sábado, 25 de junho de 2016

Porque hoje é sábado, é dia de poesia...

Saudades
Florbela Espanca

Saudades! 
Sim... Talvez... 
E por que não?
Se o nosso sonho foi tão alto e forte. 
Que bem pensara vê-lo até à morte. 
Deslumbrar-me de luz o coração! 
Esquecer! Para quê?
Ah! Como é vão! 
Que tudo isso, amor, nos não importe.
Se ele deixou beleza que conforte. 
Deve-nos ser sagrado como o pão! 
Quantas vezes, amor, já te esqueci, 
Para mais doidamente me lembrar
Mais doidamente me lembrar de ti! 
E quem dera que fosse sempre assim: 
Quanto menos quisesse recordar
Mais a saudade andasse presa a mim!



Lembranças
José Carlos Camapum Barroso

Naquela latada, tem
Velhas vasilhas vazias,
Mãos escorregadias,
Brancas de Branca,
Negras de Generosa...
Amadas e Amélias.

Vasilhas luzidias
Entre dedos brilhantes
E lágrimas cortantes.
Águas que jorram...

Naquela latada, tem
Um mar doce de água
Por onde Maria se foi...
Quantos baldes,
Tantas Abadias...
Tripa de porco,
Buchada de bode
E sangue de boi.

Naquela latada, tem
Um espelho d’água,
Rosto de meninos,
Sonhos e mágoas...

Boca de cisterna,
Beirada de jirau,
Maxixe no monturo
E laranja no quintal.

Naquela latada, tem
Gotas de orvalho,
Rio de lágrimas, suor,
Sorrisos de crianças,
Segredos em dor maior...
Tantas lembranças.

Naquela latada, tinha
Uma casa, uma história,
Réstias de saudades
E uma foto na memória...
Mas como dói.



quinta-feira, 23 de junho de 2016

Dia do Lavrador e a cultura milenar do homem


Lavrar a terra é atividade antiga da humanidade. Surgiu no período neolítico, entre 10 a 6 mil anos Antes de Cristo. Esse período, da nova pedra ou da pedra polida, termina com o surgimento da escrita. Dizem que brotou aí o sedentarismo, pois os homens e mulheres começaram a se agrupar em locais de terras férteis, e neles se fixavam, abandonando as práticas nômades.
A arte de lavrar a terra tem as mesmas características de toda e qualquer atividade do homem que visa o bem comum. É feita com carinho, zelo, dedicação e muito trabalho. Em termos de produção, evoluiu através dos tempos graças a mecanização, novas tecnologias. Mas, nunca perdeu o glamour da associação das mãos do homem à terra, da família e também das lutas que estão associadas a posse, a distribuição e usufruto de riquezas.

Haicai

Suor que lavra
dor lava a alma
De quem sonhou

José Carlos Camapum Barroso

As artes – pinturas, teatro, cinema, música, poesia e prosa – todas, sem exceção, sempre navegaram pelos mares de tão vasta cultura.
Hoje é Dia do Lavrador. Justa homenagem àqueles que fazem parte desse universo tão significativo para nossa existência. Nada melhor do que essas belas e sábias palavras de Cora Coralina. E a canção antológica de Chico Buarque para Funeral de um Lavrador.

O cântico da terra
Cora Coralina

Eu sou a terra, eu sou a vida.
Do meu barro primeiro veio o homem.
De mim veio a mulher e veio o amor.
Veio a árvore, veio a fonte.
Vem o fruto e vem a flor.

Eu sou a fonte original de toda vida.
Sou o chão que se prende à tua casa.
Sou a telha da coberta de teu lar.
A mina constante de teu poço.
Sou a espiga generosa de teu gado
e certeza tranquila ao teu esforço.

Sou a razão de tua vida.
De mim vieste pela mão do Criador,
e a mim tu voltarás no fim da lida.
Só em mim acharás descanso e Paz.

Eu sou a grande Mãe Universal.
Tua filha, tua noiva e desposada.
A mulher e o ventre que fecundas.
Sou a gleba, a gestação, eu sou o amor.

A ti, ó lavrador, tudo quanto é meu.
Teu arado, tua foice, teu machado.
O berço pequenino de teu filho.
O algodão de tua veste
e o pão de tua casa.

E um dia bem distante
a mim tu voltarás.
E no canteiro materno de meu seio
tranquilo dormirás.

Plantemos a roça.
Lavremos a gleba.
Cuidemos do ninho,
do gado e da tulha.
Fartura teremos
e donos de sítio
felizes seremos.


