segunda-feira, 31 de agosto de 2020

Até blog já tem dia internacional para ser homenageado



O Dia Internacional do Blog, comemorado hoje, fecha o mês de agosto e abre o mês de setembro, quando começa a Primavera e todos esperam que seja prenúncio de dias melhores. Não foram fáceis esses meses de isolamento e de enfrentamento de um pandemia agressiva e destruidora, em todo o mundo. As artes tiveram papel importante nesse tempo. E o ZecaBlog procurou fazer a sua parte, prestando sua contribuição

A escolha da data tem a ver com a questão visual. O dia 31/08 lembra a palavra Blog. Dizem os historiadores que os blogs começaram a surgir na segunda metade da década de 1990. Nessa fase inicial, eram lugares reservados para se escrever sobre atividades diárias. Tarefas cotidianas passaram a ser publicadas naquele espaço reservado a amigos e pessoas próximas.

Em 1997, o norte-americano Jorn Bargem desenvolveu um sistema para que as pessoas escrevessem na internet sobre tudo o que achassem interessante. Ele nomeou essa atividade de “weblog”. A internet ainda estava na sua fase inicial e não existiam tantos serviços disponíveis. Mesmo assim, o weblog foi considerado um sucesso.


Foi somente em 1999 que os blogs começara a se transformar em uma febre, mais marcadamente na primeira década deste século. Após um tempo, as plataformas ficaram mais completas, e isso fez com que blogar se transformasse em uma atividade respeitada.Blogger (hoje pertencente ao Google) foi uma das primeiras empresas a fornecer sistemas automáticos de publicação de blogs.  

A principal inovação estava no fato de que qualquer leigo em ferramentas tecnológicas poderia aprender e começar a escrever rapidamente. Em 2000, uma mudança tornou as postagens mais dinâmicas. Nesse ano, o Blogger transformou cada post em uma página única. Dessa forma, as pessoas poderiam divulgar uma nota facilmente. Essa inovação foi chamada de permalink, nome que permanece até hoje.

Unido aos comentários, os permalinks transformaram os blogueiros em escritores. Os textos não eram mais um amontoado de frases soltas, mas algo em que as pessoas prestavam atenção. Nesse momento, os primeiros haters (odiadores) nasceram, além de pessoas condenando o conteúdo postado ou mesmo corrigindo erros de português.

Abro um parêntese para lembrar que o músico, compositor e cantor Tom Zé foi vítima de ataques do haters. Não pestanejou e respondeu com a canção Tribunal do Feicibuqui. Gilberto Gil também dedicou uma música ao tema redes sociais. Os dois estão em vídeos abaixo.


Por fim, outra novidade importante foi o feed de notícias. Ainda existente, ele é uma ferramenta que permite aos leitores assinar um blog e acompanhar as suas novidades. Dessa maneira, as pessoas poderiam se conectar facilmente com os seus blogs favoritos.

No Brasil, Nemo Nox é reconhecido como o 1º blogueiro. Em 1998, ele criou O Diário da Megalópole, no qual escrevia sobre as suas ideias e as suas experiências.

Diferentemente do principal uso no exterior, ele não inseria conteúdo sobre a sua vida pessoal, mas principalmente sobre atividades culturais. Mesmo naquele tempo, já apareciam pessoas discordando das suas publicações, o que o levava a conversas mais profundas.

Estimulado pelo jornalista e amigo Maranhão Viegas, virei blogueiro em 2011, voltando o foco para o universo cultural, jornalístico e de lazer. O pontapé inicial foi dado, e não podia ser diferente, por meio da poesia (para ler clique aqui).

De lá pra cá, foram muitos textos, fotografias, músicas, crônicas, notícias, poemas e poesias. Estamos chegando a 400 mil visualizações de páginas, com uma média diária de 100 visualizações. O maior número de leitores é do Brasil, seguido pelos Estados Unidos, Alemanha, Portugal, Rússia, França, Ucrânia, Canadá, Polônia, Reino Unido e Espanha.

