O Natal deste ano foi tão bom quanto
os de tantos outros anos passados. Por tudo aquilo que representa a festa
natalina. Um momento de reflexão, orações e também de alegria por todas às mensagens que nos traz. Não apenas a data do nascimento de Jesus Cristo, mas a
renovação da fé, esperança e a crença de que é possível construir um mundo
melhor. Milhões de famílias, assim como a nossa (na foto abaixo),
nos mais variados cantos e recantos, reuniram-se da mesma forma, ou de forma
semelhante, para um congraçamento que se tornou universal. Milhares delas mal
tiveram tempo, sossego ou mesmo condição para erguer um brinde, cercados que
estão pelas mazelas da vida: a miséria, a fome, as guerras civis e o ódio que
ainda impera entre os homens. Mas o Natal é renovação da fé. Não
necessariamente a fé estritamente religiosa. Mas, sim, a fé ampla e universal, de que é possível construir um mundo novo,
cheio de esperanças e de justiça para todos. No nosso Natal, a luz brilhou mais
forte com o abrir de uma flor, a primeira no primeiro dia dessa planta da
família das cactáceas, popularmente conhecida como Rainha da Noite, plantada
aqui em casa pelas mãos caridosas e prestativas da Stela. Natal é isso. Algo além de tudo isso, só o
nosso desejo de um ano novo cheio de realizações, pleno de paz e de harmonia.
Beijos no coração de todos.
Jesus
me chicoteia é uma
expressão bem interessante. Imagine ser chicoteado por Jesus. É merecimento
demais. É de uma grandeza maior do que a do Universo do qual fazemos parte. Logo
ele que sofreu chibatadas para nos salvar. Que aguentou o chicote da
intolerância humana contra quem apenas pregava o amor, a caridade e a
solidariedade entre os homens. A gente deseja tanto, tanto, alguma
coisa neste mundo, que se julga merecedor de umas chicotadas do Filho de Deus. E
ainda pede com o clamor celestial: Jesus me chicoteia! Pelo amor de Seu Pai e
do Espírito Santo, como bom Filho que sempre fostes!
Outra que vale a pena alguma reflexão
é Pau que dá em Chico também dá em
Francisco. O camarada tem o nome maravilhoso, sonoro e expressivo de
Francisco, porém, mal acabou de nascer já começa a ser chamado de Chico, que é
de uma inexpressividade sem precedente. Aí vem um provérbio popular e diz que o
mesmo pau que bate no apelido servirá também para corrigir o nome. Tá certo que
a Justiça é a mesma para todos, em tese, pelo menos, e não pode escolher entre
o feio e o bonito, mas, coitado do Francisco que um dia virou Chico... Tem um provérbio chinês que diz o
seguinte: O plantio é opcional, mas a
colheita é obrigatória; por isso, cuidado com o que planta. É assim durante
toda a vida. Ninguém é obrigado a plantar, mas se plantou, querendo ou não terá
de colher – bons ou maus frutos. Em outras palavras, vai colher aquilo que
plantou. São muitos os provérbios belos e profundos,
assim como também curiosos e interessantes. Aliás, os provérbios são tão antigos quanto a nossa existência. Na música popular brasileira,
Adoniran Barbosa é um símbolo nesse quesito. Criou expressões, frases,
pensamentos e até mesmo provérbios, que hoje fazem parte do nosso universo
cultural. Um deles diz que a saudade é
como rato em queijo parmesão; como rói a danada. Adoniran era capaz de transformar
coisas simples em grandiosas. Teve sensibilidade e criatividade suficientes
para fazer histórias e causos corriqueiros virarem letras de músicas que se
tornariam eternas. Uma delas é a história da chave para abrir a porta quando a
gente chega em casa de madrugada. Só ele pra transformar isso em música. E
ainda contar em versos a solução encontrada para não perturbar o sono da mulher
amada: amarrar um cordão no trinco e abrir pelo lado de fora. Depois desse
achado genial, adquiriu o direito de chegar à meia-noite e cinco, ou então a
qualquer hora. Foi capaz de transformar em samba um
simples diálogo entre dois operários da construção civil sobre o que trouxeram para o
almoço. Depois de conferido o cardápio, os dois podem almoçar sentados na
calçada, conversar sobre isso e aquilo – “de coisas que nós não entende nada”.
Adoniran Barbosa foi capaz de se
comover com o despejo na favela, a enchente que levava – e leva até hoje – o barracão
e tudo, ou quase nada, que havia de estimação no barracão de uma família pobre. Era capaz de se revoltar com o
amigo, Arnesto, que o convidou prum samba lá no Braz, “nós fumos e não encontremos ninguém”. A vingança ficou garantida: “da
outra vez, nós num vai mais”. Isso é que é viajar na maionese. No começo era o provérbio, no fim tudo acaba em Adoniran Barbosa, um paulista genial, nascido na cidade de Valinhos
e filho de imigrantes italianos. Um brasileiro da gema.
