Não sou um apaixonado pelo rock nacional, como curti e vibrei com o rock americano e inglês do final dos anos 60 e início dos 70. Depois fui me afastando, mas nunca deixei de apreciar as boas músicas que foram feitas durante décadas no universo do rock’n’roll. Pelas bandas de cá, confesso que sempre achei o rock nacional muito fraquinho. Mas...
Tem muita gente que gosta e viveu plenamente o boom de Legião Urbana, Capital Inicial, Cazuza e tantos outros. Meu amigo José Clauber Beserra é um deles. Mandou-me o texto abaixo sobre um episódio interessante que ocorreu entre ele e o seu filho João Gustavo, enquanto passava na televisão a homenagem do Rock in Rio aos roqueiros brasileiros. João (eu gosto muito da sonoridade desse nome) é um garoto esperto, muito alegre e espirituoso. Puxou à mamãe Márcia e ao papai Clauber. É uma boa mistura.
Leiam a crônica. É muito legal.
O acorde final de João Gustavo
José Clauber Beserra - jornalista
A Legião Urbana nunca se apresentou em edições do Rock in Rio. No entanto, ontem, um coro de 100 mil vozes emocionou milhões de pessoas que assistiam a homenagem feita pelos ex-integrantes da banda: Dado Vila Lobos (guitarra) e Marcelo Bonfá (baterista). A Orquestra Sinfônica Brasileira foi simplesmente maravilhosa nos arranjos feitos especialmente para as músicas do maior poeta do rock brasileiro, Renato Russo. Renato morreu, precocemente, aos 36 anos, em decorrência da Aids. Deixou um legado musical que depois de 15 anos da sua morte parece cada vez mais forte, atravessando gerações. Ontem, quando acompanhava a homenagem a Renato Russo, pelo MultiShow, meu filho João Gustavo, 2 anos e 3 meses de idade, estava ao meu lado. Com sua guitarra vermelha em punho, João imitava, com já é de praxe, todos os movimentos dos guitarristas de verdade. Eu, ao lado, emocionado em assistir Hebert Viana, Dinho Ouro Preto, Pitty e Rogério Flausino, interpretando clássicos da Legião, não tinha como não dividir minha emoção e alegria ao ver meu pequeno “curtindo” o som da adolescência do papai coruja. Lágrimas nos olhos e o sorriso no rosto faziam parte da mesma emoção. Quando todos sobem ao palco e entoam Pais e Filhos, com milhares de pessoas cantando juntos, a homenagem termina.
A passagem do Inverno para a Primavera é capaz de gerar mais essa beleza, estampada com engenho e arte na foto do nosso Pedro Ventura, que já publicou outras maravilhas neste blog. O fenômeno é conhecido como o Halo Solar e ocorre quando os raios solares atingem os cristais de gelos nas nuvens. Foi visto no Distrito Federal e Goiás, nesta sexta-feira abençoada.
O colorido que se forma em torno do Sol, inclusive formando um arco-íris, faz com que o astro rei passe a ter a beleza de uma lua, em noite clara de luar, no interior, com aquelas serestas maravilhosas. O interessante é que o fenômeno pode ser visto de várias formas e não apenas circular, como ocorreu no dia de hoje. Pode ser visto até em forma de um quadrado ou mesmo de uma linha reta.
Algumas pessoas mais desavisadas chegaram a imaginar que poderia ser um sinal do fim do mundo. Eu prefiro acreditar que se trata de um aviso de novos tempos, de prenúncio de que “do mal será queimada a semente/ o amor será eterno novamente”, como bem disse o extraordinário Nelson Cavaquinho, um dos maiores compositores da nossa música popular, na canção Juízo Final, que podemos ouvir abaixo, na voz de taquara rachada do próprio compositor.
Essa música é lindíssima, como o Halo Solar e essa foto do Pedro Ventura. Ajuda-nos a entrarmos com o pé direito no fim de semana. Essa, pelo menos, é a minha crença. Saravá!
