O universo das artes
plásticas é fantástico e fascina a humanidade desde os primórdios da
civilização. Este mês não é apenas o das flores, mas também dos artistas
plásticos, que são e foram justamente homenageados no dia 8 maio. O artista
plástico é, geralmente, pessoa dotada de talento e de sensibilidade à flor da
pele. Conheço vários desses privilegiados. Eles sempre nos causam agradáveis
surpresas.
Uma das mais recentes
revelações neste setor é a artista plástica, antropóloga e grande amiga Emília
Ulhoa, doce figura, lá das bandas de Paracatu (MG), terra fértil em artistas e
intelectuais. Confesso que já conhecia os trabalhos da Emília há algum tempo,
mas, nesta era de convivências virtuais e comunicação on line, os desenhos da artista passaram a circular mais
livremente, e estão se tornando conhecidos para um público bem mais numeroso do
que os privilegiados amigos dela.
Mata e Canoas
Emília tem postado desenhos
lindíssimos no Facebook, como se fossem Aquarelas da era digital. Seu trabalho mostra rara sensibilidade, com
temas variados e sempre muito bem focados na cultura brasileira. Desenhos que captam cenas da nossa fauna e flora, valorizando nosso povo de forma sempre
engajada, mas sem perder a ternura, jamais.
Os índios brasileiros,
mulheres e paisagens nacionais e de outras regiões do planeta também estão
presentes nos trabalhos até aqui apresentados pela Internet. Os comentários dos
internautas dão uma justa dimensão da capacidade de aceitação desses trabalhos. Postei aqui apenas uma pequena amostra. Existem outras joias raras.
Meu Jardim
Recentemente, em visita
ao casal Emília e Luiz Henrique Perez, eu e a Stela fomos presenteados com um
belo livro, de tiragem limitada, com desenhos a ilustrar textos poéticos de
Tristão Botelho, outro paracatuense de talento e de invejável bagagem cultural.
Os textos poéticos lembram haicais, sem, no entanto, submeterem-se à fórmula
tradicional dessa arte de origem japonesa. Mas, sobre esse livro, Emília e Tristão, eu gostaria
de falar num capítulo à parte aqui no blog.
As artes plásticas
brasileira vivem um momento interessante de renovação, com o surgimento de
novos talentos. Boa oportunidade para que o Centro Cultural Banco do Brasil
(CCBB) volte a valorizar exposições com trabalhos dessa turma, a exemplo da Nova
Arte Nova, que foi realizada no primeiro semestre de 2009.
Siriema
O presente para os
artistas plásticos no dia 08 de maio de 2013, daqui a um ano, poderia ser uma
nova edição daquela exposição, incluindo outros nomes como o de Emília Ulhoa. Também
pra homenagear esses artistas plásticos, neste mês de maio, segue abaixo Maria
Bethânia, com toda sua plasticidade, cantando Reconvexo – a música mais plástica
da MPB, que inclusive ressalta vários gênios desse universo.
Casuarina é uma árvore
nativa do Hemisfério Sul que lembra muito o pinheiro. É também nome de um
conjunto de samba e de choro do Rio de Janeiro, uma das melhores revelações da
música brasileira deste milênio. Casuarina é como a árvore, resistente aos
ventos contrários e aos períodos de seca, tão comuns na nossa música de algumas
décadas pra cá.
A árvore é boa pra
fazer carvão, fonte de energia pura. Os arborígenas da Austrália a utilizam na
fabricação de bumerangues, mas também serve para construir assentos e bastante
utilizada nas construções rurais como cercas, telhas, compensados, mastros,
cangas, remos e até bengala. Também está presente no universo da música: é
utilizada na construção de pernas de piano. Ah, sim, também dá fruto, uma pinha de pequenas dimensões.
Ou seja, o conjunto
carioca, que surgiu no ano de 2001, foi muito feliz na escolha do nome.
Casuarina é tudo isso e muito mais no universo da música brasileira deste
século e do milênio. É pau pra toda obra, com muita energia e fôlego para
enfrentar as mazelas causadas por tanta mediocridade solta no ar.
O grupo é formado por
Daniel Montes (violão de sete cordas), Gabriel Azevedo (percussão e voz), João
Cavalcanti (percussão e voz), João Fernando (bandolim e vocais) e Rafael Freire
(cavaquinho e vocais). Já gravou quatro CDs e um DVD, participando de vários
discos e shows de outros artistas da MPB.