O nosso sonho é estimular a produção cultural, valorizar os artistas e seus trabalhos, num país em que a cultura tem sido relegada a segundo ou terceiro plano. Esse trabalho foi intensificado nesses meses de pandemia. A necessidade de ampliar o apoio aos artistas cresceu, na mesma proporção em que aumentou a ansiedade de cidadãos por cultura e diversão, em face dos isolamentos sociais.

Vamos continuar nossa missão, árdua, mas, acima de tudo, prazerosa. Salve a cultura, o blog, os blogueiros e os apreciadores dessas páginas!


domingo, 30 de agosto de 2020

Madrugada na rua é remédio para a alma e o coração

Desenho - Emília Ulhoa
Quem tem um pezinho na boemia sabe quanto é saudável a madrugada. Não a madrugada desse tempo de pandemia, em que, ao perdemos o sono, o que se nos oferece é o limitado espaço de uma janela para procurarmos pela lua. Madrugada boa é a dos seresteiros que amanhecem na rua e saboreiam os diversos momentos noturnos.

Na nossa pequena Uruaçu – aquela que fica no centro de Goiás, do Brasil, do mundo e quiçá do Universo –, um dos programas prediletos era ficar à noite na rua, num banco de praça, tocando violão, depois fazendo serenata e, mais tarde, improvisando algum tipo de refeição antes do amanhecer.

Desenho - Emília Ulhoa
Naquelas madrugadas, tudo era lindo, as pessoas eram boas e todos estavam vivos. Os únicos ladrões na rua, erámos nós mesmos a pular muros para atacar um galinheiro, depois preparar uma saborosa galinhada com farinha e pimenta. Roubavam-se galinhas, ou pães nas sacolas dos alpendres. Nada que pudesse nos enquadrar na Lei de Segurança Nacional, à época tão em voga.

Noite nas ruas nos traz a brisa, faz passar os ventos, destaca cores na madrugada antes nunca imaginadas e que não são captadas da janela de um quarto, de onde hoje buscamos alívio para os sofrimentos.

Isolamento Brasiliense - Emília Ulhoa
O cume da madrugada ocorre por volta de três horas depois da meia-noite. F. Scott Fitzgerald dizia que “na noite profunda e escura da alma, são sempre três horas da madrugada”. O compositor, cientista e boêmio paulista Paulo Vanzolini tem uma música que se chama Valsa das Três da Manhã.

Mas, quem troca a noite pelo dia, sabe quão valioso é o silêncio. Na madrugada só se ouve o barulho da brisa, o farfalhar das folhas e o bordão de violões seresteiros. As cores passam pela madrugada tão sutil e delicadamente que se misturam com a alvorada.

Desenho - Emília Ulhoa
Trabalhar é bom. Alimentar é saudável, absolutamente necessário. Dormir é reconfortante e revigorante. Mas, nada tão gostoso e belo como atravessar a noite embriagado pela madrugada. Só os boêmios sabem disso. Eles conhecem um pouco mais sobre felicidade.

Como consolo, nesse tempo de isolamento, esses belos desenhos de Emília Ulhoa. Que tal, também, ouvir uns versos sobre a madrugada e a bela e sugestiva canção de Paulo Vanzolini, com a interpretação magistral de Paulinho Nogueira?

Boas madrugadas para todos.


quinta-feira, 27 de agosto de 2020

Em meio à pandemia, com a Palavra os psicólogos


Tenho visto nas ações das áreas de saúde em todo o país, estados e municípios, presença marcante de psicólogos nesse tempo de pandemia. Não apenas para atender pacientes vítimas da Covid-19, como também para profissionais de saúde expostos ao estresse causado pela doença.

Nesta quinta-feira, comemora-se o Dia do Psicólogo. Essa data foi escolhida porque, em 27 de agosto de 1962, o presidente João Goulart sancionou a Lei 4.119, que dispõe sobre a profissão. O psicólogo é o profissional da área de saúde responsável por estudar e orientar o comportamento humano, lidando com os sentimentos, traumas e crise. Tudo a ver com o que sempre fez parte da existência humana, destacando-se agora, em plena pandemia.

