quarta-feira, 30 de março de 2011

José Alencar, de luta e garra, era flamenguista

Gol de Valido, em 1944, garantiu o tri carioca ao Flamengo de José Alencar
O ex-vice-presidente José Alencar, que infelizmente nos deixou ontem (veja matéria abaixo), era flamenguista de coração, desde os tempos de garoto, lá nas Minas Gerais. Aprendeu a gostar do Flamengo pelo rádio, veículo que tornou rubro-negros milhões de brasileiros pelo país afora. Fiquei feliz em saber que esse grande brasileiro, assim como eu, este simples blogueiro, conheceu e se apaixonou pelas cores vermelha e preta por meio das ondas sonoras.
Contam os historiadores que José Alencar ouviu o gol da heroica vitória do Flamengo sobre o Vasco, em 1944, quando o rubro-negro se tornou, pela primeira vez, tricampeão carioca (1942-1943-1944).
Depois foram mais quatro tricampeonatos conquistados. José Alencar acompanhou todos eles, pelo rádio ou pela televisão, ao vivo e em cores. Eu tive o privilégio de nascer no meio da conquista do segundo tricampeonato, em 1954, quando o Flamengo sagrou-se bicampeão carioca, e conquistaria o tri em 1955. Depois disso, no início dos anos 60, confirmei minha vocação flamenguista ouvindo a voz sonora do goiano Waldir Amaral pela Rádio Globo – era como se estivéssemos à beira do gramado.
O rádio é um veículo importante na história brasileira, não apenas no futebol, e não somente para nós rubro-negros. Todos os torcedores da era do rádio aprenderam a gostar dos seus clubes pelas ondas sonoras. Milhões de brasileiros acompanhavam os grandes acontecimentos pelo rádio. Foi assim com a morte do presidente Getúlio Vargas, com a construção de Brasília, o golpe militar de 64 e tantos outros fatos históricos.
A morte de Tancredo Neves foi uma comoção televisiva. A luta de José Alencar contra o câncer e a sua morte, ocorrida ontem, além de ampla cobertura da televisão, já alcançou a era dos blogs, Twitter, Orkut, Facebook e tantos outros campos virtuais.
O cidadão José Alencar – brasileiro, flamenguista e político respeitado – passou por várias eras e assistiu o seu time querido ser tantas vezes campeão. A última, hexacampeão brasileiro, foi com o golaço de Ronaldo Angelim, ao vivo e em cores. Como nós goianos gostamos de dizer: Bom demais!

O gol e Angelin, em 2009, deu o hexa brasileiro ao Flamengo de José Alencar

terça-feira, 29 de março de 2011

José Alencar vai, mas deixa o exemplo

O ex-vice-presidente José Alencar perdeu a batalha contra o câncer. Uma luta que ele sempre encarou com absoluta tranquilidade, graças a uma força espiritual invejável. Sabia que quando chegasse o seu momento, Deus iria levá-lo deste mundo estando doente, ou não. “Se Deus quiser que eu morra, ele não precisa de câncer para isso. Se ele não quiser que eu vá agora, não há câncer que me leve”, disse certa vez.
José Alencar morreu hoje, às 14h45, por falência múltipla dos órgãos, no Hospital Sírio-Libanês, em São Paulo, aos 79 anos. Durante os últimos 13 anos, travou uma dura batalha contra o câncer. Foram mais de 15 cirurgias. Em abril do ano passado, desistiu de sua candidatura ao Senado para cuidar da doença.
Este Blog não tem o perfil de se dedicar a notícias do universo político, mas José Alencar estava acima de partidos e posições ideológicas. Foi exemplo de homem público, respeitado e respeitador, capaz de sensibilizar todos os brasileiros com sua lealdade ao presidente Lula, de quem foi vice por dois mandatos, e com sua humildade e sensibilidade para tratar de questões políticas, administrativas, mesmo quando ele não concordava com o Governo do qual fazia parte.
Ao político e ao cidadão José Alencar, as homenagens de todos nós, cidadãos brasileiros. O Brasil perde um grande político, mas fica o seu exemplo, a ser seguido e preservado.
“Você não sabe o que é a morte,
então, você não tem de ter medo da morte.
Você tem de ter medo é da desonra,
dela você tem de ter medo, isso mata você.”

(José Alencar, ex-vice-presidente do Brasil)

segunda-feira, 28 de março de 2011

Japão das cerejeiras e tragédias atômicas





O Japão abalado por terremotos, destruído por tragédias atômicas e tsunâmicas, é o mesmo país que nesta época, todo ano, divulga para o mundo imagens belíssimas das cerejeiras floridas. É o mesmo Japão que este ano trocou o colorido belo das flores pelo cinza das fumaças radioativas, estúpidas e inválidas.

O Japão é ao mesmo tempo símbolo de tragédias e de reconstruções. O povo que experimentou, pela primeira vez, o potencial de uma explosão atômica, é o mesmo que reergueu o país em tão curto espaço de tempo, e fez com que o Japão se tornasse uma das maiores potências mundiais.

Os japoneses vivem mais uma grande tragédia que abala o mundo. O número de mortos em consequência do terremoto e do tsunami do último dia 11 já passa de 11 mil. Existem 17.339 desaparecidos. Mais de 200 mil pessoas continuam desabrigadas em 1.900 abrigos. Pelo menos 18 mil casas foram destruídas e mais de 130 mil edifícios, danificados.

Em 1912, o prefeito de Tóquio doou três mil pés de cerejeiras para os Estados Unidos em sinal de amizade. Um presente para o mesmo país que, em 1945, jogaria duas bombas atômicas em solo japonês. As cerejeiras se multiplicaram ao longo do rio Potomac e de lagos que enfeitam a cidade de Washington. Atraem, todo ano, milhões de turistas, tamanha a beleza. Por ironia do destino, este ano, as cerejeiras de Washington vão ajudar a recolher recursos para o Japão. 

O período da florada branca e rosa é justamente agora, de 26 de março até 10 de abril. Uma parte da venda dos ingressos será revertida para as vítimas da tragédia japonesa, e o público será convidado a fazer doações.
Mais uma vez, na história da humanidade, o perfume e o colorido das flores são capazes de ajudar a superar tragédias, mesmo que nucleares. Vinícius de Moraes, o nosso “poetinha”, teve sensibilidade extraordinária ao compor os versos de Rosa de Hiroshima, musicados por Gerson Conrad.