É verdade! Foram roubadas algumas das vassouras colocadas na Esplanada dos Ministérios em protesto contra a corrupção. Quando os organizadores perceberam o desfalque – patrocinado por ambulantes, servidores e até seguranças dos Ministérios – recolheram as que sobraram de um total de 594 vassouras – representando 513 deputados e 81 senadores.
O mais inusitado dessa história é que não foram roubadas pelos políticos. Pelo contrário, dessa vez, eles estão inocentes, até que se prove o contrário. As vassouras – como mostra a foto acima, de Antônio Cruz (Agência Brasil) – foram pintadas nas cores verdes e amarelas, o que demonstra o alto grau de patriotismo dos larápios.
Essa história de usar a vassoura como símbolo de combate à corrupção costuma não acabar bem. Tenho na memória de garoto a vassourinha da campanha de Jânio Quadros à presidência da República. O povo brasileiro encheu-se de esperança, mas Jânio optou por fazer um governo idiossincrático, condecorando Che Guevara, proibindo o uso de biquínis nas praias brasileiras e brigas de galo em todo o país, além de não aceitar o nome do Palácio do Planalto, que chamava de Palácio dos Despachos. Por fim, renunciou ao mandato, sete meses depois da posse, abrindo espaço para uma profunda crise política, que desaguaria no Golpe Militar de 1964.
Realmente, embora seja interessante do ponto de vista simbólico, a vassourinha não tem dado bons resultados no combate à corrupção. Acho que os organizadores desses movimentos deveriam abrir um concurso para se eleger um novo símbolo. Eu sugiro um pinico, daqueles de esmalte branco com detalhes em azul. O slogan poderia ser: “Ponha aqui a sua sujeira”. Ou então: “Lugar de sujeira é aqui”. Ou ainda: “Não jogue o seu voto no pinico”. Com uma vantagem: ninguém iria querer roubar pinicos (será?).
Em matéria de vassourinhas, eu prefiro ficar com aquelas que abrilhantam o frevo pernambucano, que virou patrimônio nacional. Tanto nas coreografias, quanto nas músicas, o tema vassourinha aparece com beleza e criatividade. A música Vassourinha foi composta na virada do século XIX para o século XX por Matias da Rocha, que teria recebido letra de sua prima Joana Batista. Alguns contestam essa versão, mas a verdade é que Vassourinha recebeu diferentes roupagens e várias letras pelos anos afora. (Sobre o frevo, já escrevi aqui)
Abaixo, a música e letra de Moraes Moreira, na voz dele mesmo, chamada Vassourinha Elétrica. Se não ajudar a varrer a corrupção, pelo menos espanta a tristeza e traz alegrias, nesta quinta-feira, véspera de sexta, que é a entrada para o fim de semana.
Mais de três mil e duzentos anos depois do lendário cavalo oferecido como presente aos troianos, o povo grego agora quer oferecer algo equivalente ao mundo capitalista financeiro. Desta vez, a oferta é a de um calote parcial na dívida grega para com as instituições financeiras, que, ironicamente, é chamada de "dívida soberana".
Os riscos advindos desse presente de grego da era globalizada serão o desemprego e inflação na Grécia, com agitação política e social, além de ameaça para a estabilidade do euro e um freio brusco na tímida recuperação da economia mundial. As autoridades gregas – desfalcadas de poder de conquista de um Menelau, ou do plano mirabolante de um Ulisses – preferem dizer que não é bem assim, sabem como é...
Para não correr riscos ainda maiores, a comunidade européia já fala em aumentar o Fundo Europeu de Estabilização Financeira dos atuais € 440 milhões para € 2 trilhões. Ninguém, muito menos os banqueiros, quer correr o risco de receber um presente de grego sob o título de “calote parcial”.
