domingo, 30 de março de 2014

Meio século depois do golpe ainda há incertezas e injustiças


 
Enquete feita pela Folha de São Paulo, com 26 intelectuais e artistas, elegeu Caminhando, de Geraldo Vandré, e Apesar de Você, de Chico Buarque de Holanda, as duas canções mais emblemáticas dos anos de chumbo da ditadura militar no Brasil, que durou de 1964 a 1985. O golpe militar foi dado exatamente há 50 anos e até hoje suas sequelas se abatem sobre os corações e as mentes de milhões de brasileiros.
Prisões arbitrárias, torturas, assassinatos e desaparecimento de presos políticos marcaram esse período, que precisa sempre ser lembrado para que nunca mais ousem repeti-lo. E principalmente para que, nunca mais, sob o pretexto de marchar com Deus e a família, arautos de voz sonora da classe média deslumbrada e das elites reacionárias atrevam-se a abrir caminhos para novos retrocessos.
Meio século depois ainda há quem se aventure em falar em Marcha da Família com Deus pela Liberdade. São meia dúzia de trogloditas ainda isolados, mas é preciso denunciá-los, desmoralizá-los, antes que formem novas fileiras.
Uma boa oportunidade para ouvirmos essas duas músicas "campeãs" da resistência a um dos piores momentos da curta história política brasileira. A lição que fica desse desastre deve ser aprendida e ensinada para que o sacrifício de tantos jovens não tenha sido em vão.



 


Gilberto Gil está de volta numa bela homenagem a João

 
Gilberto Gil está de volta. Ao mundo musical, com sua voz afinadíssima e ritmada, que lembra o malabarístico Jackson do Pandeiro e o melodioso João Gilberto. Está de volta, depois de longo e tenebroso inverno dedicado à política, ao ministério político e cultural, que pode ter tudo a ver com sua visão de mundo, suas ideologias e concepções partidárias, mas que o deixou afastado dos palcos e dos estúdios de gravação por um longo período. Infelizmente.
Gil continua a fazer política. Diz que vai votar em Eduardo Campo e Marina Silva se os dois mantiverem-se unidos durante todo o processo da próxima eleição. Mas, isso é assunto para se discutir a partir de julho, quando começa verdadeiramente a campanha eleitoral.
O que importa é que Gilberto Gil está de volta ao estúdio para gravar um disco em homenagem a João Gilberto, seu ídolo maior e um dos maiores talentos da música popular brasileira. O bom-gosto começa pelo título: Gilbertos Samba. E vem com a proposta de mostrar o que existe de um em outro e vice-versa. Ao contrário de Gil Luminoso – um dos mais belos discos da MPB – o CD que está sendo lançado agora não é só voz e violão, como poderia parecer meio óbvio quando se pretende homenagear João Gilberto.
A produção está a cargo de Bem Gil e Moreno Veloso, filhos de Gil e de Caetano Veloso. O trabalho inclui palmas e percussões entremeando os sambas, e inclusão no contratempo até de toques suaves de marimba.
Esta gravação de Você e Eu, já disponível nas redes sociais, dá uma boa dimensão da qualidade e da beleza do trabalho que está chegando. É bom para fechar o domingo e nos ajuda a aguardar, em paz, a segunda-feira...


 