Para que não nos esqueçamos nunca do poder destruidor da natureza e das invenções humanas, criadas justamente para dominar a natureza, ouçamos Rosa de Hiroshima, na voz melodiosa de Ney Matogrosso. Vai nos ajudar também, com certeza, a lembrarmos sempre do poder e da beleza incalculáveis das flores.

domingo, 27 de março de 2011

A alma e o humor de Adoniran e Vanzolini

Adoniran Barbosa e Paulo Vanzolini, em ilustração de Elifas Andreato (Abril-Press)
Adoniran Barbosa e Paulo Vanzolini tinham muitas coisas em comum. Ambos eram paulistas, sambistas, cumpridores dos seus deveres profissionais, e adoravam a boemia, uma boa conversa com os amigos nos botecos de São Paulo. Os dois buscaram suas inspirações nas ruas, no cotidiano da cidade. Fizeram letras e músicas bem-humoradas, mas tinham um temperamento casmurro e certa frieza no relacionamento com as pessoas.
Ambos mostraram, com muito talento, quanto a cidade grande separa os homens. Adoniran, em Saudosa Maloca, fala da destruição, em nome do progresso, do cantinho onde ele, Mato Grosso e o Joca moravam. Em Ronda, Vanzolini narra o périplo de uma mulher pela cidade em busca do seu amor. Não encontra, mas não perde a esperança de encontrá-lo, aí, então, vai dar na primeira edição: “Cena de sangue no bar da Avenida São João”.
Os dois eram amigos, velhos companheiros de música e boemia. Conheciam a alma humana em profundidade, e souberam relatar o drama das pessoas, dos relacionamentos, com extrema simplicidade, o que exige, antes e acima de tudo, talento.
Adoniran dizia de Paulo Vanzolini, que era zoólogo (veja matéria abaixo), que não entendia de samba: “ele entende, mesmo, é de sapo”. O sambista-cientista fez um belo samba em que brinca com os nomes de Adoniran. Conta para o Seu Barbosa, que era o sobrenome do pseudônimo adotado por Adoniran, um fato que teria ocorrido com um "cidadão por nome de Rubinato”, que era o sobrenome de João Rubinato, nome de batismo de Adoniran.
Na letra, Vanzolini faz rimas no estilo Adoniran, como, por exemplo, “só uma hora dali, eu e Marli”. Também capricha nos erros de português e nas palavras pronunciadas no estilo povão.
Paulo Vanzolini vive em São Paulo e completará 87 anos no dia 25 de abril. Adoniran nos deixou com muitas saudades. Para matar um pouco delas, acompanhem o vídeo abaixo, gravado por uma dupla muito interessante, chamada Goiabada com Queijo, na Feira do Livro de Ribeirão Preto, em 2009.



Seu Barbosa
Composição : Paulo Vanzolini

Ô, Seu Barbosa, nóis era dois casado certo
Morando num bairro longe, mas passando ônibus perto
Uma vista tão linda, de cima do nosso morro
E as crianças precisando de um pronto-socorro - só uma hora dali
Eu e Marli, vivia satisfeito
O que fizeram com nóis, seu Barbosa, não está direito
O pivô do enguiço foi um gato
Pertencente a cidadão, por nome de Rubinato
O miau sumiu, ele botou o dedo ni mim
Só porque me viu, encourando um tamborim
Foi na delegacia, se acertou com o escrivão
Já no outro dia recebi intimação
Mas eu vou lá, quem não deve não dá bola
Eu provo que o tamborim eu fiz com o gato da espanhola
Seu Rubinato, vou lhe dar um bom conselho:
Você arranja outro gato e a Marli lhe ensina a fazer coelho.


sábado, 26 de março de 2011

Paulo Vanzolini - musicalidade até no nome

Paulo Vanzolini passava horas no laboratório, mas adorava a boemia (Abril-Press)

Paulo Vanzolini é daqueles artistas que carregam a musicalidade até no nome. Só não tinha nada artístico na profissão que escolheu: zoólogo, especialista em Herpetologia (estudo dos répteis). Imaginem... Isso não dá samba, nem cabe nas rimas improvisadas do desafio. Mas Vanzolini não tinha alma apenas de cientista. Foi boêmio e desenvolveu seu talento poético e musical nas ruas, bares, inferninhos e prostíbulos da grande São Paulo.
O sambista paulista faz 87 anos no próximo dia 25 de abril. Sofreu influência dos tempos do rádio, quando trabalhou na Rádio América e foi colega de Cacilda Becker – “passamos muita fome juntos”. Sua inspiração veio principalmente das ruas, das histórias contadas e vividas pelo cientista-boêmio, do samba crioulo (“não tem introdução, nem segunda parte”), da música americana, quando foi aos Estados Unidos fazer doutoramento e pode conviver com o jazz de preto velho.
Mas, Vanzolini gostava mesmo era de improvisar versos e rimas. Era uma craque no desafio, quase imbatível. Nessa arte, teve como grande parceiro Carlos Paraná, com quem passava horas, à vezes, um dia inteiro, desafiando o amigo ou a quem chegasse.
Vanzolini não dispensava o cachimbo (Abril)
Certa vez, desafiou um “cobrão” da região de Piracicaba. O rapaz o chamou de frango novo, e disse que não se metia com franguinho. Vanzolini respondeu: “Eu sou frango novo/ isso é coisa que eu não nego/ Mas que eu sou frango novo/ Isso é coisa que eu não nego/ Roda, morena, que isso é coisa que eu não nego/ Estou experimentando a espora/ nas costas de um galo cego”. O sujeito apelou e sentou o violão na cabeça de Vanzolini.
O sambista-cientista apanhou, mas também bateu, algumas vezes. Adorava uma briga. Tinha um amigo, baixinho, de um metro e meio, que servia de isca para provocar a polícia. Quando o policial se irritava, e partia para brigar, ele e os amigos saíam de onde ficavam escondidos, e já vinham acusando: “Batendo no baixinho, né?”
Compôs canções maravilhosas com Eduardo Gudin (Condição de Vida, Mente, Longe de Casa Eu Choro), com Paulinho Nogueira (Valsa das Três da Manhã, Boneca), Toquinho (Boca da Noite), Elton Medeiros (Dançando na Chuva), e com tantos outros. Dedicou-se ao samba, mas também fez valsas, choros, toadas, e recolheu o tema popular conhecido como Cuitelinho, gravado por Milton Nascimento.
O álbum Acerto de Contas, quatro CDs, é antológico. Nele, vários artistas, cantores e instrumentistas, interpretam as canções que Vanzolini fez ao longo da carreira, sozinho ou com seus parceiros. O compositor diz que é uma acerto de contas dele, Vanzolini, com os artistas. "Era uma dívida que eu tinha com todos eles", explica.
Sua paixão pelo desafio, seu cuidado com o uso das palavras e das rimas, fez com que compusesse inclusive um samba de breque, que é pouco conhecido: Samba do Suicídio. Apesar do tema, uma peça engraçadíssima. Ouçam abaixo, na voz meio desajeitada do próprio Vanzolini, e leiam a letra.
  

