quarta-feira, 29 de junho de 2011

Tributo a Puccini encerra o 1º Festival de Ópera


Maestro Claudio Cohen garantiu a beleza do espetáculo
Tributo a Giaccomo Puccini fechou com clave de ouro o 1º Festival de Ópera de Brasília, que começou com um concerto de Mozart, seguido pela ópera Pagliacci, de Leon Cavallo, e depois pela Cavalleria Rusticana, de Pietro Mascagni.
Foi um verdadeiro concerto de gala, valorizado pelas performances dos tenores Fernando Portari e Martin Muehle, das sopranos Janette Dornellas (foto abaixo) e Rosana Lamosa, da Orquestra Sinfônica do Teatro Cláudio Santoro e pelo surpreendente coro do Festival de Ópera de Brasília, preparado por Deyvison Miranda.
Sob a batuta do maestro Claudio Cohen, a orquestra abriu o espetáculo com um prelúdio sinfônico, seguido por diversas árias de Puccini, entre elas O Mio Babbino Caro e Nessun Dorma. Depois o público foi presenteado com a belíssima interpretação do coral para Va Pensiero, de Giuseppe Verdi. Na sequência, duas árias de Pietro Mascagni da ópera Cavalleria Rusticana.
Para fechar o espetáculo, Brindisi, da ópera La Traviata, de Verdi, foi maravilhosamente interpretada pelos solistas, acompanhados do Coro do Festival de Ópera de Brasília, com direito ao bis.
Os organizadores garantiram que, para o próximo ano, tendo em vista a enorme procura por ingressos, será realizado um número maior de espetáculos para cada ópera. Quem teve a oportunidade de acompanhar este festival, já pode sonhar com o segundo, em 2012.
Pra fechar esta quarta-feira pós-festival, um bom vídeo com a ária Brindisi, da Ópera La Traviata, no ajudará, com certeza.


segunda-feira, 27 de junho de 2011

Fica instituído o Dia Nacional do Xará

Dia 26 não é um dia especial no calendário. Não é um dia, por tradição, dedicado a uma pessoa, instituição, categoria ou evento significativo. Pelo menos não era até ontem, domingo, quanto decidi decretar, e está sendo publicado hoje, neste blog, o Dia Nacional do Xará. Uma singela e merecida homenagem a todos aqueles que se chamam José Carlos.
Simples, por razões óbvias: quem tem esse nome não liga muito para ostentações, badalações ou coisas do gênero. E merecida porque ontem, dia 26 de junho de 2011, trocou este mundo por outro, certamente mais justo, um dos melhores xarás que tive a oportunidade de conhecer até hoje.
José Carlos de Freitas Martins (na foto com uma de suas filhas), meu cunhado, foi até os últimos minutos de sua vida, uma pessoa alegre, comunicativa, inspirada e espirituosa. Lutou, por mais de uma década, com alegria, determinação e forte presença de espírito contra uma doença que, de imediato, costuma arrasar o moral das pessoas.
Certa vez, disse ao Xará, e ele concordou de pronto, que as pessoas com esse nome de José Carlos teriam que ter, obrigatoriamente, algum dote a mais, como razão necessária para garantir sua sobrevivência. E ele acrescentou: “Temos que ser bonitos, inteligentes e gente boa”.
Contei a ele que minha mãe tinha escolhido outro nome para minha graça. Por complicações no parto, o médico achou que eu não sobreviveria e batizou-me por José Carlos. Foi como um milagre. Sobrevivi e estou por este mundo resistindo até hoje às intempéries da vida. E ele retrucou: “É Xará... Se ele tivesse escolhido outro nome, talvez você não estivesse aqui pra contar essa história...”
O Xará sobreviveu a esse duro período de mais de onze anos, vivendo bem, feliz, ao lado de sua miss, como chamava sua Wagna, e de suas quatro belas filhas. Mais recentemente, cercado de genros e netos por todos os lados.
A vida nos ensina muitas coisas. O José Carlos nos deu uma lição de vida que há muito não víamos. Foi guerreiro, herói e uma companhia sempre muito agradável. Transformar o dia 26 de junho em o “Dia Nacional do Xará” é uma homenagem mais do que justa a quem nos deixou ainda "bonito, inteligente e gente boa" demais da conta!

domingo, 26 de junho de 2011

Aprile Millo vem fechar o Festival de Ópera

Disse e repito aqui neste blog: o 1º Festival de Ópera de Brasília, que será encerrado nesta terça-feira (28.06), não pode e não deve ser o último. Foi sucesso pleno de público e de apresentações belíssimas. O encerramento tem tudo para ser glorioso, com a participação da soprano americana Aprile Millo (foto), acompanhada pela nossa Orquestra Sinfônica do Teatro Nacional Cláudio Santoro, num concerto em homenagem a Giaccomo Puccini.
A edição do Festival presta justa homenagem ao Maestro Silvio Barbato, morto no acidente da Air France, em 2009. Como Maestro Titular da OSTNCS, Silvio foi um dos principais entusiastas e realizadores de óperas em Brasília. Sempre procurou levar a Orquestra para fora do Teatro, fazendo concerto nas diversas regiões administrativas e no Parque da Cidade, na Torre de TV, Esplanada dos Ministérios e Concha Acústica.
Silvio adorava ver crianças nos concertos. Talvez por isso, os organizadores deste 1º Festival de Ópera tenham confundido as coisas e permitido a entrada de crianças, à noite, num ambiente fechado, para assistirem Ópera. A idéia acertada de Silvio era popularizar os concertos, inclusive com a presença de crianças ao ar livre, em parques, ou outros locais e horários adequados.
Um pequeno escorregão que não chegou a comprometer a qualidade do 1º Festival de Ópera de Brasília, que entre muitos acertos teve o de abrir espaço para talentos brasilienses, como Janete Dornellas e Chris Dantas, no papel de Santuzza, em Cavalleria Rusticana, e Ghandia Brandão e Érika Kalina, como Nedda, em Pagliacci, entre outras revelações do Distrito Federal.
Enquanto aguardamos a terça-feira, que tal ver e ouvir Aprile Millo, cantando a área Tu che di gel sei cinta, de Giaccomo Puccini? Ajuda-nos a passar o domingo e aguardar a segunda-feira em paz.


