terça-feira, 22 de novembro de 2022

Erasmo Carlos morre no Dia do Músico e leva o Grammy

Erasmo Carlos morreu nesta terça-feira (22/11), Dia do Músico e cinco dias depois de ganhar o Grammy com o álbum O Futuro Pertence... à Jovem Guarda, na categoria de “Melhor Álbum de Rock ou de Música Alternativa em Língua Portuguesa”. O cantor e compositor tinha 81 anos e havia sido internado ontem, de manhã, no Hospital Barra D’Or, na Barra da Tijuca, no Rio de Janeiro, às pressas.

Erasmo havia recebido alta hospitalar no início do mês, após ficar internado por nove dias, com um quadro de edema. A esposa Fernanda estava ao lado do cantor no momento em que ele faleceu. A causa da morte ainda não foi divulgada.

O Tremendão, como era conhecido, foi o pioneiro do Rock’n’Roll no Brasil. Ao lado de Roberto Carlos, amigo e eterno parceiro, foram os grande ídolos da jovem guarda, movimento pop que embalou os adolescentes dos anos 1960 ao ritmo do iê-iê-iê.

Erasmo Carlos começou a curtir rock no subúrbio da cidade natal do Rio de Janeiro (RJ) assim que a revolução sonora, capitaneada por Elvis Presley (1935 – 1977) nos Estados Unidos, ecoou na mente de jovens cariocas que detectaram no som de Elvis, Jerry Lee Lewis (1935 – 2022) e Little Richard (1932 – 2020) a mais completa tradução da rebeldia que sonhavam ter.

Ao morrer aos 81 anos, Erasmo ainda parecia apegado ao sonho do menino roqueiro que, no balanço frenético das horas, integrou entre 1957 e 1961conjuntos juvenis como The Sputniks – do qual participava também o futuro amigo de fé e parceiro Roberto Carlos, além do invocado Tim Maia (1942 – 1998) – The Boys of Rock e The Snakes.

Foi como integrante do Snakes que Erasmo debutou no mercado fonográfico em julho de 1960, com o single de 78 rotações que trazia as músicas Pra Sempre (Forever) e Namorando. Esse histórico single saiu três anos antes de o cantor gravar discos como crooner do conjunto Renato e seus Blue Caps.

Erasmo Carlos teve três filhos: Gil Eduardo Esteves, Leonardo Esteves e Carlos Alexandre Esteves, frutos do casamento do Tremendão com Sandra Sayonara Saião Lobato Esteves, a Narinha, falecida em 1996.

Pai presente, Erasmo Carlos compartilhou o sofrimento da morte de Carlos Alexandre Esteves, em 2014, com os fãs. Gugu, como era apelidado pela família e amigos, foi vítima de um acidente de moto na Orla da Barra da Tijuca, no Rio de Janeiro. Ele teve traumatismo craniano e morreu após uma semana de internação.

O Tremendão vinha há alguns meses tratando uma síndrome edemigênica, doença que ocorre quando há um desequilíbrio bioquímico, dificultando a manutenção dos líquidos dentro dos vasos sanguíneos. Geralmente é causada por doenças cardíacas, renais ou dos próprios vasos.

Com a implantação do reino pop da Jovem Guarda, a partir de agosto de 1965, Erasmo ganhou fama e virou popstar em carreira solo que começara em maio de 1964 com a edição do single Jacaré/ Terror dos Namorados. Depois, recebeu impulso relevante a partir de outubro de 1964, com o lançamento do single que apresentou o rock Minha Fama de Mau.

Só que, de mau, Erasmo sempre teve somente a fama alardeada no rock. No trato com as pessoas e o mundo, Erasmo era gentil, doce, segundo todos aqueles que com o Tremendão conviveram.

Aberta em 1963 com o rock Parei na Contramão, a fundamental parceria de Erasmo com Roberto Carlos conciliou dois universos musicais distintos, ainda que ligados pelo rock e pelo romantismo. Tanto que a discografia de Erasmo evoluiu bem diferente da obra fonográfica de Roberto.

Se as diferenças eram menos nítidas na era da Jovem Guarda, quando Erasmo virou o Tremendão e lançou álbuns como A Pescaria com Erasmo Carlos (1965) e Você me Acende (1966), discos repletos de testosterona e rebeldia ingênua, elas ficaram mais explícitas ao longo dos anos 1970.