Samba do Suicídio
Paulo Vanzolini

Que eu andei mal não é segredo
Duro como um rochedo
E jogando sem sorte
Poeta de morte no esporte
Do amor sempre mau sucedido
Um dia abatido pegando jornal
Pra me servir de colchão
Ao estendê-lo no chão
Li uma notícia que confirmou a minha opinião
Estava dura e nana 18 suicídios naquela semana
Com a notícia assim lida
Encontrei a saída
Do problema e da vida
Sem perda de um minuto
Subi no viaduto
E atirei-me no espaço
Meu Deus que fracasso
Eu estava tão consumido
Que um ventinho distraído
Que estava a soprar
Foi me levando pelo ar
Pra me largar num fio
No alto de Santana
Voltei a pé para a cidade
O que levou uma semana
Voltei ao problema
Por outro sistema
E tomei formicida
E tive a maior surpresa de minha vida
Descobrindo assim
Que o que andavam servindo
Aqui no botequim
Não era tatuzinho
Chá de briga
Era tatu mesmo
O fazedor de orfão de formiga
Me deu um frio na barriga
E um calor no duodeno
Aí fiz a pele do galego
Que é pra largar mão de veneno
Penso então que o que mais me convém
É ficar embaixo do trem
Que assim é certo eu entrar bem
Sem pensar mais
Eu corri para o Brás
E joguei a carcaça embaixo de
Maria fumaça de 28 vagões
E nestas condições
O resultado foi fatal
Vejam a notícia no jornal
Pavoroso descarrilhamento na Central
Deu tanto morto e estrupiado
Que eu fiquei meio chateado
Procuro então um padre confessor
Que me aconselhou
Moço não seja tolo
E meta um tiro no miolo
Mas bom senhor pois não deu senhor
Eu tenho corpo fechado
Na tenda Pai Zulu
Dou ricochete em bala
E a durindana assim resvala em meu peito nu
Por esse lado eu não dou chance pra urubu
Nem vou morar lá no Caju.

sexta-feira, 25 de março de 2011

Mercedes Sosa nasceu no dia da independência

Mercedes Sosa, a saudosa cantora argentina, nasceu no dia 09 de julho. Fiquei feliz em saber que a artista, por quem cultivava uma grande admiração, era canceriana como eu e nasceu no mesmo dia 09. Sempre achei que tínhamos algumas coisas em comum, que não era a voz, obviamente, mas algo a ver com a sensibilidade e a paixão pela música e pelo canto popular.
Nossa admiração por Mercedes surgiu nos anos 70 por suas canções engajadas e por sua postura corajosa e inflexível contra as ditaduras na América Latina. Sua voz de contralto sempre mostrou a força de uma guerreira, capaz de levar adiante manifestações estudantis, movimentos campesinos ou paralisações de operários nos centros urbanos.
A voz poderosa de La Negra, como era conhecida pela sua ascendência ameríndia, encantou e politizou toda uma geração. Por uma coincidência histórica, no dia 09 de julho, também se comemora a independência argentina, e Mercedes Sosa nasceu justamente em San Miguel de Tucumán, na província de Tucamán, onde a declaração de independência foi assinada.
Sempre foi patriota e dizia que “pátria, só temos uma”. A preocupação sócio-política sempre acompanhou Mercedes Sosa. Na década de 60, tornou-se um dos expoentes da Nueva Canción, um movimento musical latino-americano com raízes africanas, cubanas, andinas e espanholas, e que teve ressonância também no Brasil, com Caetano Veloso, Chico Buarque e Gilberto Gil, entre outros.
Mercedes gravou com vários artistas brasileiros, como Milton Nascimento, Fagner, Beth Carvalho e Daniela Mercury. Fez parceria de canto com muitos argentinos, mas deixou uma belíssima gravação com León Gieco, que se chama Canción para Carito, e que reproduzimos abaixo para matar a saudade.



Fotógrafo consegue captar uma Brasília diferente

O fotógrafo Ronaldo Ferreira da Silva - que assina suas fotos como Ronaldo Silva, mas nós preferimos chamá-lo de Ferreirinha - é capaz de mostrar com suas lentes e talento uma Brasília diferente, que foge do universo político, administrativo e burocrático. Como brasiliense de coração e de berço, seus olhos conseguem captar, em diferentes épocas, céu limpo, cristalino, salpicado de ipê amarelo, branco, ou um chão forrado de folhas secas como o clima da cidade. Ferreirinha conhece bem as luzes de Brasília, e sabe buscar todo o esplendor das noites candangas. É um poeta das imagens. Tem olho mágico. Mesmo com apenas pouco mais de seis anos de profissão, já esbanja essa segurança toda. Confiram abaixo uma pequena mostra de seu trabalho. Logo, logo, Brasília verá uma grande exposição do que ele consegue ver através das lentes. Podem apostar.