Nessa profissão, tenho como referência duas pessoas. O psicanalista Ítalo Campos, poeta e escritor, conterrâneo de Uruaçu, Goiás. Também o meu sobrinho Lucas Camapum Rosa, Gestalt-terapeuta, residindo e trabalhando em sua cidade natal, Brasília, e que também tem um viés poético e aptidões para a escrita.

Ítalo Campos está na profissão há décadas, em Vitória (ES), com larga experiência tanto de consultório, quanto no exercício de cargos na saúde pública. Lucas está exercendo a profissão há menos de três anos. O que une os dois – e os traz ao blog – é a poesia, mas, especificamente, a Palavra.

O ofício do psicólogo, na definição de Ítalo Campos, está sintetizada nesse poema acima, por ele construído: a cura pela palavra, que pode salvar, mas pode condenar ou adoecer.

Atualmente, há cerca de 320 mil psicólogos no Brasil, distribuídos na prática clínica, na educacional e na empresarial e Recursos Humanos. A todos esses profissionais, faço minhas homenagens por meio de Ítalo e Lucas, de suas palavras e versos, e da dedicação ao exercício pleno da Psicologia.

No universo musical, resgato Tom Zé e sua Nave Maria para ajudar nessa homenagem aos psicólogos. Um artigo de Tiago Sanches Nogueira, da Universidade de São Paulo (USP), diz que essa canção de Tom Zé “surge como uma espécie de texto documental que, ao conjugar letra e melodia, relata a experiência do nascimento como um acontecimento traumático, trazendo à cena uma tentativa de narrativa daquilo que nos é irrepresentável”. Na sequência, um vídeo em homenagem a esses profissionais.

Com a Palavra, os psicólogos, nesse dia a eles dedicado, cercados de desafios e conquistas por todos os lados.


O inconsciente
Lucas Rosa

Tempestade ou brisa
Que mal leva as folhas
É a cabeça

Não esqueça
Que sopra as escolhas
Meu intento? Paz,
Mas meu vento...

Dentro do meu ser
O que ele faz?
É mais, muito mais
Do que sei dizer...

Chove sem previsão
Neva, venta, cai o mundo
Contudo, então,
Abre o sol

Sempre assim em tudo
Meu coração
Censuro seu absurdo
Depois que o perscruto
Sou uno e não puno
Escuro absoluto

Não reina
Mas, escuto
Um bom quinhão
E isso
Não é em vão
Pois do inconsciente
Ventam os desejos
Nas velas dos sonhos

Somos os beijos
E os demônios
Mas não tema
Há remos! Rema!
Há velas!
Veleja, sonhador!
Não pode se afogar
Você já é o mar

Vácuos, vozes, amor
Ondas de prazer e dor
Vêm daqui desse lugar
Pode apenas se perder
No querer, no não-ter
Mas nunca no amar



domingo, 23 de agosto de 2020

Homenagear os artistas é um dever de todos nós


O que seria do mundo sem os artistas. Difícil de responder porque impossível de se imaginar. Acredito que seria alguma coisa próxima dessa triste realidade que estamos vivendo com a pandemia do coronavírus. Pela presença do medo, incertezas, dores e tristezas, impossibilidade de encontrarmos alívio e ausência do prazer, do contentamento que os artistas nos oferecem cotidianamente.

Neste tempo de enfrentamento da Covid-19, ainda temos os artistas por aí, apresentando-se como possível, reinventando-se graças à extraordinária criatividade que possuem, e nos oferecendo alternativas por meios de vídeos, lives, passeios virtuais em museus, livros digitais, sites de músicas, streamings, entre outras tantas opções.


Faço essas reflexões porque amanhã (24/08), uma baita segunda-feira, é o Dia do Artistas. Também por ter tido a oportunidade de ver e ouvir, neste domingo, um vídeo extraordinariamente belo da cantora Eliana Pittman, em que ela interpreta Canto das Três Raças e Yo Vengo Ofrecer Mi Corazón (abaixo). Um monumento em homenagem ao amor, à esperança e uma demonstração de que o talento e alma do artista estão sempre disponíveis para nos contentar, aliviar das dores e nos encher de emoções, o que é bom para alma e por consequência, saudável!