sexta-feira, 24 de junho de 2011

As veias abertas de um mundo globalizado

Eduardo Galeano é uma entidade universal. Não é apenas um escritor uruguaio, latino-americano. Tornou-se do mundo pela grandeza dos seus pensamentos, sem deixar de ser humanista e sem perder de vista os interesses da coletividade. Não é apenas o autor de Veias Abertas da América Latina, clássico que fez nossas cabeças lá pelos anos 70, mas também um escritor sensível, capaz de produzir um texto poético e delicado como O Livro dos Abraços, ou a bela trilogia Memória do Fogo.
Suas opiniões são radicalmente contra a visão capitalista do mundo, o poder do dinheiro e a tirania das classes dominantes. Mesmo seus adversários não têm a audácia de menosprezar seus valores literários, sua conduta coerente e seus pontos de vistas muito bem esclarecidos.
Eduardo Galeano, jornalista e escritor uruguaio
O mundo globalizado trouxe avanços tecnológicos e ampliou o debate sobre a pobreza, as injustiças sociais, os preconceitos, a intolerância religiosa e os regimes ditatoriais, temas transportados para um palco de novas dimensões e repercussões, que passaram a ser tratados em tempo real.
Falta, talvez, aprofundarmos o debate sobre qual sociedade queremos construir para o futuro, sob a ótica do meio ambiente, do uso da energia, do direcionamento do avanço tecnológico, da educação, da cultura e da saúde – entre tantos outros temas.
Essa tem sido a preocupação constante de Eduardo Galeano em seus ensinamentos. Esse, com certeza, é o recado maior que dá a todos nós, de forma descontraída e espontânea, nessa entrevista que reproduzo abaixo. A entrevista foi feita na Praça da Catalunha, em Barcelona, depois de ter visitado a Praça do Sol, em Madri, no período de eleições gerais na Espanha. Fala com o repórter de forma tranquila, serena, como se estivesse num bate-papo com amigos, ali mesmo na praça.
São apenas onze minutos de uma boa conversa, que vale a pena prestarmos atenção, nessa sexta-feira espremida pelo feriado e pelo fim de semana. Ajuda-nos a pensarmos um pouco sobre a sociedade que temos e a que, de fato, queremos. Assistam.


quarta-feira, 22 de junho de 2011

Poesia que vira a noite e traz a aurora

Considero a construção de um texto poético um enigma difícil de decifrar. Não basta só inspiração, já disseram, mas também muito trabalho, concentração e persistência. Mas, a verdade é que sem inspiração, nesse particular, não há trabalho que dê resultado. Não há esforço que faça surgir no céu uma lua prateada, com estrelas brilhantes e o silêncio que nos conforta. A concentração foge pela linha do horizonte e nos deixa só, prontos para desistir... Adeus persistência.
Digo isso porque recebi esse texto abaixo de minha irmã Juracema. Confesso que poucas vezes tive a oportunidade de ler algo tão inspirado. Provavelmente, a luta que ela travou noite adentro em busca de uma poesia, ou de um poema, deve ter sido intensa. Mas, se ela não conseguiu passar para a folha em branco a poesia que sonhava, mal percebeu que escrevera um texto poético, sensível e suave como são as noites bem dormidas.
Nada mais posso fazer além de publicar o texto dela para dividi-lo com os amigos e postar um vídeo de A Noite do Meu Bem, de Dolores Duran – uma das minhas grandes paixões. Acho que tem tudo a ver com o texto de Juracema. Se estiver enganado, espero que pelo menos sirva para desejar a todos uma boa noite, bons sonos e muita inspiração na vida.


A noite e os poetas
(Juracema Camapum Barroso)

