quarta-feira, 30 de maio de 2012

Novo talento na arte plástica brasileira é de Paracatu

Canela de Ema
Vestidos de Seda
O universo das artes plásticas é fantástico e fascina a humanidade desde os primórdios da civilização. Este mês não é apenas o das flores, mas também dos artistas plásticos, que são e foram justamente homenageados no dia 8 maio. O artista plástico é, geralmente, pessoa dotada de talento e de sensibilidade à flor da pele. Conheço vários desses privilegiados. Eles sempre nos causam agradáveis surpresas.
Uma das mais recentes revelações neste setor é a artista plástica, antropóloga e grande amiga Emília Ulhoa, doce figura, lá das bandas de Paracatu (MG), terra fértil em artistas e intelectuais. Confesso que já conhecia os trabalhos da Emília há algum tempo, mas, nesta era de convivências virtuais e comunicação on line, os desenhos da artista passaram a circular mais livremente, e estão se tornando conhecidos para um público bem mais numeroso do que os privilegiados amigos dela.
Mata e Canoas
Emília tem postado desenhos lindíssimos no Facebook, como se fossem Aquarelas da era digital. Seu trabalho mostra rara sensibilidade, com temas variados e sempre muito bem focados na cultura brasileira. Desenhos que captam cenas da nossa fauna e flora, valorizando nosso povo de forma sempre engajada, mas sem perder a ternura, jamais.
Os índios brasileiros, mulheres e paisagens nacionais e de outras regiões do planeta também estão presentes nos trabalhos até aqui apresentados pela Internet. Os comentários dos internautas dão uma justa dimensão da capacidade de aceitação desses trabalhos. Postei aqui apenas uma pequena amostra. Existem outras joias raras.
Meu Jardim
Recentemente, em visita ao casal Emília e Luiz Henrique Perez, eu e a Stela fomos presenteados com um belo livro, de tiragem limitada, com desenhos a ilustrar textos poéticos de Tristão Botelho, outro paracatuense de talento e de invejável bagagem cultural. Os textos poéticos lembram haicais, sem, no entanto, submeterem-se à fórmula tradicional dessa arte de origem japonesa. Mas, sobre esse livro, Emília e Tristão, eu gostaria de falar num capítulo à parte aqui no blog.
As artes plásticas brasileira vivem um momento interessante de renovação, com o surgimento de novos talentos. Boa oportunidade para que o Centro Cultural Banco do Brasil (CCBB) volte a valorizar exposições com trabalhos dessa turma, a exemplo da Nova Arte Nova, que foi realizada no primeiro semestre de 2009.
Siriema
O presente para os artistas plásticos no dia 08 de maio de 2013, daqui a um ano, poderia ser uma nova edição daquela exposição, incluindo outros nomes como o de Emília Ulhoa. Também pra homenagear esses artistas plásticos, neste mês de maio, segue abaixo Maria Bethânia, com toda sua plasticidade, cantando Reconvexo – a música mais plástica da MPB, que inclusive ressalta vários gênios desse universo.