sexta-feira, 28 de março de 2014

Pra não dizer que não falei de flores e nem de Vandré


A vida não se resume a festivais. Nem a canções. A vida é muito mais do que todas as coisas das quais participamos, ou mesmo das que deixamos de participar. A vida é complexa antes, durante e depois dos anos de chumbo que nos foram impostos pela ditadura militar. Geraldo Vandré disse que a vida não se resumia a festivais e começou a cantar Caminhando (Pra não dizer que não falei de flores), música simples (dois acordes), mas de rara beleza, despojada, de comunicação direta e imediata com o público. Perdeu aquele festival, mas foi superada pela belíssima Sabiá, de Chico Buarque e Tom Jobim.
Vandré não ganhou o III Festival Internacional da Canção, realizado em 1968, mas conquistou o público, as ruas e o coração de gerações e gerações que se sucederam àquela noite histórica para a Música Popular Brasileira. Na saída, centenas de jovens cercaram o carro do cantor. Pediram que ele cantasse, e ele cantou. Talvez, a última vez com aquela dimensão e intensidade. Disse ali mesmo: "Isso está virando comício, por favor, me deixem ir embora".
Foi embora, não apenas daquele local. Começava, ali, uma nova peregrinação que o aproximaria mais do Vandré romântico, aquele do início da carreira, autodenominado Carlos Dias, em homenagem ao ídolo Carlos José. Logo, logo, Vandré passaria a cantar o amor e a paz, fortemente influenciado, no exílio, pela saudade de sua terra e pelos cantadores de festas e feiras do interior nordestino. Nascia, em 1973, ano de sua volta para o Brasil, o LP, lançado aqui pela Philips, Das Terras de Benvirá.
Lá pelos idos de 1976, salvo engano, quando estudava na UnB e morava na Asa Norte, encontrei-me com um grupo de amigos, que me disseram, mais ou menos, o seguinte: Zé, você perdeu, ontem, Geraldo Vandré estava no Zebrinha (bar da Asa Norte de Brasília). Era verdade, encontraram-no por lá, e o convidaram para uma prosa no apartamento dos irmãos Lúcio e Roberto. Pelo que ouvi dos amigos, pude concluir que havia perdido, sim, a oportunidade de conhecer um novo Vandré, que começava a tomar corpo naquela época. Mas, não tinha perdido a oportunidade – e nem teria como – de conhecer o Vandré dos anos 60.
Este - e também aquele romântico, sonhador - o cantor e compositor enterrou definitivamente no ano de 1978, quando o advogado Geraldo Pedrosa de Araújo Dias disse, em entrevista, que tinha inventado o Geraldo Vandré. Nascia, ali, um terceiro Geraldo, distante tanto das canções engajadas, quanto das românticas. Não iria cantar mais e nem subiria mais nos palcos para participar de shows.
Isso, até o fim de semana passado, quando, em São Paulo, a cantora Joan Baez conseguiu fazer com que ele subisse ao palco. Não cantou, mas declamou alguns versos e foi homenageado pela cantora e pelo público. Um momento histórico, que pode ser visto abaixo, num vídeo gravado de forma amadora por um espectador, mas denso e cheio de simbolismo.
Geraldo realmente enterrou pra sempre o Vandré. Justamente o autor de Pequeno Concerto que Virou Canção, que, em 1965, dizia o seguinte:

“Não, não há porque mentir/ou esconder a dor que foi maior/do que é capaz meu coração/não, nem há porque seguir cantando/ só pra explicar/não vai nunca entender de amor/quem nunca soube amar/ah, eu vou voltar pra mim/seguir sozinho assim/até me consumir/ou consumir toda essa dor/até sentir de novo o coração/capaz de amor”.


É importante também lembrar o post script colocado por ele no disco Canto Geral, de 1968, que tenho aqui em casa em vinil:

“Vós que vireis na crista da onda em que nos afogamos, quando falardes de nossas fraquezas, pensai também no tempo sombrio a que haveis escapado” (Bertolt Brecht).

Premonição pura. Vandré era assim. Simplesmente, um cantador das coisas que aprendeu a ver, ouvir, pensar e sentir a respeito do seu tempo, do seu lugar e da gente que vivia pelas terras do Benvirá. Pena que a mesma vida, complexa, que o fez assim, também o levou por caminhos diversos.
É, realmente, a vida não se resume a festivais.

 

terça-feira, 25 de março de 2014

Soy latino-americano, sim, com muito orgulho...

 
Sangue latino-americano é o que corre em nossas veias, tão escancaradas por séculos de exploração de nossas riquezas e pela opressão cultural e política sobre os povos de nuestras tierras. Ser latino e americano é herdar o espírito conquistador, desbravador dos homens que nos “descobriram”. Como não existem mais terras a serem “descobertas”, resta-nos o ímpeto de conquistar a liberdade plena, entremeada de justiça social e desprovida de preconceitos.
Resta-nos lutar contra a tirania, a opressão e todas as formas de dominação que ainda subsistem por este mundo afora. E as ferramentas estão na cultura, na música, na dança, no teatro, no cinema, nas artes plásticas e em todas as formas verdadeiramente autênticas de manifestação popular.
Sangue latino-americano é o que jorra do Oiapoque ao Chuí, desde as tierrias del fuego até as fronteiras do México com o Estados Unidos, que separam sonhos de pesadelos, sem que os aventureiros saibam exatamente onde se encontram um e outro.
O dia 24 de março, em que se comemora a União dos Povos da América-Latina, é uma boa data para refletirmos um pouco mais sobre tudo isso que representa a nossa latinidade. Sem medo de ostentá-la e sem deixar que se perca, jamais, pelos caminhos tão íngremes que nos conduzem pela vida afora.
 
