domingo, 13 de outubro de 2019

Caridade e tolerância tornam santa a brasileira Irmã Dulce

Irmã Dulce, em desenho do jornalista Bartolomeu Rodrigues

Religião, assim como nacionalismo, são dois temas complexos e difíceis de serem abordados. No caso do primeiro, tenho percebido que pode ajudar, e tem ajudado muito pessoas a superarem suas dores, até mesmo propiciando conforto e alento aos mais necessitados. Quando atua no âmbito da família, nos seus respectivos lares, e nas igrejas, a religião pode e tem feito o bem. O perigo começa quando avança para temas mais amplos da sociedade e tenta impor convicções às pessoas e grupos de pessoas. Se a carga de fanatismo for intensa, os riscos de interferir negativamente é bem maior. Os exemplos ao longo da história são muitos, desde as Cruzadas e a Santa Inquisição – ações promovidas pela então poderosa Igreja Católica.


O ponto nevrálgico é a intolerância. Na sociedade moderna, exemplos estão no fundamentalismo islâmico e na não-aceitação de alguns cristãos, evangélicos principalmente, com relação a outras crenças, como o candomblé, o espiritismo e os pais-de-santo. Onde a intolerância predomina, a capacidade de se fazer o bem, sem olhar a quem, sofre considerável enfraquecimento.

Faço essa reflexão porque a Igreja Católica, neste domingo, tornou Santa a brasileira, da Bahia, Irmã Dulce. Um exemplo de pessoa quando o quesito é justamente a aceitação dos indivíduos como eles são. Foi um ser humano, durante toda a sua vida, extremamente caridoso.

Madre Teresa de Calcutá e e Irmã Dulce

Aliás, o tema caridade é um dos mais intrigantes no universo das relações humanas. O que leva uma pessoa a dedicar-se plena e integralmente a ajudar o próximo, sem maiores questionamentos sobre quem é o necessitado, sua origem, sua classe social? O que teria levado, por exemplo, madre Teresa de Calcutá a fazer exclusivamente o bem, sem olhar a quem? Ou mesmo a irmã Dulce, agora canonizada pelo Papa Francisco?

Alguns desses exemplos tornaram-se conhecidos mundialmente. Outros ficaram e permanecem no anonimato. Há também aqueles resgatados pela memória de algum escritor ou de algum dos seus socorridos.

Esse tema ocorre-me não apenas porque hoje a irmã Dulce tornou-se Santa, mas principalmente por relembrar um episódio que tive a oportunidade de ler no livro A Trégua, de Primo Levi. Conta ele que, depois de terem sido salvos pelos soldados russos, alguns dos seres que perambulavam pelo campo de concentração de Buna-Monowitz foram transferidos para Auschwitz.

Campo de concentração Auschwitz, logo após o fim da guerra

Lá ele conheceu uma criança de aparentemente três anos de idade, que, como não tinha nome, acabou sendo chamada de Hurbineck. Ele era um nada, um filho da morte, um filho de Auschwitz. “Estava paralisado dos rins para baixo, e tinha as pernas atrofiadas, tão adelgaçadas como gravetos”. Não falava palavra e assim permaneceu por cerca de um mês.

Foi Henek-König, um dos poucos que não estavam doentes nem convalescentes, quem mais cuidou dele de forma tranquila e obstinada. “Sentava-se junto à pequena esfinge, imune à autoridade triste que dela emanava; levava-lhe comida, ajustava-lhe as cobertas, limpava-o com mãos habilidosas, desprovidas de repugnância; e falava-lhe, naturalmente, em húngaro, com voz lenta e paciente”. Hurbineck deu seu último suspiro nos primeiros dias de março de 1945, “liberto mas não redimido”.

Que razões, humanas ou sobre-humanas, levam uma pessoa que viveu, e ainda vivia os horrores da guerra e dos campos de concentração, a atitudes espontâneas e profundas de caridade? Justamente ele, Henek, que, segundo a narrativa do autor, “guardava instintos pacatamente sanguinários”? Justamente ele que, por razões de sobrevivência, quando havia seleção no Bloco das crianças, era quem as escolhia?

Dizem alguns filósofos que a caridade faz mais bem a quem a pratica do que a quem a recebe. Isso provavelmente ocorre quando exercida com desprendimento, sem objetivos outros que não o bem em si mesmo. Sem mesquinharias e sem vontade de aparecer. É um ato que deve vir do coração, do fundo da alma. Um ato de amor.

Madre Teresa de Calcutá fez a seguinte declaração, ao ouvir de uma pessoa que não daria banho em um leproso nem por um milhão de dólares: “Eu também não. Só por amor se pode dar banho em um leproso”.