     A noite é um desafio para a morada poética. Estar dentro da noite é quase tudo. Quase nada. É galopar com a imaginação, com a alma em estado de ternura, nostalgia. Portas e janelas se fecham. Luz da lua, das estrelas, mistério e solidão acolhem os que procuram aflorar os mais puros sentimentos na folha branca.
     A força da noite é mágica para o que não teve espaço na luz do sol. A rotina do dia nem é lembrada. Ecos secretos murmuram sinos da mente que badalam solidão.
     A noite pode ser o fim, pode ser o começo. Proporciona o encontro do que ainda não tem voz com o que comprime a alma. Na memória há lembranças, recordações, momentos, desejos, com uma necessidade quase vital de decifrar, organizar turbilhões de sentimentos.
     A arte de sonhar e suas variadas interpretações, o que foi lindo ou triste, uma realidade ambígua, liricamente explicada, possa ser melhor aos ouvidos de um poeta. Sonhos distantes como as estrelas brilham em noites escuras, cheias de gritos abafados, não há como distinguir o que é doce ou amargo, os sabores se misturam.
     A noite retorna à infância cheia de labirintos camuflados. O poeta sente-se vulnerável, perde-se, inquieta-se, e na própria voz entre o silêncio e a escuridão clareia um verso. A insônia persegue a obsessão de criar ou concluir. A noite pode estar vestida por um céu estrelado, ou de prata pela luz da lua cheia. A beleza é o encanto que ameniza a dor da procura. Ela não é só fria, no calor da noite quando o silêncio invade uma mente criativa, belos versos surgem. O que estava lá fora atravessa paredes, portas e janelas.
     Enquanto a noite se estende, os poetas indormidos tentam abrir conchas que não querem ceder. O intento vai espreitando na angústia da criação. Imerso na paixão de criador roga por uma luz, lança vôos na imaginação. Extravasar sentimentos é esculpir, lapidar uma pedra rara, o diamante a um só dono pertence.
     O poeta é meticuloso, eufórico, contemplativo e medroso no seu processo criador, pois ele sabe que a Lira é traiçoeira. Não pode o delírio da imaginação arrastar sem controle as emoções. Busca no passado compreender o presente e um sentido para o futuro. A dúvida é o massacre, da inconformidade, a alma doída tenta amenizar sua dor no desabafo. Cheio de sombras sem formas, sua alma esgota e as palavras são “machados que batem e retinem na madeira, e os ecos! Ecos escapam do centro como cavalos. Palavras secas, sem destino, incansável som de cascos" (Sylvia Plath).
     Quando a noite é agraciada por uma chuva fina, parece a certeza de Deus, conforto dos anjos.  Haverá tempo para uma revisão? E o crepúsculo da manhã chegando, o tempo... As indecisões. O delicado sentido do anoitecer termina com o encanto da aurora.


1º Festival de Ópera não pode ser o último

Marlon Maia e Érika Kalina - desempenho impecável em Pagliacci, de Leon Cavallo
O 1° Festival de Ópera de Brasília está sendo um sucesso de público e de revelação de talentos de um universo artístico importante, mas pouco explorado e mal divulgado. Os espetáculos de óperas estavam longe dos teatros do Distrito Federal há quase dez anos.  As apresentações dessa iniciativa da Secretaria de Cultura começaram no final de junho com Mozart, continuaram nos dias 17 e 18 passados com Pagliacci, de Leon Cavallo, terão sequência nos próximos dias 23 e 24 com a ópera Cavalleria Rusticana, de Pietro Macagni, e serão encerradas no dia 28 com um concerto de gala.
Tanto tempo sem ópera na cidade é um desserviço para a cultura. Serviu apenas para aumentar a visão preconceituosa de que ópera é uma arte complexa, elitista e difícil de ser entendida e apreciada. Quem foi ao Teatro Nacional, na quinta e na sexta-feira da semana passada, teve a oportunidade de testemunhar o sucesso de público e o talento dos dois grupos que apresentaram a obra de Leon Cavallo.
O alto grau de satisfação de um público comprovadamente heterogêneo mostra que ópera é uma arte simples e, ao mesmo tempo, profunda. Tive a oportunidade de assistir à apresentação do dia 18, sexta-feira, com um grupo que incluía a participação da soprano Érika Kallina, no papel de Nedda – durante dois semestres foi minha professora e hoje é uma grande amiga.
A apresentação foi divina, tanto dos atores principais quanto do coral e da Orquestra do Teatro Nacional Cláudio Santoro. Vamos torcer e trabalhar para que este primeiro festival de ópera de Brasília não seja o último. A Secretaria de Cultura está de parabéns pela promoção e deve trabalhar com afinco para garantir a realização dos próximos.

segunda-feira, 20 de junho de 2011

Aracy, 23 anos depois, ainda pede passagem

Aracy de Almeida, na foto com Ismael Silva, começou sua carreira de cantora como normalmente começam as cantoras americanas: cantando hinos religiosos numa igreja Batista, no bairro do Encantado, no Rio de Janeiro, no início dos anos 30, década do rádio, de Noel Rosa, Vadico, Ismael Silva, Custódio Mesquita e tantos outros gênios da música popular brasileira. Sempre que escapava da vigilância do pai, fugia para cantar em terreiro de macumba e bloco carnavalesco.
Foi Custódio Mesquita, por intermédio de um amigo da família, quem levou Aracy para o rádio. Nascia para o mundo musical, em 1933, aquela que viria a ser a preferida de Noel Rosa e a principal responsável pela divulgação e preservação da obra do Poeta da Vila.
Mal começou na Rádio Educadora, que depois viria a ser a Rádio Tamoio, Aracy já conheceu Noel Rosa, que a convidou de imediato para “tomar umas cervejas cascatinhas na Taberna da Glória”. Nascia ali uma afinada dupla de boêmios.
Aracy (foto ao lado) era desbocada, mas reconhecidamente uma pessoa culta, que adorava músicas clássicas, lia livros de psicanálise e colecionava quadros de pintores brasileiros, como Aldemir Martins e Di Cavalcanti. No ano de 1950, gravou o primeiro álbum de Noel Rosa, e o segundo no ano seguinte, abrindo espaço para que novos artistas recuperassem a obra do Poeta da Vila. Sua maneira de cantar foi decisiva para definir o rumo do samba cantado por voz feminina.
Na década de 70, Aracy de Almeida foi para a televisão ser jurada de programas de calouros. Primeiro, na TV Globo, na Buzina do Chacrinha; depois, no SBT, no programa de Sílvio Santos.
Morreu aos 74 anos de idade, vítima de embolia pulmonar, no dia 20 de junho de 1988. Hoje fazem 23 anos da sua morte. Poucos conhecem o trabalho dessa que foi a cantora preferida de Noel Rosa. Este blog não poderia deixar de prestar uma singela homenagem a Aracy e a música brasileira. Reproduzimos abaixo uma gravação dela, ao vivo, com MPB4, cantando músicas do duelo musical travado entre Noel Rosa e Wilson Batista; depois,  a bela gravação de Último Desejo.