sexta-feira, 25 de maio de 2012

Casuarina, a grande revelação da MPB neste século

Casuarina é uma árvore nativa do Hemisfério Sul que lembra muito o pinheiro. É também nome de um conjunto de samba e de choro do Rio de Janeiro, uma das melhores revelações da música brasileira deste milênio. Casuarina é como a árvore, resistente aos ventos contrários e aos períodos de seca, tão comuns na nossa música de algumas décadas pra cá.
A árvore é boa pra fazer carvão, fonte de energia pura. Os arborígenas da Austrália a utilizam na fabricação de bumerangues, mas também serve para construir assentos e bastante utilizada nas construções rurais como cercas, telhas, compensados, mastros, cangas, remos e até bengala. Também está presente no universo da música: é utilizada na construção de pernas de piano. Ah, sim, também dá fruto, uma pinha de pequenas dimensões.
Ou seja, o conjunto carioca, que surgiu no ano de 2001, foi muito feliz na escolha do nome. Casuarina é tudo isso e muito mais no universo da música brasileira deste século e do milênio. É pau pra toda obra, com muita energia e fôlego para enfrentar as mazelas causadas por tanta mediocridade solta no ar.
O grupo é formado por Daniel Montes (violão de sete cordas), Gabriel Azevedo (percussão e voz), João Cavalcanti (percussão e voz), João Fernando (bandolim e vocais) e Rafael Freire (cavaquinho e vocais). Já gravou quatro CDs e um DVD, participando de vários discos e shows de outros artistas da MPB.
Pra abrilhantar ainda mais esta nossa sexta-feira, que ninguém é de ferro, uma bela apresentação do grupo Casuarina no Sr. Brasil, cantando Súplica Cearense (Gordurinha e Nelinho), enquanto Rolando Boldrin declama um poema de Olegário Mariano. Depois pra matar a saudade de Sidney Miller, o samba É Isso Aí.

PS: Este post é uma homenagem ao amigo, médico, violonista e cantor Jorge Luiz de Carvalho, o Jorginho que tanto aprecia Casuarina e Sidney Miller.





quinta-feira, 24 de maio de 2012

Voz de Gláucia Foley ganha espaço no Clube do Choro

O Clube do Choro de Brasília também se rendeu ao talento da cantora Gláucia Foley, que, no próximo sábado, dia 02 de junho, às 21h00, estará se apresentando no santuário de bambas para fazer o lançamento do primeiro CD da sua carreira artística: Meu Canto. Sobre a carreira de Gláucia como cantora e também como juíza já escrevi um pouco aqui no blog (para ler, clique aqui).
O show tem tudo para dar certo. O CD é muito bom, com músicas escolhidas bem ao perfil da cantora, resgatando obras da nossa MPB que andavam esquecidas. A produção musical  do show é de Evandro Barcellos, que tem a experiência de mais de 35 anos de carreira no samba, e Gláucia contará com as participações especiais de Reco do Bandolim, Toninho Nascimento e Roberto Serrão.
Sua Excelência, a cantora, não a juíza, estará em casa, cercada de músicos talentosos, e fazendo aquilo que gosta de fazer e faz, desde criança, na cidade mineira de Passa Quatro. Quem ainda não conhece o trabalho da cantora Gláucia Foley tem mais essa oportunidade na agradável sala do Clube do Choro.
No repertório do CD, que será levado ao show, Gláucia mostra um pouco da sua trajetória de interprete, como lembra muito bem o amigo e jornalista Paulo Pestana. Dos primeiros anos, ela traz o belo samba O Negrinho e a Senhorita, de Noel Rosa de Oliveira e Abelardo da Silva. Daquilo que incorporou ao seu repertório mais recentemente, Gláucia canta Samba, Ciência da Graça, de João Calado e Moyseis Marques.
Seguindo essa lógica, posto abaixo o áudio dessas duas canções. Mais deleite e outras delícias, só no show. Confiram que vale a pena.



terça-feira, 22 de maio de 2012

Cabeleira-de-velho e os frutos que ela dá no jardim

Faz hoje exatamente um ano que postei uma foto dessa planta maravilhosa, que fica tão resplandecente no Outono brasiliense, no quintal aqui de casa. O nome dela é Neve da Montanha, mas tem seu nome científico e vários outros populares (quem quiser saber um pouco mais é só voltar no tempo, exatamente no dia 22 de maio de 2011, clicando aqui). Não resisti, tirei outra foto do mesmo ângulo e colhi esses versos abaixo que compartilho com os amigos do blog. Hoje foi um dia cinzento, frio, de uma tarde chuvosa... Acho que tudo isso também combina com Djavan, cantando seu Outono.


