Não
é por acaso que 31 de dezembro é considerado o Dia da Esperança. Um ano termina
e o outro estará se iniciando. Nada mais natural, então, que na passagem de um
período para o outro, renovemos nossos votos de esperança e paz. Neste ponto, tocamos
num ponto de discordância entre filósofos. Há os que consideram que a esperança
não é uma virtude, como Santo Agostinho, e os que pensam bem ao contrário, como
Gregório de Nazianzo, o Teólogo.
Jean
Paul Sartre, distante dos pensadores cristãos, é autor da frase “eu resisto e
sei que morrerei na esperança”, que tanta estranheza causou àqueles que se
dedicaram à obra do pensador francês. Na verdade, Sartre quis enfatizar o
projeto, a ação do homem que caminha rumo a um objeto futuro, tendo em vista o
presente, aquela certeza da realização da ação. É como se o homem estivesse
sempre formando sua essência, que nunca está pronta, e, por isso mesmo, ele
precisa se fazer.
Esse prolegômeno é por uma razão simples. Não há nada de absurdo,
ou exagerado, em se ter o último dia do ano como o da esperança. Não aquela
esperança comodista e acomodada, que se assenta no pensamento de que basta
esperar para que tudo venha a ocorrer.
A esperança precisa estar vinculada a
ações positivas, pensamentos firmes e determinados, tudo na certeza de que
ações de hoje podem nos garantir os frutos a serem colhidos no amanhã. Afastar
os maus pensamentos, a obsessão pela crise, a proximidade com fluidos
negativos, ajuda bastante a quem deseja resistir e, portanto, imaginar-se
morrendo de esperança, como Sartre. Investir na solidariedade, no amor ao
próximo e no engrandecimento daqueles que farão as gerações futuras, também é
um bom contorno para a esperança.
O ZecaBlog é um espaço
dedicado à cultura, desde que surgiu há quase nove anos, sempre com essa fé na
existência, na arte do fazer, no engenho de elaborar aquilo que nos torne mais
humanos e possa engrandecer o cidadão do futuro.
Nesse sentido, é que desejamos às
amigas e amigos, visitadores e colaboradores deste espaço, sempre com paciência
e carinho para com as postagens, um ano novo cheio de realizações e pleno de
conquistas. Que 2020 nos encha de alegria e derrame sobre todas as mentes e
corações o prazer e o contentamento que vêm das artes e da cultura!
Salve a esperança! Ela é a última que
morre. E se for preciso “morrerei na esperança”. Mas não nos esqueçamos que,
também, a esperança pode adoecer, sofrer combalida, quando não regada a
contento.
Beijos no coração de todos e até o ano
que vem!
Velhas Árvores
Olavo Bilac
Olha estas velhas árvores, mais belas
Do que as árvores
moças, mais amigas, Tanto mais belas
quanto mais antigas, Vencedoras da idade
e das procelas...
O homem, a fera e o
inseto, à sombra delas Vivem, livres da
fome e de fadigas: E em seus galhos
abrigam-se as cantigas E os amores das
aves tagarelas.
Não choremos,
amigo, a mocidade! Envelheçamos rindo.
Envelheçamos Como as árvores
fortes envelhecem,
Na glória de
alegria e da bondade, Agasalhando os
pássaros nos ramos, Dando sombra e
consolo aos que padecem!
Não
tem como não falar de consciência ecológica no dia de hoje. Primeiro porque o
dia é consagrado a uma reflexão sobre o tema. E principalmente porque no Brasil
vivemos um ano que tudo se fez em sentido contrário. Ou seja, o discurso
oficial do governo eleito democraticamente nas eleições passadas, e que tomo
posse em primeiro de janeiro, tem sido ostensivamente antipreservação, contra
qualquer coisa que caminhe na direção de uma política ambiental ou qualquer
ação e movimentos ecológicos.
Somos
todos ecochatos pelas lentes do ministro do meio ambiente e seu
chefe-maior, sobre os quais prefiro não citar os nomes. Um ano difícil e com
perspectivas, neste aspecto, de os próximos serão bem piores.
