segunda-feira, 29 de dezembro de 2014

Se o mundo é vasto, o Ano Novo será intenso


Fim de ano é tempo das coisas novas e velhas ocuparem os espaços midiáticos, agora reforçados pelas redes sociais. Sempre descobrimos, ao final e ao cabo, que as coisas velhas não são tão velhas assim, e as novas não chegam a ser novidades no ritual repetitivo das passagens de ano. O final de 2015 tem uma novidade que só se repete a cada quadriênio: posse de presidente, governantes, senadores e deputados.
Os desejos de Ano Novo são renovados, carregados de esperanças e sonhos. Todos temos certeza de que 2015 será melhor do que 2014, embora as previsões apontem em direção contrária. Danem-se as previsões, principalmente as alardeadas pelos economistas de plantão. Eles sempre erram mesmo.
Pela margem de erro dos institutos de pesquisas, o ano que vem será muito pior ou muito melhor do que este que chega ao fim.
Se as previsões não se confirmarem, não será o fim do mundo. Depois de 2015, virá o de 2016 e assim, sucessivamente. O mundo, como dizia o poeta maior Carlos Drummond de Andrade, é vasto. Ele continuará a dar sua volta elíptica em torno do sol; e nós, aqui na terra, continuaremos a sacudir a poeira e a dar a volta por cima.


Passagem de ano é bom para desejarmos o que há de melhor a todos. Faço minhas as palavras de Drummond no poema abaixo.
Os meus versos, também postados abaixo, são apenas uma pequena reflexão sobre este momento tão comemorado e comentado pelo mundo afora. Que 2015 encha os nossos olhos de alegria, a humanidade de poesia e de música, os corações! Teremos mais chance de sermos felizes e enterrar de vez as previsões pessimistas.

Velho Ano Novo
José Carlos Camapum Barroso

Fim de ano é roupa branca,
Alma limpa e coração aberto,
O amor de sempre por perto
E um pipocar de esperanças.

Champanhe explode no ar
E os fogos, em artifícios,
Colorem o céu de ilusões...
Risos e abraços nos salões
Gritos e choros nas calçadas
Cobertas de lágrimas e suor,
Papel picado e latas de cerveja...

Passa a noite, some a lua...
E os primeiros raios de sol
Trazem o ano novo pra rua.
Garis fantasiados de homens
Varrem restos de alegria.
O bar se fecha, abre a padaria.
Os jornais chegam mais cedo
A estampar notícias velhas
E as previsões de sempre.
O ano foi ruim! Este será bom!
O ano acabou... O mundo, não
O mundo? É vasto o mundo...
E eu nem me chamo Raimundo
Muito menos, Drummond.


Desejos
Carlos Drummond de Andrade

Desejo a vocês...
Fruto do mato
Cheiro de jardim
Namoro no portão
Domingo sem chuva
Segunda sem mau humor
Sábado com seu amor
Filme do Carlitos
Chope com amigos
Crônica de Rubem Braga
Viver sem inimigos
Filme antigo na TV
Ter uma pessoa especial
E que ela goste de você
Música de Tom com letra de Chico
Frango caipira em pensão do interior
Ouvir uma palavra amável
Ter uma surpresa agradável
Ver a Banda passar
Noite de lua cheia
Rever uma velha amizade
Ter fé em Deus
Não ter que ouvir a palavra não
Nem nunca, nem jamais e adeus.
Rir como criança
Ouvir canto de passarinho.
Sarar de resfriado
Escrever um poema de Amor
Que nunca será rasgado
Formar um par ideal
Tomar banho de cachoeira
Pegar um bronzeado legal
Aprender uma nova canção
Esperar alguém na estação
Queijo com goiabada
Pôr-do-Sol na roça
Uma festa
Um violão
Uma seresta
Recordar um amor antigo
Ter um ombro sempre amigo
Bater palmas de alegria
Uma tarde amena
Calçar um velho chinelo.

sexta-feira, 26 de dezembro de 2014

Cada um com suas lembranças e eu com as minhas...

Hoje é um dos dias mais importantes da minha vida. Foi nesta data, algumas décadas atrás, que veio ao mundo Maria Iracema do Perpétuo Socorro Coelho Barroso. Este nome pomposo de princesa passaria a ser, depois do casamento, simplesmente Iracema Barroso Camapum, minha mãe, dona Ira. Não por acaso, mas sim por ser a pessoa mais importante da minha vida que ela veio ao mundo um dia depois do nascimento de Cristo, claro, com a diferença pequena de quase dois milênios...
Por esse motivo também resolveram instituir o Dia da Lembrança na data de 26 de dezembro. É pra ninguém esquecer que no dia anterior, veio à vida aquele que iria perpetuar nossas vidas pela eternidade afora. Mais ainda pra que este marmanjo tenha sempre na lembrança que no dia de hoje veio ao mundo a razão da sua própria existência.
Dia da Lembrança é bom também para não nos esquecermos das pessoas queridas, parentes e amigos que já se foram, ou ainda estão por este mundo, mas afastados pelas distâncias físicas, embora facilmente superadas hoje em dia pelas mídias sociais. As pessoas somem, desaparecem por esse mundão de Deus, mas não devem, não podem e nem serão esquecidas justamente por fazerem partes das nossas lembranças.
Não saem das nossas lembranças as pessoas que foram boas para nós, principalmente para a nossa infância. Além de meus tios e tias, não foge da minha memória a presença de um balconista da loja de tecidos Casa Cearense, vizinha do nosso Armazém Camapum, que se chamava Ramiro e nos tratava de forma carinhosa e gentil. Dei o nome dele ao meu primeiro filho para perpetuar essa agradável lembrança.