Outro despertar, no dia de hoje, para a importância e a grandeza dos artistas, encontrei uma Live realizada pela Orquestra Sinfônica do Teatro Nacional Cláudio Santoro, dirigida pelo maestro Cláudio Cohen. O Quarteto Capital, formado pelos músicos da Orquestra nos presenteia com uma homenagem ao artista Moraes Moreira, falecido recentemente. Igor Macarini e Daniel Cunha (violinos), Daniel Marques (viola) e Augusto Guerra Vicente (violoncelo) interpretam a bela Lá Vem o Brasil Descendo a Ladeira (segundo vídeo abaixo).


O artista é todo aquele que se expressa através da arte e que cultiva o sentimento do belo. Encontramos artistas em variados campos: o ator, o realizador, o poeta, o escritor, o pintor, o escultor, o compositor, o músico, o dançarino, o artesão, o fotógrafo, o desportista, entre tantos outros.

A data que se comemora nesta segunda-feira tem o objetivo de agradecer a todos aqueles que, com a sua arte, fazem o homem fugir à sua realidade e sonhar. Sem os artistas o mundo não seria tão colorido e valioso. Essa afirmação, talvez ajude a perceber o que seria do mundo sem esses profissionais.

Para homenagear os poetas, esta categoria em que teimo pertencer, um poema dedicado a eles, escrito em março de 2016.

Parabéns aos artistas! E obrigado por existirem!


Aos poetas
José Carlos Camapum Barroso

Somos poetas,
Maior ou menor,
Não importa.
Neste mundo,
Tal dimensão
Não existe.
Subsiste
Apenas a dor,
Alegria contida
Num mar de amor.
Sorriso franco,
Fala mansa,
Olhar distante...
E observador.

Poetas, somos,
Como Drummond
Nos ensinou...
Ferro de Ferreira,
Bandeira à mão,
Pena nos dedos,
João no coração.
Thiago a cantar,
Lanterna à mão,
Versos na escuridão.

Somos poetas
Enquanto durar:
Dor de injustiça,
Guerra pela paz,
Fome de comer,
Sede de beber,
Razão para viver...

Poeta, somos,
Seremos, sempre,
Enquanto ser.


quinta-feira, 20 de agosto de 2020

Covid-19 leva uma pessoa querida: Dirce Ponce


Essa foto, com esse sorriso, estava guardada na minha memória, retida com uma lembrança de uma pessoa que jamais será esquecida. Dirce Ponce Leones faleceu, nesta quarta-feira (19/08) vítima da Covid-19, aos 86 anos. Nos deixa um legado importante de simpatia, gentileza e apreço pela cultura. Dedicou-se durante muitos anos à função de bibliotecária da Biblioteca Pública de Uruaçu, Goiás.

Dirce está guardada em nosso corações, como nessa foto e com todas as qualidades que possuía e revelava nas minhas lembranças desde os tempos de criança. Seu Roque, pai de Dirce, fazia rapé. A pedido de minha vó Naninha, fui várias vezes à casa da família comprar uma latinha do pó de fumo. Dirce, desde então, sempre recebia com alegria, gentileza e simpatia.

Dirce, com sua sobrinha Cilene Ponce
Fiz esses versos, publicados abaixo, com toda alegria do coração. Pois, é isso que ela retrata, e isso é o que ficará guardado na memória de muitos uruaçuenses que tiveram a oportunidade de conhecê-la.

Dirce merece nossas reverências. E a família, nossos sentimentos.

Dirce

José Carlos Camapum Barroso

Olha ela na janela
Quem não a viu por lá?
Simpática e bela
Alegre a nos acenar

Uruaçu entristecida
Nos convida a lembrar:
Pessoa tão querida,
Nos deixou seu olhar

Franco e acolhedor,
A revelar uma vida
Simples, feita de amor
Por anos bem vivida...

