sábado, 24 de dezembro de 2022

Verdadeiros valores do espírito natalino estão esquecidos

A religiosidade é uma coisa boa nessa nossa curta passagem pela vida. Desde que imbuída do espírito da caridade, do amor ao próximo e do respeito por aquelas pessoas que praticam outras religiões, ou que não praticam religião alguma, ou não acreditam no mesmo Deus que acreditamos, ou até mesmo para com aqueles que não acreditam em nenhum Deus.

O espírito verdadeiramente cristão é aquele que professa, procura e pratica sempre o bem, sem olhar a quem. E isso não é fácil. Exige muita abnegação e humildade. Aliás, humildade é a palavra-chave nessa vida.

Humildade, amor, solidariedade, empatia e compaixão foram palavras esquecidas em nossa pátria, Brasil, nesses quatro anos de desgoverno de um sujeito aclamado como mito. Fez questão de valorizar8 o ódio, a falsidade, e espalhar mentiras e maldades de toda natureza, sexo e cor. Uma tragédia.

Mas, tentemos ver esse últimos dias do ano por outros prismas. Por exemplo, final de ano traz sempre uma certa polêmica sobre qual festa é melhor, mais prazerosa: Natal ou Ano Novo? A desavença começa pelo recesso no ambiente de trabalho. Há aqueles que só tiram folga na semana natalina e os que preferem o fim de ano. A polêmica ganha contornos piores quando embalada por visões fundamentalistas, sejam elas expressas por religiosos ou pelos festeiros de carteirinha.

A turma do balacobaco crê que festa boa é o Réveillon. As comemorações natalinas são cansativas, caretas e modorrentas. A turma do primeiro grupo só enxerga lascividade e pecado nas festas de fim de ano.

São duas comemorações bem distintas e cada uma com sua beleza própria e seu estilo marcante. Como é delicioso o momento natalino, em que as famílias, as pessoas mais próximas, reúnem-se para comemorar o nascimento de Cristo, e, por consequência enaltecer todos os bons ensinamentos que guiam uma parcela relevante da humanidade.

A Igreja Ortodoxa não comemora o nascimento de Cristo no dia 25 de dezembro, mas, no dia 7 de janeiro, pois não reconhece a reforma do calendário implantada pelo Papa Gregório, no ano de 1582, que corrigiu uma defasagem de treze dias entre a data do calendário e a data real das mudanças das estações – equinócio e solstício. Os ortodoxos continuam seguindo o calendário de Júlio Cesar, criado em 45 A.C.

Pelo mesmo motivo, só comemoram o Ano Novo no dia 14 de janeiro. Mas, na Rússia pagã, essa data estava associada ao fim do Inverno e início da Primavera, portanto, sempre comemorado no mês de março com o “renascimento da Natureza”. O Rosh Hashaná, o Ano Novo Judaico, em 2022, foi comemorado no pôr do sol de 25 de setembro até o anoitecer do dia 27 de setembro, de domingo a terça-feira, marcando o início do ano 5783. Como de costume, serve para lembrar a criação do universo por Deus, bem como a aceitação da soberania d’Ele sobre o mundo.

A decoração de Natal é extensiva às comemorações de fim de ano. Servem para saldar o Ano Novo, depois de ter encantado as pessoas na chegada do menino Jesus. Todo ano é assim, aqui em casa. A Stela mostra seu extremo bom-gosto para decoração de casa e ambientes festivos. O vídeo abaixo mostra isso, com fundo musical de Noite Feliz.

É vida que segue cheia de esperanças e sonhos de renovação.

 


Luz natalina

José Carlos Camapum Barroso

 

Rainha que floresce

Na noite de Natal

É um duplo açoite

De esplendor celestial.

 

É dádiva de Deus!

Uma nova mensagem

A pulsar nos corações,

Há vida a nos embalar!

Esperança na Terra!

Basta abrir os olhos

Para que a luz possa entrar...

 

Claridade que é divina,

Eterna e nos ensina

Um modo novo de cantar,

Amar, viver a vida.

Rainha-da-Noite e do dia

Dai-nos hoje, e sempre,

A esperança perdida.


domingo, 11 de dezembro de 2022

Uruaçu ganha novas poesias no cenário cultural

A querida cidade de Uruaçu, incrustada no centro do Brasil e do mundo (há também estudos de que ela estaria no centro do Universo), é – e sempre foi – uma região muito rica culturalmente. Sua produção literária e musical é relevante no cenário do Centro Oeste brasileiro.