A religiosidade é uma coisa boa nessa
nossa curta passagem por esta vida. Desde que imbuída do espírito da caridade,
do amor ao próximo e também do respeito por aquelas pessoas que praticam outras
religiões, ou que não praticam religião nenhuma, ou não acreditam no mesmo Deus
que acreditamos, ou até mesmo para com aqueles que não acreditam em nenhum Deus. O espírito verdadeiramente Cristão é
aquele que sempre professa, persegue e pratica o bem, sem olhar a quem. E isso
não é fácil. Exige muita abnegação e humildade. Aliás, humildade é a palavra
chave nessa vida.
O espírito natalino deve valorizar
tudo isso e não aquelas coisas superficiais e passageiras que nos impõem como
essenciais. Os valores comerciais que cercam o Natal devem ser absolutamente secundários. Meus parabéns à Stela, que sempre arruma e prepara nossa casa para o
Natal, com seu espírito verdadeiramente Cristão e muito bom gosto. Basta
conferir a sequência das fotos acima e abaixo. Uma casa bonita e sempre aberta para os parentes e amigos. Aos leitores do ZecaBlog, nossos votos de Feliz Natal. Depois falaremos sobre o Ano
Novo.
Brasília também tem seu dia de Nova
Orleans. Dia em que você sai na calçada de uma comercial e dá de cara com
Stevie Wonder tocando gaita. O difícil é ter essa sorte. Eu não tive, mas
fiquei feliz por isso ter acontecido e com uma inveja salutar de quem viveu
esse momento. Foi na comercial da quadra 205 Sul, pertinho de onde nós moramos
por vários anos. Inclusive, frequentávamos com assiduidade a confeitaria suíça Pralinê, de onde o fenômeno da música americana
saía quando resolveu dar uma canja.
Estava na calçada, tocando seu
saxofone, o músico brasiliense João Filho, da Meia Boca Band, quando Stevie Wonder ouviu o som do instrumento.
Pediu para sua equipe que trouxesse sua gaita. Juntou-se ao músico brasileiro e
interpretaram um pouco de Wave, de
Tom Jobim, e Garota de Ipanema, de
Tom e Vinícius de Moraes. Depois de tudo isso, Stevie Wonder ainda deu ao
músico brasileiro 200 dólares. João disse que o abraço (foto acima) que recebeu do artista
internacional valeu muito mais que o dinheiro.
Foi um fim de tarde de domingo muito
especial para o saxofonista, mas também pra todos que passavam por ali naquele
momento e tiveram essa chance de ouro. João Filho contou que um amigo havia
ligado pra ele, pela manhã, pra ironizá-lo porque não tinha ido ao show, na
noite anterior. Ele ligou de volta à tarde pra avisar que havia tocado com
Stevie Wonder.
Aquela entrequadra – 205/206 – tem alguma
coisa de mágico. No dia 15 de janeiro de 1985, aconteceu algo semelhante. Ainda
morávamos na quadra 206 Sul, éramos vizinhos de bloco do então senador Tancredo
Neves. Bem cedinho, antes da eleição indireta no colégio eleitoral, quando
Tancredo se tornaria presidente da República, derrotando Paulo Maluf, ouvi o
som de dobrados. Era a bandinha de música de São João Del Rey fazendo uma
alvorada para o candidato do PMDB. Desci, com o Ramiro no braço – ele tinha
dois anos de idade – e presenciei um dos mais belos espetáculos da minha vida.
Emocionante, sob todos os aspectos.
Se tivesse assistido também esse
episódio inusitado do músico Stevie Wonder, tocando na calçada da Pralinê,
confesso que passaria a acreditar que um raio cai, sim, duas vezes sobre uma
mesma cabeça. Seria um prêmio correspondente a uma Megassena acumulada.
A humanidade está triste, mais pobre. Assustada, mesmo. Embora fosse previsível e esperada a morte de
Nelson Mandela, o Madiba, o Pimpinela Negro, porque seu estado de saúde era
precário desde junho deste ano, quando foi internado vítima de infecção
pulmonar. Morreu, ontem, aos 95 anos de idade, dos quais 27 anos foram passados
na cadeia, vítima do ódio do Apartheid, o sistema que combatia.
O mundo parou ao ser anunciada a morte
de Madiba. Parou para reverenciá-lo porque sabe o valor da sua luta para a
humanidade. E não apenas pelo valor do seu espírito combativo, mas também, e
principalmente, pela grandeza ao conciliar a nação sul-africana, quando tinha
todo o direito e poder suficientes para julgar e condenar seus adversários,
inimigos, todos aqueles responsáveis por um dos regimes mais cruéis da história
do continente africano.