Folhas e flores
José Carlos Camapum Barroso

Neve da montanha
Que não quer florir
É cabeça de velho
Sem teto a esculpir.
Cabeleira de velho
Troca folha pela flor,
Cabelos por ideias
Na fronte alva a luzir.
Vão-se folhas verdes,
Brotam flores brancas,
Caem amores esquecidos,
Nascem outros rejuvenescidos.
Cabeça branca no Outono a florir
É como a saudade do Verão a partir,
Num Inverno, frio, que teima em resistir...
Euphorbia Leococephala a florir, Deus a sorrir.



segunda-feira, 21 de maio de 2012

O talento de Elomar, o Guimarães Rosa da nossa música

Elomar Figueira Melo é o nosso Guimarães Rosa da música popular brasileira. Ambos valorizaram o jeito de falar do homem do interior do sertão ou da caatinga, criando personagens de valor literário e contando, cada um a seu modo e usando as ferramentas próprias (romances, poesias e canções), histórias e causos fantásticos, dignos de serem preservados. A autenticidade é comum a esses dois brasileiros.
Sair da pequena Cordisburgo para o mundo, só com muito talento. Guardadas as devidas proporções, Elomar fez algo semelhante. Transformou o pequeno mundo lá das bandas do Rio Gavião em um universo bem pra lá das quadradas das águas perdidas.
Elomar tem raízes ibéricas e arábicas em sua musicalidade, graças à influência dos portugueses no Nordeste brasileiro. Tem sangue latino e suas veias sempre estiveram abertas para influencias como as de Atahualpa Yupanqui, Mercedes Soza, Violeta Parra e tantos outros. A poesia de Elomar, como bem ressaltou Ernani Maurílio, em março de 1979, tem algo de Pablo Neruda, quando diz assim: “É duro moço ritirá pru trecho alei/ c’ua pele no osso e as alma nos bolso do véi/ me espera, assunta viu/ sô imbuzêro das bêra do rio”.
O álbum duplo na Quadrada das Águas Perdidas é uma obra-prima da música brasileira. Comprei esse disco, em vinil, lá pelo início da década de 80. Mais tarde, o Ramiro, meu filho, ainda adolescente, tomou-se de amores pelo álbum e o comprou em CD. O canto de Elomar, lírico, telúrico, compromissado com a vida é capaz de atravessar gerações e derrubar fronteiras.

Elomar é um trovador místico, poeta, músico, cantador, violeiro e um arquiteto que virou criador de bode no interior da Bahia. Inspirou o cartunista e amigo Henfil na criação de Francisco Orelhana e da graúna. Casou-se com Adalmária e tiveram três filhos: Rosa Duprado, João Ernesto e o maestro e violonista João Omar.
Escolher músicas na obra de Elomar não é fácil. A primeira postada abaixo é Violeiro, que apareceu num compacto simples, em 1968, como a primeira gravação do artista. Depois, a música foi relançada no belo LP “...Das Barrancas do Rio Gavião”. A segunda música é a obra prima História de Vaqueiros, nesta gravação histórica de Elomar no violão e Xangai no canto. Tenho uma particular admiração pela música Arrumação, que é do álbum Na Quadrada das Águas Perdidas, mas também foi gravada no disco Cantoria, na voz ímpar do cantor goiano Francisco Aafa. Essas três gravações somam algo em torno de quinze minutos, mas são capazes de dar uma pequena ideia da grandeza da obra de Elomar.
Li no site oficial do cantor e compositor esse texto significativo:

“Para Figueira Mello o que importa é concluir suas óperas, antífonas e galopes, pôr tudo em partituras a nanquim e enfardados em campa antiga, guardar o monobloco passageiro do tempo até a estação futura, benvinda quadra remota, onde o aguarda uma geração que, por justiça, haverá por certo de ouvir e amar sua música tão fora de moda nestes dias. Ó Tempora ! Ó Mores !”