Pra abrilhantar ainda
mais esta nossa sexta-feira, que ninguém é de ferro, uma bela apresentação do
grupo Casuarina no Sr. Brasil, cantando Súplica Cearense (Gordurinha e Nelinho),
enquanto Rolando Boldrin declama um poema de Olegário Mariano. Depois pra matar
a saudade de Sidney Miller, o samba É
Isso Aí.
PS: Este post é uma homenagem ao amigo,
médico, violonista e cantor Jorge Luiz de Carvalho, o Jorginho que tanto
aprecia Casuarina e Sidney Miller.
O Clube do Choro de
Brasília também se rendeu ao talento da cantora Gláucia Foley, que, no próximo sábado, dia 02 de junho, às 21h00, estará se apresentando no santuário de bambas para fazer o
lançamento do primeiro CD da sua carreira artística: Meu Canto. Sobre a carreira de Gláucia como cantora e também como
juíza já escrevi um pouco aqui no blog (para ler, clique aqui).
O show tem tudo para
dar certo. O CD é muito bom, com músicas escolhidas bem ao perfil da cantora, resgatando
obras da nossa MPB que andavam esquecidas. A produção musical do show é de Evandro
Barcellos, que tem a experiência de mais de 35 anos de carreira no samba, e
Gláucia contará com as participações especiais de Reco do Bandolim, Toninho
Nascimento e Roberto Serrão.
Sua Excelência, a
cantora, não a juíza, estará em casa, cercada de músicos talentosos, e fazendo
aquilo que gosta de fazer e faz, desde criança, na cidade mineira de Passa
Quatro. Quem ainda não conhece o trabalho da cantora Gláucia Foley tem mais
essa oportunidade na agradável sala do Clube do Choro.
No repertório do CD, que será levado ao show, Gláucia
mostra um pouco da sua trajetória de interprete, como lembra muito bem o
amigo e jornalista Paulo Pestana. Dos primeiros anos, ela traz o belo samba O
Negrinho e a Senhorita, de Noel Rosa de Oliveira e Abelardo da Silva. Daquilo que
incorporou ao seu repertório mais recentemente, Gláucia canta Samba, Ciência da
Graça, de João Calado e Moyseis Marques.
Seguindo essa lógica, posto
abaixo o áudio dessas duas canções. Mais deleite e outras delícias, só no show. Confiram que vale
a pena.
Faz hoje exatamente um ano que postei
uma foto dessa planta maravilhosa, que fica tão resplandecente no Outono
brasiliense, no quintal aqui de casa. O nome dela é Neve da Montanha, mas tem seu nome científico e vários outros populares (quem quiser saber um pouco mais é só voltar no tempo, exatamente no dia 22
de maio de 2011, clicando aqui). Não resisti, tirei outra foto do mesmo ângulo e
colhi esses versos abaixo que compartilho com os amigos do blog. Hoje foi um
dia cinzento, frio, de uma tarde chuvosa... Acho que tudo isso também combina com
Djavan, cantando seu Outono.
Elomar Figueira Melo é
o nosso Guimarães Rosa da música popular brasileira. Ambos valorizaram o jeito
de falar do homem do interior do sertão ou da caatinga, criando personagens de valor literário e contando, cada um a seu modo e usando as ferramentas
próprias (romances, poesias e canções), histórias e causos fantásticos, dignos
de serem preservados. A autenticidade é comum a esses dois brasileiros.
Sair da pequena
Cordisburgo para o mundo, só com muito talento. Guardadas as devidas
proporções, Elomar fez algo semelhante. Transformou o pequeno mundo lá das
bandas do Rio Gavião em um universo bem pra lá das quadradas das águas
perdidas.
Elomar tem raízes
ibéricas e arábicas em sua musicalidade, graças à influência dos portugueses no Nordeste brasileiro. Tem sangue latino e suas veias
sempre estiveram abertas para influencias como as de Atahualpa Yupanqui, Mercedes
Soza, Violeta Parra e tantos outros. A poesia de Elomar, como bem ressaltou
Ernani Maurílio, em março de 1979, tem algo de Pablo Neruda, quando diz assim: “É
duro moço ritirá pru trecho alei/ c’ua pele no osso e as alma nos bolso do véi/
me espera, assunta viu/ sô imbuzêro das bêra do rio”.