Quando escrevi sobre Mandela aqui no blog, no dia 27 de junho, ele agonizava entre a vida e a morte. Tive a ousadia
de dizer que poderiam desligar seus aparelhos, porque Madiba não morreria,
jamais. Isso porque, na minha modesta opinião – e vou continuar a repeti-la
sempre que preciso –, Mandela é mais do que um ser que nasce, cresce e morre. Mais
do que a África do Sul, muito mais do que um continente dividido pela
segregação racial, implodido pelo sangue de Sharpeville e reconquistado pela
sua extraordinária capacidade de liderança, depois de passar 27 anos de
absoluta humilhação na cadeia.
Com a memória de Mandela preservada, irretocável
pelo valor dos seus atos, palavras e pensamentos, a humanidade tem a garantia
de que ele continuará vivo. Daqui a cem anos, seu nome será lembrado,
reverenciado como se ainda estivesse vivo, pela força de seus exemplos.
Enquanto isso, seus detratores, seus carrascos, muitos deles já estão mortos,
mesmo ainda vivos.
Mandela é o exemplo de que o sonho não
acabou, nem acabará. É a confirmação de que o “fim da história” é apenas jogo
de palavra. De que a humildade é uma das ferramentas mais eficazes na luta pelo
bem comum. Desde Jesus Cristo, a humanidade tem alguns exemplos de Conquistas alcançadas
graças a essa ferramenta tão rara, pouco disponível no coração dos homens.
Mandela entra para essa galeria de nomes a serem preservados pela própria razão
da sua existência.
E vamos em frente, com a esperança de
que outros exemplos virão, na trilha deixada por esse homem simples, porém
grandioso; criado na pequena aldeia de Qunu, onde será sepultado, mas de uma
dimensão universal; humilhado durante décadas, mas que teve a grandeza de
perdoar seus algozes pela razão de um bem maior.
As pedras quebradas por Mandela,
durante 27 anos de prisão, hoje são alicerce desse sonho imenso, profundo e
eterno. Ele soube juntá-las, organizá-las, de forma precisa e pacientemente. Sonho eterno, como Mandela, Madiba ou Pimpinela Negro.
Um dos maiores prazeres desse gênio da humanidade era ver o por do sol sul-africano ao som de Handel e Tchaikovscky. Então, façamos o seu desejo, certos de que ouviremos essas duas obras primas como se um novo sol estivesse nascendo no horizonte.
Publicitário só não é mais desligado
do que músico. Liguei para a amiga Ana Santiago, queria dar
os parabéns pelo Dia Mundial da Propaganda e do Publicitário, que se comemora
hoje. Ela fez a pergunta óbvia: “parabéns por que, Zé?”. Nem lembrava. Nove em
cada dez publicitário não deve nem saber que o dia de hoje também é dedicado a
eles. São tão especiais que as comemorações por essa profissão acontecem duas
vezes no ano: 1º de fevereiro e 4 de dezembro.
Provavelmente nem se lembram dessas coisas
porque a cabeça deles anda num outro mundo: o da criatividade. Um universo que,
para ser frequentado e vivido, exige sensibilidade, bom senso, autocrítica, bom
gosto, cultura, em suma, uma inteligência refinada. Aprecio muito meus amigos
publicitários. É tudo gente boa.
Tenho verdadeira paixão pelo poder de
síntese. Aprendi a desenvolver, um pouco, essa habilidade no período em que fui
editor de primeira página do Jornal de
Brasília. O publicitário é necessariamente rico nesse quesito. Ou desenvolve
essa qualidade ou não conseguirá dizer tudo que precisa ser dito em poucos
segundos, poucas palavras, em um gesto ou apenas uma imagem.
A profissão passou a ser reconhecida a
partir de junho de 1965, com a promulgação da Lei 4.680. Já existiam os cursos
de Comunicação com especialização em Publicidade. A Lei veio apenas regulamentá-los.
Desde então, passaram a propiciar formação mais ampla nas áreas de ciências
humanas – psicologia, sociologia e antropologia –, com reforço em redação
publicitária, linguagem publicitária e criação.
A questão da ética também é
fundamental, nessa e em qualquer outra profissão. É só dar uma olhadinha na
história pra ver os riscos que corremos com publicidades enganosas. São
conhecidos os exemplos de que uma mentira dita muitas vezes pode virar verdade;
nem que seja por pouco tempo, mas será suficiente para provocar estragos.
Salve a propaganda de bom-gosto,
criativa e inteligente. Um grande abraço para os amigos publicitários e um
beijo grande para as amigas publicitárias. E até 1º de fevereiro.
Ari Barroso, mineiro e genial
compositor de Aquarela do Brasil,
foi conhecer a Bahia somente depois de ter feito o samba Na Baixa do Sapateiro. O dia? Era 2 de dezembro do ano de 1940. E,
por isso mesmo, essa data acabaria se tornando o dia nacional para as
comemorações do samba. Era comum essa comemoração ficar restrita a Salvador e
Rio de Janeiro. Hoje, não. Ela se espalha pelo Brasil inteiro, assim como a
paixão pelo samba.
