terça-feira, 21 de abril de 2015

Brasília, aos 55 anos, ainda pulsa vida e esperança


Brasília 5 ponto 5 é, há 42 anos, a cidade-minha. Aquela que escolhi pra estudar, trabalhar, morar, constituir uma família e viver em paz com os amigos. Brasília tem a capacidade de se internalizar na nossa alma e na forma de pensar e de agir de cada um de nós. Uma cidade que nos ajuda a projetar o futuro de forma ampla, traçado a partir de novos horizontes, com um visual moderno e um pensamento inclusivo. Talvez devamos isso ao seu desenho urbanístico e a sua ousadia arquitetônica, mas também ao que ela se propôs ao ser criada.
Quando aqui cheguei, em janeiro de 1973, Brasília era uma garota de quase 13 anos. Cheia de vitalidade, sonhos e esperanças. Os problemas maiores que cercam uma grande cidade ainda não se apresentavam de forma ostensiva, mas já davam os seus primeiros sinais, nas quadras, superquadras, eixos, vias e rodovias que desembocavam, cada vez mais, em novas cidades.
Vejo Brasília em três vértices e tento expressá-los nos poemas que se seguem. E deixo aqui meus parabéns a essa cidade tão querida e inspiradora. Cidade do futuro, mas que traz em sua bagagem um passado enriquecido pelos sonhos e esperanças de seus filhos-criadores, com um presente pujante e amplo de possibilidades.

                                                                                        Foto: Ronaldo Silva

Horizonte em tela

Final de tarde em Brasília
Traz uma beleza infinita,
Que se perde no horizonte
E se encontra nos corações.

Da Catedral ao Cruzeiro,
Em pleno inverno seco,
As luzes se dissipam
Convergem-se ao passar
Pelo memorial de JK,
Como um prisma de nuvens.

E as imagens da Esplanada
Seguem pela torre, engalanadas,
Como se o centro do Universo
Fosse aqui, nas convenções
Criadas pelo traço do artista
Eterno, criador da natureza.

A cruz primeira do Cruzeiro
É o gesto final, derradeiro,
Para que o cavalete divino
Estique a tela do Senhor.
Faz-se a pintura maior,
Tingem-se as cores no céu
E o poeta crê que isso é amor...
Fecham-se as cortinas lentamente...

A lua dá os matizes finais,
As estrelas salpicam no pano,
E a cidade dorme suavemente...


Superquadras

Quadras quadradas,
Retângulos obtusos,
Saídas em círculos
De retas infinitas...
Triângulo (in) vértice,
Curvas imaginárias,
Onde paralelas finitas
Enfim se encontram
Entre duas asas.

Povo e povoado
Distantes do amanhã.
Casa e casebre...
Longe, perto, edifício...
Um mato que mata
Um sonho, pesadelo.
Árvore arvoredo...
De buscar bem cedo
Antes que o retorno
Sombrio da noite
Tire o Eixo dos eixos.

Brasília em brasa.
Círculo do circo
Que teima em circular.
Brasília de traços
Vistos do horizonte...
Hoje ainda de manhã,
Belas tardes de ontem.


Acorda Brasília!

Brasília, Brasília
Não és mais uma ilha,
Cercada de fantasias...
És senhora, adulta,
Cortada por viadutos
E vias congestionadas.
Por cidades-satélites,
De luzes reticentes
Que não brilham como a tua...
Por ruas que não se cruzam
No esplendor da simetria,
Na grandeza de monumentos
Que ostentas em curvas,
Entre retas infinitas...

Avião de asas cortadas,
Piloto sem plano de voo,
Perdido no quadrilátero
Incrustado no coração
De um Brasil Central,
Pleno de indiferenças...

Brasília, Brasília...
Não mais sorris aos filhos
Adotados e aos que são teus,
Que te ergueram e foram
Erguidos aos céus,
No sonho de dom Bosco,
Entre suor e lágrimas candangas.

Acorda antes que o sonho
Desperte o medo
No século do pesadelo,
Acorda Brasília!

Ouça a voz que ecoa
No Planalto Central:
Ainda és sonho,
Esperança de vida!



segunda-feira, 20 de abril de 2015

Dez anos sem o talento de Rodrigo Rodrigues. Conhecem?