Depois de décadas de sucesso, o roqueiro, de espírito fraterno e sempre jovial, entrou no século XXI com fôlego renovado. Entre discos ao vivo, o Tremendão renovou o repertório com os álbuns Pra Falar de Amor (2001), Santa Música (2003) e Rock'n'Roll (2009).

Produzido por Liminha, que deu o devido polimento a parcerias inéditas de Erasmo com Nando Reis e Nelson Motta, o jovial álbum Rock’n’Roll abriu trilogia revigorante que gerou os álbuns Sexo (2011) e Gigante Gentil (2014), este feito com Kassin.

Com o fôlego renovado, Erasmo lançou em 2018 um dos melhores álbuns da vasta obra: Amor é Isso, gravado sob direção artística de Marcus Preto, também mentor do 33º e último álbum do Tremendão, O Futuro Pertence à... Jovem Guarda (2022), produzido por Pupillo e lançado em fevereiro com músicas da Jovem Guarda até então nunca gravadas por Erasmo, casos de Alguém na Multidão (Rossini Pinto, 1965) e Tijolinho (Wagner Benatti, 1966), destaques do disco agraciado com o Grammy Latino.

Erasmo teve tempo de celebrar o prêmio, mas não teve tempo de gravar o álbum de músicas inéditas que já planejara fazer com Marcus Preto.

Pilar do rock brasileiro quando o país ainda nem tinha um mercado de rock propriamente dito, Erasmo Carlos foi gigante que jamais ficou à sombra de Roberto Carlos. Gigante gentil como a obra afetuosa, atravessada pelo amor às mulheres e à natureza. E marcada pelo culto a esse tal de rock'n'roll, paixão juvenil que acompanhou o artista por toda a vida.

(PS - Pesquisa realizada em sites e veículos de comunicação)

quarta-feira, 16 de novembro de 2022

Artista e Curador conversam sobre Silenciamentos Indomáveis

Conversa também é cultura e, ao mesmo tempo, um modo antigo e profundo de filosofar, desde os tempos de Sócrates e Platão. Quem aprecia uma boa conversa, principalmente no mundo das artes, tem um encontro marcado e inadiável, hoje (16/11), às 15 horas, na Galeria Parangolé, no Espaço Cultural Renato Russo.

Por lá, estarão a artista visual Akimi Watanabe e o curador Rogério Carvalho para um bate-papo sobre a produção artística de Watanabe e, mais especificamente, sobre a mostra “Silenciamentos Indomáveis”, que aborda os “apagamentos femininos” nas culturas oriental e ocidental.

Aberta à visitação desde outubro até 20 de novembro, a mostra apresenta 25 obras em colagem digital, impressas sobre papel ou canvas, que tratam das imposições masculinas e suas correlações. As obras foram elaboradas no intervalo pandêmico que impôs à reclusão, ao isolamento e ao olhar intimista direcionado a espaços íntimos que jamais haviam sido explorados. Foram tempos de introspecção e de análise aos pequenos detalhes.

Torna-se disruptivo ocupar espaços de importância em tempos sombrios, de tantas incertezas, e consequentemente, amplificar discussões sobre temas tão significativos. Na apresentação dessa série a artista reafirma que “as limitações apresentadas às mulheres, cotidianamente, foram o gatilho para que minha densidade genética fosse amplificada”.

Desse modo, pondera que, em face às mazelas do mundo contemporâneo que impõem às minorias uma não-liberdade, “subverto essa construção de tanta violência ao materializar em minhas obras essa luta, ante um opressor intermitente”.

Akimi aborda também o assombro por não-verdades de que vivemos em um ambiente onde garantias de liberdade de voz e corpo foram conquistadas no século XXI. Ela considera importante “o referendo que é necessário continuar abrindo espaço para manifestações autênticas de cultura, raça e gênero.”

Watanabe, finaliza com uma citação de autoria desconhecida e que tem tudo a ver com o seu trabalho: “A arte amplia o que é ser humano para além da sobrevivência diária”.



