quinta-feira, 28 de agosto de 2014

Poesia para matar saudades de tempos atrás...


Essa mulher
José Carlos Camapum Barroso

Quem é essa mulher?
Que embalou seus filhos
Os filhos dos amigos
Dos inimigos, também
Berço simples e terno
Como regato da mãe
De todos os filhos...
De meninos sem lar
Abandonados na rua
Guardados no coração
Escondidos sob a saia
Costurada à mão...
Quem é essa mulher?
De olhar escondido
Na mansidão dos rios
Salpicados de perdão
Quem é essa mulher?
De sorriso contido
Franco e recolhido
Às janelas do velho
E eterno casarão...
Outra não é se não
A mulher e a mãe
Dos filhos de Lúcio
Cujo sobrenome
É nome que habita
Em dona Chiquita
E mora em Santana
Do Machambombo.


sábado, 16 de agosto de 2014

João-de-Barro está em fotos, poesias e nas canções

 
 

João-de-Barro é pássaro símbolo, de tradição. Muito popular na Argentina, onde simboliza a pátria dos hermanos. Está arraigado na nossa cultura, também, desde os pampas do Rio Grande do Sul, passando por este cerrado central até o sertão nordestino. Simboliza o trabalho, o engenho e a arte de construir uma morada. Curiosamente, embora represente a construção de um lar por um casal que cria seus filhotes e ficam juntos por muito tempo, acabou associado à traição e à vingança por amor, na música sertaneja, abaixo interpretada por Tonico e Tinoco. No folclore argentino, o João-de-Barro é mais altaneiro, associado que está ao amor à pátria e ao lar, o que pode ser apreciado nesta bela Canción de Los Horneros, interpretada pelo próprio autor e seu violão mágico – Atahualpa Yupanqui. Como aqui em casa, no pé de pequi, tem duas fornalhas de João-de-Barro, fiz um registro, em fotos e versos, dessa ave tão cheia de símbolos.

Pássaro símbolo
José Carlos Camapum Barroso

João-de-barro
No pé de pequi,
Bem ali no quintal...
Sinal de vida aqui.

João traz o barro
E raminho, também.
João é forte no cerrado,
Nos pampas e sertão.
Faz casa no telhado,
Que muitos não têm,
Nem nunca terão...
Como pobre, coitado,
É vítima de invasão...

Lá no alto da árvore,
Ou mesmo no chão,
Assentada na rocha,
Incrustada no poste,
Em fios de alta tensão.
Não teme a morte
Inverno, nem Verão,
É forte como o barro
Que usa na construção.

Símbolo da pátria,
Horneros de la canción,
De casal apaixonado,
De amor abandonado,
Verso, reverso da paixão...




sexta-feira, 8 de agosto de 2014

Moacir (de todos os) Santos é um gênio pouco conhecido


O Brasil valoriza pouco, ou até mesmo, muitas vezes, simplesmente ignora ou desconhece artistas talentosos, em todos os ramos da arte, inclusive no campo da música. Quando o artista resolve fazer, por algum motivo, carreira no exterior, as chances de que seu trabalho seja ignorado, ou tenha pouco reconhecimento em solo pátrio, aumenta sobremaneira. Um desses exemplos mais gritante é o de Moacir Santos, multi-instrumentista, compositor e arranjador de invejável talento e extraordinária criatividade.
A obra desse brasileiro de Flores do Pajeú, no sertão pernambucano, felizmente, será amplamente revista, analisada e divulgada neste mês de agosto. A musicista e pesquisadora Andrea Ernest Dias está lançando o livro com dados biográficos Moacir Santos – Ou os Caminhos de Um Músico Brasileiro. No vácuo dessa bela iniciativa, um CD que receberá o título de Muacy, nome de batismo do músico, e que trará canções inéditas descobertas pela cuidadosa garimpagem de Andrea. A terceira frente já está em andamento: um festival de música dedicado à obra do autor, que começou quarta-feira passada e vai até a noite deste sábado, no Centro Cultural Banco do Brasil, no Rio de Janeiro.
Moacir Santos, ou simplesmente Muacy, é um músico de mão cheia. Com apenas 9 anos de idade, já tocava trombone, trompete, clarinete, saxofone, percussão, violão, banjo, e bandolim. Aos 13, já recebia salário como baterista do cine São José. Antes de completar 30 anos, dava aula pra ninguém menos que João Donato, Carlos Lyra, Baden Powell, Roberto Menescal e Dori Caymmi. Estudou harmonia, contraponto, fuga e composição com vários maestros, entre eles, Guerra Peixe e Cláudio Santoro. Foi aluno, e depois assistente, do maestro Hans-Joachim Koellreutter, discípulo de Arnold Shoenberg – um dos criadores do dodecafonismo e um dos mais cultuados professores de harmonia da música erudita.
O pesquisador Zuza Homem de Mello, em um artigo publicado no livro Música com Z, escreveu que “na obra do maestro, o primitivo encontra o futuro; o ontem, o amanhã”. Suas composições partem de princípios melódicos simples, desenvolvem-se, tornam-se encorpadas e viram músicas maravilhosas, enriquecidas pelas influências rítmicas africanas que chegaram ao Brasil.
Moacir Santos é o músico que Vinícius de Moraes reverenciou no histórico Samba da Bênção, composto com Baden, ao dizer “Moacir Santos/ tu que não és um só, és tantos/ como o meu Brasil de todos os santos”. Com o “poetinha”, fez a canção Se Você Disser Que Sim. E com Mário Teles, deixou a bela e bastante gravada Nanã.
Suas composições são diferenciadas pela musicalidade, pelo ritmo e também pelos títulos que recebem. O primeiro disco que lançou recebeu o nome curioso de Coisa – e cada faixa vai de Coisa nº 1 a Coisa nº 10. Algumas delas receberam subtítulo: a de nº 7 (Quem é Que Não Chora), a de número 8 (Navegação) e a número 5 (Nanã). Também compôs e arranjou Maracatucute, que no vídeo abaixo interpreta com a Banda Savana.


            Os brasileiros precisam conhecer mais e melhor o que tem de bom no mundo musical. O povo brasileiro precisa – principalmente os jovens – libertar-se do ranço de conhecer apenas o que está na moda e faz sucesso. Não conhecer Moacir Santos é um defeito inaceitável, que precisa ser superado. Quem já o ouviu, mesmo que pouco, certamente, já deve ter pensado um dia como o compositor gaúcho Cristiano Figueiró: “Apesar de não conhecer, parece que eu sempre ouvi essa música”.
            Só pra concluir, porque já escrevi demais, Wynton Marsalis, um dos maiores músicos da rica e bela música americana, quer incluir no repertório da Orquestra do Lincoln Center, em Nova Iorque, músicas do repertório de Moacir Santos – o brasileiro Muacy do sertão pernambucano, tão genial e tão desconhecido pelo seu próprio povo.