domingo, 19 de junho de 2011

Pra não dizer que não falei de Chico

Chico Buarque prepara novo CD - Foto Ana Carolina Fernandes (Folha Imagem)

Quanto mais Chico Buarque de Holanda demora a lançar um disco, mais aumenta a nossa ansiedade. Sempre foi assim, desde os nossos tempos de pré-adolescência, adolescência, juventude, até os dias de hoje que preferimos chamar de maturidade. Felizmente, um novo disco dele, que é um dos maiores compositores da história da música popular brasileira, está vindo aí.
Será lançado oficialmente dia 20 de julho, mas a partir desta segunda-feira (20.06), a badalação em torno do CD já começa a tomar corpo, pela internet. Chico aderiu aos novos tempos de comunicação on line e redes sociais. Pelo site www.chicobuarque.com.br, a partir de amanhã, os fãs do compositor e cantor poderemos comprar, por R$ 29,90, o CD que ainda não está pronto, passando a ter alguns direitos antecipados, como, por exemplo, acesso a vídeos, atualizados periodicamente, mostrando o processo de criação do novo álbum.
Tem outra novidade na praça para os fãs do cantor. No site do instituto Antonio Carlos Jobim (http://www.jobim.org/acervo/acervodigital.html) já tem um acervo digital, que permite amplo acesso à obra de Chico Buarque, com áudios, vídeos e fotos e documentos interessantes do seu passado.
Chico faz aniversário hoje, dia 19 de junho, mas está preparando um presente para todos os seus fãs, principalmente aqueles que fazem aniversário em julho, quando sai o novo CD, que ainda não tem nome, mas deve ficar com o título de Chico.
Chico Buarque de Holanda é um dos mais expressivos exemplos da riqueza da música brasileira, tão profunda em melodias e ritmos e com letristas de altíssimo nível. Por todas essas qualidades, a música brasileira, assim como a americana e a do Caribe, que também foram fortemente influenciadas pelos ritmos dos negros africanos, tem reconhecimento internacional.
Um exemplo marcante da qualidade das letras das músicas brasileiras está em Construção, que mostramos abaixo, interpretada pelo próprio Chico Buarque. Ajuda a comemorar o aniversário de Chico e a encerrar bem o fim de semana. A segunda-feira será mais leve. Acreditem.







sábado, 18 de junho de 2011

Maria Bethânia, a senhora de engenho... E tantas artes

De engenho e arte. Uma senhora de extraordinária beleza espiritual, de forte  presença e voz marcante, mas, ao mesmo tempo, suave, doce, meiga... Mostrou-se determinada desde criança, quando dizia que iria ser artista. Tornou-se cantora e uma apaixonada pela música, mas traz na alma os dotes de atriz. Foram sua voz e sua presença no palco que levaram Augusto Boal, em 1965, a convidá-la para substituir Nara Leão, que estava doente, no espetáculo Opinião.

Maria Bethânia é uma das maiores interpretes de sua geração. Canta com emoção e sempre soube aliar música, letra e poesia, gravando discos e apresentando shows que se tornaram antológicos.

Bethânia nasceu no dia 18 de junho de 1942, exatamente no mesmo dia em que nascia em Liverpool, na Inglaterra, aquele que viria a ser um dos maiores cantores e compositores da música pop mundial: Paul McCartney.

O nome de Maria Bethânia já nasceu por inspiração musical. Foi escolhido pelo irmão Caetano Veloso por causa da valsa de Capiba, interpretada por Nelson Gonçalves. Os versos da canção dizem: "Maria Bethânia, tu és para mim a senhora de engenho...". E eu acrescento: de engenho e arte. Muita arte e muito talento.

Bethânia é daquelas pessoas que valorizam a vida e os sonhos. Por tudo isso, nada melhor do que ouvi-la cantando Sonho Impossível. Depois, para terminar o sábado, que tal relembrar a voz majestosa de Nelson Gonçalves cantando Maria Bethânia?