O álbum duplo na Quadrada das Águas Perdidas é uma
obra-prima da música brasileira. Comprei esse disco, em vinil, lá pelo início
da década de 80. Mais tarde, o Ramiro, meu filho, ainda adolescente, tomou-se
de amores pelo álbum e o comprou em CD. O canto de Elomar, lírico, telúrico,
compromissado com a vida é capaz de atravessar gerações e derrubar fronteiras.
Elomar é um trovador
místico, poeta, músico, cantador, violeiro e um arquiteto que virou criador de
bode no interior da Bahia. Inspirou o cartunista e amigo Henfil na criação de
Francisco Orelhana e da graúna. Casou-se com Adalmária e tiveram três filhos:
Rosa Duprado, João Ernesto e o maestro e violonista João Omar.
Escolher músicas na
obra de Elomar não é fácil. A primeira postada abaixo é Violeiro, que apareceu
num compacto simples, em 1968, como a primeira gravação do artista. Depois, a
música foi relançada no belo LP “...Das Barrancas do Rio Gavião”. A segunda
música é a obra prima História de Vaqueiros, nesta gravação histórica de Elomar
no violão e Xangai no canto. Tenho uma particular admiração pela música
Arrumação, que é do álbum Na Quadrada das Águas Perdidas, mas também foi
gravada no disco Cantoria, na voz ímpar do cantor goiano Francisco Aafa. Essas
três gravações somam algo em torno de quinze minutos, mas são capazes de dar uma
pequena ideia da grandeza da obra de Elomar.
Li no site oficial do
cantor e compositor esse texto significativo:
“Para Figueira Mello o que importa é concluir suas
óperas, antífonas e galopes, pôr tudo em partituras a nanquim e enfardados em
campa antiga, guardar o monobloco passageiro do tempo até a estação futura,
benvinda quadra remota, onde o aguarda uma geração que, por justiça, haverá por
certo de ouvir e amar sua música tão fora de moda nestes dias. Ó Tempora ! Ó
Mores !”
É isso que eu
consegui passar pro Ramiro e tenho certeza de que, com a mesma facilidade, será passado para novas
gerações, porque isso é Elomar - um gênio.
Desde os tempos dos
pré-socráticos até os dias de hoje, o homem busca a verdade. Filósofos,
cientistas, pesquisadores e tantos outros ramos do conhecimento procuram a
verdade na natureza, na alma, no universo e até mesmo nas coisas do dia-a-dia
da nossa existência. A era dos computadores e o desenvolvimento tecnológico
deram uma acelerada significativa na busca do conhecimento e da verdade.
Mas, a humanidade
continua escorregando aqui e ali no que afirma verdadeiro e depois descobre que
não é tanto assim...
Tempos atrás, o
escritor, humorista e colunista Fernando Veríssimo escreveu um belo artigo
sobre o vai e vem da ciência em torno dos malefícios/benefícios causados pelo
ovo frito. Um confesso apaixonado pelo ovo frito – principalmente por aquela gema
de ovo escorrendo sobre um arroz soltinho, feito na hora –, Veríssimo lamentava
o tempo que deixou de saborear essas delícias porque a medicina reverberava o
colesterol e outros males advindos do hábito de comer ovo. Depois, descobriu-se
que não fazia tanto mal assim, muito pelo contrário...
Com o cafezinho, aconteceu algo semelhante. O brasileiro, pobre coitado, habituado a tomar café
várias vezes durante o dia, todos os dias, estava condenado a não sei quantos
males. Era melhor exportar todo o produto e garantir benefícios pelo menos na
balança de pagamentos.
Não paramos por aí.
Pesquisadores norte-americanos descobriram que os tão propalados males do
hábito da dar chupeta para os bebês não seriam bem assim... Depois de sugar a
chupeta a seco, a criança sentiria prazer, conforto, acalanto e tantas outras
coisas boas no seio da mãe. Muitas crianças apartadas das chupetas fizeram
opção pelo dedo.
Mais recentemente,
outros pesquisadores norte-americanos descobriram que além dos raios
ultravioletas, também os protetores solares trazem sérios riscos de câncer de
pele para o ser humano. O óxido de zinco, um dos ingredientes dos produtos,
aquecido pelos raios ultravioletas, sofreria reações químicas e liberaria radicais livres com potencial para matar células. Se isso for verdade, imaginem
quantas pessoas correram e ainda correm risco de ter câncer de pele provocado
justamente pelos “protetores”... Como sou adepto da sombra e cerveja fresca,
dessa eu escapo.