quarta-feira, 23 de março de 2011

Liz deixa milhões de fãs "viúvos" em todo o mundo

Segundo Richard Burton,
os olhos de Liz eram "tão sexies
que equivalem a uma pornografia"
 Um minuto de silêncio e uma pausa em qualquer coisa que estivermos fazendo hoje. Liz morreu nesta quarta-feira, dia 23 de março, aos 79 anos de idade, deixando "viúvos" milhões de fãs em todo o mundo. Elizabeth Taylor, como era seu nome de batismo, morreu em Los Angeles, Estados Unidos, vítima de um quadro de insuficiência cardíaca congestiva, que ela enfrentava há quatro anos.
Liz não foi apenas uma grande artista, talentosa e bonita, ela foi uma grande batalhadora das causas sociais, principalmente na luta pela busca da cura da AIDS e contra o preconceito gerado pela doença.
Nasceu em Londres, em 27 de fevereiro de 1927. Mas, viveu a maior parte de sua vida no estrelato de Hollywood, onde iniciou sua carreira artística aos 12 anos, ao interpretar Velvet Brown, em “A mocidade é assim mesmo”. Estrelou ao lado de Paul Newman, em "Gata em teto de zinco", e com James Dean em seu último trabalho antes do fatal acidente automobilístico: “Assim caminha a humanidade”.
Liz arrasou corações em "Cleópatra", de 1963, quando recebeu o primeiro cachê de merecidos um milhão de dólares. Ganhou dois Oscars pelos filmes “Quem tem medo de Virgínia Woolf” (1966) e “Disque butterfield 8” (1960).
Sobre seus belos olhos cor de violetas, que encantaram o mundo, a melhor definição é a de um dos seus seis maridos, Richard Burton: são “tão sexies que equivalem a uma pornografia”.
Agora, só nos resta render homenagens a todo seu talento e a toda a sua dignidade humana, e assistir a todos os filmes dela novamente. Viva Liz, viva!

terça-feira, 22 de março de 2011

Vitor Ramil e a riqueza musical brasileira

Vitor Ramil (foto), irmão dos artistas Kleiton e Kledir, é daqueles músicos que nos fazem orgulhar da música popular brasileira, tão diversificada de ritmos, culturas, tradições e de variações melódicas inusitadas. Se percorrermos o País de Norte a Sul, de Leste a Oeste, ficaremos emocionados com a riqueza musical do povo brasileiro.
O Brasil do baião, do xaxado e do forró, mergulha pelo frevo, passa pelas origens do samba na Bahia, com todas as suas peculiaridades, deságua no samba carioca, com uma musicalidade particularíssima e riqueza de letras e interpretações. É o mesmo samba que tem roupagem própria em São Paulo, com Paulo Vanzolini e Adoniram Barbosa.
Esse Brasil, tão brasileiro, inventou a bossa-nova e a batucada, como diria Assis Valente, “pra deixar de padecer”. Brinca com os tambores do Maranhão e as variações de ritmos do Norte brasileiro. Passa pelo Centro-Oeste e faz dedilhar a viola, os ritmos sertanejos e folclóricos... Minas Gerais fica ali, silenciosa, com uma riqueza musical que tem a dimensão de um país, embora seja brasileira até na alma.
Quando chegamos ao Sul, deparamos com uma riqueza peculiar, própria de países fronteiriços, com influências diversas de ritmos, melodias e uma presença forte da literatura na música.
Vitor Ramil sabe, melhor do que ninguém, explorar, retratar, ampliar essa riqueza. Seus trabalhos são ousados na busca de novos caminhos, novas linguagens, sem perder a ternura, jamais, de suas raízes. Nas três décadas de sua carreira artística, visitou o tango, foi milongueiro, gravou em Buenos Aires, foi gravado por Mercedes Sosa e fez parceria com o percussionista carioca Marcos Suzano, que resultou no curioso Satolep Sambatown. Satolep é um anagrama de Pelotas, sua cidade natal, e Sambatown, um reconhecimento de que o Rio de Janeiro é mesmo a cidade do samba.
Seu trabalho marcante é Ramilonga – a estética do frio, pela contundência das suas ideias, pela originalidade de sua concepção e por ter inaugurado as sete cidades da milonga: Rigor, Profundidade, Clareza, Concisão, Pureza, Leveza e Melancolia.
Seu último trabalho, lançado em março do ano passado, é Délibáb, que é um fenômeno ótico comum nas planícies da Hungria. A palavra é originada da junção de deli (do Sul) com bab (baba, ilusão). Pode ser traduzido, a grosso modo, como miragem. Desta vez, a parceria é com o argentino Carlos Moscardini. Traz um repertório só de milongas, e reúne músicas compostas por Vitor Ramil para poemas do argentino Jorge Luís Borges e do brasileiro João da Cunha Vargas.
Vitor explica que as milongas para os versos de Borges são, em geral, mais clássicas, épicas ou rítmicas, fieis à afinação tradicional do violão. Já nos poemas de Vargas, as músicas são mais brasileiras, líricas e sentimentais.
É importante conhecer essa diferença entre dois universos da poesia e das milongas. Mais importante, porém, é conhecer o trabalho de Vitor Ramil, a beleza de suas composições e o seu talento. Um bom momento para refletirmos sobre a música popular brasileira e o valor exagerado que se dá para trabalhos apenas comerciais, limitados e muitas vezes vulgares. Enquanto isso, talentos como esse de Vitor Ramil, e tantos outros, não ganham a dimensão que merecem.
Leiam os poemas abaixo, ouçam e vejam a musicalidade e as interpretações geniais do artista gaúcho. 

Deixando o Pago
Composição: Vitor Ramil
(poema de João da Cunha Vargas)


Alcei a perna no pingo
E saí sem rumo certo
Olhei o pampa deserto
E o céu fincado no chão
Troquei as rédeas de mão
Mudei o pala de braço
E vi a lua no espaço
Clareando todo o rincão


E a trotezito no mais
Fui aumentando a distância
Deixar o rancho da infância
Coberto pela neblina
Nunca pensei que minha sina
Fosse andar longe do pago
E trago na boca o amargo
Dum doce beijo de china

Sempre gostei da morena
É a minha cor predileta
Da carreira em cancha reta
Dum truco numa carona
Dum churrasco de mamona
Na sombra do arvoredo
Onde se oculta o segredo
Num teclado de cordeona

Cruzo a última cancela
Do campo pro corredor
E sinto um perfume de flor
Que brotou na primavera.
À noite, linda que era,
Banhada pelo luar
Tive ganas de chorar
Ao ver meu rancho tapera

Como é linda a liberdade
Sobre o lombo do cavalo
E ouvir o canto do galo
Anunciando a madrugada
Dormir na beira da estrada
Num sono largo e sereno
E ver que o mundo é pequeno
E que a vida não vale nada

O pingo tranqueava largo
Na direção de um bolicho
Onde se ouvia o cochicho
De uma cordeona acordada
Era linda a madrugada
A estrela d’alva saía
No rastro das três marias
Na volta grande da estrada