Olhem a foto da janela...
Sempre nos recordará:
O amor está naquela
Dama dos livros e do lar.

Foto mais que uma tela,
Retrato para se guardar.
Rosto que nos revela:
Dirce é o verbo amar.

segunda-feira, 17 de agosto de 2020

Ipê amarelo e o sabiá trazem esperança em pleno agosto


Agosto é mês do desgosto, diz o dito popular. Existem dezenas de casos que são citados para dar guarida a essa máxima. E ela vem se sustentando ou sendo sustentada, aqui no Brasil, há décadas. Este ano, estamos há meses enfrentado a pandemia do coronavírus.

Mas, sempre tem um porém, o mês de agosto nos deu um bom sinal em meio a tudo isso. Apesar do clima muito seco, nenhuma chuva, muita poeira, queimadas e o calor chegando, devagarinho, pude sentir pelo menos um alívio no ar. O Sabiá começou a cantar no nosso quintal, bem mais cedo. No ano passado foi no dia 17 de agosto, um sábado. Este ano, também num sábado, mas, no dia 15.


Os ipês amarelos, bem timidamente, começaram a dar o ar da graça na imensidão do Planalto. Eles e o cantar do sabiá vêm se somar ao belo de todos os anos, nesta época: o alvorecer, o pôr do sol, os últimos raios de claridade a refletir na névoa seca...

Enfim, agora, o canto divino do sabiá-laranjeira, a anunciar a chegada, ainda longe, da Primavera. É prenúncio de chuva? Talvez, ainda não. 

Mas, traz uma paz para os nossos corações, alguma inspiração poética e a bela canção de Tom Jobim e Chico Buarque, vencedora do Festival Internacional da Canção, de 1968, na voz inesquecível de Elis Regina, que diz, com seu sorriso ancho: "Vou voltar, sei que ainda vou voltar..." Quem sabe. E Altamiro Carrilho com o som de sua flauta que lembrar o cantar dos pássaros. 

A esperança é a última que morre e está sempre a alimentar nossos sonhos. 

É bom ouvir, pela primeira vez no ano, o cantar desse pássaro tão querido pelos brasileiros. Já estava com saudade do canto suave e acolhedor. Que venham a Primavera, a chuva do caju e o cantar de todos os pássaros.

A humanidade precisa de esperanças. O canto do Sabiá é um bom presságio.

O cantar do Sabiá
(José Carlos Camapum Barroso)

Sabiá, no quintal, cantou, antes mesmo de findar o inverno...
Era fim de tarde, início de manhã? O mundo mudou:
Trouxe o ar da Primavera, gosto seco de chuva...

Vento de setembro põe fim ao de agosto.
Canto de sabiá espanta o desgosto...

Sabiá-laranjeira, ave do peito-roxo,
Canto de primeira, som de Altamiro Carrilho na flauta...
Meu sabiá Bandeira, Brasão brejeiro de um Brasil brasileiro.

Sabiá-ponga,
Sabiá-piranga,
Meu Caraxué!
O Sabiá-laranja

Cantou um canto triste no terreiro? 
Barriga-vermelha, de um canto fino,
Assoviar sovina, fina sinfonia bem brasileira.

Sabiá, sabiá
Não me leve a mal...
Vem cantar de novo
Aqui no meu quintal.

Sabiá, sabiá
Seu lugar é aqui
No terreiro
Do pé de pequi!


domingo, 16 de agosto de 2020

Crônica retrata com poesia manhã de Inverno em Brasília



Brasília tem dias lindos, manhãs que são um verdadeiro sonho. No inverno, então, as manhãs da cidade são cheias de peculiaridades e nos despertam sentimentos de alegria e contentamento. O amigo Arnaldo Siqueira, delegado de polícia aposentado e mestre em Direito Penal, teve a capacidade e a sensibilidade de captar e mostrar tudo isso numa bela crônica.