Serviço:
Conversa artística com Akimi Watanabe e Rogério Carvalho
Exposição “Silenciamentos Indomáveis”
16 de novembro - 15h
Galeria Parangolé
Espaço Cultural Renato Russo 

segunda-feira, 14 de novembro de 2022

Se Liga, Juventude chega ao fim com dois grandes espetáculos


Duas atividades culturais relevantes acontecem nesta quarta e quinta-feira, 16 e 17 de novembro no Teatro Sesc Paulo Autran, em Taguatinga Norte. Cerca de 1200 adolescentes e jovens do Distrito Federal, ao longo deste ano, participaram do projeto Se Liga, Juventude! envolvendo criatividade, cultura, teatro e fotografia.

Nesses dois dias, o projeto, promovido pela IECAP - Agência de Transformação Social, será concluído, com grande evento aberto ao público, celebrando o talento e a colaboração dos jovens na exposição fotográfica “Olhares da Vila”, com curadoria do repórter fotográfico Celso Junior e produção executiva e direção editorial de Ian Nogueira, e na peça teatral “Equalliz, Um Eco de Integridade”, com direção de Dill Diaz.

Na definição de Renata Oliveira, diretora-presidente da IECAP, “o Se Liga, Juventude tem como tema a integridade ativada em três reflexões-chave: ‘Como eu me vejo’, ‘Eu com o outro’ e ‘Eu no mundo’.  Nele, a prioridade está no reconhecimento das capacidades do jovem, no resgate, construção ou fortalecimento de sua autoestima, tendo como meio a criatividade, a produção artística, a valorização das referências culturais, incluindo aquelas da comunidade a que ele pertence”.

Ela acrescenta que, ao mesmo tempo em que a dinâmica convida à colaboração, “estimula o protagonismo que cada um deve ter em relação à própria vida”.

Equalliz, Um Eco de Integridade é um espetáculo que propõe um diálogo entre a ficção e a realidade. Enquanto um grupo de jovens artistas tem a missão de explorar sua criatividade e buscar um enredo autoral, três personagens embarcam na fantástica jornada de restabelecer o equilíbrio num lugar utópico e cheio de mistérios.

A pergunta que se faz é o que une os dois caminhos? E a resposta, o tema. Por meio da metalinguagem, o espetáculo, que conta com a atuação de 44 jovens, traz para a cena os desafios, as lutas e as descobertas de se mergulhar num processo coletivo. Seja na realidade ou na ficção, o espetáculo nos convida a refletir sobre os limites e os entendimentos que possuímos sobre integridade.

Olhares da Vila reúne obras produzidas por 79 jovens e adolescentes ao longo do projeto Se Liga, Juventude!, partindo do estudo técnico e histórico da fotografia, assim como da reflexão sobre a função social de sua prática, os expositores propõem um diálogo, através de suas produções, sobre a sua formação identitária, segundo a sua faixa etária, os seus dilemas e os seus desafios.

Os momentos de criação ao longo dessa jornada foram marcados por importantes discussões sobre as noções de integridade nos mais diversos campos da vida. Dessa maneira, os jovens lançam mão de diversas feições do campo visual para representar as relações do eu com o mundo: em que medida nós somos aquilo que espelhamos, tendo em vista os nossos valores, princípios compartilhados e propósitos.

Foto de Ana Karoline de Santos Souza

Embora estes artistas vivenciem momentos semelhantes da vida e compartilhem o interesse pela descoberta do mundo através da fotografia, as suas formas de expressar suas questões através de seus trabalhos são as mais diversas e únicas. As fotos que serão apresentadas contaram com a curadoria do fotógrafo Celso Júnior e transitam pelos gêneros da fotografia de rua, do retrato, dos ensaios e da fotografia de arquitetura.

Se Liga, Juventude! 

O projeto é patrocinado por meio de lei de incentivo fiscal com aporte financeiro do Grupo Santa e da Modalmais, plataforma de investimento do Banco Modal, englobou duas trilhas formativas: uma on-line e uma presencial. Na presencial, foram formadas 16 turmas de adolescentes e jovens de 13 a 29 anos, totalizando 442 beneficiários em 9 meses de projeto realizado em Ceilândia, Taguatinga e na Estrutural.

Foto de Pedro Henrique Carvalho Barros

Já para o momento online, 750 pessoas da mesma faixa etária tiveram acesso a temas relacionados à criatividade e cultura por meio de conteúdos e uma experiência gamificada de ensino.