O medo no Brasil não é diferente. Depois de alertar em seu discurso na ONU que a capacidade de enfrentar uma crise econômica não é ilimitada, a presidente Dilma teve uma reunião tensa ontem, no Palácio do Planalto, com o ministro da Fazenda, Guido Mantega. A avaliação de ambos é a de que a crise financeira mundial mudou, infelizmente para pior.
Na avaliação dos brasileiros, a crise na Grécia deve ter um desfecho ainda esta semana, com conseqüências imprevisíveis para a economia mundial. A situação está bem mais complicada do que as autoridades brasileiras esperavam, o que deve exigir novos ajustes na política econômica. Um deles seria o de acelerar a queda dos juros e reduzir a taxa Selic, na próxima reunião do dia 19 de outubro do Banco Central, em 0,75 ponto percentual, ou até mesmo em um ponto percentual. Estratégia que tem um complicador pela frente: a inflação, em alta, chegou a 7,33% no acumulado dos últimos doze meses.
É o horizonte que se vislumbra com esse “meio” presente de grego, ou simplesmente calote parcial. Como não existe um Paris – o homem mais belo do mundo –, a quem se poderia responsabilizar pelo seqüestro da Helena dos tempos modernos, o jeitinho brasileiro está sendo, mais uma vez, preparar-se para tirar o seu (nosso) da reta. Faz muito bem a presidente Dilma em tomar as providências que julgar necessárias. Tomara que acerte na receita e não erre na dose.
Enquanto isso, nós que não somos de ouro, de ferro ou mesmo da era do bronze, nem temos ações de bancos europeus, vamos ficar por aqui, ouvindo essa bela interpretação de Amelinha para Mulher Nova Bonita e Carinhosa, de Zé Ramalho e Otacílio Batista, que conta um pouco da história do confronto entre gregos e troianos. E, para ninguém reclamar que não sou bonzinho, um verdadeiro presente de brasileiro: a bela interpretação da dupla Polixeni Arabatzis e Tassos Bouyiessis para a maravilhosa canção grega de Mikis Theodorakis: Sto Perigiali.
Neste final de fim de semana, noite de domingo, tento recompor as minhas forças, minha mente, de maneira que sobre um tempinho para esse cantinho e para os amigos do blog. Andei um tanto sumido desse espaço por absoluta falta de tempo. A vida nos engole, o dia-a-dia nos tritura, e acabamos deixando de lado justamente o que mais gostamos de fazer. Esse é um dilema universal... Mas, estamos de volta... E espero conseguir mais tempo para esse cantinho.
Que tal um pouco de poesia sobre a felicidade, depois de testemunhar o casamento de Pedro e Camila, no fim de semana passado? (Sobre isso, leia aqui).
Ah, sim! Música, também, claro. Ajuda muito, pra fechar o domingo, esse blues chamado 16 Tons, de Merle Travis, na interpretação de Celso Salim e Rodrigo Mantovani, do CD Diggin’ the Blues, que ganhei de presente de Douro Moura, namorado da Maura Charlotte.
Aliás, no disco tem duas composições do Douro em parceria com Celso Salim, mas aí é outra história... Depois eu conto.
A questão do uso da energia atômica deixou de ser apenas um tema exclusivo das autoridades. Nesta segunda-feira, no centro de Tóquio, capital do Japão, cerca de 70 mil japoneses foram às ruas exigir uma política que ponha fim ao uso de usinas nucleares como fonte de energia. A maioria dos participantes era de moradores da região de Fukushima, arrasada pelo terremoto, seguido de um tsunami e de vazamento nuclear (para ler mais sobre o assunto, clique aqui).
Este blog tem chamado a atenção para a necessidade, urgente, de se abrir e ampliar o debate sobre o uso de energia nuclear e as possibilidades de sua substituição por energia limpa, a partir de recursos renováveis. O Brasil, infelizmente, não tem demonstrado disposição para discutir essa matéria com setores representativos da sociedade.