Uma Manhã de Inverno em Brasília retrata todas as belezas que a natureza nos oferece nas manhãs de Brasília, nos meses de Inverno. Num visão bastante poética, o autor faz uma expressa declaração de amo à cidade. Não é só isso. Aborda o lado social que toda grande cidade vive e assiste nas ruas e calçadas diariamente. Faz tudo com leveza, arte e zelo para com as palavras e as frases.


A cena humana comove e envolve o leitor, porque recorrente em nosso meio. Cotidianamente, só um escritor se preocupa em observá-la com empatia. A discussão entre as mulheres sobre a conveniência ou não de dar esmolas ou agradar os pedintes também se reveste de grande verossimilhança e retrata em um flash a nossa triste realidade social, cheia de injustiças e desigualdades.

Quem é de Brasília vai se identificar fácil e rapidamente com a crônica. Leitores de outras regiões, terão aqui a oportunidade de ver pintada a paisagem da capital da República em precisas e belas pinceladas.

O conto é de notável sensibilidade. Muito bem desenvolvido, conseguindo retirar do cotidiano um registro sensível da vida da cidade.

Apreciem. É uma boa leitura para um dia de domingo.



Uma Manhã de Inverno
Arnaldo Siqueira


João Alberto acordou, e ainda sonolento, levantou o queixo, olhando por cima da testa conseguiu alcançar com os olhos o relógio grande e redondo que ficava pendurado na parede do quarto, acima da cabeceira da cama, que marcava naquele instante 08h50min. Deixava o relógio nessa posição de propósito, pois nos dias que não tivesse compromisso não queria saber de hora.

Lembrou que chegara o dia de se mudar para o exterior, onde teria que morar, pelo menos, durante três anos. Com o pensamento veio um fio de ansiedade no estômago. Respirou fundo e deu graças a Deus pela oportunidade. Pensou que poucos têm a chance de se especializar em outro país e depois decidir se querem continuar morando lá ou retornar à origem. Olhou as malas prontas e a passagem e fez as contas das horas que lhe restavam antes do embarque. – Nossa, tem muito tempo! O Voo será só às três da tarde.

         Tomou banho, barbeou-se e se vestiu. Foi até a janela. Abriu as cortinas e avistou os galhos secos do Ipê, cobertos por uma manta de plumas roxas, desafiando a beleza do céu azul de Brasília. Tinham como companhia uma leve poeira vermelha com pelugem acinzentada da grama queimada pelo sol, transportadas pelo vento frio e seco. Era inverno, sem dúvida.

O João Alberto, como bom candango que era, sabia que os ipês roxos chegam junto com o inverno, acompanhados do frio, do vento e de uma atmosfera quase lúgubre, que causa nos moradores de Brasília um misto de alegria e tristeza; algo inexplicável para quem desconhece o clima e a beleza do cerrado: ao mesmo tempo em que se enxerga o céu mais bonito do mundo, além da lindeza dos ipês, vê-se também a seca que judia e mata o verde.

 João Alberto resolveu descer do seu apartamento, pegar o carro e ir tomar café na torteria, a cerca de 1km. Entrou, sentou-se e, entre um gole e outro de café, assistia, além do espetáculo dos ipês roxos, o balé da poeira misturada com a grama queimada a formar um arremedo de bailarina, tentando se levantar e dar uma pirueta, sem, no entanto, conseguir porque o vento frio e seco a desintegrava logo que saía do chão.




Sabia ele que essa era a abertura do espetáculo que se desenvolve em quatro partes ao longo do inverno de Brasília, pois, quem tem a sorte de  viver e apreciar a beleza dessa cidade sabe que quando murcham os ipês roxos, florescem os amarelos, deixando a cidade parecida com uma revoada de borboletas amarelas, que encantam tanto quanto a aparente chuva de flocos de neve  trazida pelos ipês brancos, que suavizam  a seca do cerrado, e que só murcham quando começa a última parte e o fim do inverno marcado pelos ipês rosas.