Tenho escrito sempre sobre as questões ambientais, as ameaças que são
tantas à preservação das florestas, da qualidade do ar que respiramos e da água
que nos garante a vida. Tenho sempre preocupado em mostrar tudo isso vinculado
às artes, à cultura, ao trabalho dos músicos e à ousadia dos poetas – afinal,
esse é o objetivo primeiro e maior deste blog. Foi assim que falei de Tom Jobim, Vital Farias, Elomar, Almir Sater e Tetê Espíndola - pra
rever cada post é só clicar nos respectivos links.
A inspiração definitiva para o dia de hoje só se completou quando contemplo
uma belíssima foto feita pela cidadã uruaçuense Sinvaline Pinheiro, que postou
essa obra prima lá no Facebook, alguns anos atrás. Nada mais, nada menos do que
um por de sol no nosso exuberante lago da Serra da Mesa, em Uruaçu, claro. A segunda foto também é do Lago Serra da Mesa, mas o autor não consegui identificar.
Essa foto acima é responsável pelos versos abaixo. Espero que ambos nos
ajude a lembrar que o meio ambiente existe e precisa ser preservado.
O
novo álbum de Maria Bethânia já está nas discotecas do universo internáutico. Mangueira: A Menina dos Meus Olhos é uma
homenagem da cantora à escola de samba que foi campeão, no carnaval de 2016,
com o enredo Maria Bethânia, A Menina dos
Olhos de Oyá. Naquele desfile, a Unidos da Mangueira tornou-se a campeã do
carnaval do Rio de Janeiro.
O
CD traz de volta a cantora aos estúdios, depois de cinco anos sem gravar um
disco. Para compensar essa longa ausência, já tem outro disco programado para
ser lançado logo, logo. Claros Breus
será um álbum produzido a partir de shows que a cantora pretende realizar no
Brasil e Portugal.
Na
esteira de novidades, Bethânia traz o maestro Letieres Leite, criador dos
arranjos e diretor musical do seu próximo show. Letieres é o mentor da Orkestra
Rumpilez, revolucionária big band de
Salvador. A parceria com Bethânia foi sugestão do irmão Caetano Veloso, e tem
por objetivo renovar a sonoridade que, embora reconhecidamente bela, estava
passando a sensação de repetitiva.
O
resultado é um disco lindo. Com arranjos realmente diferentes daqueles que
marcaram a carreira de Bethânia. Sua voz está ainda mais presente, num plano de
destaque que realça a beleza melódica das canções e a sempre marcante
dramaticidade da cantora.
No
repertório canções do mundo sambista da Mangueira. Passando pela antológica A
Flor e o Espinho e a belíssima Luz Negra, ambas de Nelson Cavaquinho. Três versões para Menina de Olhos de Oyá, entre elas, o próprio samba-enredo de 2016, campeão da
avenida. Outra com participação de Tantinho e uma terceira com Caetano e Moreno
Veloso. A clássica Sei Lá Mangueira, de Hermínio Bello de Carvalho e Paulinho
da Viola, é declamada e recebe solo de instrumentos de sopro e percussão de
tirar o fôlego.
Histórias
Para Ninar Gente Grande não poderia ficar de fora. Está lá no álbum, cantado e
recitado, o enredo que deu 20º título de campeã do carnaval carioca à Mangueira,
em 2019. Com certeza, um dos mais belos sambas de enredo de todos os carnavais.
Salve
Maria Bethânia! Salve a Mangueira, menina dos olhos de todos nós!
Desvario
é um tema que anda por aí, no dia a dia de todos nós. Tratado no teatro, na pintura, na
poesia, artes plásticas e em teses interessantes sobre o cinema, suas cenas, iluminação, nos diálogos
e passagens de cenas. Eu e o amigo Ocelo Mendonça, enfrentamos o desafio de
levar para o mundo da música o tema Desvario.