“O Modal é um ecossistema de bem-estar financeiro que acredita na cultura como ferramenta de mudança social. Buscamos transformar vidas por meio de cada serviço que oferecemos e o ‘Se liga, Juventude’ carrega esse mesmo propósito. Com esse incentivo, investimos diretamente no futuro desses jovens”, explica Isabela Sena, gerente de pessoas do Modal.

Foto de Gustavo Borges


SERVIÇO: 
Evento Vila da Juventude
16 e 17 de novembro
Teatro Sesc Paulo Autran- Taguatinga Norte
 
Espetáculo teatral Equalliz - Um Eco de Integridade
Horário: Primeira sessão às 15 e segunda às 20h
Retirada de ingressos na entrada do teatro por ordem de chegada
Entrada gratuita
 
Exposição fotográfica Olhares da Vila
Horário: 14h às 21h
Indicação: Livre
Entrada gratuita

sexta-feira, 11 de novembro de 2022

Gal Costa leva uma parte da alegria dos brasileiros

Enquanto estava começando o velório de Gal Costa, em São Paulo, hoje (11/11), recebo pelo zap um texto do jornalista, escritor e poeta Irnobel Maranhão Viegas. Como todos os brasileiros, amantes da cultura, das artes e particularmente da música, o amigo lamenta perda tão irreparável.

A morte de Gal Costa mexeu com nossos nervos, tocou fundo na alma sensível dos apaixonados pela beleza e grandeza do mundo das artes. O Brasil inteiro chorou, ficamos comovidos e imbuídos de um sentimento avassalador de perda, como se tivéssemos perdido alguém da família. O texto abaixo fala também de outras perdas nessa nossa vida tão passageira e fugaz.

Sobre Maranhão, já escrevi aqui no blog. Também já publiquei outros textos de sua autoria, todos maravilhosos. O amigo foi o maior responsável pelo surgimento do ZecaBlog. Leiam com atenção. Ajuda a manter viva a memória de uma artista tão genial e, ao mesmo tempo, nos conforta de perdas irreparáveis.


Cinzas sem carnaval

Maranhão Viegas

A quarta-feira se encaminhava para o fim da manhã quando chegou a notícia da morte de Gal. A trilha sonora do dia perdeu o jeito. Impacto no peito. Gal, não... Agora, não... Por favor.

E aí o pensamento viaja no tempo. Na ânsia de não perder nada. No afã de guardar tudo. Tudo o que for possível. De onde ela veio? Da Bahia. Os anos 1960 ainda nem tinham terminado e ela já cantarolava João Gilberto e Caymmi. Reza a lenda que, à primeira audição, João sentenciou: É a melhor cantora do Brasil. A lenda caminhou e tornou Caetano o autor da frase. Se foi dita ou não, pouco importa. Importa mesmo o que Gal era. E continuará sendo pela eternidade.

Fa-tal

Quando eles – Gil e Caetano -  tiveram que ir, minha gente, empurrados pela ditadura, foi como se houvesse um ponto e vírgula no Tropicalismo. Não um ponto final. Porque quem ficou por aqui foi a Gal. E ela gravou coisas que não podiam ser gravadas. E lançou discos que só puderam ser vendidos envoltos em plástico preto. Porque na capa estava exposta a essência da liberdade, em forma de corpo de mulher. Ventre exuberante, peito à mostra. Mas não era isso a razão do susto. O que valia mesmo estava lá dentro. Além do que os olhos podiam ver. Impresso em acetato. Gravado com voz precisa. Era aos ouvidos que aquilo interessava. 

Gal emprestava a voz à contracultura. Jards Macalé, Wally Salomão, Torquato Neto. Seus timbres agudos desafiavam a guitarra. Seus gritos passaram sem restrições pelos censores, triscando a harmonia dodecafônica (ou a ausência dela) e inaugurando a beleza sonora do desassossego. Foi pela voz de Gal que soubemos, mais explicitamente, a dimensão da tristeza e da solidão que Caetano viveu, em Londres. London London, na gravação primeira e mais primorosa que a música poderia ter, também passou incólume pela censura. João Marcelo Bôscoli, produtor musical dos mais respeitados no país e filho de Elis, diz que a música passou porque os censores não falavam inglês. Pode ser. E ainda bem que passou. Na verdade, Gal a eternizou.