 

domingo, 23 de março de 2014

CD Vínculos já tem música pronta e show de lançamento

O CD Vínculos, sobre o qual já escrevi aqui no blog, está cada vez mais perto de ficar pronto e ser lançado. O show de lançamento já tem, inclusive, data e local definidos. Vai ser no Teatro SESC Silvio Barbato, Setor Comercial Sul, Quadra 2, dia 1º de abril, às 20:00, com entrada franca
Recebi gravação pronta de uma das músicas que compõem o disco. Resolvi compartilhar com as amigas e os amigos leitores do ZecaBlog por ter gostado muito. The Endings Are Mine é interpretada pela voz doce, afinada e melodiosa da cantora e atriz Laura Lobo (foto), filha do músico José Cabrera – pianista, compositor, arranjador e responsável pelo projeto Vínculos, que, além de um CD, terá DVD e shows. A composição é de Daniel Júnior, com versão para o inglês feita por Douglas Umberto.
A esse trabalho que vem sendo tratado com muito carinho, juntaram-se músicos do quilate de Paulo André Tavares (violão), Oswaldo Amorim (baixo acústico), Amaro Vaz (bateria), Laura Lobo (Intérprete), Moisés Alves (trompete) e Sidnei Maia (flautas) – além de letristas e poetas vários. Ao “coletivo” se juntou também o grupo de rap “Ataque Beliz” numa participação importantíssima na criação e execução do tema central: a própria música Vínculos.
Ouçam e acompanhem a letra de The Endings Are Mine. Uma boa pedida para esse domingo, calmo, ensolarado, trazendo os últimos resquícios de um Verão que choveu pouco e fez muito calor.
Bom domingo para todos.




The Endings Are Mine
Daniel Jr/Douglas Umberto de Oliveira (versão)
He came at last
A gipsy at his best
As always, his laughter picked up the smiles
(I) tried not to hold his healing hands
And to avoid his hungry eyes
Tried so hard no to dismantle down
But my words couldn´t cope with my mimes
He came at last
With the same old bunch of lies
He hides what he did but I know
All about him and his crimes
He doesn´t seem to get the meaning of love
For girls of my kind
No one´s allowed to deceive me
Not me, not me and my pride
And so I gave up the thrill
And trew love aside
Then I said goodbye
For endings are mine


sexta-feira, 21 de março de 2014

Síndrome de Down - doença mesmo é só o preconceito


Hoje é Dia Mundial da Síndrome de Down. Quem não leu O Filho Eterno, de Cristovão Tezza, deveria aproveitar as comemorações desta data para assumir o compromisso de fazê-lo. Uma obra-prima, de rara beleza, que nos emociona e nos faz refletir sobre a vida dessas pessoas, que trazem em sua estrutura genética um cromossoma a mais, e não são portadoras de uma doença como alguns equivocadamente até hoje imaginam.
São pessoas diferentes. Assim como nós, embora em maioria, somos diferentes para eles. Diferença, aliás, é uma palavra chave na sociedade moderna, multifacetada e globalizada. Não há mais espaços para preconceitos, mediocridades e limitações no mundo de hoje. Embora elas existam, estão ficando cada vez mais isoladas e abominadas pela maioria da sociedade.
E o Dia Mundial da Síndrome de Down serve para isso. Afastar de vez as maneiras limitadas, pequenas e mesquinhas de ver quem é diferente de nós. E para comemorá-la proponho que leiam O Filho Eterno, vejam o vídeo abaixo e ouçam a música de Vinícius de Moraes e Toquinho, na voz tranquila, mansa e altiva de Chico Buarque de Holanda.




quinta-feira, 13 de março de 2014

Há dias em que só a poesia nos permite abrir novas janelas

 

Segredos do baú
José Carlos Camapum Barroso

 Meus amores são de prata
Tirados do fundo de um baú
De madeira envelhecida,
Enegrecida pelos anos.

No fundo do baú, uma foto,
Em branco e preto, revela
Segredos inconfessáveis
De uma memória frágil...
Rasga o tempo em véu
De nuvens passageiras.
Lembra que a luz do céu
São estrelas derradeiras.

O sol, quando amanhece
O dia, é luz que ofusca
Toda certeza do amanhã.

Há no baú um último selo
De uma coleção perdida.
Olho de boi arregalado,
Assustado pela ingratidão.