Aí
está para apreciação de todos. Ocelo foi cuidadoso não apenas na elaboração da
melodia, mas também nos arranjos, na execução dos instrumentos e ao escolher Leonel Laterza para interpretação. O rapaz é um craque, com sua voz
segura, melodiosa e um timbre inigualável e inconfundível.
Brasília
está em festa musical neste fim de semana. De hoje até segunda-feira (21 a
24/11), o cantor, compositor e violinista Antônio Nóbrega está na cidade com o
espetáculo Recital Para Ariano, no
Teatro da Caixa Cultural Brasília. Uma apresentação composta de romances, poemas,
martelos agalopados e toques instrumentais, que homenageia o também
pernambucano Ariano Suassuna, dramaturgo, poeta, romancista, ensaísta e um dos
grandes pensadores da sociedade brasileira.
Nessa viagem
musical, Nóbrega passa pelos romances “A Nau Catarineta”, “A Filha do Imperador
do Brasil”, pelas canções “O Rei e o Palhaço” e “Canudos” e pelas peças
instrumentais “Rasga” e “Ponteio Acutilado”. O artista é acompanhado dos
músicos Edmilson Capelupi (violão 7 cordas, viola e cavaquinho), Edson Alves
(baixo e violão), Leo Rodrigues (pandeiro, percussão e bateria), Olívio Filho
(acordeão) e Zé Pitoco (sax alto, clarinete e zabumba).
Nóbrega
lembra que já fazem mais de quarenta anos desde o momento em que Ariano o
convidou para integrar o Quinteto Armorial. “Dessa ocasião até praticamente a
sua morte, além da boa convivência e amizade que sempre cuidamos em manter,
estabelecemos também um vínculo artístico que se materializou em algumas peças
musicais”, acrescenta o músico. O artista pernambucano ressalta o
espetáculo também se constitui numa espécie de recital sentimental e que essas
músicas “foram tanto diretamente referenciadas em suas obras literárias –
particularmente na Pedra do Reino –, quanto, de modo indireto, inspiradas nas
prazerosas conversas que tivemos ao longo dos anos”.
Na
segunda-feira, Nóbrega vai ministrar a oficina Poesia e Romanceiro Populares Brasileiros. No encontro, aberto ao
público, o artista discorre sobre o nascimento e desenvolvimento das formas e
gêneros da poesia popular brasileira, desde a quadra, trova ou quadrinha – a
mais simples e universal-brasileira – até o galope à beira-mar, a mais complexa
delas. Nóbrega aborda, também, a cantoria nordestina, o romanceiro e a
literatura de cordel.
Falar
sobre Antônio Nóbrega é sempre prazeroso. Um artista de mão cheia, talentoso,
sensível e apaixonado por aquilo que produz e divulga no mundo da cultura.
Começou a estudar violino aos oito anos. Em 1971, foi convidado por Ariano
Suassuna para integrar o Quinteto Armorial, que tanto nos encantou ao longo de
toda a década de 1970. A partir desse momento, passou a estudar o universo da
cultura popular e posteriormente a criar espetáculos de teatro, dança e música,
entre eles: Brincante, Segundas
Histórias, O Marco do Meio Dia,
Figural, Na Pancada do Ganzá e Madeira
Que Cupim Não Rói.
Um
espetáculo imperdível para todos aqueles que amam a nossa música e valorizam a
nossa cultura.
Quem é branco tem dificuldade pra falar de racismo. Principalmente
para sentir, dimensionar e avaliar todas as consequências desse fenômeno sobre
as pessoas que foram, ou ainda são, vítimas de discriminações, preconceitos e
injustiças raciais.
É preciso refletir um pouco sobre isso, não apenas porque
no dia 18 de novembro se comemora o Dia Nacional do Combate ao Racismo, e no
dia de hoje (20/11), presta-se homenagem à Consciência Negra, mas, acima de
tudo porque temos compromissos, responsabilidades e deveres para com a
sociedade. Querendo ou não, estamos construindo, ou pelo menos ajudando a
construir, diariamente, um mundo que seja melhor e mais justo.