O povo japonês, que sentiu e sente até hoje as dimensões da tragédia, está saindo às ruas para exigir das autoridades celeridade no processo de substituição da energia nuclear. Foram mais de onze mil mortos e dezenas de milhares de desabrigados. Cerca de 80 mil pessoas estão impedidas de voltar para suas casas na região de Fukushima.
O sofrimento dessa gente é incalculável. Só isso para explicar o motivo pelo qual milhares de pessoas tenham saído às ruas para pedir investimento em novas fontes de energia, justamente num país em que essas possibilidades são escassas. O Japão sabe o tamanho da tragédia que viveu, e o seu povo, traumatizado, acredita que um acidente dessa natureza, ou até mesmo de maiores dimensão, pode acontecer novamente.
O Brasil continua adotando a mesma postura nesses seis meses que se seguiram à tragédia ocorrida no Japão: não abre o debate sobre o tema, e continua a construção da usina nuclear de Angra III e a alimentar os planos para construção de mais quatro usinas ao longo do Rio São Francisco (veja matéria sobre isso).
A presidente Dilma Rousseff aproveitaria uma boa oportunidade se lançasse uma luz sobre o assunto em seu discurso de abertura da ONU, no próximo dia 21, quarta-feira. Vamos aguardar.
Pedrão casou. Pedrão é o “grande” Pedro Hildo, que já foi pequeno ao ponto de caber em nossos braços, em nossos colos, na pia batismal e nas mesas dos botecos da vida, aonde levava meus sobrinhos – enquanto eles comiam os tira-gostos (a Maurinha, principalmente), eu fazia o sacrifício de cuidar deles, bebendo um chopinho que ninguém é de ferro.
Pois é. Pedrão casou ontem num belo lugar chamado Aldeia das Flores, numa festa bonita como os noivos, agradável e muito alegre.
Também não podia ser diferente. Pedro Hildo teve a felicidade de encontrar Camila e todos nós tivemos a oportunidade de conhecê-la e incorporá-la ao nosso universo familiar e de amigos.
Aliás, tive a oportunidade de conhecê-la há alguns anos, quando o Pedro a apresentou como sendo uma amiga, ex-namorada. E eu fiquei pensando: como é que o Pedrão deixou uma mulher dessas virar “ex-namorada”. Bom, pensei, acontece... Afinal, ela também saiu perdendo. Perderam ambos.
Mas, também, venhamos e convenhamos, o Pedro nem sempre foi essa maravilha que é hoje. Ele já foi, vamos dizer assim, custoso. Nos seus anos de garoto levado, pré-adolescente e de adolescente, chegou a ganhar o apelido de “enjoadinho do Jardim América”. E não havia nenhum exagero nisso, não! Embora sua tia Vânia e sua avó Odessa tentassem, por todos os meios, desviar o foco.
Mas, vamos esquecer essa página da história. Afinal, Pedrão cresceu, enfrentou a vida e as dificuldades dela decorrentes. Aprendeu a ganhar o pão com o suor do próprio rosto. Construiu um rol de amigos. Aprendeu a tocar cavaquinho muito bem, a jogar squash – segundo ele, “maravilhosamente bem” –, fez festas, embalou nosso Carnaval dos Amigos... Enfim, adquiriu muitas qualidades e apenas um defeito: virou botafoguense, argh!
Então, os anos se passaram e os ex-namorados reencontraram-se pela vida. Ambos já mais amadurecidos. Camila uma bela moça, inteligente e empresária bem realizada, com uma postura em relação à vida muito correta e coerente. E o Pedrão, tudo isso que eu disse e muito mais.
Voltaram a namorar e acabaram juntando os paninhos, com muito charme, muito carinho, numa solenidade despojada e moderna, bem ao estilo dos dois.
Estavam e estão felizes. Assim, como todos nós, familiares e amigos. Desejamos que essa felicidade seja eterna, como disse Vinícius de Moraes, enquanto dure. Tenho certeza que a lua de mel em Fortaleza fortalecerá ainda mais essa relação.