Temos um grupo de amigos no WhatsApp, sob o nome de Amigos do Zé Sobrinho, voltado para manter acesa a chama desse viés cultural da terrinha. Recentemente, foi organizada a edição de um livro de poesias que já está na gráfica sendo editado e virá com o título de As Tranças de Ana.

Nas duas últimas semanas, por termos sidos provocados, melhor, instigados, quatro poesias foram elaboradas e lançadas lá no grupo, de forma bem espontânea e descompromissada. Uma de minha autoria e outra de minha irmã Juracema Camapum Barros, e duas poesias dos irmãos Ítalo Campos e Itaney Campos. Dois pares de irmãos.

Publico-as para avaliação dos leitores do blog. Também serve como uma pitada do que vem aí, em breve, em forma de livros de poemas de uruaçuenses.

Esperamos que gostem. Beijos no coração e viva a Cultura tão desprestigiada e atacada nesses últimos quatro anos.

 


Ocaso
Juracema Camapum Barroso

 
Tenho o olhar fixo
Diante do sol do ocaso.
Não há como ignorar o belo entardecer.
Ou não alegrar com as estrelas surgindo...
Amarelo, rosado partindo
Como uma tristeza pálida
O final do dia tem algo
de perde-se no encontro da noite.
A luz docemente esvaindo entre os transeuntes, 
exalta o colorido das vestimentas.
Esta é a arte do céu: morrer o dia e nascer a noite.
O fluxo dos destinos mudam.
Apressados, lentos, perdidos.
Há os que nem sabem o que fazer de si.



 
Terra em Trans
Ítalo Campos
 
Transporta o trem do futuro
novos gêneros transfigurados
em velocidade vertiginosa
transcorrendo do futuro ao futuro.
Neste imenso transatlântico
dependurado no universo
Tudo é transitório!
Tudo múltiplo e concentrado
transcurado!
Transeunte, na avenida de mão única.
Sem nome, um número, um transviado,
em constante transformação.
Não há rastro, traço, a transmitir.
Todos em trânsito. Transparente!
O sol se pôs pelo lado do oriente.
Nenhuma transcendência é possível,
nenhum transbordamento com a poesia,
apenas um transamazônico ruído
é repetido.
Todos somos trans.
Transfixados pela espada da ciência.
Transitórios! Não há dor. Nada a transpor.
Nada a transgredir, nada a transbordar.
Tudo vazio transfundido.
Trans torno,
Transtorno!

 

 
E agora, José?
José Carlos Camapum Barroso
                          (Para Lastênia)
 
Sei lá agora o que farei nesta hora
Em dias tão difíceis, em noite escura
Minha alma implora por doçura
Quando a amargura já não demora
 
Sei lá o que farei neste momento
De nobre sentimento tão aviltado
Pela dor de que houvera retirado
Do fundo da alma todo sofrimento...
 
Mergulhar o coração no leito do rio?
Afogar as mágoas na noite, madrugada
Seria então apenas mais um desafio
 
Que não acalmaria esta dor passada
À beira de uma estrada, em desvario,
Indo também embora para Parságada



 
Soneto Antigo
Itaney Campos

Ah, estranho mal de amor, tão decantado,
Tanto espinhoso quanto bem querido,
Em vão procuro tê-lo resumido
No peito ainda cedo magoado.

Aumentá-lo é aumentar a dor, um fado
Que me domina o peito malferido,
Se o busco restringir, vejo crescido
O mal que em mim pressinto arraigado.

Filho da liberdade, me aprisiona,
Pródigo de cuidados, me abandona,
Fazendo da razão mesmo, cegueira.

De uma gentil senhora carecente,
Amor é chama, corvo persistente
que a alma me dilacera a vida inteira.
  

quinta-feira, 8 de dezembro de 2022

Cronista descobre plano de fuga de Bolsonaro no dia 1º

Nagé, Maragogipe, Bahia

José Américo, conhecido como “Das Américas”, além de um grande amigo, é também um baita escritor, cronista e jornalista admirado no cenário nacional. Tem um faro especial para a notícia, jornalismo investigativo. Deve ser por isso que descobriu que há um plano traçado e pronto para ser executado de fuga do presidente Bolsonaro.

O destino e outros meandros ele revela nessa bela crônica publicada abaixo. Faz parte de sua coleção de textos sobre o cotidiano de Joãozinho Naturá, figura típica do Recôncavo baiano. Um morador de Nagé, ilha do município de Maragogipe, foz do Rio Paraguaçu.

 

A fuga do presidente

José Américo 


Joãozinho Naturá* me ligou lá da ilha de Nagé, Maragogipe, Bahia. Sempre liga quando acorda da madorna de depois do almoço. Conta primeiro sobre o que comeu e depois desembesta a falar.