O samba cresceu e se desenvolveu até
mesmo em São Paulo, onde poucos acreditavam que isso viria a acontecer.
Vinícius de Morais chegou a dizer que São Paulo era o túmulo do samba. O
poetinha dessa vez errou – e feio. Graças à população negra do Largo da Banana,
na Barra Funda, o samba começou a fincar suas raízes, que frutificariam na
Escola de Samba Camisa Verde e Branco. Das comunidades do Bixiga, os cordões
carnavalescos fariam nascer a escola Vai-Vai. Isso tudo entremeado pelo talento
de compositores como Paulo Vanzolini e Adoniran Barbosa (sobre os dois,
já escrevi aqui).
Belo Horizonte botou pra quebrar neste
fim de semana, durante as comemorações do Dia Nacional do Samba, antecipadas
para o domingo. É a segunda vez que a capital mineira entra no circuito das
comemorações dessa data. E quem comandou a festa foi a mineira Aline Calixto,
com seu bonito samba Flor Morena, apoiada pela participação da Escola de Samba
da Portela. A cantora disse que Belo Horizonte está provando que mineiro também
tem samba no pé e cultiva essa tradição.
Tradição, aliás, que já está semeada
pelo Brasil afora. Em Goiânia, capital de Goiás, Os Amigos do Samba, nas décadas de 1970 e 1980, constituíram um grupo respeitado em todo o Centro-Oeste. Em Brasília, graças à
iniciativa da cantora Cris Pereira (foto abaixo) e do cantor Sérgio Magalhães, está ganhando
corpo e tradição o evento chamado Plataforma
do Samba, na plataforma da rodoviária do Plano Piloto, sempre a partir das 15h00. Grupos de samba e de pagode, na verdade, revezam-se pelo Norte, Nordeste e até pelos estados do sul do Brasil.
O Dia do Samba está se tornando, realmente, Nacional. Talvez, esteja faltando só um pouquinho mais de apoio e incentivo das
autoridades públicas. Quem sabe, num futuro bem próximo, o Ministério da Cultura não crie um projeto
capaz de semear ainda mais essa semente, que começou no Rio e na Bahia?
Eu deixo a minha contribuição com a
paródia abaixo. Em seguida, os vídeos trazendo a mineira Aline Calixto, cantando sua Flor Morena; o baiano Dorival Caymmi, cantando Baixa do Sapateiro, do mineiro Ari Barroso; e o carioca Chico Buarque, cantando o samba Quando Eu For Eu Vou Sem Pena, do paulista Paulo Vanzolini. Leia mais sobre o samba aqui.
Like
a Rolling Stones, a
belíssima canção de Bob Dylan, continua a produzir frutos. Desta vez, tornou-se
tema de um vídeo-clip interativo, que pode durar uma hora e quinze minutos, ou
apenas cinco minutos, dependendo da opção que se faça. São 16 canais de TV, em
que, ao mesmo tempo, atores desenvolvem diferentes atividades e cantam a música
do Bob em perfeita sintonia. Se a pessoa ouvir e assistir cada canal de uma
vez, percorrerá o tempo total. Para o tempo mínimo, basta uma vez, trocando à
vontade os canais. O clip foi criado pelo israelense
Vania Heymann (foto), de apenas 27 anos de idade. Em uma entrevista à revista Rolling
Stones, ele disse que “na vida real, a mudança de canais é uma ação passiva.
Você está sentado na sua casa, sem fazer nada. Nós quisemos torná-la ativa,
reeditando a própria música para fazer uma nova versão.” Heimann utiliza desenhos animados,
comerciais, programas de auditórios, esportes, jornalismo e outras atividades,
com atores e até personalidades conhecidas, como o comediante Marc Maron, o
rapper Danny Brown, os apresentadores de Pawn Stars e Drew Carey. Já escrevi sobre esse gênio da música
americana (para ler ou reler, clique aqui). Bob Dylan está nas nossas mentes e
corações. Por tudo isso, não poderia deixar de compartilhar com as amigas e
amigos, que frequentam este espaço, uma novidade tão interessante e tão
criativa. Curtam essa maravilha, clicando no link abaixo. E um bom final de
domingo para todos. Clip Like a Rolling Stones.
Nesta sexta-feira, que felizmente não
é 13, quase que um incêndio destrói por completo o Museu da América Latina, em
São Paulo. Nove militares do Corpo de Bombeiros ficaram feridos, dois deles em
estado grave, mas a tragédia poderia ter sido maior ainda se o auditório Simon
Bolívar, com capacidade para 1.600 pessoas, estivesse lotado. Segundo informações dos meios de comunicação, todo o
auditório ficou destruído e, no bojo dele, uma tapeçaria de 800 metros quadrados,
de Tomie Ohtake (foto acima).