Por todas essas e tantas outras, prefiro aderir à ciência do cantor e compositor Tom Zé (foto acima). O mestre Tom Zé, com todos os seus
devaneios e “loucuras”, tem a receita certa no álbum Pirulito da Ciência, que
também virou um DVD, no ano de 2010. Quem ainda não o conhece, deve conhecê-lo. Eu
antecipo duas pequenas amostras abaixo. E garanto cientificamente: vale a pena mergulhar nessas verdades...
No post anterior,
dedicado às modinhas goianas, valsas e à apresentação que Eduardo Rangel fará nesta quinta (10.05) no Feitiço Mineiro, eu arrisquei dizer que esta seria uma semana voltada
para a nostalgia, o mundo das serestas e do romantismo. Não havia pensado,
naquele momento, que esta é uma semana de Lua Cheia, a inspirar os poetas,
pintores e fotógrafos. O fotógrafo Sérgio Lima, da Folha de São Paulo, merece
ser vangloriado por essa bela foto, no alto, de uma Lua Cheia, em Brasília, captada
por trás do Memorial JK.
Quem também merece ser
vangloriado e postado nessa semana do lado romântico da vida é o músico
Hamilton de Holanda, pelo arranjo maravilhoso que criou para a canção Lágrima,
do eternamente seresteiro Cândido das Neves. Essa é uma lágrima especial, que
escorre pelo Oásis de Maria Bethânia, no disco mais bonito do ano, até agora.
A última noite desse
ciclo de Lua Cheia vai acontecer justamente na sexta-feira, quando poderemos,
em grande estilo, fechar a semana das reminiscências e nos prepararmos para
comemorar o Dia das Mães, em outro mapa astral. Enquanto isso, vamos viajar com
esse som maravilhoso do bandolim de Hamilton de Holanda, na voz impecável de
Maria Bethânia para a canção Lágrima, do poeta e músico Cândido das Neves.
Outra Lua Cheia só no
dia 4 de junho, com previsão de eclipse lunar parcial.
Lágrimas
Composição: Cândido das
Neves
Voz: Maria Bethânia
Criação e Bandolim:
Hamilton de Holanda
Ai, deixa-me chorar para
suavizar
O que não sei dizer, mas sei sentir
Não prantear um amor que se perdeu
É a nossa alma enganar
E ao próprio coração querer mentir
Rir é quase iludir
É querer forçar o próprio coração a gargalhar
Quando ele está solitário na dor
A soluçar de amor
É mais sublime a lágrima que exprime as nossas emoções
Amenizando a alma cheia de ilusões
Do que sorrir para esconder a mágoa
Que o olhar não diz
Não há ninguém feliz
Quero fazer das lágrimas que choro
Estrelas a brilhar
Rosas de cristal
Do pranto emocional
Mas se ela voltar
Fulgente diadema então lhe ofertarei
Do pranto que chorei
Sim, quem nunca chorou
Certo nunca amou
Talvez nem alma tenha para sentir Não me faz inveja este prazer
Eu gosto até de padecer
Chorar é a mágoa em pérolas diluir
Mas quem quiser amar
Certo há de chorar
Há de sentir morrer o coração
Porque o amor sendo belo falaz
Como os ais
Se desfaz em ilusão
O mundo da música é
mágico e está sempre nos reservando surpresas interessantes. Há muito tempo que
eu não ouvia meus discos de vinil. Por desleixo, principalmente, não mandava
arrumar o aparelho antigo que estragou, nem comprava um novo. Mas, enfim, comprei
um belo toca-discos de vinil Gemini, graças à interferência do Pedro Hildo, meu
sobrinho, afilhado e empresário nessa área de som, em Goiânia.
Este fim de semana
dediquei a ouvir os discos de modinhas e valsas, e, como não poderia deixar de
acontecer, relembrei atentamente o Long
Play (chique, né?) Modinhas Goianas,
na bela voz da cantora Maria Augusta Calado (foto ao lado). Lá estavam joias preciosas como Noites Goianas, da dupla de Joaquins Bonifácio e Santana, e também a
belíssima Rosa, de autor
desconhecido, que foi recolhida quando interpretada pelo bobo Xará, na cidade de Goiás, terra que viu
nascer Cora Coralina.