João Alberto, apesar de absorto pelos pensamentos que surgiam dessa contemplação, teve sua atenção desviada para outro tipo de beleza, presente em todas as estações do ano.  Percebeu uma silhueta feminina que passava por trás de si. Correu os olhos sem virar a cabeça e fixou o olhar em uma mulher elegante, medindo 1,70m de altura, cabelos loiros e longos, tão cheios que pareciam uma cachoeira dourada, desaguando em um volumoso quadril arredondado coberto por uma saia preta de seda acetinada, que permitia perceber cada movimento delicado que ela fazia.  A saia, um pouco acima do joelho, deixava à mostra o torneado das belas pernas, vestidas em meias finas, molduradas por um belo par de sapatos pretos de saltos altos, com um pequeno detalhe dourado nos bicos, como se duas minúsculas borboletas estivessem ali pousadas.

João! Oi! – Desculpe-me, estava pensando no tanto de beleza que tem nossa cidade – disse João Alberto ­à  garçonete Brenda,  que estava à sua frente com um leve sorriso. – Nada não disse ela   Só para saber se deseja mais alguma coisa ou se hoje vai ser apenas a tartelete de morango e o expresso. – Ah, muito obrigado  respondeu ele educadamente e, também com um sorriso, disse:   Vou tomar mais um expresso.

Desde que João Alberto começou a frequentar a Cafeteria sempre foi atendido pela Brenda, isso porque sempre manteve o hábito de se sentar  no mesmo lugar, de frente para a rua de onde podia observar toda movimentação dentro e fora do ambiente, e nessa parte da cafeteria, que continha cerca vinte pequenas mesas, com duas cadeiras em cada, colocadas encostadas na parede de vidro  ao redor do grande balcão em L, que dividia o ambiente de aproximadamente cem metros quadrados, era Brenda que atendia, apesar de ele conhecer pelo nome todos que ali trabalhavam.

 Quando Brenda deu as costas, João Alberto percebeu que a elegante senhora havia sentado a duas mesas de distância, de frente para ele, porém a  atenção dela era voltada totalmente para a tela do seu telefone celular, o que proporcionou ao João Alberto observá-la mais detidamente, pois já tinha dado uma rápida espiadela. Nesse momento, Joana, outra garçonete, colocava à mesa dela um croissant e um cafezinho. Ela olhou para a garçonete deu um breve sorriso em agradecimento. O sorriso, apesar de rápido, revelava uma pessoa alegre. Tinha os olhos negros brilhando, entre cílios grandes, cercados por uma maquiagem discreta, que os molduravam bem. Pareciam jabuticabas destacadas no rosto de pele branca, que contrastavam com os cabelos dourados, sem anular, contudo, o discreto batom que destacava a boca, parecendo um morango bem desenhado.  No braço esquerdo, um pequeno relógio quadrado de fundo branco com uma pulseira prateada bem trabalhada em elos; quase passando despercebido em vista da grossa aliança de ouro no dedo anelar esquerdo, cercada por dois aparadores de ouro.

 João Alberto também agradeceu o seu segundo café que Brenda acabara de deixar em sua mesa. Colocou meio sachê de açúcar e, vagarosamente, misturou o açúcar no café e depois passou a tomá-lo, sentindo o prazer de quem sabe apreciar as belezas que podem ser extraídas de pequenos detalhes.  Olhou para fora e, por entre as plantas que dividiam a calçada da torteria, viu o movimento dos carros e das pessoas que subiam e desciam a Quadra.  João Alberto observou que ali na calçada havia um menino de aproximadamente doze anos de idade estirando a mão esquerda para todos que por ele passavam, repetindo a mesma frase:  Uma ajuda para comprar um salgadinho! Ninguém olhava para ele. Era como se ele não existisse. Foram várias e várias pessoas. João Alberto olhou mais atentamente para a mão direita do menino para saber se tinha alguma deficiência ou se o garoto era realmente canhoto, percebeu que as mãos dele eram aparentemente normais, mas que ele estava segurando algo com a mão direita e, por isso estendia a esquerda para pedir. Resolveu intervir na cena e falou: Ei, menino! O garoto olhou para ele assustado, como sem entender por que aquele homem brigaria com ele, respondeu: Sim, senhor! Vem cá – disse João Alberto. Ele se aproximou desconfiado, com a cabeça meio torta para a direita, olhava ao mesmo tempo com um olho para o chão e com o outro para o homem; que até então ele não sabia o que queria. 