Era um baile, um casamento
Quem sabe algum batizado
Eu não era convidado
Mas tava ali de cruzada
Bolicho em beira de estrada
Sempre tem um índio vago
Cachaça pra tomar um trago
Carpeta pra uma carteada

Falam muito no destino
Até nem sei se acredito
Eu fui criado solito
Mas sempre bem prevenido
Índio do queixo torcido
Que se amansou na experiência
Eu vou voltar pra querência
Lugar onde fui parido



Milonga de Manuel Flores

Composição: Vitor Ramil
(poema de Jorge Luís Borges)

Manuel Flores vai morrer
Isso é moeda corrente
Morrer é um costume
Que sabe ter toda a gente

Amanhã virá a bala
E com a bala o olvido
Disse o sábio Merlin
Morrer é haver nascido

Apesar disso me dói
Despedir-me da vida
Essa coisa tão de sempre
Tão doce e tão conhecida

Olho na alba minhas mãos
Olho nas mãos as veias
Com estranheza as contemplo
Como se fossem alheias

Quanta coisa em seu caminho
Esses olhos terão visto
Quem sabe o que verão
Depois que me julgue Cristo

Manuel Flores vai morrer
Isso é moeda corrente
Morrer é um costume
Que sabe ter toda a gente


segunda-feira, 21 de março de 2011

Veja este vídeo sem medo de amar

Vi o vídeo abaixo no blog do Maranhão Viegas, que recebeu de sua mulher Mara, que recebeu de uma amiga, que provavelmente recebeu de outra pessoa, ou teve a sensibilidade de ir buscá-lo lá no YouTube. Decidi na hora postá-lo aqui no meu blog para formar uma corrente contra o medo de dizer: Eu te amo!
Esta semana de lua cheia é um bom período pra fazermos prosperar campanhas desse tipo. As pessoas ficam mais sensíveis, mais enamoradas. Quem sabe, a simplicidade deste vídeo alcance objetivos que os melhores discursos, os maiores exemplos e as mais belas poesias ainda não conseguiram alcançar. Quem sabe... 

domingo, 20 de março de 2011

Minha sogra pulou a cerca

Por José Carlos Camapum Barroso
Publicado no jornal O Popular, em setembro de 2001.

Quem diria, hein? Depois de 80 anos de idade, dedicados plenamente à família, sustentados por um discurso fortemente moralista e conservador, minha sogra resolveu pular a cerca. Para surpresa de todos: netos, bisnetos, filhos e, principalmente, dos genros – afinal, já imaginou se o “problema” for hereditário?
Sorte dela que não vive em país mulçumano nem professa religião fundamentalista. Fico imaginando a ex-distinta senhora sendo massacrada em praça pública se vivesse, por exemplo, no Afeganistão, onde não escapam do sacrifício nem as pobres imagens de Buda.
A mulher (no sentido genérico, não a minha sogra em particular, claro) recebe punição, em pleno terceiro milênio da Era Cristã, pelo simples fato de descobrir o rosto. Enquanto isso, em outros países, ganha proporcionalmente à quantidade de roupas que tira. Quanto mais descobre, mais cobertos ficam os seus saldos bancários. Ressalto essas contradições por mera especulação. Não me passa pela cabeça (imaginem!) que minha sogra tenha tomado tal decisão por motivos tão fúteis... Será?!?
Sorte da minha sogra também por não ter vivido na Idade Média, quando tais atos eram considerados ofensivos à moral cristã e, não raro, atribuídos a bruxas, feiticeiras e outras personalidades do gênero. A punição, morte na fogueira. Aí ficamos imaginando, nós, membros da família, se também vivêssemos naquela época, como iríamos sofrer! Quanta dor! Reunião familiar à base de churrasquinho, então, nem pensar. Durante muitos e muitos anos...
Mas o fato, tal como se deu, mereceria a atenção especial do mestre do cinema italiano Frederico Fellini, se vivo fosse. Na realidade seria mesmo para um filme de longa-metragem. Minha sogra gastou 20 minutos (sugestivo esse tempo, hein?) para superar uma barreira, mais especificamente uma cerca, uma porteira na fazenda de sua filha, no interior de Goiás, próximo ao município de Rio Verde.
Depois de publicada a
crônica, Odessa achou a
história engraçada.
Ela, sozinha, abandonada pelo ônibus na rodovia, resolveu pular a porteira fechada por um cadeado. Era impossível passar entre um fio e outro de arame estendido. Embora lisos, os arames estavam muito próximos um dos outros para o seu corpicho. Foram dez minutos sofridos para galgar o topo do obstáculo; e outros dez minutos de apreensão para proceder à íngreme descida. E o medo de despencar lá de cima e ficar abandonada na estrada da fazenda, por onde raramente passam carros. Aí, sim, o título desta crônica seria: Sogra quebra a bacia ao pular cerca.
Felizmente nada aconteceu de mais grave, além da cena cinematográfica, felliniana, de pular a cerca. Também sou forçado a explicar que minha sogra é viúva, o que exclui o zunzum de que ela estaria pulando cerca... Pura intriga de algum genro despeitado, provavelmente daquele que tascou o cadeado na porteira quando soube que receberia tal visita. Alguns comentaristas, por preciosismo, poderiam dizer que uma mulher viúva, depois de certa idade, não pula cerca. No máximo, estaria procurando expandir a propriedade.
Neste caso, seria sorte dos filhos, netos e bisnetos. Afinal, são os herdeiros do patrimônio. Nós genros, não somos considerados parentes...
Azar o nosso.