sexta-feira, 17 de junho de 2011

Rangel lança CD "Estúdio", ao vivo, na praça

Rangel canta, acompanhado de Ocelo e Liliana, no lançamento do novo CD
Em plena praça, no agradável espaço entre Armazém do Braz e o 2º Clichê, na comercial da quadra 107 Norte, o cantor e compositor Eduardo Rangel lançou e autografou, ontem à noite, seu mais recente CD “Eduardo Rangel Estúdio”. Como eu já disse neste blog (para ver matéria, clique aqui), por ocasião do pré-lançamento, na Vila Planalto, esse é o primeiro CD gravado em estúdio da carreira do artista.
A noite estava fria, mas o calor humano falou mais alto. E o talento de Rangel e seus convidados fizeram a lua cheia ficar mais brilhante ainda. Muita gente pelos bancos da praça e pelas mesas e cadeiras dos dois bares. Fãs de todas as idades aplaudiram o show das 8h30 até pontualmente 10h00, em respeito aos moradores.
Rangel fechou sua presença no palco com a bela canção Noves Fora, acompanhado de Ocelo Mendonça no Sax e Liliana Gayoso no teclado. Ocelo saiu correndo do Teatro Nacional, onde participava de um ensaio de ópera, para prestigiar o amigo.
Fiquei sentado sozinho em uma mesa bem posicionada durante todo o espetáculo, sorvendo moderadamente uma boa cachaça de Salinas, valorizada por um tira-gosto de pescoço de peru cozido.
Finda a apresentação, minha mesa foi reforçada pela agradável presença do casal Solange Nunes e Ocelo, amigos sobre os quais já tive a oportunidade de falar neste blog. Ocelo, inclusive, foi meu parceiro na canção Desvario (para ouvir, clique aqui).
A noite ficou mais agradável ainda com a chegada do maestro Joaquim França, professor da Escola de Música, e da violinista Denise Gomes. O papo, predominantemente sobre música, estendeu-se até meia-noite.
Da outra vez que falei sobre Eduardo Rangel, postei o vídeo dele cantando Noves Fora, ao vivo, acompanhado de orquestra. Agora, no lançamento do novo CD, que foi ao vivo, vamos ouvir a mesma música gravada em estúdio, o que nos permite uma comparação entre uma interpretação e outra. O arranjo de cordas é de Ocelo Mendonça. Ajuda a começarmos o fim de semana.


quarta-feira, 15 de junho de 2011

Céu de Brasília em dia de eclipse lunar gera poesia

Eclipse lunar de 15\06\11, às 19h40, em Brasília - Foto de Pedro Ventura

O lado lunático da lua
(José Carlos Camapum Barroso)

A escuridão comeu a lua,
Em pleno céu de Brasília.
O homem que vinha pela rua
Nem notou, nem sentiu a mordida.

Então a lua, entristecida,
Meio amuada, meio contida,
Vestiu-se novamente de noiva:
Vagarosamente embranquecida.

São Jorge respirou, aliviado
Podia continuar a batalha
Eterna com o dragão, pela vida.

Os namorados, enternecidos
Beijaram-se aliviados, escondidos...
Temiam que a lua, enegrecida,
Jamais voltasse a produzir luar...

O que fazer pelas ruas, então?
Voltar pra casa, cabisbaixo,
Pro magnetismo da televisão?

- Não, não! Disse a lua constrangida.
- Eis-me aqui, noiva arrependida,
A clarear todas as noites de suas vidas.

E assim passou o eclipse lunar,
Como passa o passo do exibicionista.
E a lua, ainda lenta, continua a vagar...
Deixando a escuridão amortecida.

 (Brasília, 15\06\2011)



Noite de São João, Luiz Gonzaga e Pessoa

Tudo tem tudo a ver. As festas juninas brasileiras, o São João muito particularmente, têm influência de diversas culturas que estiveram presentes na nossa formação. A festa foi trazida de Portugal, no período da colonização, mas recebeu influência dos franceses, chineses e espanhois. É uma festa genuinamente misturada, porque, no decorrer dos anos, foi sendo modificada pela cultura brasileira, oriunda dos índios, africanos e imigrantes europeus.
A música marcada teria sido fortemente influenciada pela França, que era uma característica típica das danças nobres, o que fez surgir nossas quadrilhas. A tradição de soltar fogos teria vindo dos chineses. As danças com fitas e as brincadeiras de pular fogueiras, por exemplo, eram muito comuns em Portugal e Espanha.
As comidas típicas das noites de São João são bastante influenciadas pelas colheitas do milho, que ocorre justamente nesse período. Pamonha, cural, milho cozido, canjica, cuscuz, pipoca, bolo de milho, às quais se juntaram outras delícias: arroz doce, bolo de amendoim, bolo de pinhão, bombocado, broa de fubá, cocada, pé-de-moleque, quentão, vinho quente, batata doce e muito mais.
O tema noite de São João sempre foi visitado pelos músicos, compositores e poetas, em várias partes do mundo. Nosso Luiz Gonzaga, o velho Lua, lá no sertão nordestino, deixou belíssimas contribuições para nossa cultura joanina, como era antigamente chamada a festa de São João. Compositores de marchinhas, como João de Barro, o Braguinha, Benedito Lacerda, Carlos Braga e Alberto Ribeiro deram-nos clássicos como “Capelinha de Melão”, “Pedro, Antonio e João”, “Sonho de Papel” e “Pula a Fogueira”.
Em Portugal, Fernando Pessoa dedicou alguns versos ao tema. Os portugueses também têm o hábito de improvisar cantorias, nas ruas, antes da tradicional brincadeira de pular fogueiras (veja vídeo abaixo). Reproduzo também um vídeo de Gilberto Gil, cantando, em show ao vivo, a belíssima Olha pro Céu. E complemento com um terceiro vídeo curioso e bonito: Vítor Ramil canta música que fez para um poema de Fernando Pessoa – Noite de São João.
São muitas misturas, mas o resultado é maravilhoso e bem brasileiro. Confiram.