Essa é mais uma tragédia ocasionada
pelo descaso e desinteresse pelas coisas da cultura. A brigada de incêndio do
Memorial não conseguiu conter as chamas, provavelmente porque não estava
suficientemente preparada e equipada para agir numa circunstância como essa.
Tiveram que chamar o Corpo de Bombeiros, e aí se perdeu muito tempo. Além disso, existe a informação de que o alvará do prédio estava vencido. O memorial é um projeto desenvolvido
pelo antropólogo Darcy Ribeiro, que morreu em 1997, com desenho do arquiteto
Oscar Niemeyer, falecido no ano passado. A inauguração desse monumento foi em
março de 1989, ano da primeira eleição direta, depois dos anos sombrios da
ditadura militar. Que esses dois monumentos da nossa cultura nos perdoem por
mais essa.
Foto de Leonardo Soares/Folhapress
As veias da América Latina sempre
estiveram abertas para a exploração de impérios. Agora, essa cultura latino-americana,
tão rica, está sempre sujeita ao descaso e à falta de investimentos. Isso sem
falar na massificação da indústria cultural, com seus produtos descartáveis,
feitos para consumo rápido, e anódinos.
Mas, relaxem. Fiquem calmos. Sentem-se
em suas poltronas e aguardem, calmamente. Vem aí o Big Brother Brasil 2014. Quem
perdeu a inscrição tem algo a comemorar. Segundo a produção do programa, os
inscritos serão entrevistados na Cadeira
Elétrica. Os escolhidos, privilegiados, vão participar do programa já com seus
cérebros devidamente eletrocutados, ainda com aquele cheirinho de carne
sapecada. Aí, sim, estarão aptos a ficarem expostos à curiosidade mórbida de
milhões de brasileiros, que, com certeza, não têm nada de melhor pra fazer
nessa vida. Mas, estávamos falando de quê, mesmo?
Ah, sim da combalida e abandonada cultura da América Latina, da qual
honrosamente fazemos parte. Que Atahualpa Yupanqui, com todos os
caminhos de índios que construiu à base de muito talento, ao longo de toda sua
vida, nos salve e guarde! E preserve nossa rica cultura latino-americana. Ainda bem que hoje é sexta-feira, e
não é dia 13.
Tia Tetê, também conhecida como
Terezinha Barroso Vidal, é uma daquelas figuras marcantes da nossa infância e
juventude uruaçuense. Por todo o universo de grandeza e curiosidades que cercam
sua existência. Criou 15 filhos – todos estão vivos e bem encaminhados –
naqueles anos difíceis das décadas de 1950 a 1980. Embala e curte seus 34 netos e 16 bisnetos. Com essa imensa família, vive feliz e
mantém aquele sorriso nos lábios e simpatia na mesma casa, na mesma
rua, da mesma cidade onde sempre morou – nossa pequena, porém descente, Uruaçu.
Nesses tempos de comunicação on line,
graças às mídias sociais, descobrimos que tia Tetê continua “revolucionária” na
sua humilde, mas relevante, existência e passagem por este mundo. Aos 81 anos – vai fazer 82 no
próximo dia 6 de dezembro –, mantém uma boa saúde, continua lúcida, cuida bem
dos seus jardins e ainda virou artista plástica. Está pintando belos quadros,
retratando a natureza – árvores, pássaros e objetos. Natureza, aliás, que ela curte e cuida muito bem e de forma descontraída, como mostra a segunda foto publicada no alto.
Tia Tetê continua com o mesmo charme,
sorriso delicado e simpatia que sempre a acompanhou por toda essa trajetória de
vida, que, com certeza, não deve ter sido nada fácil. Imaginem criar quinze
filhos numa cidade do interior, em uma época de dificuldades, quando tudo tinha
que ser feito à mão, durante todos os dias do ano, como os docinhos que ela prepara na foto acima.
Ela é uma prova viva de que o dom
artístico não escolhe lugar nem hora para se manifestar. Pode ficar ali, por
muitos anos, represado, contido, mas quando se manifesta vem como uma torrente
de paixão, graças ao talento e à sensibilidade que a permeiam.
Salve tia Tetê! Salve a cultura, a
arte e o talento que movem a humanidade. Milton Nascimento estava certo quando
disse que todo artista tem que ir onde o povo está. E todos nós, pobres
mortais, devemos ir onde os artistas estão, em busca da graça, do prazer e do
contentamento. Principalmente quando a artista está ali, do nosso ladinho, bem
guardada nos nossos corações.