Se alguma evolução houve – acreditamos que sim – nos
relacionamentos diversos entre negros, brancos e mestiços na sociedade
brasileira, os créditos devem ser dados aos que historicamente foram e ainda
são, de alguma forma, vítimas da discriminação. Foram eles, por meio da
altivez, da compostura e do amor-próprio que nos forçaram e nos impuseram uma
sociedade onde os direitos e os deveres devam ser iguais para todos, ou pelo
menos reconhecidos como tais.
E esse processo tornou-se cada vez mais efetivo pelas manifestações culturais e
artísticas do povo brasileiro. O negro veio gradativamente se impondo e se
apresentando com todo seu potencial – não apenas artísticos, mas também, e
principalmente, intelectual – por meio da música, do teatro, do cinema, da
dança, da literatura e de tantas outras manifestações desse Brasil tão rico
culturalmente.
Cartaz de Latuff que foi quebrado pelo deputado-coronel Tadeu
Concordo plenamente com a música de
Marcos e Paulo Sérgio Vale: Black is Beautiful, que coloco abaixo
na interpretação magistral de nossa saudosa Elis Regina. Várias manifestações
contra o racismo foram postadas hoje em blogs, no Facebook, Orkut, Twitter e
tantas outras redes sociais. O ZecaBlog não poderia
deixar passar em branco, nem em negro, muito menos em cinzas, um dia tão
significativo como esse para cidadãos que se pretendem justos, íntegros e
modernos.
Do outro lado da moeda, o deputado coronel Tadeu (PSL) quebrou um quadro em
exposição na Câmara com o desenho de um jovem negro assassinado e um policial
com uma arma na mão. A obra é do artista plástico Latuff, que reagiu: “se fazem
isso contra um cartaz, imagine contra gente de pele negra”. Ou seja, os
arrogantes, autoritários e prepotentes racistas ainda estão soltos por aí.
PS – Meu abraço afetuoso e fraternal às amigas e amigos negros, brancos,
pardos, morenos, mestiços, de qualquer outro matiz, ou matriz, que se queira
qualificá-los. Homenageio a todos resgatando a memória do amigo Hamilton de
Almeida, sobre quem já escrevi aqui neste blog. Um negro de coração negro até na
alma. Sinceramente? Acho que sou um branco de alma negra. E tenho muito
orgulho disso.
Roberto Menescal, Gisèle Santoro, Genildo Fonseca e Ronaldo Bastos
O
Prêmio Profissionais da Música é o mais importante empreendimento musical e uma
das atividades culturais mais significativas do Brasil de hoje. A premiação
deste ano, ocorrida no Clube do Choro, na semana passada, foi a maior prova
disso. Por tudo que aconteceu e por todos que compareceram e puderam prestigiar
e usufruir de um belo e rico encontro musical. Foi excepcional, emocionante e
enriquecedor.
A
grandeza dessa premiação ganha ainda mais corpo quando se leva em conta as
dificuldades encontradas para sua organização, existência e continuidade, desde
o primeiro PPM, realizado no ano de 2015. Nadando contra essa maré, e a favor
de uma valorização constante e à altura dos que vivem de e para a música, o
produtor cultural Gustavo Ribeiro de Vasconcellos tem alcançado seu objetivo, e
pode ser considerado, juntamente com toda sua equipe, um vitorioso.
O produtor Gustavo Vasconcellos e ao fundo imagem de Cláudio Santoro
O PPM de 2019 recebeu inscrições de 19 estados brasileiros.
Ao todo, 1.436 inscritos, superando as 958 do ano anterior, mantendo o
ritmo de crescimento, ano a ano. Na sessão de premiação, a presença de 300 dos 490
finalistas coroou o sucesso de um evento prestigiado por uma plateia de quase
400 pessoas.
Sucesso
absoluto. Durante três dias, foram levadas ao público brasiliense as seguintes
atividades: sete Workshop, três Work Shows, doze painéis, cinco Pocket Shows, três dias de show
na Funarte, com sete artistas, uma sessão solene, dois documentários musicais
exibidos, cinco lançamentos de livros e uma cerimônia de premiação para 67
categorias, com uma novidade de última hora: três premiações pelo voto popular.