Desta vez, tava se gabando de uma farofa de inhame com camarão defumado. A iguaria foi servida por Dorinha da Gameleira, chamego dele de anos. Foi ela que, depois do almoço e enquanto se deliciava com uma cocada mole, contou o segredo que ficou sabendo.

- Das Américas, vou te contar uma bomba. Bolsonaro vai fugir e se esconder em Maragogipe.

- Que história é essa, Naturá?

- Tá duvidando é, Das Américas?

Dorinha, como você tá careca de saber, é filha de Iansã e, pra seu governo, foi só ela tocar no assunto que bateu uma ventania do nada, envergou o coqueiro gigante na beira da praia, e fez roncar o tronco da gameleira no terreiro da casa dela. Você é de santo e sabe muito bem do que tô falando.

A história é longa mas eu vou resumir para não gastar meus créditos.

Em todo lugar e em toda religião tem gente boa e gente que não vale o que o gato enterra. Pois bem, aqui na região tem um pai de santo que é da Igreja Universal, aquela do Bispo Macedo.

- Pelo amor de Deus, Naturá! Isso não existe. Como pode uma criatura ser do candomblé e crente ao mesmo tempo? E ainda por cima da Universal. Esse sincretismo seria uma anomalia, uma aberração a ser estudada em Harvard. Aí você já tá curtindo com minha cara.

- Das Américas, já vi que depois de se isolar nessa ilha da fantasia que é Brasília, você perdeu a noção do metabolismo social em que vivem os simples mortais. Você parece um alienígena que chegou hoje no Brasil e nada sabe do que acontece no cotidiano da nossa gente. Se liga ou vai virar um morto vivo, desligado da realidade, como esses políticos, seus amigos aí de Brasília.

- Joãozinho, você me aparece com uma história estrambólica, dizendo que Bolsonaro vai fugir e se esconder em Maragogipe, que tem um pai-de-santo evangélico envolvido na trama e quer que eu reaja com naturalidade? Tenha paciência. Vai quebrar coquinho!

- Pois é, acredite porque eu não gosto de Fake News e Dorinha fala a verdade até quando mente.

Você sabe que pelo andar da carruagem e pelos desmandos que a equipe de transição do Lula tem revelado, Bolsonaro vai ser preso logo que perder aquele tal foro privilegiado que o cargo de presidente lhe confere.

Vai não, poderia ser. Só vai se não executar seu plano de fuga, conforme planejado.

Tá tudo, milimetricamente, traçado com apoio dos golpistas da Marinha do Brasil. Você sabe que o atual comandante da força naval brasileira é bolsonarista até debaixo d’água.

Preste atenção no que vou lhe contar, em detalhes.

O Bozo deixa Brasília na noite de 31 para 1º de janeiro, desembarca no Rio de Janeiro, embarca numa van preta com vidros fumê e, dentro do túnel Acústico que liga a Zona Sul à Barra da Tijuca, ele vai trocar de carro, iniciando o audacioso plano de fuga.

Nagé, Maragogipe, Bahia

Daí segue até um ponto no litoral, nas imediações da restinga da Marambaia, área sob domínio das Forças Armadas, embarca num submarino de tecnologia venezuelana - veja a ironia do destino - pertencente à milícia carioca, segue em direção a Maragogipe e, uma vez já na terra de São Bartolomeu, segue para o terreiro do pai-de-santo evangélico, que já está sendo reformado para escondê-lo.

- Caraca, Naturá! Essa história parece livro de João Ubaldo, em parceria com Agatha Christie.

- Das Américas, a história realmente tem lances cinematográficos, mas o roteiro é baseado em fatos. E vou lhe dar provas cabais de que o plano já está em plena execução.

No dia do primeiro jogo do Brasil na Copa do Qatar, enquanto toda a gente estava ligada na partida de futebol, um caminhão camuflado na cor cinza - como são os veículos da Marinha - foi visto entrando no terreiro e descarregando uma grande remessa de leite condensado ou leite Moça, como queira. Quer evidência maior que essa? Parafraseando o lendário detetive Sherlock Holmes: “Elementar meu caro Watson.”

- Joãozinho, você tem que denunciar isso à polícia imediatamente.

- Você quer me ver na terra do pé junto, é? Tá doido? Não quero virar herói defuntado. Quem tem que denunciar é você aí em Brasília.

- Eu? Tá variando? Quem tem as informações, inclusive a localização do esconderijo é você e Dorinha. Eu sou um mero confidente seu.