Um dos primeiros
e-mails que recebi nesta manhã de segunda-feira foi um release do cantor e
compositor Eduardo Rangel (foto abaixo), anunciando sua apresentação no próximo dia 10, quinta-feira,
no Feitiço Mineiro. No repertório de Rangel, modinhas e valsas que serão
abrilhantadas pelo violão de Jaime Ernest Dias, num clima de nostalgia e
serestas, com apresentação de músicas antigas e também de valsas e modinhas
atuais, como a Valsa Brasileira, de
Chico Buarque e Edu Lobo.
Confesso que fiquei
feliz. Primeiro porque é mais uma comprovação daquilo que já disse aqui, em
outras oportunidades, e não canso de repetir: a nossa música popular é
reconhecidamente rica, não apenas por nós brasileiros, mas também lá fora,
pelos apreciadores da boa música. Não somos lembrados apenas pelo bom futebol
(aliás, por este motivo, já começam a esquecer de nós), mas principalmente pela
nossa bela música.
Também fiquei
satisfeito em saber que Eduardo Rangel está empenhado em mais um belo trabalho.
Desta vez, resgatando um capítulo importante da nossa MPB, que são as canções
de serestas, as valsas e modinhas, muitas delas ainda bastante influenciadas
pelo estilo musical de nossos colonizadores. Mas, pouco a pouco, fomos criando
nossa própria personalidade, e foram surgindo nossas próprias valsas, bem brasileiras,
e nossas modinhas bem interioranas e temperadas pelo espírito seresteiro de
nossa gente.
Fica a minha modesta
sugestão para que o amigo Eduardo Rangel inclua no seu repertório – se ainda
for possível, claro – alguma canção desse belo universo das modinhas goianas. O
meu LP está aqui, disponível, juntamente com o novo Gemini, para que ele e o
violonista Jaime ouçam as músicas e tirem alguma coisa para ser incluída ainda nessa
apresentação de quinta-feira.
Enquanto isso, para
entrarmos no clima de nostalgia que promete dominar esta semana, vamos ouvir
duas canções do belo disco Modinhas
Goianas (veja a capa acima), e também a interpretação perfeita que Rangel deu a Valsa Brasileira, no ano de 2006.
Começar a semana assim,
como gostamos de dizer lá em Goiás, é bom demais da conta!
A música popular
brasileira rural tem perdido muito em qualidade de umas duas décadas pra cá. Na
madrugada de hoje, perdeu um de seus mais legítimos representantes, o cantor e
compositor José Perez, o Tinoco da dupla sertaneja Tonico e Tinoco, que morreu
em São Paulo, aos 91 anos de idade, vítima de insuficiência respiratória depois
de sofrer duas paradas cardíacas.
Tinoco é um dos
cantores de música popular brasileira que mais tempo ficaram na ativa. A dupla se
desfez em 1994 com a morte do irmão Tonico, mas Tinoco continuou cantando e
fazendo apresentações em palcos, rádio e televisão. Exerceu a profissão de
cantor por cerca de 80 anos, mantendo sempre a tradição da viola caipira e
valorizando temas voltados para o amor e a vida no campo.
Na segunda metade da
década de 30, a dupla interpretava músicas de cunho social e político, com
temas referentes à crise causada pelas revoluções de 1930 e de 1932. Diziam que
eram modas de viola de um tal Jorginho do Sertão, autor imaginário. Antes de
fazer sucesso, a dupla trabalhou pesado no campo, no cabo da enxada e em
serviços gerais. Depois que a família mudou para a capital do estado, Tinoco
foi trabalhar num depósito de ferro velho, Tonico alugou uma enxada e prestava
serviço nas chácaras da região de Santo Amaro, enquanto as irmãs trabalhavam de
domésticas.
Foi nessa época que os
irmãos Perez conheceram a dupla mais famosa da época: Raul Torres e Florêncio. Tonico
e Tinoco começaram a cantar em rádio e gravaram seu primeiro disco em 1944, com
a música Invés de Me Agradecer, que
acabou saindo num compacto simples gravado apenas de um lado. Na gravação do
lado B, eles estouraram os microfones ao cantar alto, como faziam na roça.
O sucesso mesmo
veio com Chico Mineiro, composição de Tonico e Francisco Ribeiro. Era o ano de
1946 e, com o fim da Segunda Guerra Mundial, o número de emissoras de rádio e
de aparelhos receptores multiplicava-se rapidamente. A dupla tornou-se paixão
nacional. Tonico e Tinoco chegaram a gravar cerca de 1.000 músicas, em 83
discos, vendendo mais de 150 milhões de cópias.