domingo, 19 de junho de 2016

A dor dos migrantes-refugiados não para de acontecer

                                                                         Foto: UYGAR ONDER SIMSEK / AFP
O mundo assiste, com boa dose de indiferença, as constantes mortes de refugiados de guerras e da miséria que tomam conta de vários países em pleno século XXI. Dezenas de tragédias já aconteceram desde a morte por afogamento do pequeno Aylan Kurdi, o menino da foto que fez chorar o mundo, até a madrugada deste domingo, quando guardas da fronteira turca mataram onze pessoas, que buscavam escapar dos horrores da guerra civil na Síria. A maioria das vítimas era de uma mesma família, entre elas duas mulheres e quatro crianças.
O mundo globalizou a tecnologia, os negócios, mas não consegue abrir fronteiras para salvação das pessoas que fogem, desesperadas, de conflitos armados, atos terroristas e da fome. São barrados pelo mar bravio, a fúria das ondas, ou pelo ódio que sustenta o nacionalismo das nações.
Mas uma tragédia para as estatísticas do mundo de horrores. Outras quantas ainda virão? Quantas mortes de mulheres e crianças indefesas serão necessárias para que a humanidade consiga estabelecer a paz? Os países dessas regiões possuem uma cultura invejável, que remonta a períodos anteriores a Era Cristã. Mas nada disso sobrevive ao ódio, a intolerância e à falta de amor ao próximo.
Muito triste.
Hoje é domingo. Domingo pede cachimbo, mas não apenas o do descanso e do lazer, mas essencialmente o da paz. Quem sabe a poesia e a música nos ajudam. Quem sabe ainda alcançaremos a verdadeira humanidade.



Refugiados
José Carlos Camapum Barroso

Há entre gotas de areia
Um oceano de ilusão...
Em cada grão do mar,
Lágrimas mediterrâneas,
Salgadas de indiferenças...

Tantos Aylan, tantos ais
Em nuvens de ingratidão!
Com balneário ao largo,
O bote da salvação desfaz
Um sorriso doce, maroto...
E faz selfie a globalização.

Refugos dos refúgios...
Em que Bandeira estarão?


quarta-feira, 15 de junho de 2016

Voar é pousar no infinito entre saudades e sonhos


Voo infinito
José Carlos Camapum Barroso

Vou andar sobre nuvens
E trocar estrelas no céu,
Lustrar o brilho da Lua
E filtrar os raios do Sol.
Acariciar o vento Oeste,
Antes que o sopro Leste
Traga fúria dos deuses.
Em vez de Lua Nova,
Quero o brilho de Cheia.
A refletir na areia
Os sonhos de então...


Bem acima dos montes
A plainar no Horizonte,
Como o voo do Falcão.
Verei a fonte dos rios,
O espelho dos Lagos
A refletir a grandeza
Da natureza de Deus.
E nos olhos, lágrimas
São gotas de orvalho,
Um prisma de cristal
Das saudades de então...


Mais perto do infinito,
Tão distante o adeus...
Gritaremos bem forte:
Por que o vento Norte
Não ouve a voz de Deus?
Ventos de tanta altitude,
Não escolhem Latitude,
Apenas cobrem a Terra
No manto da sagração.
É folha de esperança,
Como choro de criança
Que jorra do coração...

terça-feira, 14 de junho de 2016

Ausência no Dia Universal de Deus

Exatamente há dez anos, nesse mesmo Dia Universal de Deus, minha sogra Odessa de Freitas resolveu, de forma abrupta e inesperada, trocar este mundo por um outro, talvez melhor e mais grandioso. Foi mais uma vítima de acidente de trânsito. Mais um pedestre que entrou para as estatísticas quando transitava pelas ruas de Goiânia.
Durante essa década de ausência, pudemos perceber quanta falta faz uma pessoa de personalidade marcante e presença constante em todos os episódios da família e dos amigos. Nunca se furtou a percorrer distâncias e atravessar fronteiras para visitar um parente ou um amigo.
Deixou muitas saudades e uma gama de boas lembranças, principalmente pela personalidade que ostentava: forte, determinada e de uma invejável capacidade de comunicação. Dedicou boa parte da sua vida à família, aos amigos e amigas. Não os abandonava, jamais, sempre dando atenção especial nos momentos bons e ruins da vida.
Quem não a conheceu, perdeu uma extraordinária oportunidade de conviver com uma bela pessoa. Sincera, muito franca e de uma presença de espírito impressionante. Adorava o Rio de Janeiro, o Botafogo, Carlos Lacerda, Jânio Quadros, Getúlio Vargas, mas detestava Juscelino Kubitschek, Brasília e tudo que, por algum motivo, lembrasse "o comunismo". Era da UDN do lenço vermelho.
Católica, devota do padre Eustáquio.  Era mineira da gema e se orgulhava da sua gente.
Revirando nossos alfarrábios, descobrimos duas poesias que ela deixou, escritas de próprio punho. Demonstra seu lado romântico, mas também um pouco do modo duro e crítico como enxergava a vida. A poesia Regresso fala de alguns dias vividos na nossa querida Uruaçu, lá pelos idos de 1972. Já o poema Tarde Demais nos remete a uma surpreendente visão do amor, a alegria que ele nos traz, mesmo quando, supostamente, ocorre em descompasso com o tempo.
Resgato esses dois textos para matar um pouco a saudade dessa pessoa que ocupou um espaço importante na vida de todos nós.
Dez anos... uma década... como o tempo passa rápido. Não se fazem ausentes, jamais, aquelas personalidades que sempre estiveram presentes pela força do seu ser. Pessoas assim são capazes de desafiar até o tempo. De fato, só poderia ter nos deixado no Dia Universal de Deus...