É isso que eu consegui passar pro Ramiro e tenho certeza de que, com a mesma facilidade, será passado para novas gerações, porque isso é Elomar - um gênio.






sexta-feira, 18 de maio de 2012

O pirulito da ciência, verdades, mentiras e Tom Zé

Desde os tempos dos pré-socráticos até os dias de hoje, o homem busca a verdade. Filósofos, cientistas, pesquisadores e tantos outros ramos do conhecimento procuram a verdade na natureza, na alma, no universo e até mesmo nas coisas do dia-a-dia da nossa existência. A era dos computadores e o desenvolvimento tecnológico deram uma acelerada significativa na busca do conhecimento e da verdade.
Mas, a humanidade continua escorregando aqui e ali no que afirma verdadeiro e depois descobre que não é tanto assim...
Tempos atrás, o escritor, humorista e colunista Fernando Veríssimo escreveu um belo artigo sobre o vai e vem da ciência em torno dos malefícios/benefícios causados pelo ovo frito. Um confesso apaixonado pelo ovo frito – principalmente por aquela gema de ovo escorrendo sobre um arroz soltinho, feito na hora –, Veríssimo lamentava o tempo que deixou de saborear essas delícias porque a medicina reverberava o colesterol e outros males advindos do hábito de comer ovo. Depois, descobriu-se que não fazia tanto mal assim, muito pelo contrário...
Com o cafezinho, aconteceu algo semelhante. O brasileiro, pobre coitado, habituado a tomar café várias vezes durante o dia, todos os dias, estava condenado a não sei quantos males. Era melhor exportar todo o produto e garantir benefícios pelo menos na balança de pagamentos.
Não paramos por aí. Pesquisadores norte-americanos descobriram que os tão propalados males do hábito da dar chupeta para os bebês não seriam bem assim... Depois de sugar a chupeta a seco, a criança sentiria prazer, conforto, acalanto e tantas outras coisas boas no seio da mãe. Muitas crianças apartadas das chupetas fizeram opção pelo dedo.
Mais recentemente, outros pesquisadores norte-americanos descobriram que além dos raios ultravioletas, também os protetores solares trazem sérios riscos de câncer de pele para o ser humano. O óxido de zinco, um dos ingredientes dos produtos, aquecido pelos raios ultravioletas, sofreria reações químicas e liberaria radicais livres com potencial para matar células. Se isso for verdade, imaginem quantas pessoas correram e ainda correm risco de ter câncer de pele provocado justamente pelos “protetores”... Como sou adepto da sombra e cerveja fresca, dessa eu escapo.
Por todas essas e tantas outras, prefiro aderir à ciência do cantor e compositor Tom Zé (foto acima). O mestre Tom Zé, com todos os seus devaneios e “loucuras”, tem a receita certa no álbum Pirulito da Ciência, que também virou um DVD, no ano de 2010. Quem ainda não o conhece, deve conhecê-lo. Eu antecipo duas pequenas amostras abaixo. E garanto cientificamente: vale a pena mergulhar nessas verdades...




quarta-feira, 9 de maio de 2012

Noite de lua cheia, bandolim e lágrimas de Cândido das Neves

Foto de Sérgio Lima/Folhapress
No post anterior, dedicado às modinhas goianas, valsas e à apresentação que Eduardo Rangel fará nesta quinta (10.05) no Feitiço Mineiro, eu arrisquei dizer que esta seria uma semana voltada para a nostalgia, o mundo das serestas e do romantismo. Não havia pensado, naquele momento, que esta é uma semana de Lua Cheia, a inspirar os poetas, pintores e fotógrafos. O fotógrafo Sérgio Lima, da Folha de São Paulo, merece ser vangloriado por essa bela foto, no alto, de uma Lua Cheia, em Brasília, captada por trás do Memorial JK.
Quem também merece ser vangloriado e postado nessa semana do lado romântico da vida é o músico Hamilton de Holanda, pelo arranjo maravilhoso que criou para a canção Lágrima, do eternamente seresteiro Cândido das Neves. Essa é uma lágrima especial, que escorre pelo Oásis de Maria Bethânia, no disco mais bonito do ano, até agora.
A última noite desse ciclo de Lua Cheia vai acontecer justamente na sexta-feira, quando poderemos, em grande estilo, fechar a semana das reminiscências e nos prepararmos para comemorar o Dia das Mães, em outro mapa astral. Enquanto isso, vamos viajar com esse som maravilhoso do bandolim de Hamilton de Holanda, na voz impecável de Maria Bethânia para a canção Lágrima, do poeta e músico Cândido das Neves.
Outra Lua Cheia só no dia 4 de junho, com previsão de eclipse lunar parcial.