O vocal Gente de Casa apresentou canções de Ronaldo Bastos
Três atrações musicais especiais marcaram a noite da
premiação e reverenciaram os três homenageados deste ano.. O primeiro a se
apresentar foi o violonista André Siqueira, interpretando “Amor em Lágrimas”,
música de Claudio Santoro e letra de
Vinícius de Morais. Em seguida, Diego Salvetti, interpretando
“Aquarela”, sucesso de Toquinho, artista brasileiro empresariado por Genildo Fonseca há mais de 30 anos.
O grupo Gente de Casa brindou ao público com um bonito arranjo das
músicas Trem Azul e Todo Azul do Mar, composições de Ronaldo Bastos, um dos fundadores do Clube da Esquina. No
vídeo abaixo, Diego Salvetti interpretando a canção que apresentou na premiação.
Depois de todo esse sucesso,
Gustavo Vasconcellos antecipa que “o próximo PPM vai homenagear os 60 anos de
Brasília, simbolizados por três de seus grandes artistas reverenciados em todo
o País”. A sexta edição vai ocorrer entre os dias 13, 14 e 15 de novembro. As inscrições
para 80 categorias começam no dia 1º de março de 2020.
O Brasil comemorou, nesta
terça-feira (05), o Dia Nacional do Radioamador e, também, o Dia da Cultura. Amanhã (07) comemora-se o Dia do Radialista. Todas essas datas estão sempre bem associadas, andam juntas, principalmente em nossa
memória. O universo do rádio, então, está embrenhado em minhas lembranças, por
ser, sem dúvidas, uma das paixões da minha vida. Boa parte da infância e
juventude, passei com o ouvido colado naqueles tradicionais aparelhos de rádio,
que só existem como relíquias.
São
deliciosas as surpresas que vêm pelas ondas sonoras, tanto nos noticiários,
quanto nos programas de músicas e humorísticos. Acho prazeroso, por exemplo,
colocar cinco discos e deixar tocar músicas aleatoriamente, recurso hoje
sofisticadamente chamado de shuffle. Quando faço isso, os meninos
lá em casa zombam: "lá vem o saudosista do rádio...".
Boa parte das minhas recordações de infância tem
alguma coisa vinculada ao rádio. Lembro que certo dia estava sentado numa
cadeira, ao lado da mesinha do rádio, cumprindo meu ritual, quando entra o
amigo de infância Zé Renato Pereira (de saudosa memória), dizendo: “seu avô
morreu, tá sabendo que seu avô morreu!”. Tinha morrido, mesmo. E o corpo de seu Antônio
Camapum, mais conhecido por seu Toinho, já estava chegando a Uruaçu, vindo de
Goiânia, depois de uma temporada tentando debelar um câncer na capital do
Estado. Lembro um pouco do velório, as pessoas chorando muito e eu assustado
com tudo aquilo. Depois, durante alguns dias, o rádio ficou coberto com um pano
preto. E eu sem entender o que estava acontecendo. Além de perder meu avô,
ainda não podia ouvir rádio? Explicaram-me que era preciso guardar luto.
Adorava ir para casa do tio e padrinho Batista
Coelho Barroso (foto ao lado), radioamadorista licenciado, que tornava as comunicações mais
eficazes naqueles anos das décadas de 1950 e 1960, na pequena Uruaçu, encravada
no coração do Brasil e do mundo - quiçá, do universo. Ele transmitia em PRK, um
número tal, que já não me lembro, e com a deixa de Brasil-Guatemala-França.
Sempre que falo do rádio, ou do radioamadorismo, lembro-me dele, que já nos
deixou e foi surfar, com toda sua bondade e talento, em outras ondas desse
imenso universo.
A comunicação via rádio é fácil, direta, objetiva.
O seu poder de difusão e de penetração nas diversas classes sociais e pelo país
afora é inestimável. Todos amam o rádio, sejam radialistas, jornalistas,
comentaristas, músicos, e até mesmo, pasmem, os políticos!