- Das Américas, eu aqui lhe dando a oportunidade de sair do ostracismo e entrar para a história com uma informação privilegiada dessa e você arrega. Quem viu naninha! Não te reconheço mais naquele jovem e intrépido foca do Jornal da Pituba, nos idos dos anos da década de 1980, ao lado de feras como Zé de Jesus Barreto, Vander Prata, Césio Oliveira, Sonia Carmo, Jair Dantas, Sérgio Guerra, e dos saudosos Renato Pinheiro, Claude e seu guru Zé Roberto Berni. Que decepção.

- Peraí, Naturá! Você não tinha me passado o controle da história, queria inicialmente que eu fosse um delator,  indo à polícia para contar a trama. São coisas totalmente diferentes.

- Então trate logo de se reunir com esses jornalistas tipo Remington, seus amigos, e veja uma estratégia para revelar a trama nacionalmente. Lembre-se de que essa bomba tem que ser detonada no dia 1º de janeiro de 2023. Vai ser a notícia do ano. Minha parte eu quero em dinheiro. E vivo, viu! À moda Bolsonaro. Hahahahaha!

Como dizia Ibrahim Sued quando dava um furo jornalístico:  “Sorry, periferia."

Fui!

*Joãozinho Naturá é um amigo de infância que exagerou no desfrute do famoso chá de cogumelos do Recôncavo baiano e hoje vive entre a filosofia, a crença em extraterrestre e os devaneios. Conta que sonha coisas que muitas vezes acontecem. Vive na ilha de Nagé, em Maragogipe, Recôncavo baiano.

  

terça-feira, 22 de novembro de 2022

Erasmo Carlos morre no Dia do Músico e leva o Grammy

Erasmo Carlos morreu nesta terça-feira (22/11), Dia do Músico e cinco dias depois de ganhar o Grammy com o álbum O Futuro Pertence... à Jovem Guarda, na categoria de “Melhor Álbum de Rock ou de Música Alternativa em Língua Portuguesa”. O cantor e compositor tinha 81 anos e havia sido internado ontem, de manhã, no Hospital Barra D’Or, na Barra da Tijuca, no Rio de Janeiro, às pressas.

Erasmo havia recebido alta hospitalar no início do mês, após ficar internado por nove dias, com um quadro de edema. A esposa Fernanda estava ao lado do cantor no momento em que ele faleceu. A causa da morte ainda não foi divulgada.

O Tremendão, como era conhecido, foi o pioneiro do Rock’n’Roll no Brasil. Ao lado de Roberto Carlos, amigo e eterno parceiro, foram os grande ídolos da jovem guarda, movimento pop que embalou os adolescentes dos anos 1960 ao ritmo do iê-iê-iê.

Erasmo Carlos começou a curtir rock no subúrbio da cidade natal do Rio de Janeiro (RJ) assim que a revolução sonora, capitaneada por Elvis Presley (1935 – 1977) nos Estados Unidos, ecoou na mente de jovens cariocas que detectaram no som de Elvis, Jerry Lee Lewis (1935 – 2022) e Little Richard (1932 – 2020) a mais completa tradução da rebeldia que sonhavam ter.

Ao morrer aos 81 anos, Erasmo ainda parecia apegado ao sonho do menino roqueiro que, no balanço frenético das horas, integrou entre 1957 e 1961conjuntos juvenis como The Sputniks – do qual participava também o futuro amigo de fé e parceiro Roberto Carlos, além do invocado Tim Maia (1942 – 1998) – The Boys of Rock e The Snakes.

Foi como integrante do Snakes que Erasmo debutou no mercado fonográfico em julho de 1960, com o single de 78 rotações que trazia as músicas Pra Sempre (Forever) e Namorando. Esse histórico single saiu três anos antes de o cantor gravar discos como crooner do conjunto Renato e seus Blue Caps.

Erasmo Carlos teve três filhos: Gil Eduardo Esteves, Leonardo Esteves e Carlos Alexandre Esteves, frutos do casamento do Tremendão com Sandra Sayonara Saião Lobato Esteves, a Narinha, falecida em 1996.

Pai presente, Erasmo Carlos compartilhou o sofrimento da morte de Carlos Alexandre Esteves, em 2014, com os fãs. Gugu, como era apelidado pela família e amigos, foi vítima de um acidente de moto na Orla da Barra da Tijuca, no Rio de Janeiro. Ele teve traumatismo craniano e morreu após uma semana de internação.