Henek provavelmente deve ter tido os mesmos sentimentos ao cuidar do pequeno desconhecido Hurbineck. O que ele poderia querer em troca por ajudar uma criança isolada do mundo, em Auschwitz, no final de uma grande e tenebrosa Guerra Mundial?

A caridade é um tema intrigante. Ela é a base de tanta admiração e respeito por Irmã Dulce, agora santificada. Milhares de pessoas acorreram à Praça do Vaticano para comemorar essa decisão da Igreja Católica.

Outro tema intrigante é o da humildade... Mas aí é outra história...

sábado, 12 de outubro de 2019

Dia de ser a criança que há em todos os seres

Resultado de imagem para dia da criança imagens

Hoje é Dia da Criança. Momento para refletir um pouco sobre o universo infantil. Os brinquedos de criança, por exemplo, não são apenas meros passatempos. Fazem parte também da nossa cultura, tanto que ficam arraigados em nossas memórias. São reminiscências que nos lembram de épocas, fatos passageiros e mesmo situações marcantes que estão associadas às nossas histórias. E isso não apenas no Brasil, nem tão pouco somente no interior, mas também nos grandes centros urbanos, cercados pela modernização, e nos países que alcançaram alto grau de desenvolvimento tecnológico.

O mundo de hoje está assentado na tecnologia, o que tirou as crianças dos brinquedos de rua, tipo peão, bolinhas de gude, soltar pipas, finca. Sobraram, talvez, as peladas de rua, skates, andar de bicicleta. Meus filhos viveram essa transição, com a chegada do computador e dos vídeos-games; inicialmente, bem simplesinhos e depois bastante sofisticados. Ramiro nasceu em 1983 e o Jordano, em 1989. Ainda brincaram de bolinhas de gude, as quais o Jojô dizia que eram de “vlido”.

Resultado de imagem para brinquedo de peão

Já a minha memória dos brinquedos está fortemente associada a pessoas e às estações do tempo. Jogar bola era prazeroso sob o sol quente daquele interior goiano, ou mesmo debaixo de um toró daqueles que mal se conseguia enxergar a bola. Mas, rodar pião, que era um brinquedo maravilhoso, está associado ao tempo seco e quente. Já a finca – que chamávamos de triângulo por causa das casinhas que eram desenhadas com essa forma geométrica – só podia ser praticada no período das chuvas.

Meus brinquedos também estão associados de forma carinhosa a Antônio Seabra – um cidadão que frequentava a nossa casa, executava pequenos serviços e de certa forma fazia parte da família. Ele construía bilboquês, que a gente chamava de biloquês, e outros brinquedos. Arrasou quando construiu uma mesinha de sinuca, em torno da qual passávamos horas e mais horas nos divertindo.

Resultado de imagem para brincadeira de roda

Buscar caju nas serras e pequi no mato era uma atividade plenamente associada à determinada época do ano. Chegávamos a chamar as primeiras chuvas de “chuva do caju”. Tomar banho nos córregos e nos rios só era possível e permitido em determinados períodos em que os riscos eram menores.

De noite, as brincadeiras enchiam as ruas e geralmente estavam associadas ao folclore brasileiro e português, com cantigas de roda e outras danças. Boa hora para se gastar bastante energia com o Pique de Lata, Cadeirinha Salve e o Pique Esconde. Descer calçada abaixo em carrinho de rolimã era adrenalina pura. Em Uruaçu, Goiás, descer a avenida Tocantins de bicicleta, serpenteando os postes de energia elétrica, dava um frio bom na barriga.

Tinham alguns presentes que eram aguardados ansiosamente, nas festas de aniversário e no Natal: chuteiras (vejam a cara do garotão na foto), bola de cobertão, revólver de espoleta e depois, bicicleta. À medida que íamos crescendo, no entanto, as brincadeiras começavam a perder a pureza e a inocência, que ficavam depositadas lá na arte de brincar de cozinhadinho com as meninas...

Comecei a lembrar de tudo isso depois que vi um belo vídeo do grupo português Deolinda, sobre o qual já escrevi no blog (para ler ou reler clique aqui). Outro vídeo maravilhoso sobre o tema é o da canção Bola de Gude, Bola de Meia, de Fernando Brant e Milton Nascimento. Lembrei também da canção de João Bosco e de que nossos brinquedos não tinham correlações com o papel machê. Nem tão pouco tínhamos despertado nossas consciências para questões ecológicas. O politicamente correto ainda não havia entrado em pauta – até porque as agressões ao meio físico, se e quando elas existiam, eram realmente infantis e facilmente absorvidas pelo meio ambiente, até então, preservado.