Já temos três datas homenageando esse veículo de
comunicação e seus profissionais. Uma dessas datas, o Dia do Radialista, em 21 de setembro,
foi criado por Getúlio Vargas para comemorar a instituição do piso salarial da
categoria; o outro Dia do Radialista, em 07 de novembro, foi
instituído pelo presidente Lula, em 2006, para homenagear Ary Barroso, músico e
locutor esportivo de raro talento; e o tradicional Dia do Rádio, que se
comemora em 25 de setembro, criado para reverenciar Roquete Pinto – o pai do
rádio no Brasil.
Até na criação do rádio tem dedo de
brasileiro. O inventor, oficialmente, é o
italiano Guglielmo Marconi, que criou o "telégrafo sem fio", um
modelo inicial que se desenvolveu até o sistema que conhecemos hoje. Mas
há também quem atribua essa invenção ao padre brasileiro Roberto Landell de
Moura, que, em 1894, desenvolveu aparelho semelhante e efetuou a emissão e
recepção de sinais a uma distância de oito quilômetros, do bairro de Santana
para os altos da Avenida Paulista, em São Paulo. Religiosos fanáticos teriam
destruído seu aparelho e anotações por se tratar de pacto com o demônio, o que
atrasou o registro da invenção.
Ary Barroso (foto ao lado), merecidamente homenageado com o Dia do Radialista, era uma figura ilustre
e folclórica do mundo do rádio. Flamenguista apaixonado, narrava os jogos de
forma bastante peculiar. Quando o time adversário se aproximava da grande área
do seu clube, em jogada perigosa, ele gritava: “Não quero nem ver!”. Se o
Flamengo sofria um gol, então, ele acrescentava: “E deu-se a merda”. Vale lembrar que o Radialista também é
homenageado no dia 21 de setembro, data em que foi criado o salário base para
esses profissionais, em 1943, durante o governo de Getúlio Vargas.No dia 25 de setembro é celebrado o Dia do Rádio, em
homenagem a Edgard Roquette-Pinto, que nasceu nessa data no ano de 1884. Em
1923, ele criou a Rádio Sociedade do Rio de Janeiro, a primeira emissora do
Brasil.
O rádio, os radioamadores e os
radialistas merecem nossas homenagens. São veículos de comunicação fantásticos,
cheios de histórias curiosas e intrigantes. Nessas ondas, podemos surfar com
segurança e tranquilidade. Elas não nos oferecem riscos, só contentamento.
Irmã Dulce, em desenho do jornalista Bartolomeu Rodrigues
Religião, assim como
nacionalismo, são dois temas complexos e difíceis de serem abordados. No caso
do primeiro, tenho percebido que pode ajudar, e tem ajudado muito pessoas a
superarem suas dores, até mesmo propiciando conforto e alento aos mais necessitados. Quando
atua no âmbito da família, nos seus respectivos lares, e nas igrejas, a
religião pode e tem feito o bem. O perigo começa quando avança para temas mais amplos
da sociedade e tenta impor convicções às pessoas e grupos de pessoas. Se a
carga de fanatismo for intensa, os riscos de interferir negativamente é bem
maior. Os exemplos ao longo da história são muitos, desde as Cruzadas e a Santa
Inquisição – ações promovidas pela então poderosa Igreja Católica.
O ponto nevrálgico é
a intolerância. Na sociedade moderna, exemplos estão no fundamentalismo islâmico e na não-aceitação
de alguns cristãos, evangélicos principalmente, com relação a outras crenças,
como o candomblé, o espiritismo e os pais-de-santo. Onde a intolerância
predomina, a capacidade de se fazer o bem, sem olhar a quem, sofre considerável
enfraquecimento.
Faço essa reflexão
porque a Igreja Católica, neste domingo, tornou Santa a brasileira, da Bahia, Irmã
Dulce. Um exemplo de pessoa quando o quesito é justamente a aceitação dos indivíduos como eles são. Foi um ser humano, durante toda a sua vida, extremamente
caridoso.