Comemorar o Dia da Música e dos
Músicos é bom demais da conta. Viver esse dia numa sexta-feira, melhor ainda. Músicos
como os mestres Plínio Fernandes Teixeira e Sidney Barros, mais conhecido por
Gamela, ambos de saudosa memória, e também o maestro e amigo Joaquim Thomaz
Jaime, o Nega, são nomes ideais e a melhor opção para se comemorar esta data e também para se reverenciar
o talento de músicos brasileiros e de todos os recantos do mundo
Plínio do Cavaquinho de Uruaçu
Mestre Plínio nasceu em Nazário,
Goiás, mas viveu boa parte de sua vida na nossa querida Uruaçu, terra de uma
musicalidade invejável. Aprendeu a tocar cavaquinho aos 4 anos deidade e, aos 7 anos, já se apresentava em
festinhas de sua cidade natal. Em Uruaçu, juntou-se ao talento de músicos como
tia Zizi (violino), Aleixo (sanfona), Diogo (voz e violão), Chico Alfaiate
(violão e voz), Antenor Monturil (violão), e tantos outros que foram sendo atraídos
pela sua simpatia e pelo prazer que nos proporcionava.
O cavaquinho que Plínio carregava
cuidadosamente foi escolhido por ninguém menos do que Jacob do Bandolim. O instrumento
está bem guardado pela família, no estojo original e com a nota fiscal da
compra. Plínio também fez parcerias musicais com João Garoto, Paulo Amazonas e
o a turma de Goiânia conhecida como Amigos do Samba, entre os quais o
inesquecível Quietinho do violão de sete cordas. Ao Plínio ofereço, com muito amor e carinho, Pedacinho de Céu.
Maestro Joaquim Jaime
Mestre Joaquim Jaime, o Nega, atualmente
é maestro da Orquestra Sinfônica de Goiânia, depois de ter fundado e conduzido
durante muitos anos a Orquestra Filarmônica do Estado de Goiás. Nasceu em Niquelândia,
cidade de onde saíram as famílias que iriam fundar Uruaçu. Pra provar que esse
mundo é pequeno, embora vasto, Plínio, nos tempos de solteiro, antes de
conhecer dona Maria Luíza, com quem se casaria no ano de 1955, conheceu e
namorou Marilu Jaime, musicista e a irmã que ensinou o Nega a tocar piano –
isso lá pelas bandas de Nazário e depois, Pirenópolis. Ao maestro, vale a pena oferecermos Mozart.
Gamela, que poucas pessoas conheciam
pelo nome de batismo, Sidney Barros, é um dos grandes instrumentistas da história
musical brasileira. Infelizmente, resolveu partir bem mais cedo do que o
combinado e nos deixou em maio deste ano. Era um exímio violonista e um
professor dedicado e criativo - autodidata, criou o seu próprio método para ensinar violão. Foi o primeiro professor de harmonia de Rafael
Rabelo e ajudou a formar músicos como Herbert
Vianna, Cássia Eller, Dado Villa-Lobos, Zélia Duncan, Rosa Passos, Nelson
Faria, Paulo Ricardo, Lula Galvão, Daniel Santiago, Hamilton de Holanda
e tantos outros.
Gamela exímio violonista
Para que ninguém diga
que somos bairristas, Gamela não nasceu em Goiás, mas sim em Barreto, São Paulo. Porém, sempre há um porém, veio muito cedo pra essas bandas, atraído pelo sonho da nova capital da
República, Brasília. Constituiu família em Anápolis, onde tinha casa e veio a
falecer em 16 de maio deste ano. Ao Gamela, a homenagem mais justa é por meio de Luiz Bonfá, de quem ele foi um grande representante no mundo. Abaixo, uma belíssima interpretação de Bonfá feita por Charlie Byrd.
Esses são os três
músicos que este blog homenageia em nome de todo o universo musical. Pedimos a
benção a Santa Cecília, padroeira dos músicos, para que derrame suas graças e
continue a iluminar e a inspirar essa gente de tanta sensibilidade e talento.
Há dois textos neste blog sobre música e músicos que, de repente, até vale a pena ler ou reler. Clique aqui para o de 2011 e aqui para o texto de 2012.
Depois de um agradável e prazeroso
feriado e fim de semana na fazenda São José, no município de Rio Verde, tão
logo chegamos a Brasília, na segunda-feira, tivemos uma agradável surpresa. Na
edição de sexta, dia 15 de novembro, o jornal Correio Braziliense publicou uma
página, no caderno de Cidades, com reportagem sobre Jean-Marie, o francês
goiano, agricultor, desenhista e escritor, que foi revelado por este blog (para
ler ou reler, clique aqui e também aqui).
Num belo texto do jornalista Renato
Alves, com registro fotográfico preciso de Daniel Ferreira, a reportagem
mostra a saga de um agricultor do interior da França que veio para o Brasil,
com engenho e arte, ajudar na conquista e formação do cerrado goiano. E traz
uma boa notícia: as tratativas para publicação do livro Rio Claro, ilustrado
pelos desenhos de Jean-Marie, estão bem adiantadas, com boas possibilidades de
que seja lançado no primeiro semestre de 2014.