O fato é que ela não deixou que o ponto final fosse dado ao Tropicalismo. Movimento musical que surpreendeu os brasileiros. Ela encarnou a rebeldia como ninguém, pelas roupas que vestia ou que não. Pelos cabelos. Pelo sorriso largo. E pela voz inesquecível. Gal deu a vitória, o vigor, a visibilidade que o Tropicalismo precisava ter. A todo vapor, deu tempero ao Brasil insosso daquele momento. Seu nome é Gal. Gal Maria da Graça Penna Burgos Costa. Filha de dona Mariah Costa Penna. Que, de onde quer que esteja, deve estar sorrindo orgulhosa. Aquelas músicas clássicas que fez chegar ao ouvido da menina, quando ainda estava na barriga, de fato, fizeram sentido.

Quarta sem graça

Já estávamos tristes por perder Maria da Graça. E aí o tempo se fechou sobre o Sertão. Rolando Boldrin saiu de cena. Levou sua viola, aquela mesmo que falou sempre alto no seu peito humano, para dedilhar em outras plagas. Vá com Deus, e espalhe alegria ali também, por favor, Sr. Brasil.

Ravi com Pepita, em álbum da família

Para Ravi

Quando a gente perde alguém de quem se gosta muito a dor é maiúscula. Mas a gente sempre dá um jeito de transformar essa dor. De dar a ela o tamanho suportável. Quando esse amigo-irmão que se foi é um cachorro, a gente sente falta da companhia dele, das brincadeiras, dos passeios, dos olhares cúmplices e silenciosos.

Tem hora na vida que parece que só aqueles bichinhos nos entendem.

Ontem, a Pepita, cachorro que o Ravi definiu que seria sua irmã de alma, também deixou esse plano. Pode chorar um pouquinho, Ravi. Não há feiura no choro. Chorar nossas perdas alivia a nossa alma, esvazia os olhos transbordantes e mostra o valor de uma ligação amorosa.

Mas olha, depois do choro, seque o rosto e não esqueça a alegria da Pepita. Ela vai gostar de saber que você vai seguir sendo sua companhia. Que você vai crescer guardando em um relicário a amizade que construíram enquanto ela esteve por aqui. Aliás, ela não vai esquecer o carinho que você lhe dedicou, sempre que ela precisou. E como precisou...



quarta-feira, 9 de novembro de 2022

Brasil perde Rolando Boldrin, a voz da música regional


    Dia triste para a cultura brasileira. Pela manhã, saiu a notícia da morte da cantora Gal Costa. No final da tarde, o Brasil ficou sabendo da morte do apresentador, músico e ator Rolando Boldrin, aos 86 anos, de causa não divulgada pela família. Ele estava internado Hospital Albert Einstein, em São Paulo. O corpo do artista será velado na Assembleia Legislativa de SP, em data e horário que ainda serão definidos.


    Rolando Boldrin foi importantíssimo para a cultura brasileira, em vários aspectos. Ele costumava dizer que era apenas “um ator que canta, compõe e escreve”. Mas, foi muito mais que isso. Divulgou, valorizou e estimulou a música regional brasileira. Sempre foi considerado o herdeiro direto do trabalho pioneiro de Cornélio Pires, que ele conheceu ainda criança.


    Neto de imigrantes do norte da Itália, Boldrin nasceu em 22 de outubro de 1936 na cidade de São Joaquim da Barra, em São Paulo, mas na infância mudou-se com a família para Guaíra, a poucos quilômetros dali. Com o irmão Leili, o Formiga, formou a dupla caipira infantil Boy & Formiga (cartaz, abaixo).


    Após várias tentativas, a primeira aos 16 anos, transferiu-se para São Paulo e exerceu profissões diversas, como a de frentista e garçom, antes de ser aprovado em um teste na Rádio e TV Tupi para ator e figurante, em 1958. Logo começou a fazer papéis maiores no canal, em programas como Teatro de Novelas, TV de Comédia e Grande Teatro Tupi.


    Boldrin participou de gravações musicais com sua primeira mulher, a cantora e produtora Lurdinha Pereira, a partir de 1961. Compunha então mais sambas que outros ritmos, como "Onde Anda Iolanda", que concorreu ao terceiro Festival Internacional da Canção, de 1968.