Olha Pro Céu
(Gilberto Gil)
Composição : Luiz Gonzaga / José Fernandes

Olha pro céu, meu amor
Vê como ele está lindo
Olha praquele balão multicor
Que lá no céu vai sumindo
Foi numa noite, igual a esta
Que tu me deste o teu coração
O céu estava, assim em festa
Pois era noite de São João
Havia balões no ar
Xóte, baião no salão
E no terreiro
O teu olhar, que incendiou
Meu coração.

 
Noite de São João
Vitor Ramil
Poema de Fernando Pessoa; Música de Vitor Ramil

Noite de São João
Noite de São João
Para além do muro do meu quintal
Noite de São João
Noite de São João
Para além do muro do meu quintal
Do lado de cá, eu
Do lado de cá, eu
Do lado de cá, eu
Sem noite de São João
Do lado de cá, eu
Do lado de cá, eu
Do lado de cá, eu
Sem noite de São João
Porque há São João
Onde o festejam
Para mim há uma sombra de luz
De fogueiras na noite
De fogueiras na noite
De fogueiras na noite
Um ruído de gargalhadas
Os baques dos saltos
E um grito casual
De quem não sabe que eu
De quem não sabe que eu
De quem não sabe que eu existo

segunda-feira, 13 de junho de 2011

Fernando Pessoa, 123 anos, e a arte de ser eterno

Fernando Pessoa é eterno. Assim como são eternos seus principais heterônimos: Álvaro de Campos, Ricardo Reis e Alberto Caeiro. Um dos maiores poetas da literatura universal, de todos os tempos, Fernando António Nogueira Pessoa deixou uma vasta obra de poemas, livros e anotações em várias línguas. Se estivesse vivo, faria hoje 123 anos de idade. Mas sua obra continua a deliciar a humanidade, bem viva, mesmo após ter morrido, em 1935, com apenas 47 anos de idade, vítima de uma cirrose hepática.
A eternidade pela arte é a única que vale a pena. Os poetas existem porque não somos eternos. Para que a vida não seja apenas sobrevivência, precisamos sonhar. E o sonho é a inspiração maior dos artistas. Pessoa foi um eterno sonhador e suas poesias falam amiúde dessa arte de sonhar.
Para que possamos homenagear esse extraordinário artista, neste 13 de junho, vamos ler essa bela poesia e ouvir um Fado de Pessoa, música e letra de João Pedro Pais, na voz de Ana Moura.
Depois, podemos dormir em paz e sonhar bastante.


O ANDAIME
Fernando Pessoa

O tempo que eu hei sonhado
Quantos anos foi de vida!
Ah, quanto do meu passado
Foi só a vida mentida
De um futuro imaginado!

Aqui à beira do rio
Sossego sem ter razão.
Este seu correr vazio
Figura, anônimo e frio,
A vida vivida em vão.

A 'sp'rança que pouco alcança!
Que desejo vale o ensejo?
E uma bola de criança
Sobe mais que minha 's'prança,
Rola mais que o meu desejo.

Ondas do rio, tão leves
Que não sois ondas sequer,
Horas, dias, anos, breves
Passam - verduras ou neves
Que o mesmo sol faz morrer.

Gastei tudo que não tinha.
Sou mais velho do que sou.
A ilusão, que me mantinha,
Só no palco era rainha:
Despiu-se, e o reino acabou.

Leve som das águas lentas,
Gulosas da margem ida,
Que lembranças sonolentas
De esperanças nevoentas!
Que sonhos o sonho e a vida!

Que fiz de mim? Encontrei-me
Quando estava já perdido.
Impaciente deixei-me
Como a um louco que teime
No que lhe foi desmentido.

Som morto das águas mansas
Que correm por ter que ser,
Leva não só lembranças -
Mortas, porque hão de morrer.

Sou já o morto futuro.
Só um sonho me liga a mim -
O sonho atrasado e obscuro
Do que eu devera ser - muro
Do meu deserto jardim.

Ondas passadas, levai-me
Para o alvido do mar!
Ao que não serei legai-me,
Que cerquei com um andaime
A casa por fabricar





Fado De Pessoa

Ana Moura

Composição : João Pedro Pais
Um fado pessoano
Num bairro de Lisboa
Um poema lusitano
No dizer de Camões
Uma gaivota em terra
Um sujeito predicado
Um porto esquecido
Um barco ancorado
Leva-as o vento
Meras palavras
Guarda no peito
A ingenuidade
Figura de estilo
Tua voz na proa
De um verso já gasto
No olhar de Pessoa
Uma frase perfeita
E um beijo prolongado
Uma porta aberta
Traz odor a pecado
Uma guitarra com garra
Ouvida entre os umbrais
Numa cidade garrida com vista para o cais
Leva-as o vento
Meras palavras
Guarda no peito
A ingenuidade
Figura de estilo
Tua voz na proa
De um verso já gasto
No olhar de Pessoa
Leva-as o vento...


Versos resistem ao tempo, ao vento e ao mar

"Eis os versos que outrora, Ó mãe Santíssima,
te prometi em voto,
enquanto entre Tamois conjurados,
pobre refém, tratava as suspiradas pazes,
tua graça me acolheu
em teu materno manto
e teu poder me protege intactos corpo e alma."

(trecho do Poema da Bem Aventurada Virgem Maria,
do Padre José de Anchieta).