Ficamos felizes em saber que este
espaço, mais uma vez, atrai a atenção da grande imprensa para aspectos
importantes da vida cultural brasileira. Jean-Marie disse-me que está feliz em
ver o seu trabalho sendo reconhecido e ganhando visibilidade. É essa
valorização dos trabalhos artísticos, seja de profissionais já reconhecidos, ou
não, que o ZecaBlog vai continuar perseguindo por entender que a verdadeira
libertação do homem acontece pelas atividades culturais.
Vamos continuar tentando traduzir
esses trabalhos, realizações e empreendimentos naquilo que eles possam ter de
sublime, artístico, situados acima e à parte das coisas "normais" do nosso
dia-a-dia. Por esses caminhos, a humanidade pode buscar e encontrar o
verdadeiro desenvolvimento.
Vamos em frente que a fila é grande e
precisa andar.
O rádio é uma das grandes paixões da minha
vida. Passei a infância e a pré-adolescência com o ouvido colado num daqueles
aparelhos tradicionais de rádio, que já nem se fabricam mais. Gosto
das surpresas que vem pelas ondas sonoras, tanto no plano das notícias, quanto
no das músicas e do humorismo. Acho prazeroso, por exemplo, colocar cinco discos e deixar
tocar músicas aleatoriamente, recurso hoje sofisticadamente chamado de shuffle. Quando faço isso, os meninos lá
em casa já zombam: "lá vem o saudosista do rádio...". Boa parte das minhas recordações de
infância tem alguma coisa vinculada ao rádio. Lembro que certo dia estava
sentado numa cadeira, ao lado da mesinha do rádio, cumprindo meu ritual, quando
entra o amigo de infância Zé Renato Pereira (de saudosa memória), dizendo: “seu avô
morreu, tá sabendo que seu avô morreu!”. Tinha morrido, mesmo. E o corpo de seu
Antônio Camapum, mais conhecido por seu Toinho, já estava chegando a Uruaçu,
vindo de Goiânia, depois de uma temporada tentando debelar um câncer na capital do Estado. Lembro um
pouco do velório, as pessoas chorando muito e eu assustado com tudo aquilo.
Depois, durante alguns dias, o rádio ficou coberto com um pano preto. E eu sem
entender o que estava acontecendo. Além de perder meu avô, ainda não podia
ouvir rádio? Explicaram-me que era preciso guardar luto.
Batista Barroso, radioamadorista em Uruaçu
Adorava ir para casa do tio e padrinho Batista Coelho Barroso, radioamadorista licenciado, que tornava as comunicações mais eficazes naqueles anos das décadas de 1950 e 1960, na pequena Uruaçu, encravada no coração do Brasil e do mundo - quiçá, do universo. Ele transmitia em PRK, um número tal, que já não me lembro, e com a deixa de Brasil-Guatemala-França. Sempre que falo do rádio, ou do radioamadorismo, lembro-me dele, que já nos deixou e foi surfar, com toda sua bondade e talento, em outras ondas desse imenso universo.
A comunicação via rádio é fácil,
direta, objetiva. O seu poder de difusão e de penetração nas diversas classes sociais e pelo país afora é
inestimável. Todos amam o rádio, sejam radialistas, jornalistas, comentaristas,
músicos, e até mesmo, pasmem, os políticos!
Já temos três datas homenageando esse
veículo de comunicação e seus profissionais. Uma dessas datas, o Dia do
Radialista, em 21 de setembro, foi criado por Getúlio Vargas para
comemorar a instituição do piso salarial da categoria; o outro Dia do
Radialista, em 07 de novembro, foi instituído pelo presidente Lula, em 2006,
para homenagear Ary Barroso, músico e locutor esportivo de raro talento; e o
tradicional Dia do Rádio, que se comemora em 25 de setembro, criado para reverenciar
Roquete Pinto – o pai do rádio no Brasil.
Até na criação do rádio tem dedo de
brasileiro. O inventor, oficialmente, é o
italiano Guglielmo Marconi, que criou o "telégrafo sem fio", um
modelo inicial que se desenvolveu até o sistema que conhecemos hoje. Mas
há também quem atribua essa invenção ao padre brasileiro Roberto Landell de
Moura, que, em 1894, desenvolveu
aparelho semelhante e efetuou a emissão e recepção de sinais a uma distância de
oito quilômetros, do bairro de Santana para os altos da Avenida Paulista, em
São Paulo. Religiosos fanáticos teriam destruído seu aparelho e
anotações por se tratar de pacto com o demônio, o que atrasou o registro da
invenção.