O tempo passa no baú,
Como passam os dias,
As noites, tempestades...
E até o badalar dos sinos
Passa, pela igrejinha,
Catedrais e seus vitrais...

Sob o peso da tampa,
Não nos cabemos mais...
Nossos sonhos, inflados,
Querem habitar o universo,
Espaço de uma luz divina
Que ilumina outros segredos...
 
 

quarta-feira, 12 de março de 2014

Dia de sonhar com livros, bibliotecas, arte e cultura...

 
Tenho uma sobrinha bibliotecária. Tatiana Barroso é e está bibliotecária com prazer e gosto. Concursada, exerce esse delicioso trabalho no Superior Tribunal de Justiça (STJ). Há alguns anos, por ocasião das comemorações do Dia do Bibliotecário, pediu-me um texto para ilustrar convite de eventos relacionados à data. Fiz a poesia abaixo, que, neste dia comemorativo, compartilho com todos que exercem essa admirável profissão e também com aqueles que são amantes dos livros e das bibliotecas.

Uma das belas coisas da vida é estar numa biblioteca. Outra é ler um livro. Recentemente, vi publicada uma frase interessante no turbilhão de coisas que passam pelo Facebook. Dizia que “livro é algo tão bom que deveria ser um elogio – você é tão... Livro”. Acho que captei essa bela mensagem no Facebook da Raquel Campos, outra sobrinha umbilicalmente ligada aos livros e às bibliotecas.

 
Imagino que deve ser a realização de um sonho trabalhar, por exemplo, no Real Gabinete Português de Leitura (foto acima), no Rio de Janeiro. Aquele prédio suntuoso, maravilhoso, que exala cultura por todos os cantos, paredes, prateleiras, com suas coleções seculares e de um valor histórico inestimável.
Morro de inveja de quem exerce essa profissão. E rendo minhas homenagens a todos os bibliotecários neste dia de hoje por intermédio da Tatiana.
 

Oração ao Bibliotecário
José Carlos Camapum Barroso

Guarde um livro como
Segredo a ser revelado,
O negativo de um filme
Que não pode ser velado.

Ame o livro como amor
De mãe para com filho:
Jamais terá um limite,
Nunca sairá do trilho.

Apanhe um livro como
Se pega no colo a criança;
O pai está sempre por perto,
E a mãe se chama Esperança.

Manuseie o livro como
Se fosse buquê de flor
Cada pétala perdida
É como perder o amor...

É como perder a vida,
Ficar sem itinerário,
Deixar de ser humano,
Não ser mais Bibliotecário.
 
 
 
 

quarta-feira, 5 de março de 2014

O Carnaval passou, mas já tem outro chegando aí, rapidinho



Agora, cinzas... Restos de confetes pelo salão. Serpentinas desbotadas, enrugadas, são rastros de uma Colombina desgarrada, máscara na mão, escoltada por um Pierrô arrependido, mestre-sala de um bloco sem cordão. Pelas ruas, o bloco dos garis, vassouras nas mãos, em ritmo de frevo, samba ou marchinhas, fecham as últimas cortinas de mais um Carnaval que passou.
Passou mais volta, num rapidez meteórica. Basta um piscar de olhos.
Semana Santa, Copa do Mundo, eleições, Natal, Ano Novo... Piscou? Pronto, o Carnaval de 2015 já está chegando... Entre um Carnaval e outro não há 365 dias. É só fazer as contas. Desta quarta-feira de Cinzas até o sábado de Carnaval do ano que vem são exatamente 346 dias. Ou seja, podem relaxar! O sofrimento não será tão grande assim. Para o Carnaval dos Amigos, em Goiânia, então, só faltam 339 dias.

O Homem e Seu Carnaval
Carlos Drummond de Andrade
Deus me abandonou
no meio da orgia
entre uma baiana e uma egípcia.
Estou perdido.
Sem olhos, sem boca
sem dimensões.
As fitas, as cores, os barulhos
passam por mim de raspão.
Pobre poesia.


O pandeiro bate
é dentro do peito
mas ninguém percebe.
Estou lívido, gago.
Eternas namoradas
riem para mim
demonstrando os corpos,
os dentes.
Impossível perdoá-las,
sequer esquecê-las.


Deus me abandonou
no meio do rio.
Estou me afogando
peixes sulfúreos
ondas de éter
curvas curvas curvas
bandeiras de préstitos
pneus silenciosos
grandes abraços largos espaços
eternamente.