Quando eles voltarem, vamos fazer outra festa. Bem ao estilo Pedro e Camila.
Como é sonoro o nome desse casal... Beijos para os dois.
Quem não gosta de agitação, rebuliço, efervescência...? Imagina tudo isso com muito ritmo, musicalidade e um colorido que salta aos olhos. Claro que estou falando do nosso querido e amado frevo. O ritmo, que não é mais pernambucano, tornou-se brasileiro, patrimônio nacional.
O frevo surgiu em Recife lá pelo final do século XIX, mas a primeira referência oficial ao ritmo e à música foi publicada em 1908, na edição do dia 12 de fevereiro, do Jornal Pequeno, um vespertino pernambucano que tinha na época a melhor seção referente ao Carnaval. Rapidamente foi ganhando o gosto popular e ocupando espaço, principalmente nas ruas de Recife e Olinda.
Ritmo quente, acelerado, a palavra frevo vem de ferver, a partir da corruptela frever. O frevo-de-rua é o mais popular, que agita o público quando toca a música Vassourinhas, de Matias da Rocha, que postei abaixo na interpretação da Orquestra Tabajara. Esse tipo de frevo não tem letra e os instrumentos que predominam são os metálicos.
O frevo-canção surgiu nas últimas décadas do século passado, valorizando mais a melodia e introduzindo letras. É nesse período que surgem compositores excepcionais como Nelson Ferreira, Capiba e Alex Caldas. Valorizando a letra, também surgiu o frevo-de-bloco, com destaque para a belíssima Evocação nº 1 de Recife, de Nelson Ferreira, abaixo com Os Batutas de S. José.
A dança é muito bonita e animada. As roupas coloridas e a presença marcante da sombrinha dão um charme todo especial. A alegria do frevo é contagiante. Não podíamos deixar passar em branco esse dia muito especial para o povo pernambucano, e para todos os brasileiros. Viva o Frevo!
Ah, sim! Já estava esquecendo: hoje, nacionalmente, comemora-se o Dia do Frevo, que também é comemorado dia 09 de fevereiro, no Recife. Eu acho que dois dias só para comemorarmos o frevo é muito pouco. Que tal criarmos o mês do frevo?
Essa foto do Pedro Ventura, fotógrafo jovem e de talento, fala por si só. É Brasília nessa época do ano, cercada por muito fogo, fumaça, calor e secura. O pescador tenta se distrair, relaxar no domingo, depois de uma semana de trabalho. O tempo esfumaçado mal permite que se veja a bela Ponte JK, ao fundo.
(Para ver outras foto de Pedro Ventura neste blog, clique aqui)
Waldeck Artur de Macedo era engraçado, bem-humorado e extremamente talentoso, mas dificilmente faria sucesso com esse nome. Logo, logo, bem no começo de sua carreira recebeu o apelido de Gordurinha, por pura ironia à sua exagerada magreza. Seu talento precoce fez com que ele entrasse no mundo artístico com 16 anos de idade, em 1938, na rádio PRA-4, Rádio Sociedade da Bahia, em Salvador, apesar de todo o esforço em sentido contrário da família.
Começou participando do conjunto vocal “Caídos do Céu” e, logo em seguida, fez dupla cômica com o compositor Dulphe Cruz, o que faria o seu lado comediante sufocar o talento de compositor na fase inicial de sua carreira.
Por volta do ano de 1942, cansado de tentar conciliar o trabalho com os estudos, teve que tomar uma decisão importante na vida: medicina ou carreira artística? Não teve dúvidas, abandonou a faculdade e passou a fazer parte de um grupo de teatro. Foi ser mambembe na vida.
No início da década de 50, conheceu Genivaldo Lacerda e Jackson do Pandeiro, que foram os primeiros a gravar suas composições. Daí para o Rio de Janeiro foi um pulo e, em pouco tempo, conseguiu realizar o sonho de todo artista daquela época: assinar um contrato com a Rádio Nacional.