Assim, de lá para cá, passaram-se alguns anos. É bom olhar pelo retrovisor e perceber que as nossas brincadeiras infantis estavam bem associadas ao universo cultural. Não só no Brasil. Também lá em Portugal, nossa origem. No velho e no novo mundo, ser criança sempre foi cultura.
Bom dia às crianças da criança que há em todos nós!


Ser criança
José Carlos Camapum Barroso

Há em mim uma criança
Que teima em existir,
Encher de esperança
Um coração frágil...

Quer abrir meus olhos
Fechados por anos no servir;
Erguer minha cabeça
Abaixada pelo tempo,
Virada pelo vento,
Tempestade do existir.
Quer a mente cheia
De sonhos e ilusões,
Distante de tensões,
Em paz com o porvir.

Traz uma voz suave,
Sussurra no ouvido
E então me acalma.
Uma criança rebelde,
Assim, é a própria paz,
Sabe resgatar a alma
Trazer de volta sonhos...
Tudo que perdi.




sexta-feira, 4 de outubro de 2019

Dia para se comemorar os poetas e seus sonhos


A magia da poesia está nos sonhos que irradia. Uma poção mágica capaz de transformar pessoas, resgatá-las do fundo de um poço onde, muitas vezes, nem percebiam que estavam mergulhadas. O poeta, com palavras, versos, estrofes, consegue inebriar os leitores com a mesma habilidade que os mágicos encantam as plateias nas ruas, palcos e picadeiros.
Fazemos essa reflexão porque hoje é o Dia Internacional do Poeta, e este ano caiu numa sexta-feira. O mundo deveria parar por alguns instantes para referenciar esses artistas que alcançaram uma linguagem universal, capaz de alcançar povos de diferentes culturas. Somos grandiosos quando o tema é poesia, pois, entre tantos outros, a humanidade pode produzir e conhecer poetas extraordinários como Homero, Shakespeare, T. S. Eliot, Fernando Pessoa, Baudelaire, Maiakovski...
A poesia conforta a alma, acalma a mente e dá sopro aos corações. O poeta é apenas um instrumento por meio do qual Deus espalha contentamento à humanidade. Florbela Espanca diz que...

Ser poeta é...
Florbela Espanca

Ser poeta é ser mais alto, é ser maior
Do que os homens! Morder como quem beija!
É ser mendigo e dar como quem seja
Rei do Reino de Aquém e de Além Dor!

É ter de mil desejos o esplendor
E não saber sequer que se deseja!
É ter cá dentro um astro que flameja,
É ter garras e asas de condor!

É ter fome, é ter sede de Infinito!
Por elmo, as manhãs de oiro e de cetim...
É condensar o mundo num só grito!

E é amar-te, assim, perdidamente...
É seres alma, e sangue, e vida em mim
E dizê-lo cantando a toda a gente!

Já o extraordinário poeta português Fernando Pessoa, preferiu dizer que o poeta é...

O fingidor
Fernando Pessoa

O poeta é um fingidor.
Finge tão completamente
Que chega a fingir que é dor
A dor que deveras sente.

E os que leem o que escreve,
Na dor lida sentem bem,
Não as duas que ele teve,
Mas só a que eles não têm.

E assim nas calhas da roda
Gira, a entreter a razão,
Esse comboio de corda
Que se chama o coração.

Pra comemorar o Dia Internacional do Poeta também é prazeroso ouvir um pouco de Vinícius de Moraes. Saravá, grande poetinha!

quinta-feira, 3 de outubro de 2019

A invisível transparência que trespassa corações


Transparência
José Carlos Camapum Barroso

Invisível transparência
Nessa malemolência
Que endurece a pele
E blinda corações.

Almas que vagueiam
Pelos quatro lados
Dum espaço redondo...
Só mentes quadradas.

Almas que se perdem
No infinito adormecem
Em buracos-negros
De tantas indiferenças.

Mãos estendidas em vão
Não superam a solidão,
Inibem, traem a indignação
De tão poucos indignados.

Invisível transparência
Em tempos modernos
De tantas lentes, contatos
Instantaneamente sós...

Almas que se amoldam
Em becos, ruas e avenidas...
Não dormem mas tiram
O sono de passantes.

Porque não acordam
Trazem recordações
Sempre desprezíveis,
Preservadas na indiferença.

Invisível transparência
De uma dor trespassada,
Transpassada no tempo
De sempre para sempre.