Esses e outros quatro mil versos do Padre José de Anchieta, escritos nas areias de Iperoig, em Ubatuba, venceram o tempo, a ação do vento e das ondas do mar. Estão vivos até hoje e fazem parte da nossa cultura, da qual Anchieta foi o precursor na literatura. Neste mês de junho, no último dia 9, Dia do Anchieta, foram completados exatamente 414 anos da morte desse português das Ilhas das Canárias.
Anchieta escreveu cartas, sermões, poesias, peças de teatro e uma gramática da língua Tupi, a mais falada do litoral brasileiro. Participou das fundações das cidades de São Paulo e Rio de Janeiro e recebeu diversos títulos pela sua participação no processo da colonização brasileira, inclusive o de Apóstolo do Brasil.
Pouco antes de sua visita ao Brasil, no ano de 1980, o Papa João Paulo II anunciou oficialmente a beatificação do Padre José de Anchieta.
Este blog, voltado para a área cultural e jornalística, não poderia deixar de render suas homenagens a esse poeta que também dedicou boa parte de sua vida à música. Anchieta está na raiz da nossa cultura. Neste mês de junho, além dos 414 anos de sua morte, também fazem 31 anos desde a sua beatificação.

sexta-feira, 10 de junho de 2011

João faz hoje 80 anos de musicalidade plena

Escrevi semana passada (clique aqui) sobre os 80 anos que João Gilberto faria – e está fazendo – hoje, dia 10 de junho, antevéspera do dia dos namorados. João é um mágico da nossa música. Sua sonoridade é ímpar. Seu estilo refinado influenciou, e influencia até hoje, gerações e mais gerações. A sonoridade dele começa pelo nome – adoro essa sonoridade de J-o-ã-o (não a de j’ão), que juntada ao Gilberto fica melhor ainda.
Para comemorar esta data histórica, e começarmos, como sempre, felizes o nosso fim de semana, resolvi postar a interpretação do aniversariante para Retrato em Branco e Preto, de Chico Buarque e Tom Jobim. Uma canção que, na minha modesta opinião, está entre as dez mais bonitas da música brasileira.
João Gilberto passeia maravilhosamente pela melodia, nesta interpretação, que é ontológica. Peço desculpas apenas pela legenda em francês, mas vale a pena pelo conjunto da obra. Vamos ouvir, curtir e valorizar esse talento brasileiro, tão respeitado e admirado pelo mundo afora.


Jornalista encontra Fernando Pessoa em Lisboa

Mara e Maranhão Viegas, durante almoço em Lisboa
 Maranhão Viegas – jornalista, poeta, escritor, roteirista e, principalmente, amigo – está viajando há alguns dias pela Europa. Tem nos presenteado com seus belos textos em forma de diários de bordo. Já publiquei neste blog um crônica do Maranhão – aquele repórter da época do Césio 137, que acabou virando notícia em Campo Grande (para ler, clique aqui).
Para tristeza dele, e da Mara sua mulher – também jornalista e grande amiga –, ambos já estão retornando das merecidas férias, o que nos enche de alegria porque teremos de volta o convívio agradável e o apoio de comunicação sempre disponível e eficaz.
Maranhão relata suas últimas horas em Lisboa, antes de embarcar de volta para o Brasil. Portugal vive uma crise econômica de fortes repercussões na política, na administração e no cotidiano dos nossos patrícios e também dos brasileiros que moram e trabalham por lá. Felizmente, ainda não atingiu as áreas cultural e de turismo.
No seu diário de bordo, o jornalista nos conta de seu encontro com Fernando Pessoa (foto abaixo), num texto delicioso, que eu não poderia deixar de compartilhar com os amigos do blog. Esperamos que o casal tenha tido a oportunidade de um encontro, mesmo que casual e rápido, com Amália Rodrigues, pelas ruas de Lisboa.
Voltar para o Brasil deve ser muito bom. Mas, imagino que deixar a Europa não deve ser fácil. Sair de Lisboa, então... Para aliviar esse sofrimento dos amigos Maranhão e Mara, vamos ouvir um pouco da cantora portuguesa, na bela interpretação de Foi Deus. Com certeza, foi Ele quem propiciou ao Maranhão esse encontro casual nas ruas de Lisboa.


Encontro casual com Fernando Pessoa
(Por Maranhão Viegas, jornalista)

No Largo do Chiado, passei pela Rua da Misericórdia. Desci até a Rua do Alecrim e, em frente à Brasileira, encontrei Fernando Pessoa. Ele me chamou para sentar à mesa com ele. Estava sozinho, como se me esperasse há tempos.
Falou-me das coisas daqui. Dos seus três “eus” – Alberto Caeiro, Álvaro de Campos e Ricardo Reis. De como resiste ao tempo vendo o tempo passar numa Lisboa que se mostra modificada.
Mansamente me disse que já não vê velhos amigos. Lembrou de amores antigos, mas não demonstrou frustração. Falou-me do seu assombro com a pressa das pessoas e das coisas. Lamentou não ter alcançado a destreza dos Ipads, a velocidade da informação, a internet. Mas no momento seguinte, arrumando o chapéu e sorvendo um gole de jinja, agradeceu ao tempo pela longevidade dos seus versos.
Ouvi calado. Quase em prece. Como quem ouve uma divindade. Como quem faz uma oração.
Ele calou-se. O sol, os pombos, o homem do bar, as pedras da ladeira. O tempo a passar. Por trás dos óculos, Pessoa.
Antes de sair fiz uma última pergunta: Valeu a pena? Ao que ele, com um breve sorriso no canto da boca me respondeu: - Tudo vale a pena, se a alma não é pequena!