Ainda na década de 50, pela Continental, gravou algumas marchinhas carnavalescas e o seu primeiro grande sucesso: Baiano Burro Nasce Morto. Em 1959, lançou o emblemático “Chicletes com Banana”, que seria sucesso na voz do compositor e de vários outros artistas, como Gilberto Gil, Jackson do Pandeiro e o conjunto Confraria da Bazófia. Nela, o compositor critica a investida americana sobre a nossa cultura.
No início dos anos 60, ainda garoto, tive a felicidade de conhecer o trabalho de Gordurinha na eletrola de Tia Constância, vizinha que possuía esse aparelho tão raro naquela época. Ficava, então, impressionado com a beleza de suas músicas e com a ousadia das letras de Chiclete com Banana, Súplica Cearense, abaixo na belíssima interpretação de Ary Lobo, e Baiano Burro Nasce Morto, que reproduzo na voz do próprio compositor.
Gordurinha era satírico, inteligente e ironizava com classe e talento o preconceito de paulistas e cariocas para com os nordestinos. Em Baianada, uma parceria com Carlos Diniz, chega a dizer: “O baiano nasceu pra falar da Bahia/ tem muito doutor/ O Brasil foi descoberto na Bahia/ o resto é interior”.
Mas Gordurinha foi também lírico, romântico, poético, não apenas em Súplica Cearense, mas também na canção que fez para sua mãe, chamada Poema dos Cabelos Brancos.
Gordurinha sofreu muito com as crises de asma, que o perseguiram por toda a vida. Para superá-las, viciou-se em injeções de morfina, que ele mesmo aplicava em doses cada vez maiores. Morreu de enfarte em consequência de uma overdose, antes mesmo de completar 47 anos de idade.
Na base da brincadeira, em forma de gozação, tratou de temas sérios como a seca, a fome dos nordestinos, miséria, dor, preconceito e a invasão cultural estrangeira. É considerado, com muita justiça, um mito da música popular brasileira. Um capítulo a parte da nossa história musical.
O Plano Nacional do Livro e Leitura (PNLL), lançado na abertura da 15ª Bienal Internacional do Livro, no Rio de Janeiro, pela presidente Dilma Rousseff, merece aplausos e pode ser um passo importante para ajudar a tirar o Brasil do subdesenvolvimento nos índices anuais de livros lidos por habitante.
Sim, os nossos índices de leitura ainda são muito baixos se comparados não apenas a países do primeiro mundo, mas também aos países em desenvolvimento, que são justamente os nossos “concorrentes” em busca de uma sociedade mais avançada tecnológica, cultural e socialmente. Estamos atrás da Índia, por exemplo.
Pesquisa que vem sendo feita pelo Instituto Pró-Livro desde 2011 mostra crescimento no índice de leitura do povo brasileiro, mas estritamente no plano quantitativo, porque na questão da qualidade ainda temos muito a avançar. O livro que está entre os mais vendidos é Branca de Neve e os Sete Anões!
Outra preocupação: quem puxa os índices atuais para cima são os estudantes. O índice entre aqueles que estão fora da escola é assustadoramente baixo.
O Plano lançado na semana passada tem consistência e a vantagem de incentivar diversos atores da sociedade a participarem dessa cruzada. São oferecidos incentivos a quem se cadastrar no programa, num universo que vai de editoras, passando pelas bibliotecas, livrarias até banca de revista.
O grande charme será, sem dúvida, os livros de qualidade editorial que deverão ser lançados ao preço de R$ 10,00. Mas, o programa é amplo e prevê várias ações no âmbito cultural para estimular a leitura. Com certeza, não será a solução definitiva para o problema, mas representa um passo importante. É torcer para que dê certo.
Enquanto isso, nós continuaremos oferecendo uma modesta contribuição. Hoje, um vídeo de Caetano Veloso e uma poesia de Castro Alves. Ah! Antes que eu me esqueça: as pesquisas apontam um interesse significativo pela poesia, superando, inclusive, a procura por livros religiosos. Saravá, irmão!