    Em paralelo, a carreira como ator de telenovelas deslanchava. Atuou em 25 ao todo. Na Tupi, em dois momentos, até 1966 e entre 1973 1978; na Excelsior, em 1968; na Record, entre 1969 e 1972; no SBT, em 1977, e na Bandeirantes, entre 1979 e 1981. Canções de sua autoria integraram a trilha sonora de algumas produções, inclusive novelas da Globo, como "Paraíso" e "Cabocla".



    A fase teatral de Rolando Boldrin passou pela experimentação dos grupos Arena Oficina, em período de tensão política. Sua estreia foi em janeiro de 1966, na peça "Os Inimigos", de Górki, com direção de José Celso Martinez Corrêa. Em 1968, atuou na "Feira Paulista de Opinião", dirigida por Augusto Boal, sob ameaças do CCC, o Comando de Caça aos Comunistas. O interesse na coleta de tradições regionais brasileiras se refletiu na produção de seus discos, que passaram a ter viés cada vez mais caipira, a partir de "O Cantadô", de 1974. Gravou cerca de 250 músicas, entre composições próprias e de outros autores.


    Em 1976, com "Palavrão", surgiu o formato que veio consagrar Boldrin —a mistura de conversa mansa, música regional e poesia declamada em um show próprio, com Antonio Abujamra na direção e acompanhamento da Banda de Pau e Corda.


    O roteiro foi seguido com sucesso na televisão cinco anos depois, na criação do programa Som Brasil, na TV Globo, sob sua batuta até 1983. E funcionou nas versões similares que produziu em outras emissoras —Empório Brasileiro, na Band, em 1984, Empório Brasil, no SBT, em 1989, Estação Brasil, na CNT, em 1997, e Sr. Brasil, na TV Cultura, desde 2005.


    Foram ocasiões em que Boldrin deu visibilidade a artistas brasileiros das mais variadas tendências musicais, unidos pelo elo comum da sonoridade acústica.


    Não surpreende que Boldrin, um agente de difusão cultural, tenha se tornado também objeto de manifestação popular —sua vida virou tema do enredo da escola Pérola Negra no Carnaval paulistano de 2010. Foi mais um causo que ele pôde contar.


    Minha paixão pela arte de Boldrin começou em meados dos anos 1970 e nunca mais parou. Tem interpretações belíssimas de canções verdadeiramente populares e era um contador de causos primoroso.


    RIP, Rolando Boldrin! Agora, vai cantar e contar suas histórias no reino do céu.

(PS – Pesquisa realizada nas redes sociais, principalmente no site da Folha de São Paulo e no UOL)


Gal Costa morre, aos 77 anos, e deixa o Brasil mais triste

Gal Costa, uma das maiores cantoras da Música Popular Brasileira, morreu, aos 77 anos, na manhã desta quarta-feira, de causa não divulgada pela família. A informação da morte foi confirmada pela assessoria de imprensa da cantora ao jornal Folha de São Paulo.

A participação de Gal no festival Primavera Sound, ocorrido em São Paulo, no último final de semana, foi cancelada de última hora. A alegação foi de que ela precisava se recuperar depois de ter retirado um nódulo na fossa nasal direita e ficaria fora dos palcos até o final de novembro.

Segundo informações divulgadas pelo jornal, a cirurgia ocorreu em setembro, pouco após sua apresentação em outro festival de música em São Paulo, o Coala. De lá para cá, ela não havia voltado a se apresentar, mas já tinha datas de shows da turnê As Várias Pontas de uma Estrela marcadas para dezembro e janeiro.

Nascida Maria da Graça Costa Penna Burgos, em Salvador, na Bahia, Gal Costa surgiu no cenário musical na década de 1960. Considerada uma artista de muito talento e uma revolução das vozes e dos costumes na música brasileira desde seus primeiros passos na carreira, a cantora encantou gerações de fãs e admiradores.

Aproximou-se ainda adolescentes aos também baianos Caetano Veloso, Maria Bethânia e Gilberto Gil, com quem integraria o grupo conhecido como Doces Bárbaros, responsável mais tarde por um disco definidor da década de 1970.

Tinha ainda pouco mais de 20 anos quando participou do álbum "Tropicália ou Panis et Circensis", pedra fundamental do movimento tropicalista. Logo depois, em 1971, fez um dos espetáculos de maior repercussão da história da MPB, "Fa-Tal", que viraria também um álbum cultuado.

RIP, Gal Costa. Fui, sou e serei sempre seu fã!