terça-feira, 7 de junho de 2011

Dia da Liberdade de Imprensa é dia de muita luta


O Dia Nacional da Liberdade de Imprensa costuma ser comemorado, sempre, com protestos ou muito trabalho da parte dos jornalistas. Não consegui fugir à regra. Trabalhei muito hoje, mas infelizmente tive pouco tempo para protestar contra aqueles que ainda teimam em restringir a liberdade de expressão.
Esse direito sagrado, conquistado a duras penas, está assegurado em nossa Constituição, mas, vira e mexe, tem algum poderoso de plantão querendo espremê-lo contra o paredão. Mas, os jornalistas vamos lutando, sobrevivendo e mantendo erguida essa taça que é um troféu de todas as sociedades democráticas.
Tenho saudades dos bons tempos de redação, nos duros tempos da ditadura militar, quando a luta para exercer com dignidade a profissão era diária. Depois veio a redemocratização e as conquistas puderam ser ampliadas, consolidadas, mas jamais deixaram de sofrer ameaças.


Lembro que várias canções foram algumas de nossas armas na luta pela liberdade, em momentos diversos. Desde as músicas de Sérgio Ricardo, passando por Geraldo Vandré (Pra não dizer que não falei das flores), Chico Buarque (Apesar de Você), Gonzaguinha (Comportamento Geral) e tantos outros.
Passados todos esses anos, de pleno exercício da democracia sem perder a vigilância, jamais, ouço essa canção de Marcelo Camelo em parceria com Dominguinhos. Liberdade tocou fundo na minha alma, neste Dia Mundial da Liberdade de Imprensa. Precisamos de coisas novas, assim. De gente nova, assim, dessa maneira, poética, sensível e entregue ao livre – e duramente conquistado – direito de sonhar.
O sonho não acabou, amigos. Os jovens repetem isso. A luta pela liberdade continua nas ruas, nas escolas, no trabalho, na poesia, nos versos da canção. Nos dias claros e nas noites que já não são mais tão escuras...
Aos amigos jornalistas um abraço forte, sem perder a ternura, jamais.


Liberdade


Marcelo Camelo

Composição : Marcelo Camelo e Dominguinhos
Perceber aquilo que se tem de bom no viver é um dom
Daqui não, eu vivo a vida na ilusão
Entre o chão e os ares, vou sonhando em outros ares
Vou fingindo ser o que já sou, fingindo ser o que já sou
Mesmo sem me libertar, eu vou
É, Deus, parece que vai ser nós dois até o final
Eu vou ver o jogo se realizar de um lugar seguro
Seguro de que vale ser aqui
De que vale ser aqui onde a vida é de sonhar
Liberdade

segunda-feira, 6 de junho de 2011

Eleição em Portugal: os cravos já murcharam?

Mais de 42% dos eleitores portugueses, cerca de 35 milhões de pessoas, não compareceram às urnas nas eleições deste final de semana. Um índice extremamente alto que revela o tamanho da descrença do povo português com a política. Em 1976, a abstenção foi de 15%, crescendo para 40%, em 2009, e agora chegando ao índice de 42,1%, que é recorde histórico.
O Partido Social Democrata (PSD) elegeu o primeiro-ministro Pedro Passos Coelho com uma margem surpreendente de 38,6% dos votos válidos, superando em 10 pontos percentuais o atual chefe de governo, José Sócrates, do Partido Socialista (PS). Mesmo assim, esse índice é inferior ao de abstenção.
Descrença com a atividade política é sempre muito perigoso. Em tempos de crise, quanto mais participação, maiores são as chances de superação dos problemas de forma mais efetiva e mais justa.
No caso de Portugal, por ser um país irmão, muitos brasileiros residem e trabalham por lá. Eles acabam sendo também vítimas da crise. O desemprego aumenta, a carga horária de trabalho cresce e a remuneração diminui. Um bom número de brasileiros já fala em voltar para o Brasil.
Em sua visita a Portugal, no final do mês de março, acompanhada do ex-presidente Lula, a presidente Dilma Roussef prometeu que o Brasil ajudaria os patrícios a superarem a grave crise econômica. Um dos caminhos, sugerido por Lula, seria o da compra de títulos da dívida portuguesa, o que daria a Portugal condições de ampliar seus investimentos.
Como este blog mostrou em matéria anterior, felizmente, a crise político-econômica e administrativa não atingiu a criatividade da cultura portuguesa, que continua, principalmente na música, com seus fados e canções populares, buscando novos caminhos. O surgimento do grupo Deolinda (para ler, clique aqui), que faz sucesso e está revolucionando a música portuguesa, é um dos principais exemplos desse processo.
A Revolução dos Cravos (fotos acima), de abril de 1974, que tantos sonhos e esperanças trouxe para o povo português, pode não ter se desdobrado no campo econômico e político, inclusive sendo atropelado pela onda neoliberal da União Européia, mas, no campo das artes, com certeza, ainda tem fôlego.
Por tudo isso, mais algumas outras coisas, que tal ouvirmos Chico Buarque cantando as duas versões de Tanto Mar. É verdade que já murcharam a festa portuguesa, mas quem sabe, restou alguma semente por lá. Quem sabe, o sonho não acabou.