sábado, 19 de março de 2011

Assis Valente faria 103 anos hoje

Assis Valente (foto) nasceu no dia 19 de março de 1908. Viveu apenas 50 anos, mas deixou uma obra de mais de 150 canções. Muitas delas fizeram sucessos e são cantadas até hoje pelo povo brasileiro. Fez Bobagem, Camisa Listada, Brasil Pandeiro, Boas Festas e O Mundo Não Se Acabou estão entre as mais conhecidas.
Tinha uma personalidade que oscilava entre alegrias e tristezas. Não gostava de falar da infância, provavelmente por ter sido abandonado pelos pais e criado por um casal em Santo Amaro da Purificação, Bahia. Trabalhou em farmácia, hospital e circo. Foi protético, desenhista e compositor. Nestas três profissões, mostrou talento e habilidade. Como protético, diziam, suas dentaduras faltavam falar. Seus desenhos foram divulgados com destaque em algumas revistas cariocas, o que lhe rendeu algum dinheiro.
Mas, o sucesso veio quando começou a compor sambas, marchas, músicas natalinas e juninas. Suas primeiras canções foram gravadas por Carmen Miranda, de quem era fã incondicional e por quem cultivava certa paixão. Com a ida de sua intérprete predileta para os Estados Unidos, em 1939, a carreira de Assis começou a declinar. Foi, aos poucos, deixando a profissão de protético. Gastava muito dinheiro com amigos. Endividou-se.
Várias de suas canções têm o feitio alegre, carnavalesco. Em Alegria, por exemplo, diz: “Minha gente era triste amargurada/ inventou a batucada pra deixar de padecer/ salve o prazer, salve o prazer”. Mas, em Boas Festas, expressa um realismo pouco condizente com o espírito natalino: “Já faz tempo que eu pedi/ mas o meu Papai Noel não vem/ com certeza já morreu/ ou então, felicidade/ é brinquedo que não tem”.
Assis Valente foi também irônico, engraçado, não apenas no circo mambembe em que trabalhou como apresentador e palhaço, mas também em canções que brincavam com o cotidiano das pessoas, como em Fez Bobagem e em O Mundo Não Se Acabou.
Com as dívidas, seus momentos de tristeza começaram a ser mais freqüentes e mais intensos. Tentou suicídio várias vezes. Em uma delas, pulou do morro do Corcovado e foi salvo por ter ficado preso aos galhos de uma árvore.
Morreu no banco de uma praça pública, depois de tomar formicidade com guaraná, no dia 10 de março de 1958, quando faltavam nove dias para completar 50 anos.
A imagem a ser preservada é a do Assis Valente brincalhão, irônico, carnavalesco e extremamente talentoso. É esse o Assis que transparece na canção O Mundo Não Se Acabou, abaixo interpretada pela bela voz de Rita Ribeiro. Vejam, ouçam e leiam a letra.

O Mundo Não Se Acabou

Assis Valente


Anunciaram e garantiram que o mundo ia se acabar 
Por causa disso a minha gente lá de casa começou a rezar 
E até disseram que o sol ia nascer antes da madrugada 
Por causa disso nessa noite lá no morro não se fez batucada 

Acreditei nessa conversa mole 
Pensei que o mundo ia se acabar 
E fui tratando de me despedir 
E sem demora fui tratando de aproveitar 
Beijei na boca de quem não devia 
Peguei na mão de quem não conhecia 
Dancei um samba em traje de maiô 
E o tal do mundo não se acabou 

Chamei um gajo com quem não me dava 
E perdoei a sua ingratidão 
E festejando o acontecimento 
Gastei com ele mais de quinhentão 
Agora eu soube que o gajo anda 
Dizendo coisa que não se passou 
Vai ter barulho e vai ter confusão 
Porque o mundo não se acabou


sexta-feira, 18 de março de 2011

Sábado é dia de lua cheia, grande e bem pertinho

Amanhã é dia de Lua Cheia. Mais cheia do que ela normalmente se apresenta aos nossos olhos. Amanhã, sábado, é dia da maior lua dos últimos 18 anos. Maior porque, simplesmente, estará mais próxima de nós, cerca de 21 mil quilômetros a menos do que a distância média entre ela e a Terra. 
Amanhã é dia de namorar e de enamorar pelos encantos da natureza.
A mesma natureza que cospe lavas pelos vulcões, emana terremotos, sopra tsunamis, furacões e vendavais, que destrói cidades, casas, que retira vidas e desabriga milhares de famílias, tem força também para encher os olhos, embriagar os homens, encantar os casais e inspirar os poetas.
A lua de amanhã estará mais perto dos olhos e dos corações dos apaixonados pelo belo que a natureza de forma tão especial nos propicia.
A lua, branca, branca, branca, estará mais cheia para encher mais nossos olhos. Será impossível andar pelas ruas e não erguer a vista para o céu, levantar a cabeça orgulhoso de ser humano, estar vivo e poder agradecer a Deus por tantos encantos. 
A mesma natureza que nos assusta, também nos conforta, afaga e acaricia. A mesma luz que vinda do sol nos cega e nos faz cabisbaixo, quando refletida pela lua nos engrandece, fortalece e nos dá a certeza de que outro amanhã será apenas um novo dia.
A lua de amanhã será outra lua, cheia, branca e perto. Bem pertinho.

Lua, lua, lua, lua

Composição: Caetano Veloso – Canta: Cristina Mota

Lua, lua, lua, lua
Por um momento meu canto contigo compactuar
E mesmo o vento canta-se
Compacto no tempo
Estanca
Branca, branca, branca, branca
A minha, nossa voz atua sendo silêncio
Meu canto não tem nada a ver com a lua


Esquenta a polêmica sobre o blog da Bethânia

A polêmica gerada pelo financiamento público para custear a criação de um blog da cantora Maria Bethânia continua no ar (veja matéria abaixo). Quem entrou na polêmica foi o jornalista Arthur Xexéu, durante participação em um programa da rádio CBN (ouça o programa pelo link abaixo). Ele lembrou que a isenção para recursos captados pela Lei do Audiovisual é de 100%, e que, portanto, o montante de R$ 1,3 milhão a ser buscado pela cantora será de origem exclusivamente pública.
A jornalista Viviane Mosé, que também participava do programa, até procurou justificar a decisão do Ministério da Cultura. Na visão dela, serão 365 vídeos colocados à disposição de todos durante um ano, ou seja, um material que estará para sempre pronto para ser usado, pesquisado e divulgado.
Mas Xexéu rebateu. Tudo isso só se justifica se a cantora e o cineasta Andrucha Waddington, que produzirá os vídeos, não estiverem cobrando cachê alto. Quem quiser cobrar cachê alto tem que ir para o mercado, disputar os recursos, livremente, com os demais interessados. A utilização de recursos públicos, por esse instrumento da renúncia fiscal, só se justifica se o empreendimento não visar o lucro.
O cineasta Andrucha diz que isso tudo “é uma patrulhamento idiota”. Esclarece que vai produzir mais de 600 minutos – o equivalente a cinco longas-metragens – e que cada vídeo vai custar R$ 3.562,00. E acrescentou: “É um projeto absolutamente lindo, não sei por que existe esse patrulhamento em cima de nomes como o da Bethânia”.
Gente, enquanto a polêmica não acaba e enquanto o blog O Mundo Precisa de Poesia não entra na Internet, vamos continuar aqui, no ZecaBlog, modestamente, lutando para que a Poesia tenha a valorização que merece. Para não dizerem que não falei de flores, vejam e ouçam Maria Bethânia aqui embaixo, cantando Jeito Estúpido de Ser e recitando versos de Fauzi Arap.