Madre Teresa de Calcutá e e Irmã Dulce
Aliás, o tema
caridade é um dos mais intrigantes no universo das relações humanas. O que leva
uma pessoa a dedicar-se plena e integralmente a ajudar o próximo, sem maiores
questionamentos sobre quem é o necessitado, sua origem, sua classe social? O
que teria levado, por exemplo, madre Teresa de Calcutá a fazer exclusivamente o
bem, sem olhar a quem? Ou mesmo a irmã Dulce, agora canonizada pelo Papa Francisco?
Alguns desses exemplos tornaram-se conhecidos mundialmente. Outros ficaram
e permanecem no anonimato. Há também aqueles resgatados pela memória de algum
escritor ou de algum dos seus socorridos.
Esse tema ocorre-me não apenas porque hoje a irmã Dulce tornou-se Santa,
mas principalmente por relembrar um episódio que tive a oportunidade de ler no
livro A Trégua, de Primo Levi. Conta ele que, depois de terem sido
salvos pelos soldados russos, alguns dos seres que perambulavam pelo campo de
concentração de Buna-Monowitz foram transferidos para Auschwitz.
Campo de concentração Auschwitz, logo após o fim da guerra
Lá ele conheceu uma criança de aparentemente três anos de idade, que,
como não tinha nome, acabou sendo chamada de Hurbineck. Ele era um nada, um
filho da morte, um filho de Auschwitz. “Estava paralisado dos rins para baixo,
e tinha as pernas atrofiadas, tão adelgaçadas como gravetos”. Não falava
palavra e assim permaneceu por cerca de um mês.
Foi Henek-König, um dos poucos que não estavam doentes nem
convalescentes, quem mais cuidou dele de forma tranquila e obstinada.
“Sentava-se junto à pequena esfinge, imune à autoridade triste que dela
emanava; levava-lhe comida, ajustava-lhe as cobertas, limpava-o com mãos
habilidosas, desprovidas de repugnância; e falava-lhe, naturalmente, em
húngaro, com voz lenta e paciente”. Hurbineck deu seu último suspiro nos
primeiros dias de março de 1945, “liberto mas não redimido”.
Que razões, humanas ou sobre-humanas, levam uma pessoa que viveu, e
ainda vivia os horrores da guerra e dos campos de concentração, a atitudes
espontâneas e profundas de caridade? Justamente ele, Henek, que, segundo a
narrativa do autor, “guardava instintos pacatamente sanguinários”? Justamente
ele que, por razões de sobrevivência, quando havia seleção no Bloco das crianças,
era quem as escolhia?
Dizem alguns filósofos que a caridade faz mais bem a quem a pratica do
que a quem a recebe. Isso provavelmente ocorre quando exercida com
desprendimento, sem objetivos outros que não o bem em si mesmo. Sem
mesquinharias e sem vontade de aparecer. É um ato que deve vir do coração, do
fundo da alma. Um ato de amor.
Madre Teresa de Calcutá fez a seguinte declaração, ao ouvir de uma
pessoa que não daria banho em um leproso nem por um milhão de dólares: “Eu
também não. Só por amor se pode dar banho em um leproso”.
Henek provavelmente deve ter tido os mesmos sentimentos ao cuidar do
pequeno desconhecido Hurbineck. O que ele poderia querer em troca por ajudar
uma criança isolada do mundo, em Auschwitz, no final de uma grande e tenebrosa
Guerra Mundial?
A caridade é um tema intrigante. Ela é a base de tanta admiração e
respeito por Irmã Dulce, agora santificada. Milhares de pessoas acorreram à
Praça do Vaticano para comemorar essa decisão da Igreja Católica.
Outro tema intrigante é o da humildade... Mas aí é outra história...
Hoje é Dia da Criança. Momento para refletir um pouco sobre o
universo infantil. Os brinquedos de criança, por exemplo, não são apenas meros
passatempos. Fazem parte também da nossa cultura, tanto que ficam arraigados
em nossas memórias. São reminiscências que nos lembram de épocas, fatos
passageiros e mesmo situações marcantes que estão associadas às nossas
histórias. E isso não apenas no Brasil, nem tão pouco somente no interior, mas
também nos grandes centros urbanos, cercados pela modernização, e nos países
que alcançaram alto grau de desenvolvimento tecnológico.