Ary Barroso,
justamente homenageado com o Dia do Radialista, na semana passada, era uma
figura ilustre e folclórica do mundo do rádio. Flamenguista apaixonado, narrava as
transmissões dos jogos de forma bastante peculiar. Quando o time adversário
se aproximava da área do seu clube, em jogada perigosa, ele gritava: “Não quero
nem ver”. Se o Flamengo sofria um gol, então, ele narrava: “E deu-se a merda”. Vale lembrar que o Radialista também é homenageado no dia 21 de setembro, data em que foi criado o salário base para esses profissionais, em 1943, durante o governo de Getúlio Vargas. No dia 25 de setembro é celebrado o Dia do Rádio, em homenagem a Edgard Roquette-Pinto, que nasceu nessa data no ano de 1884. Em 1923, ele criou a Rádio Sociedade do Rio de Janeiro, a primeira emissora do Brasil.
O rádio e os
radialistas merecem nossas homenagens. É um veículo de comunicação fantástico,
cheio de histórias curiosas e intrigantes. Nessas ondas, podemos surfar com
segurança e tranquilidade. Elas não nos oferecem riscos, só contentamento.
Neste domingo, dia sempre reservado às
graças, este blog atingiu o número de duzentas mil visualizações de páginas.
Isso quer dizer que, nestes dois anos e nove meses de existência, algumas
centenas ou talvez milhares de pessoas entraram 200 mil vezes para ler alguma
coisa que foi postado nestas páginas. Parece pouco, mas é muito se levarmos em
conta duas coisas: não é um blog voltado para assuntos fast foods e nem conta com qualquer apoio publicitário.
Então, imaginemos assim, quem passou
por aqui tem afinidades com os temas culturais, gostam de músicas, poesias,
literatura, teatro, cinema, pintura e todos os assuntos que dizem respeito ao
mundo das artes. Em sua maioria, as visualizações
vieram do Brasil, mas os Estados Unidos estão em segundo lugar, provavelmente
graças à nossa imensa colônia de brasileiros por lá. Nossos patrícios
portugueses assumem o terceiro lugar em busca pelos textos do ZecaBlog, provavelmente estimulados pelas
similaridades da língua. E o quarto lugar, ocupado pela
Alemanha, só posso atribuir a uma alemãzinha bem querida – a sobrinha Ana Laura,
que deve gastar o alemão falando do Brasil. A Rússia em quinto lugar, podemos
atribuir aos resquícios deixados por lá pelos uruaçuenses exilados nos anos da
ditadura? Já o Reino Unido em sexto é semelhante
à situação dos Estados Unidos e a forte ocupação de brasileiros. Mas, não tenho
nenhuma dúvida, que a França em sétimo lugar só pode ser obra e arte da sobrinha
Raquel Campos e do nosso querido Marlon Salomon, que estiveram por lá um bom
período – deixaram raízes. A Espanha está em oitavo, a Ucrânia (!), em nono, e o
Canadá em décimo. Os dez post mais lidos são os
seguintes:
Foi assim e assim sempre será, desde
aquele primeiro e fatídico passo, dado no dia 16 de fevereiro de 2016, com a
belíssima poesia do mestre Itaney Francisco Campos, desembargador, poeta e
acima de tudo um grande amigo (para ler ou relembrar, clique aqui). Estaremos sempre preocupados com o que há de novo no
mundo das artes, da cultura e do saber. Não fugiremos do debate, muito menos da
crítica, como ocorreu no post sobre o "talento" da filha do bispo
Edir Macedo. Nem de criticar até mesmo a nossa querida Uruaçu pelo seu carnaval
regado a música sertaneja e boate (pode?).
Também transitaram por aqui
poetas-amigos e amigos-poetas - entre eles, destaco Maranhão Viegas, responsável por essa empreitada e padrinho desse blog -, pintores, escritores, contistas, desenhistas,
romancistas, músicos compositores e instrumentistas, cantores e cantoras e
tantos outros talentos conhecidos, reconhecido, ou não, no mundo das artes.
Ressaltamos a vida, a ausência de tantos que já nos deixaram; as tragédias que
abalaram culturas milenares, como a do Japão; a beleza de festas como as
proporcionadas pelo frevo, pelo carnaval ou pelo samba, seja por aqui, pela
Europa ou pelas ilhas de Cabo Verde; as festas populares, de Minas, Goiás, do
Nordeste, do Sul e de todos os lugares; o bom humor e o lado cultural do
futebol também ganharam espaço nestas páginas... E assim vamos vivendo e sobrevivendo,
seguindo em frente sem esquecer o passado, mas de olho bem aberto para com as
coisas do presente e com coração pronto para o futuro. Pra coroar um domingo tão especial,
nada melhor do que ouvir o mestre soberano Tom Jobim, na parceria maravilhosa
com Vinícius de Moraes, em Chega de Saudades...