Lágrimas
Composição: Cândido das Neves
Voz: Maria Bethânia
Criação e Bandolim: Hamilton de Holanda

Ai, deixa-me chorar para suavizar
O que não sei dizer, mas sei sentir
Não prantear um amor que se perdeu
É a nossa alma enganar
E ao próprio coração querer mentir
Rir é quase iludir
É querer forçar o próprio coração a gargalhar
Quando ele está solitário na dor
A soluçar de amor
É mais sublime a lágrima que exprime as nossas emoções
Amenizando a alma cheia de ilusões
Do que sorrir para esconder a mágoa
Que o olhar não diz
Não há ninguém feliz
Quero fazer das lágrimas que choro
Estrelas a brilhar
Rosas de cristal
Do pranto emocional
Mas se ela voltar
Fulgente diadema então lhe ofertarei
Do pranto que chorei
Sim, quem nunca chorou
Certo nunca amou
Talvez nem alma tenha para sentir
Não me faz inveja este prazer
Eu gosto até de padecer
Chorar é a mágoa em pérolas diluir
Mas quem quiser amar
Certo há de chorar
Há de sentir morrer o coração
Porque o amor sendo belo falaz
Como os ais
Se desfaz em ilusão

segunda-feira, 7 de maio de 2012

Eduardo Rangel resgata valsas e modinhas bem brasileiras

O mundo da música é mágico e está sempre nos reservando surpresas interessantes. Há muito tempo que eu não ouvia meus discos de vinil. Por desleixo, principalmente, não mandava arrumar o aparelho antigo que estragou, nem comprava um novo. Mas, enfim, comprei um belo toca-discos de vinil Gemini, graças à interferência do Pedro Hildo, meu sobrinho, afilhado e empresário nessa área de som, em Goiânia.
Este fim de semana dediquei a ouvir os discos de modinhas e valsas, e, como não poderia deixar de acontecer, relembrei atentamente o Long Play (chique, né?) Modinhas Goianas, na bela voz da cantora Maria Augusta Calado (foto ao lado). Lá estavam joias preciosas como Noites Goianas, da dupla de Joaquins Bonifácio e Santana, e também a belíssima Rosa, de autor desconhecido, que foi recolhida quando interpretada pelo bobo Xará, na cidade de Goiás, terra que viu nascer Cora Coralina.
Um dos primeiros e-mails que recebi nesta manhã de segunda-feira foi um release do cantor e compositor Eduardo Rangel (foto abaixo), anunciando sua apresentação no próximo dia 10, quinta-feira, no Feitiço Mineiro. No repertório de Rangel, modinhas e valsas que serão abrilhantadas pelo violão de Jaime Ernest Dias, num clima de nostalgia e serestas, com apresentação de músicas antigas e também de valsas e modinhas atuais, como a Valsa Brasileira, de Chico Buarque e Edu Lobo.
Confesso que fiquei feliz. Primeiro porque é mais uma comprovação daquilo que já disse aqui, em outras oportunidades, e não canso de repetir: a nossa música popular é reconhecidamente rica, não apenas por nós brasileiros, mas também lá fora, pelos apreciadores da boa música. Não somos lembrados apenas pelo bom futebol (aliás, por este motivo, já começam a esquecer de nós), mas principalmente pela nossa bela música.
Também fiquei satisfeito em saber que Eduardo Rangel está empenhado em mais um belo trabalho. Desta vez, resgatando um capítulo importante da nossa MPB, que são as canções de serestas, as valsas e modinhas, muitas delas ainda bastante influenciadas pelo estilo musical de nossos colonizadores. Mas, pouco a pouco, fomos criando nossa própria personalidade, e foram surgindo nossas próprias valsas, bem brasileiras, e nossas modinhas bem interioranas e temperadas pelo espírito seresteiro de nossa gente.
Fica a minha modesta sugestão para que o amigo Eduardo Rangel inclua no seu repertório – se ainda for possível, claro – alguma canção desse belo universo das modinhas goianas. O meu LP está aqui, disponível, juntamente com o novo Gemini, para que ele e o violonista Jaime ouçam as músicas e tirem alguma coisa para ser incluída ainda nessa apresentação de quinta-feira.
Enquanto isso, para entrarmos no clima de nostalgia que promete dominar esta semana, vamos ouvir duas canções do belo disco Modinhas Goianas (veja a capa acima), e também a interpretação perfeita que Rangel deu a Valsa Brasileira, no ano de 2006.
Começar a semana assim, como gostamos de dizer lá em Goiás, é bom demais da conta!