quinta-feira, 17 de março de 2011

Resgate da poesia ganha apoio de Maria Bethânia

A idéia de resgatar o prazer pela Poesia, um das propostas que justificaram a criação deste ZecaBlog, ganhou um apoio de peso. A cantora Maria Bethânia está prestes a lançar o blog O Mundo Precisa de Poesia, justamente com esse objetivo. Quem acessar a página poderá ver, diariamente, um vídeo da cantora interpretando clássicos da literatura brasileira.
Maria Bethânia saiu muitos anos-luz na frente no aspecto financeiro. O Ministério da Cultura autorizou a cantora a captar R$ 1,3 milhão para produzir a página na Internet, garantindo que não haverá aporte de recursos públicos. O órgão explica que haverá apenas o que já está previsto em lei, ou seja, a dedução do Imposto de Renda de parte dos valores investidos pelos produtores em eventos culturais.
Claro que o argumento é um sofisma. Os recursos que deixarão de ser recolhidos em impostos são públicos, o que não invalida o argumento de quem defende investimentos do governo em empreendimentos culturais dessa e de outra natureza. Importante é saber se projetos semelhantes, apresentados por pessoas não famosas, sem padrinhos políticos (o que não quer dizer que a cantora os tenha), terão chances de ser contemplados com incentivos previstos em Lei, mesmo que sejam bem mais modestos.
A polêmica tomou conta do mundo virtual, principalmente do Twitter, com reações, na sua maioria, contrárias ao incentivo concedido pelo Ministério da Cultura. Polêmicas à parte, este blog torce para que Maria Bethânia, com ou sem incentivo financeiro público, implante rapidamente o seu projeto e venha se somar aos nossos esforços, que são de muitos brasileiros, felizmente.
O vídeo abaixo mostra a importância de termos Maria Bethânia recitando e catando textos e versos maravilhosos. Ouvir Bethânia interpretar Poema do Menino Jesus, de Fernando Pessoa, e depois cantar O Doce Mistério da Vida, numa versão de Alberto Ribeiro, sinceramente, é de arrepiar!

quarta-feira, 16 de março de 2011

Césio 137 e o dia em que o repórter virou notícia

Tragédia do Césio 137, em Goiânia (GO), contaminou mais de 112 mil pessoas

A tragédia que vive o povo japonês, depois do terremoto, do Tsunami e, agora, com os seguidos vazamentos de radiações nucleares, traz à nossa memória o acidente nuclear com o Césio 137, em Goiânia, no mês de setembro de 1986. As causas da tragédia goiana, todos nós sabemos: o descuido e o descaso daqueles que abandonaram o equipamento de radioterapia em terreno baldio. O material, aberto e manuseado por algumas pessoas, tinha um colorido azulado, exuberante, e atraiu a curiosidade de adultos e crianças.
Os números da tragédia também são bastante conhecidos. Mais de 112 mil pessoas foram contaminadas, centenas foram hospitalizadas e pelo menos quatro morreram em curto prazo de tempo. O lixo radioativo recolhido chegou a 13 toneladas. Centenas de pessoas sofrem até hoje alguma consequência daquele acidente.
Dezenas de jornalistas deslocaram-se diretamente para Goiânia e a tragédia virou destaque em jornais de todo o mundo. O tema virou pauta de jornais, rádios e televisões em várias cidades brasileiras.
É aí que entra o meu amigo Maranhão Viegas, grande jornalista, dono de um texto maravilhoso. A preocupação com aparelhos radioativos que, por algum acaso, pudessem não estar guardados adequadamente, chegou a Campo Grande (MS). E a pauta sobrou para Maranhão Viegas, e ele foi a campo. Mas, deixemos o repórter, que acabou virando notícia, contar o que aconteceu, com suas próprias palavras.


“Naquela noite, tive dificuldade para dormir”