O mundo de hoje está assentado na tecnologia, o que tirou as
crianças dos brinquedos de rua, tipo peão, bolinhas de gude, soltar pipas,
finca. Sobraram, talvez, as peladas de rua, skates, andar de bicicleta. Meus
filhos viveram essa transição, com a chegada do computador e dos vídeos-games; inicialmente, bem simplesinhos e depois bastante sofisticados. Ramiro
nasceu em 1983 e o Jordano, em 1989. Ainda brincaram de bolinhas de gude, as quais
o Jojô dizia que eram de “vlido”.
Já a minha memória dos brinquedos está fortemente associada a
pessoas e às estações do tempo. Jogar bola era prazeroso sob o sol quente
daquele interior goiano, ou mesmo debaixo de um toró daqueles que mal se
conseguia enxergar a bola. Mas, rodar pião, que era um brinquedo maravilhoso,
está associado ao tempo seco e quente. Já a finca – que chamávamos de triângulo
por causa das casinhas que eram desenhadas com essa forma geométrica – só podia
ser praticada no período das chuvas.
Meus brinquedos também estão associados de forma carinhosa a
Antônio Seabra – um cidadão que frequentava a nossa casa, executava pequenos
serviços e de certa forma fazia parte da família. Ele construía bilboquês, que
a gente chamava de biloquês, e outros brinquedos. Arrasou quando
construiu uma mesinha de sinuca, em torno da qual passávamos horas e mais horas
nos divertindo.
Buscar caju nas serras e pequi no mato era uma atividade
plenamente associada à determinada época do ano. Chegávamos a chamar as
primeiras chuvas de “chuva do caju”. Tomar banho nos córregos e nos rios só era
possível e permitido em determinados períodos em que os riscos eram menores.
De noite, as brincadeiras enchiam as ruas e geralmente estavam
associadas ao folclore brasileiro e português, com cantigas de roda e outras
danças. Boa hora para se gastar bastante energia com o Pique de Lata,
Cadeirinha Salve e o Pique Esconde. Descer calçada abaixo em carrinho de rolimã
era adrenalina pura. Em Uruaçu, Goiás, descer a avenida Tocantins de bicicleta,
serpenteando os postes de energia elétrica, dava um frio bom na barriga.
Tinham alguns presentes que eram
aguardados ansiosamente, nas festas de aniversário e no Natal: chuteiras (vejam
a cara do garotão na foto), bola de cobertão, revólver de espoleta e
depois, bicicleta. À medida que íamos crescendo, no entanto, as brincadeiras
começavam a perder a pureza e a inocência, que ficavam depositadas lá na arte
de brincar de cozinhadinho com as meninas...
Comecei a lembrar de tudo isso depois
que vi um belo vídeo do grupo português Deolinda, sobre o qual já escrevi
no blog (para ler ou reler clique aqui). Outro vídeo maravilhoso sobre o tema é o da canção Bola de Gude, Bola de Meia, de Fernando Brant e Milton Nascimento. Lembrei também da canção de João Bosco e de que nossos brinquedos não tinham
correlações com o papel machê. Nem tão pouco tínhamos despertado nossas
consciências para questões ecológicas. O politicamente correto ainda não havia
entrado em pauta – até porque as agressões ao meio físico, se e quando elas
existiam, eram realmente infantis e facilmente absorvidas pelo meio ambiente,
até então, preservado.
Assim, de lá para cá, passaram-se
alguns anos. É bom olhar pelo retrovisor e perceber que as nossas brincadeiras
infantis estavam bem associadas ao universo cultural. Não só no Brasil. Também
lá em Portugal, nossa origem. No velho e no novo mundo, ser criança sempre foi
cultura.
Bom dia às crianças da criança que há
em todos nós!