O Livro e a América
Castro Alves
Talhado para as grandezas,
Pra crescer, criar, subir,
O Novo Mundo nos músculos
Sente a seiva do porvir.
— Estatuário de colossos —
Cansado doutros esboços
Disse um dia Jeová:
"Vai, Colombo, abre a cortina
"Da minha eterna oficina...
"Tira a América de lá".
Molhado inda do dilúvio,
Qual Tritão descomunal,
O continente desperta
No concerto universal.
Dos oceanos em tropa
Um — traz-lhe as artes da Europa,
Outro — as bagas de Ceilão...
E os Andes petrificados,
Como braços levantados,
Lhe apontam para a amplidão.
Olhando em torno então brada:
"Tudo marcha!... Ó grande Deus!
As cataratas — pra terra,
As estrelas — para os céus
Lá, do pólo sobre as plagas,
O seu rebanho de vagas
Vai o mar apascentar...
Eu quero marchar com os ventos,
Corn os mundos... co'os
firmamentos!!!"
E Deus responde — "Marchar!"
>
"Marchar! ... Mas como?... Da Grécia
Nos dóricos Partenons
A mil deuses levantando
Mil marmóreos Panteon?...
Marchar co'a espada de Roma
— Leoa de ruiva coma
De presa enorme no chão,
Saciando o ódio profundo. . .
— Com as garras nas mãos do mundo,
— Com os dentes no coração?...
"Marchar!... Mas como a Alemanha
Na tirania feudal,
Levantando uma montanha
Em cada uma catedral?...
Não!... Nem templos feitos de ossos,
Nem gládios a cavar fossos
São degraus do progredir...
Lá brada César morrendo:
"No pugilato tremendo
"Quem sempre vence é o porvir!"
Filhos do sec’lo das luzes!
Filhos da Grande nação!
Quando ante Deus vos mostrardes,
Tereis um livro na mão:
O livro — esse audaz guerreiro
Que conquista o mundo inteiro
Sem nunca ter Waterloo...
Eólo de pensamentos,
Que abrira a gruta dos ventos
Donde a Igualdade vooul...
Por uma fatalidade
Dessas que descem de além,
O sec'lo, que viu Colombo,
Viu Guttenberg também.
Quando no tosco estaleiro
Da Alemanha o velho obreiro
A ave da imprensa gerou...
O Genovês salta os mares...
Busca um ninho entre os palmares
E a pátria da imprensa achou...
Por isso na impaciência
Desta sede de saber,
Como as aves do deserto
As almas buscam beber...
Oh! Bendito o que semeia
Livros... livros à mão cheia...
E manda o povo pensar!
O livro caindo n'alma
É germe — que faz a palma,
É chuva — que faz o mar.
Vós, que o templo das idéias
Largo — abris às multidões,
Pra o batismo luminoso
Das grandes revoluções,
Agora que o trem de ferro
Acorda o tigre no cerro
E espanta os caboclos nus,
Fazei desse "rei dos ventos"
— Ginete dos pensamentos,
— Arauto da grande luz! ...
Bravo! a quem salva o futuro
Fecundando a multidão! ...
Num poema amortalhada
Nunca morre uma nação.
Como Goethe moribundo
Brada "Luz!" o Novo Mundo
Num brado de Briaréu...
Luz! pois, no vale e na serra...
Que, se a luz rola na terra,
Deus colhe gênios no céu!...
O Hino Nacional Brasileiro, uma melodia maravilhosa de Francisco Manuel da Silva, que depois recebeu o belíssimo poema de Joaquim Osório Duque Estrada, como letra oficial, por meio de concurso, fica mais bonito ainda quando vem revestido da rebeldia própria da juventude, executado em solo de guitarra – um instrumento contestador por excelência.