O menino não aparentava estar desnutrido, mas dava sinal que não recebia cuidados há algum tempo; apesar de seus cabelos aparentarem lisos, estavam duros feito couro curtido e dava mostras que não via água há um bom tempo, o que era confirmado pelas manchas de sujeiras no moletom azul e na blusa cinza, que estava sobre uma camisa grande que saía pelas mangas e abaixo da cintura, parecendo que era branca originalmente; calçava sandálias, de cor indefinida. Abriu, então, um sorriso quando ouviu de João Alberto a  seguinte frase: Pede o que você quiser para aquela moça, acenando à garçonete. – É mesmo, moço?! Posso pedir refrigerante? – Pode. Nesse momento, João Alberto fez um sinal para a garçonete para atendê-lo.

Esse gesto do João Alberto foi suficiente para abrir uma discussão entre duas senhoras idosas que estavam saboreando tortas. A mais exaltada, olhando de soslaio para ele disse: São essas condutas que incentivam a mendicância. Eu não dou. Não adianta pedir. Eu também não dou esmolas, mas não me importo se alguém dá. ­– É, mas as consequências recaem sobre todo mundo. Se ninguém desse, eles não sairiam perambulando pela rua, cientes de que não ganhariam nada.

João Alberto, que já conhecia bem essa ladainha e sabia que esse não é problema apenas dessa cidade, porque tem mendigos na Champs Élysees, na Broadway, e, onde quer que se vá. Fez sinal para a garçonete trazer a conta. Enquanto esperava, o menino passou por ele, segurando com a metade da mão direita uma latinha de refrigerante e com a outra metade da mão algumas moedas.  Na mão esquerda trazia, em um saquinho de papel, um salgadinho. E, agora com mais intimidade, olhou para João Alberto e disse: brigado, moço! , saindo e descendo a Quadra sem preocupação.
        

         João Alberto levantou-se,  agradeceu à Brenda e saiu. Tomou o rumo do eixo W e ao passar por baixo da tesourinha, virou à esquerda e pegou o eixão rumo à Asa Sul, e se não fosse ele candango, teria achado estranhos dois fenômenos da natureza que  presenciou naquele exato momento que alcançou a pista central. Era final do mês de junho e estava caindo uma leve chuva em uma parte da Asa Norte. Nessa época, é raro chover em  Brasília mas ocorria uma peculiaridade que sempre impressiona até mesmo aqueles que vivem  na Capital: a chuva caía só nas quadras duzentos enquanto fazia sol nas quadras cem. Ele dirigia entre o sol e a chuva e o que separava a área chuvosa da ensolarada era uma distância de cerca de quinhentos  metros. Maravilhoso! Os carros que transitavam no eixo L, rumo ao norte eram obrigados a ligar os limpadores de para-brisas, ao passo que aqueles que seguiam pelo eixo W, rumo ao sul, desfrutavam do sol.

João Alberto seguiu dirigindo, e apesar da velocidade permitida ser de 80 km/h, ele transitava na faixa direita mais devagar para curtir seu restinho de manhã e para apreciar uma beleza que não sabia se teria oportunidade de tornar a ver. Estava cercado de ipês roxos com duas tonalidades  do lado direito, onde havia sol, as flores se tornavam reluzentes; e do outro lado, onde chovia, elas mostravam um roxo,  escurecido  pelas gotículas de água que caíam.  Parou no acostamento e pensou como era possível ele ter passado sua vida ali e não ter visto a cidade como estava vendo naquela manhã. Fechou os olhos e  foi revendo e fotografando na mente cada detalhe desde a hora que acordou e só abriu os olhos ao ouvir o som das sirenes dos batedores que escoltavam um comboio de carros pretos que passava por ali. Pensou se não seria um mal presságio toda aquela observação mas riu e falou consigo:

Que mal presságio que nada, isso é saudade antecipada.