O Brasil perde muito do
seu lado sertanejo, seu jeito caipira de ser. Quem ganha são os organizadores
de festa lá no céu, que agora passa a contar com a dupla de irmãos Tonico e
Tinoco. Nós, por aqui, vamos ter que continuar aguentando falsos sertanejos e
os Luan Santana da vida. A vida é dura, mas continua...
Um dos problemas mais
complexos das sociedades modernas é, sem sombra de dúvidas, o da disseminação
do uso de drogas, principalmente o crack, que se torna cada vez mais popular e
de potencial destruidor incomparável. Até o os anos 80 do século passado, o uso
de drogas, como a cocaína e a maconha, vinha acompanhado de certo glamour por
parte da classe média, estudantes e intelectuais. No final dos anos 80 e início
dos anos 90, com o surgimento do crack, essa “realidade” começa a ser
substituída rapidamente por uma bem mais dura e assustadora, a partir da
disseminação do consumo de drogas entre crianças, jovens, mendigos e idosos –
começam a surgir as cracolândias da vida.
Desemprego, a falta de
políticas públicas e a ausência do Estado em regiões de favelas, por exemplo,
fizeram com que as crianças e jovens começassem a trocar os campos de várzeas,
onde aprendiam a jogar futebol, pelas áreas de risco próximas às rodoviárias,
ferroviárias, parques abandonados e locais que permitem rápidos e fáceis
pequenos e médios furtos, cujos produtos podem ser trocados por pedras de crack
e consumidas por ali mesmo.
Daí para o surgimento
das cracolândias foi um passo. A mais monumental delas surgiu no centro de São
Paulo, nas proximidades das ruas Duque de Caxias, Mauá, Ipiranga e Rio Branco.
Historicamente, este local, antes conhecido como Boca do Lixo, viu nascer o
cinema marginal, na década de 60, comandado por Rogério Sganzerla, Ozualdo
Candeias e Júlio Bressane, entre outros. Na década de 80, o cinema brasileiro
escorregou para a pornochanchada e os miseráveis da região conheceram o crack.
Boca do Lixo sempre foi
região de prostituição e por isso mesmo tema para a genialidade de Plínio
Marcos (foto abaixo), o “escritor maldito de temas malditos”. Os menores daqueles tempos
perambulavam chapados de vinho ou cachaça pelos becos marginais. Com a chegada
do crack multiplicaram-se os marginais, os menores abandonados, as prostitutas
e os mendigos, mas desapareceram definitivamente escritores com a coragem e a
sensibilidade de Plínio.
Na música, sambistas,
como Cartola, Nelson Cavaquinho, Candeia, Monsueto e tantos outros, desciam o
morro e se misturavam com a classe média em rodas de samba e de cerveja.
Gonzaguinha e Luiz Melodia trocaram o morro por um mundo em que o uso de drogas
ainda era glamouroso, artístico... Gonzaguinha desceu o São Carlos, agarrou-se
a um sonho e partiu. Melodia, com sua bela voz, enalteceu o Estácio, Holly Estácio
e zombou da classe média pequeno-burguesa.
No futebol não foi
diferente. Os meninos das favelas fugiam de casa pra jogar bola nos campos de
várzeas, onde os que tinham talentos eram descobertos e tornavam-se craques do
Flamengo, Vasco, Fluminense, Botafogo e depois da Seleção Brasileira. Eram
tempos do samba-canção, da bossa nova, de um Rio de Janeiro dos carnavais e dos
blocos alegres e ingênuos. São Paulo de uma economia forte gerava empregos e o
samba de Adoniram Barbosa e Paulo Vanzolini faziam rondas pelas noites
paulistanas.
Nos tempos do crack, a
seleção brasileira sofre pela ausência de craques, com raríssimas exceções,
como Neimar, por exemplo. A música popular brasileira andou trocando o samba
pelo funk – e a classe média, desvairada, subiu o morro atrás de drogas e da
mediocridade dos pagodes. Em tempos do crack e da ausência de craques, haja políticas
públicas para superar tantas mazelas culturais e sociais. A implantação das
Unidades de Políticas Pacificadoras (UPPs) é um bom começo, mas ainda falta muito a ser
realizado.
Pra amenizar um pouco um tema tão denso, Gonzaguinha colocando a perna no mundo, e Luiz Melodia cantando seu Estácio, enquanto Rolando Boldrim conta uma piada e nos garante um pouco de alegria...