Nosso hino é muito bonito. A letra é fantástica. Isso não é nenhuma patriotada, mesmo sendo hoje Dia da Independência. Quem ainda tinha alguma dúvida, quanto à beleza de nosso hino, pode tirá-la ouvindo e vendo a interpretação desse jovem Jimmy Oliveira, que, segundo consta no universo virtual, é paranaense de Maringá. Tão logo vi esse vídeo no Facebook do jornalista Netto Costa, não tive dúvidas: vai lá pro ZecaBlog.
A música quando é boa aceita e resiste a qualquer desafio. O Hino Nacional tem resistido ao tempo, aos mais variados arranjos e a diversos tipos de interpretação. Já ouvi bela leitura dessa melodia na sanfona e em vários outros instrumentos. Bom feriado para todos.
Como já disse em outras oportunidades, "hoje é domingo, pede cachimbo", mas também pede algumas coisas diferentes e amenas. Como essa bela foto acima, postada no blog do jornalista Maranhão Viegas, que a captou do Facebook de uma amiga. Não conseguimos, ainda, identificar o autor desse registro magistral de um terno e acolhedor momento do reino animal. Como bem disse o Maranhão, essa foto fala por si só. Mas, como hoje é domingo e amanhã uma baita segunda-feira, postei também abaixo um áudio de uma bela canção de Martinho da Vila e Moacyr Luz, interpretada pelos dois autores. Ficar ouvindo essa música e apreciando essa foto nos ajuda a superar qualquer estresse. Amanhã, a segunda-feira será bem mais amena. Acreditem.
Seu Zezinho, motorista da Viplan, é uma raridade no universo do transporte coletivo de Brasília. Passa todo dia no mesmo horário, bem cedinho, por volta das sete horas da manhã, pelos pontos de Sobradinho, cidade do Distrito Federal, em direção à rodoviária do Plano Piloto. Tão pontual que sua clientela é praticamente a mesma faz um bom tempo. Figura simpática, agradável, pessoa educada, tornou-se amigo dos passageiros, que têm por ele respeito e admiração.
No último dia 25, uma quinta-feira, Seu Zezinho parou o ônibus na descida do Balão do Colorado, próximo ao posto da Polícia Militar Rodoviária. Alguém tocou a campainha. Como costuma fazer, suavemente, encostou o ônibus na parada.
Ninguém desceu de imediato. O motorista já achou meio estranho. Logo um grupo de pessoas, com alguns pacotes nas mãos, aproximou-se do caput do veículo. Já foram colocando pratos, copos, refrigerantes, salgados e, logo surgiu um bolo ao som de palmas e do tradicional Parabéns Pra Você.
Seu Zezinho não acreditou. Estava sendo homenageado, no dia do seu aniversário, pelos passageiros do ônibus. Não agüentou de emoção. Chorou. Sorriu. E conseguiu pronunciar algumas palavras. Disse que não merecia toda aquela consideração. Agradeceu e garantiu que aquele era o dia mais feliz de sua vida.
Copos de refrigerantes foram distribuídos para os passageiros, um pouco de salgados e um pedaço de bolo. Até fotos foram tiradas por uma passageira (três delas estão publicadas acima). O ônibus seguiu viagem e o presente ficou para ser entregue no ponto final: a rodoviária do Plano Piloto.
É verdade. Seu Zezinho também teve direito a um presente. Tudo promovido e rateado entre os passageiros, que apenas queriam agradecer a um cidadão brasileiro, candango, motorista de ônibus, cumpridor dos seus deveres e que exerce a sua profissão com dignidade e zelo.
Quando ficamos sabendo que uma coisa desse tipo veio acontecer no coração do país, em plena capital federal, que tem um transporte coletivo mui justamente criticado, podemos erguer as mãos para o céu: O mundo tem salvação!
PS – Quem me contou essa história foi Cláudia Cristina Marques, a passadeira aqui de casa, que há mais de dez anos nunca chegou atrasada ao serviço. Agora, eu já sei a quem agradecer: Muito obrigado, Seu Zezinho!