sexta-feira, 4 de maio de 2012

Tinoco morre e deixa a música sertaneja ainda mais pobre


A música popular brasileira rural tem perdido muito em qualidade de umas duas décadas pra cá. Na madrugada de hoje, perdeu um de seus mais legítimos representantes, o cantor e compositor José Perez, o Tinoco da dupla sertaneja Tonico e Tinoco, que morreu em São Paulo, aos 91 anos de idade, vítima de insuficiência respiratória depois de sofrer duas paradas cardíacas.
Tinoco é um dos cantores de música popular brasileira que mais tempo ficaram na ativa. A dupla se desfez em 1994 com a morte do irmão Tonico, mas Tinoco continuou cantando e fazendo apresentações em palcos, rádio e televisão. Exerceu a profissão de cantor por cerca de 80 anos, mantendo sempre a tradição da viola caipira e valorizando temas voltados para o amor e a vida no campo.
Na segunda metade da década de 30, a dupla interpretava músicas de cunho social e político, com temas referentes à crise causada pelas revoluções de 1930 e de 1932. Diziam que eram modas de viola de um tal Jorginho do Sertão, autor imaginário. Antes de fazer sucesso, a dupla trabalhou pesado no campo, no cabo da enxada e em serviços gerais. Depois que a família mudou para a capital do estado, Tinoco foi trabalhar num depósito de ferro velho, Tonico alugou uma enxada e prestava serviço nas chácaras da região de Santo Amaro, enquanto as irmãs trabalhavam de domésticas.

Foi nessa época que os irmãos Perez conheceram a dupla mais famosa da época: Raul Torres e Florêncio. Tonico e Tinoco começaram a cantar em rádio e gravaram seu primeiro disco em 1944, com a música Invés de Me Agradecer, que acabou saindo num compacto simples gravado apenas de um lado. Na gravação do lado B, eles estouraram os microfones ao cantar alto, como faziam na roça.
O sucesso mesmo veio com Chico Mineiro, composição de Tonico e Francisco Ribeiro. Era o ano de 1946 e, com o fim da Segunda Guerra Mundial, o número de emissoras de rádio e de aparelhos receptores multiplicava-se rapidamente. A dupla tornou-se paixão nacional. Tonico e Tinoco chegaram a gravar cerca de 1.000 músicas, em 83 discos, vendendo mais de 150 milhões de cópias.
O Brasil perde muito do seu lado sertanejo, seu jeito caipira de ser. Quem ganha são os organizadores de festa lá no céu, que agora passa a contar com a dupla de irmãos Tonico e Tinoco. Nós, por aqui, vamos ter que continuar aguentando falsos sertanejos e os Luan Santana da vida. A vida é dura, mas continua...