Haicai

Há na lembrança
Algo de criança, resto
De esperança

Não nos escapam da memória, também, os amigos de infância, adolescência e mesmo os da idade adulta, principalmente aqueles que nos deixaram de forma prematura. Dois deles foram marcantes nessa nossa fugaz passagem pela vida. Escrevi sobre esses dois amigos aqui no ZecaBlog, se alguém tiver curiosidade para ler é só clicar nos nomes: Hamilton de Almeida e Manoel Fernandes Teixeira, o Kubitschek.
As lembranças ruins, negativas, devemos esquecê-las, embora, imagino, não deva ser fácil tirar da memória das vítimas do Holocausto o que viram, sentiram e passaram durante aqueles dias tão tenebrosos da história da humanidade. Quem está vivo até hoje e testemunhou os duros anos da Segunda Grande Guerra, com certeza, não consegue apagá-los facilmente da lembrança.

Nossas recordações, na realidade, são partes significativas da nossa existência. Elas estão presentes na literatura, romances, poesias, artes plásticas... Há filmes belíssimos com roteiros baseados em lembranças dos tempos de criança e da juventude. Nosso ser são as nossas lembranças, que não nos fogem da memória, jamais.
Mas, aí já é assunto para os psicólogos, sociólogos, antropólogos, historiadores e principalmente para os filósofos. Eu, este mero blogueiro, só sei que lembrei, mais uma vez, bem cedinho, de minha mãe Iracema e das razões que a fizeram nascer um dia depois de Cristo. Lembrei-me também de todos vocês, que, com paciência de Jó, passam por essas páginas virtuais.
Fiquem com Deus e com as suas lembranças. Um pouco de música também ajuda a aquecer nossas recordações. Lembrança, de José Fortuna, na voz de Duo Ciriema, é uma bela página da nossa história musical.


sábado, 20 de dezembro de 2014

Porque hoje é sábado, o cotidiano invade os corações


Cotidiano
José Carlos Camapum Barroso

De repente
A dor se fez ausente
E um mar de desejos
Inundou o coração.
Da angústia de sempre,
Brotou uma semente
Ávida de ilusão...

Era Lua Cheia...
Estrelas crescentes
Piscavam incandescentes
Pela imensidão
Voraz de um buraco negro,
Prenhe de segredo,
Ávido de solidão.

De repente,
Um raio pôs-se à frente
De um Sol nascente
Na amplidão.
Luz nova, descomunal,
Uma aurora boreal
De sofreguidão!

Ao meio-dia
A dor então adormecida
Sente-se aquecida
No coração
Com a mente cansada
E os joelhos dobrados
Fez-se oração

Tardezinha,
O tempo não passa
A dor que não cessa.
Em pulsação,
Mede-se o compasso
No passo a passo
Da desilusão...

De repente
A dor se fez ausente
E um mar de desejos
Inundou o coração.
Da angústia de sempre,
Brotou uma semente
Ávida de ilusão...




segunda-feira, 8 de dezembro de 2014

Tom Jobim vinte anos depois desafia o tempo e o vento


Levei um susto quando percebi que, neste dia 8 de dezembro, uma segunda-feira, fazem vinte anos da morte de Antônio Carlos Brasileiro de Almeida Jobim. Como o tempo passa rápido. Já são duas décadas sem a presença desse compositor refinado, elegante e admiravelmente simples. A música popular brasileira sentiu sua falta de forma bem significativa. Pouca coisa relevante surgiu de lá pra cá.
Tom Jobim inspirava e inspira até hoje gerações de novos músicos, compositores e instrumentistas. Sua música é fortemente marcada pela bossa-nova, mas fez belas modinhas, sambas inesquecíveis, chorinhos monumentais, entre baiões, valsas e outros gêneros musicais.
Competiu com Beatles, Rolling Stones e Elvis Presley ao Grammy do ano de 1964. Saiu vitorioso com Garota de Ipanema, feita em parceria com Vinícius, uma das músicas mais conhecidas no mundo. Frank Sinatra, com quem Tom se apresentou na televisão americana, gravou dois álbuns em homenagem a esse Brasileiro ilustre, reverenciado pelo seu talento. Ella Fitzgerald, uma das mais extraordinárias cantoras do mundo musical, deixou-nos o belíssimo CD Ella Abraça Jobim, que contou com a participação de Oscar Castro Neves no solo de guitarra.

Hoje, no Rio de Janeiro, foi inaugurada estátua de Tom carregando um violão no ombro. A obra é de Christina Motta e está no calçadão de Ipanema, no início da Vieira Souto, próximo ao Arpoador. A escultora diz que escolheu fazer o Tom “bonito, quando ele estava no auge, nos anos 60”. A foto que serviu como modelo foi a que ele está ao lado de Vinícius de Moraes, logo depois de compor uma sinfônica em Brasília.
Tom Jobim compôs, sozinho, canções belíssimas, como Águas de Março. Fez músicas antológicas com vários parceiros. Destaque para Vinícius de Moraes e Chico Buarque de Holanda. Uma pequena amostra dessa constelação de obras primas segue abaixo: Águas de Março, na voz do próprio Tom; Retrato em Branco em Preto, na voz maravilhosa de Elis Regina, tirada do CD Elis e Tom (gravado nos Estados Unidos e um dos mais belos de nossa história musical); e Eu Não Existo Sem Você, na voz marcante de Nana Caymmi.
Essas três são suficientes pra entendermos por que não percebemos o tempo passar. Na verdade, Tom Jobim nunca nos deixou. Ele sempre esteve por aqui nesses vinte anos, a desafiar modismos, a enfrentar os ventos contrários que tantos estragos fazem na nossa cultura. Está por aqui e vai continuar...