Por Maranhã Viegas, jornalista

Nessa época, eu era repórter da TV Morena, afiliada da Rede Globo, em Campo Grande, MS. E no auge das investigações e das análises do que havia ocorrido em Goiás, descobrimos que havia um equipamento similar ao que provocara o desastre de Goiânia, no Hospital Universitário, em Campo Grande.
Maranhão Viegas, repórter em 1986
A pauta investigativa caiu em minhas mãos. Ela pedia que se mostrasse como funcionava o equipamento e as condições de manutenção e de segurança do ambiente onde ele estava instalado. Lá fui eu, numa manhã de sexta-feira cumprir a pauta.
Na véspera, Mara havia viajado para o Sul. Fazia pouco que a gente tinha descoberto – ela estava grávida da nossa primeira filha, Mariana, e iria passar uns dias com a família em Santa Rosa. O presente e o futuro tomavam conta da minha cabeça naquele instante. A família crescendo e a paixão pelo jornalismo também. Era um bom momento.
No Hospital Universitário, não demoramos a achar o setor onde estava a bomba de Césio 137. Ramon Carlos Pereira era o cinegrafista que me acompanhava desde os tempos do SBT. Formávamos uma dupla inseparável. Nos entendíamos por olhares. A imagem dele completava perfeitamente o meu texto. Quando fui contratado pela TV Morena, lutei e consegui que ele fosse também.
O espaço era pequeno e a imagem pobre. Mas o Ramon era craque e, enquanto eu conversava com a médica responsável pelo setor, ele ia descobrindo os melhores ângulos, as melhores cenas. A doutora me explicava que o césio 137 era uma fina pastilha que ia para a máquina ladeada por duas outras pastilhas de cobre, no mesmo formato.
Enquanto me explicava, ela me mostrou as pastilhas de cobre e eu comecei a fazer a “passagem” da matéria segurando com uma pinça uma daquelas pastilhas de cobre. Passei o texto uma vez, ensaie o movimento de câmera e comecei a gravar. Enquanto gravava, percebi a chegada de uma enfermeira apavorada, gesticulando muito. Interrompi a gravação.
A mulher chamou a médica num canto e falou algo. Comecei a ficar preocupado. Eu e o Ramon. Quando a médica se voltou pra nós, o pavor se instalou. Ela estava pálida. E nos dizia ter ocorrido um erro grave. Aquilo que estava na pinça, em minhas mãos, não era cobre. Era o próprio Césio.
Meu desespero só não foi maior do que o do Ramon. Ele parou de gravar e saiu da sala correndo. Fiquei lá, meio atônito, sem saber direito o que fazer. Em um segundo, o filme da minha vida passou inteiro em minha mente. O futuro e o presente. A gravidez da Mara, minha profissão... Tudo.
Com o pouco de controle que ainda tinha, pensei: precisamos saber o nível da radiação. Deve haver um medidor Geiger aqui. Não demorou muito e apareceu um. E já estava fora da sala, mas nunca mais esqueci o barulhinho que o aparelho fez, indicando a presença de radiação ao passar pelo meu corpo.
A notícia se espalhou no hospital. Houve um certo pânico. Nenhum maior do que o meu e do Ramon. Corremos para o carro. Aquela altura, a matéria tinha ficado em segundo plano. Nós havíamos virado notícia. No carro, sentimos a primeira medida da histeria – o motorista se recuava a dividir o espaço com a gente. Foi um custo convencê-lo a nos levar de volta à TV.
Quando chegamos à TV, todo mundo já sabia o que havia acontecido. Entramos na redação e ela estava vazia. Todos dispensados para não ter contato com a gente. Minha "chefa" imediata, Ecilda Stefanello, responsável pela sugestão da pauta, me deixou uma carta testamento. Ela pedia desculpas pela pauta e lamentava o ocorrido. No desespero, fui pra casa.
Agradeci a Deus pelo fato da Mara estar viajando. Antes de entrar em casa, tirei toda a roupa. A desinformação e a angústia sugeriam que aquela fosse uma boa medida. Passei direto para o quintal tentando não tocar em nada. Abri uma torneira e gastei uma barra de sabão inteira, num longo banho em que quase perdi a pele, de tanto me esfregar.
Foram as horas mais angustiantes da minha vida. Já no início da noite, consegui um contato com o coordenador da Comissão Nacional de Energia Nuclear, que estava em Campinas. As palavras dele me trouxeram um alívio imediato. De fato, eu e o Ramon havíamos sofrido exposição a material radioativo. Mas o tempo que permanecemos na sala, cerca de uma hora, e a quantidade do material existente ali não nos ofereciam um risco maior.
Naquela noite e nos dias seguintes, tive dificuldade para dormir. A vida só voltou ao normal depois de uma bateria de exames especiais que nos livrou do fantasma da radiação. A reportagem, acho, nunca foi ao ar. Tentei mover uma ação contra o hospital, mas não deu em nada. Eu e o Ramon reforçamos ainda mais a nossa amizade e fizemos ainda muitas reportagens juntos, até que cada um seguisse o seu caminho. A Ecilda, minha "chefa", virou minha sócia, numa jornada que durou mais de doze anos (mas isso é outra história).
Tempos depois, o incidente virou motivo de boas gargalhadas. Hoje, entretanto, me vem à mente e me remete ao sofrimento do povo japonês diante da enorme catástrofe atômica que se desenha. Há quase 25 anos eu vivi uma experiência infinitamente menor do que essa. Não menos apavorante, eu garanto.

terça-feira, 15 de março de 2011

Resgate da poesia passa pelos novos talentos

Diz o ditado que filho de poeta, poetinha é! Em se tratando de Matheus Carvalho (foto), esse ditado é plenamente válido, inclusive com o diminutivo poetinha para lembrar Vinícius de Moraes. Matheus não é apenas filho do poeta Itaney Francisco Campos, que inclusive deu-me a honra de abrir esse Blog com Áspera Flor. Ele é filho também da poesia que foi Margot Machado Gonçalves, a nossa querida “Margozinha”, que nos deixou tão prematuramente, mas nunca sai dos nossos pensamentos, pelos bons frutos que deixou nesta vida.
Matheus não foi filósofo porque não quis, não seguiu advogado porque buscou novos caminhos. Deixou de ser procurador federal porque preferiu os rumos de Vinícius de Moraes também na diplomacia. Curte as amizades, um bom papo, e eventualmente, quando não está viajando pelo mundo, nos dá o prazer de sua presença lá em casa.
A arte de escrever e falar bem é um dom que herdou dos pais e compartilha com suas duas irmãs – Raquel e Ana Laura, duas charmosas “sobrinhas”, lindinhas demais, como costuma dizer a Stela.
A poesia de Matheus fala por si só. Seus versos são mais do que “estas coisas”, ou “qualquer coisa”, ou tantas outras coisas. Têm ritmo e musicalidade. Fluem livremente pelo seu pensamento que viaja solto. Depois de resgatarmos a boa música brasileira, por meio do samba, vamos trazer de volta o prazer pela poesia, contando, em ambas as missões, com a ajuda dos novos talentos. Eu assino embaixo. E vocês? Confiram.


Estas Coisas
(Matheus Carvalho)

Estas coisas me definem.
Olhando longe pela janela,
Penso sempre em minha sina
Quando se forem todas elas.

Haverá sentido em falar
De mim como sou (estarei morto?),
Em vez de outro, ignaro
Do ser anterior, agora oco?

Mortas coisas e pessoas,
Morto eu? Falso sobrevivente,
Andando a esmo inutilmente,
Corpo sem mente?

Ser sem nexo,
Renascido das cinzas
Não para ser Fênix
Mas novamente cinzas?

Do que chamar este estranho
Bando de cacos, ator sem roteiro,
Amnésia ambulante,
Sem eira, sem beira e sem paradeiro?

Chamar pelo mesmo nome?
Palavras deslizam entre entes
Díspares ao longo do tempo,
Sem algo que as dome.

Este alter ego nascido
No meio da vida, com peito
E cabeça vazios, exige
Porém algum respeito.

Que ninguém ouse
Desacatar este novo senhor,
Esta outra coisa
Que logo sou