A música popular brasileira, rica e bela como poucas neste mundão de Deus, tem algumas lacunas que às vezes nos deixam entristecidos. Tenho certeza, por exemplo, de que muito pouca gente, mesmo entre os bem-informados e amantes da música, sabe quem foi Rodrigo Rodrigues. Pra quem não o conheceu, esse artista nos deixou com apenas 44 anos de idade, em 2005. Seu único disco foi lançado dois anos depois, em 2007, com o título de Fake Standards, e nele Rodrigo Rodrigues faz belas releituras de clássicos da música americana. A obra foi pouco ou mal divulgado pela mídia, tornando-se um trabalho até hoje simplesmente desconhecido.
O curioso na curta trajetória desse brasileiro é que o disco já estava gravado desde o ano de 2001, num estúdio do Rio de Janeiro, com a participação especial do violonista Mário Manga. Nele, Rodrigo Rodrigues canta, toca violão, clarinete, sax e faz solos de harmônica, tudo isso com extraordinário talento. Outro detalhe importante: junto com o próprio Mário Manga e Fábio Tagliaferri, Rodrigo fez parte, durante 16 anos, do grupo Música Ligeira, que gravou dois CDs e um DVD e foi extinto em 2005 com a morte do cantor.
Rodrigo Rodrigues (violão) no grupo Música Ligeira
Rodrigo sofreu influência do jazz americano, mas traz na voz e no suingue do violão o jeito brasileiro de cantar e de tocar consagrados por João Gilberto. Tentei, em vão, encontrar Fake Standards nas discotecas de Brasília. Nada. A informação é de que está esgotado até na gravadora. Pelo menos, consegui baixá-lo pela internet. É simplesmente maravilhoso!
São 14 canções de autores como Irving Berlin, Kurt Weill, Burwell, Harold Arlen, Maxwell Anderson, e que fizeram extraordinário sucesso nas vozes de Fred Astaire, Frank Sinatra, Ella Fitzgerald e Chet Baker, entre tantos outros. O rapaz foi ousado, mas tinha talento para tanto desafio. Conseguiu realizar um trabalho de raro valor artístico e colocar seu nome entre os melhores cantores da música brasileira.
Abaixo uma pitada desse belo disco na antológica It’s Only a Paper Moon, de Harold Arlen, com letra de E. Y. Harburg e Billy Rose. Também vale a pena ouvir e apreciar a interpretação que Rodrigo deu à música tema do filme Laura, composição de David Raksin, que depois da película ganhou letra de Johnny Mercer.
Quem aprecia música tem obrigação de procurar conhecer o disco Fake Standards e ajudar a perpetuar a memória desse talento que foi Rodrigo Rodrigues. Confesso que me emocionei ao ouvir o CD e tenho certeza de que os amigos e amigas do blog sentirão o mesmo.
Rodrigo Rodrigues morreu em 06 de abril de 2005, exatamente no dia em que estava completando 44 anos de idade, depois de passar dois anos lutando para vencer uma leucemia. Ou seja, já fazem dez anos que ele nos deixou, e nós pouco o conhecemos. É muito triste.




sexta-feira, 17 de abril de 2015

Musicistas brasileiras vão fazer carreira e sucesso na Europa


Lá pelos idos do ano de 2009, quando o Governo do Distrito Federal preparava uma big festa para comemorar os 50 anos de Brasília, que seriam completados em 21 de abril de 2010, a amiga e jornalista Clara Favilla fez uma observação crítica quanto à programação oficial. Na época, a revolta era porque não tinham previsto nada para os artistas de música clássica ou erudita da cidade, ou mesmo de fora.
E falava como uma cidadã apaixonada por Brasília e mãe de Isabel Favilla (foto no alto), uma musicista internacional, que, naquele ano de 2009, já havia estudado piano, cravo e flauta na Escola de Música de Brasília; tinha se tornado mestre em flauta doce pelo Conservatório Real de Bruxelas; e se preparava para bacharelar, em 2012, em fagote barroco pelo Conservatório Real de Haia. Atualmente é professora da Escola de Música Antiga de Amsterdam.



Infelizmente é assim, no Brasil. Não se valoriza e não se cultiva o bom gosto artístico. A filha de Clara teve que correr o mundo para firmar-se no cenário musical e ver reconhecido seu talento. Da mesma forma, Inês d’Avena, carioca, com quem Isabel foi formar o duo Schifanoia (foto acima) e gravar um belíssimo CD de música barroca, ao som doce e belo de duas flautas femininas. No repertório, sonatas e suítes de compositores como Pierre Danican, Johann Joachim Quantz, Heinrich Simrock, Benoit Guillemant e o mago do barroco Georg Philipp Telemann. Um disco de rara beleza que ganhei de presente da Clara.
Pra que os amigos e as amigas do blog possam conhecer um pouco do talento dessa moça, posto abaixo uma participação dela em um quinteto, tocando fagote em peça de Telemann. Logo a seguir, o duo Schifanoia interpretando Philidor.