terça-feira, 1 de maio de 2012

Os estragos do crack, da falta de craques e das Cracolândias

Um dos problemas mais complexos das sociedades modernas é, sem sombra de dúvidas, o da disseminação do uso de drogas, principalmente o crack, que se torna cada vez mais popular e de potencial destruidor incomparável. Até o os anos 80 do século passado, o uso de drogas, como a cocaína e a maconha, vinha acompanhado de certo glamour por parte da classe média, estudantes e intelectuais. No final dos anos 80 e início dos anos 90, com o surgimento do crack, essa “realidade” começa a ser substituída rapidamente por uma bem mais dura e assustadora, a partir da disseminação do consumo de drogas entre crianças, jovens, mendigos e idosos – começam a surgir as cracolândias da vida.
Desemprego, a falta de políticas públicas e a ausência do Estado em regiões de favelas, por exemplo, fizeram com que as crianças e jovens começassem a trocar os campos de várzeas, onde aprendiam a jogar futebol, pelas áreas de risco próximas às rodoviárias, ferroviárias, parques abandonados e locais que permitem rápidos e fáceis pequenos e médios furtos, cujos produtos podem ser trocados por pedras de crack e consumidas por ali mesmo.
Daí para o surgimento das cracolândias foi um passo. A mais monumental delas surgiu no centro de São Paulo, nas proximidades das ruas Duque de Caxias, Mauá, Ipiranga e Rio Branco. Historicamente, este local, antes conhecido como Boca do Lixo, viu nascer o cinema marginal, na década de 60, comandado por Rogério Sganzerla, Ozualdo Candeias e Júlio Bressane, entre outros. Na década de 80, o cinema brasileiro escorregou para a pornochanchada e os miseráveis da região conheceram o crack.
Boca do Lixo sempre foi região de prostituição e por isso mesmo tema para a genialidade de Plínio Marcos (foto abaixo), o “escritor maldito de temas malditos”. Os menores daqueles tempos perambulavam chapados de vinho ou cachaça pelos becos marginais. Com a chegada do crack multiplicaram-se os marginais, os menores abandonados, as prostitutas e os mendigos, mas desapareceram definitivamente escritores com a coragem e a sensibilidade de Plínio.
Na música, sambistas, como Cartola, Nelson Cavaquinho, Candeia, Monsueto e tantos outros, desciam o morro e se misturavam com a classe média em rodas de samba e de cerveja. Gonzaguinha e Luiz Melodia trocaram o morro por um mundo em que o uso de drogas ainda era glamouroso, artístico... Gonzaguinha desceu o São Carlos, agarrou-se a um sonho e partiu. Melodia, com sua bela voz, enalteceu o Estácio, Holly Estácio e zombou da classe média pequeno-burguesa.
No futebol não foi diferente. Os meninos das favelas fugiam de casa pra jogar bola nos campos de várzeas, onde os que tinham talentos eram descobertos e tornavam-se craques do Flamengo, Vasco, Fluminense, Botafogo e depois da Seleção Brasileira. Eram tempos do samba-canção, da bossa nova, de um Rio de Janeiro dos carnavais e dos blocos alegres e ingênuos. São Paulo de uma economia forte gerava empregos e o samba de Adoniram Barbosa e Paulo Vanzolini faziam rondas pelas noites paulistanas.
Nos tempos do crack, a seleção brasileira sofre pela ausência de craques, com raríssimas exceções, como Neimar, por exemplo. A música popular brasileira andou trocando o samba pelo funk – e a classe média, desvairada, subiu o morro atrás de drogas e da mediocridade dos pagodes. Em tempos do crack e da ausência de craques, haja políticas públicas para superar tantas mazelas culturais e sociais. A implantação das Unidades de Políticas Pacificadoras (UPPs) é um bom começo, mas ainda falta muito a ser realizado.
Pra amenizar um pouco um tema tão denso, Gonzaguinha colocando a perna no mundo, e Luiz Melodia cantando seu Estácio, enquanto Rolando Boldrim conta uma piada e nos garante um pouco de alegria...