado pelas vias e rodovias do Nordeste, a proposta ganhou ares de negócio da China. Criar jegue é muito fácil, não dá trabalho nenhum.
Jegues estão sendo trocados por motos e tratores no NE
O problema começa pela questão cultural. O jegue é um animal adorado e respeitado no Nordeste e em outras regiões do Brasil. Está na música de Luiz Gonzaga, no folclore, no cinema e no teatro, sempre retratado como um animal trabalhador, amigo do dono e que gera pouca despesa e cuidado para quem se dedica à sua criação. Matar jegue para servir de alimento não está no nosso universo cultural. Então, quando se diz que o “bichinho” vai ser criado para depois virar comida e cosmético na China, a indignação é geral.
Ambientalistas já colocaram um abaixo-assinado na internet protestando contra mais esse atentado aos animais. O número de assinaturas já passa de cinco mil e os argumentos utilizados nas redes sociais são inacreditáveis. Alguns deles chegam a manifestar ódio profundo pelos chineses: “esses comedores de cachorro e de burro”. As autoridades do Rio Grande do Norte, que se manifestaram favoráveis ao projeto, estão sendo execradas em tempo integral: “eles defendem isso porque não é a mãe deles...”.
Como o número de adeptos ao manifesto é muito grande, e deve aumentar ainda mais, é possível supor que entre os revoltados encontram-se, certamente, contumazes apreciadores de carne bovina, de carneiro, de bode, de peixe etc. Muitos desses rebeldes adoram uma agradável almoço numa churrascaria, à base de picanha bovina e lombo suíno...
Alguns desses missivistas chegam a criticar o povo indiano porque uma boa parte da população morre de fome, mas não pode comer carne bovina, pois o boi é considerado um animal sagrado. Para os revoltados, “não dá pra entender a ignorância dos indianos”. Agora, os chineses, que não tem nenhuma adoração pelo jumento, não podem ter a pretensão de industrializar a carne de jegue. São execrados nas redes sociais.
É compreensível o respeito e o carinho pelos animais. Ser contra a matança deles é atitude louvável. Agora, não dá pra entender as contradições de pessoas que se dizem defensores da ética, mas na realidade estão sendo simplesmente moralistas.
Nessa discussão, apenas naturalistas, vegetarianos e os religiosos que condenam o uso da carne como alimento teriam direito a erguer a voz. A rigor, só esses cidadãos poderiam assinar o protesto contra a exportação de jumentos para a China. Quem defende, ou mesmo se cala diante da matança e exportação de bovinos, suínos e outros animais, não pode ser contra a comercialização de jumento para outros países... É muita incoerência.
Condenamos a matança de baleias, espécie em risco de extinção. Agora, se o bacalhau – aquela carne supimpa! – estiver correndo risco de sumir dos mares da Noruega ou de Portugal, teremos que ser contra sua pesca, pelo mesmo motivo.
Não é aceitável que se pouse de bonzinho, protetor dos animais, na internet, nas redes sociais, carregando tanta incoerência e contradição no mundo real. O mundo virtual não pode ser um refúgio para as nossas fraquezas e limitações.
Portanto, abaixo os abaixo-mal-assinados da era digital! Enquanto refletimos sobre tudo isso, vamos ouvir a Apologia de Luiz Gonzaga ao Jumento.




O Jumento É Nosso Irmão
É verdade, meu senhor
Essa história do sertão
Padre Vieira falou
Que o jumento é nosso irmão
Ao ao ao ao ao ao
O jumento é nosso irmão
Quer queira, quer não
O jumento sempre foi
O maior desenvolvimentista
Do sertão...
Ajudou o homem na vida diária
Ajudou o homem...
Ajudou o Brasil a se desenvolver
Arrastou lenha...
Madeira...pedra, cal, cimento , tijolo...telha
Fez açude, estrada de rodagem, carregou água pra casa do homem...fez a feira e serviu de montaria
O jumento é nosso irmão...
E o homem...
em retribuição o que, que lhe dar?
Castigo...pancada, pau nas pernas, pau no lombo,
Pau no pescoço, pau na cara, nas orelhas.
Ha...jumento é bom o homem é mal
E quando o pobre não aguenta mais o peso
De uma carga, e se deita no chão...
Você pensa que o homem chega ajuda
O bichinho se levantar? Hu... Pois sim
Faz é um foguinho debaixo do rabo dele
O jumento é bom...
O jumento é sagrado... O homem é mau.
O homem só presta pra botar apelido no jumento
O pobrezinho tem apelido que não acaba mais
Babau, gangão, breguesso, fofarkichão,
Imagem do cão, musgueiro, corneteiro, seresteiro,
Cineiro...relógio, é....ele dar a hora sertã no sertão
Tudo isso é apelido que o jumento tem...
Astronauta...professor, estudante...
advogado das bestas...
é chamado de estudante, porque quando o estudante não sabe a lição da escola
o professor grita logo
você não sabe porque você é um jumento
e o estudante pra se vingar boto o apelido
jumento de professor, porque o professor ensina ele de graça...pos sim, quem ensina ele de graça
é o jumento meu filho...é assim...
A E I O U U
SINONIMO, SINONIMO,
SINONIMO, SINONIMO,
SINONIMO, SINONIMO,
Só não aprende a ler quem não quer
Esse é o jumento nosso irmão
Animal sagrado...
Serviu de transporte pro nosso senhor
Quando ele iria para o Egito, quando o nosso senhor era perritotinho...
Todo jumento tem uma cruz nas costas
Não tem? Pode olhar que tem...
Todo jumento tem uma cruz nas costas
Foi ali que o menino santo fez o pipizinho
Por isso ele é chamado de sagrado
A ha ha...jumento meu irmão,
O maior amigo do sertão
Ele é cheio de presepada sim senhor
uma vez ele me fez uma menino,
que eu não me esqueci mais
quando dar as primeiras chuvas no sertão,
agente planta logo um milhozinho
no monturo da casa da gente, porque dar ligeiro
e é milho doce, dar ligeirinho, ligeirinho
o jumento cismou de ser meu sócio
eu disse eu pego ele...
quando ele invadiu minha roça...he...
eu preparei uma armadilha, cheguei perto dele
comendo meu milho em...vou lhe pegar
ele balançou a cabeça, ligou as Atenas
torceu o rabo torceu, torceu, torceu
deu corda e disparou...
deu um pulo tão danado na cerca
que nem triscou na minha armadilha
correu uns 10 metros, fez meia volta, olhou pra mim e me gozou...seu Luiz...seu Luiz
comi seu milho...e como e como e como e como
filho da peste comeu mesmo...
Mas eu gosto dele...
porque ele é servidorzinho que é danado
animal sagrado... Jumento meu irmão eu reconheço teu valor...tu és um patriota, tu és um grande brasileiro... Eu tô aqui jumento, pra reconhecer o teu valor meu irmão...
Agora meu patriota, em nome do meu sertão
acompanha seu vigário, nesta eterna gratidão
aceita nossa homenagem
o jumento é nosso irmão ao ao ao ao ao ao ao ao