O Tremendão vinha há alguns meses tratando uma síndrome edemigênica, doença que ocorre quando há um desequilíbrio bioquímico, dificultando a manutenção dos líquidos dentro dos vasos sanguíneos. Geralmente é causada por doenças cardíacas, renais ou dos próprios vasos.

Com a implantação do reino pop da Jovem Guarda, a partir de agosto de 1965, Erasmo ganhou fama e virou popstar em carreira solo que começara em maio de 1964 com a edição do single Jacaré/ Terror dos Namorados. Depois, recebeu impulso relevante a partir de outubro de 1964, com o lançamento do single que apresentou o rock Minha Fama de Mau.

Só que, de mau, Erasmo sempre teve somente a fama alardeada no rock. No trato com as pessoas e o mundo, Erasmo era gentil, doce, segundo todos aqueles que com o Tremendão conviveram.

Aberta em 1963 com o rock Parei na Contramão, a fundamental parceria de Erasmo com Roberto Carlos conciliou dois universos musicais distintos, ainda que ligados pelo rock e pelo romantismo. Tanto que a discografia de Erasmo evoluiu bem diferente da obra fonográfica de Roberto.

Se as diferenças eram menos nítidas na era da Jovem Guarda, quando Erasmo virou o Tremendão e lançou álbuns como A Pescaria com Erasmo Carlos (1965) e Você me Acende (1966), discos repletos de testosterona e rebeldia ingênua, elas ficaram mais explícitas ao longo dos anos 1970.

Depois de décadas de sucesso, o roqueiro, de espírito fraterno e sempre jovial, entrou no século XXI com fôlego renovado. Entre discos ao vivo, o Tremendão renovou o repertório com os álbuns Pra Falar de Amor (2001), Santa Música (2003) e Rock'n'Roll (2009).

Produzido por Liminha, que deu o devido polimento a parcerias inéditas de Erasmo com Nando Reis e Nelson Motta, o jovial álbum Rock’n’Roll abriu trilogia revigorante que gerou os álbuns Sexo (2011) e Gigante Gentil (2014), este feito com Kassin.

Com o fôlego renovado, Erasmo lançou em 2018 um dos melhores álbuns da vasta obra: Amor é Isso, gravado sob direção artística de Marcus Preto, também mentor do 33º e último álbum do Tremendão, O Futuro Pertence à... Jovem Guarda (2022), produzido por Pupillo e lançado em fevereiro com músicas da Jovem Guarda até então nunca gravadas por Erasmo, casos de Alguém na Multidão (Rossini Pinto, 1965) e Tijolinho (Wagner Benatti, 1966), destaques do disco agraciado com o Grammy Latino.

Erasmo teve tempo de celebrar o prêmio, mas não teve tempo de gravar o álbum de músicas inéditas que já planejara fazer com Marcus Preto.

Pilar do rock brasileiro quando o país ainda nem tinha um mercado de rock propriamente dito, Erasmo Carlos foi gigante que jamais ficou à sombra de Roberto Carlos. Gigante gentil como a obra afetuosa, atravessada pelo amor às mulheres e à natureza. E marcada pelo culto a esse tal de rock'n'roll, paixão juvenil que acompanhou o artista por toda a vida.

(PS - Pesquisa realizada em sites e veículos de comunicação)

quarta-feira, 16 de novembro de 2022

Artista e Curador conversam sobre Silenciamentos Indomáveis

Conversa também é cultura e, ao mesmo tempo, um modo antigo e profundo de filosofar, desde os tempos de Sócrates e Platão. Quem aprecia uma boa conversa, principalmente no mundo das artes, tem um encontro marcado e inadiável, hoje (16/11), às 15 horas, na Galeria Parangolé, no Espaço Cultural Renato Russo.

Por lá, estarão a artista visual Akimi Watanabe e o curador Rogério Carvalho para um bate-papo sobre a produção artística de Watanabe e, mais especificamente, sobre a mostra “Silenciamentos Indomáveis”, que aborda os “apagamentos femininos” nas culturas oriental e ocidental.

Aberta à visitação desde outubro até 20 de novembro, a mostra apresenta 25 obras em colagem digital, impressas sobre papel ou canvas, que tratam das imposições masculinas e suas correlações. As obras foram elaboradas no intervalo pandêmico que impôs à reclusão, ao isolamento e ao olhar intimista direcionado a espaços íntimos que jamais haviam sido explorados. Foram tempos de introspecção e de análise aos pequenos detalhes.

Torna-se disruptivo ocupar espaços de importância em tempos sombrios, de tantas incertezas, e consequentemente, amplificar discussões sobre temas tão significativos. Na apresentação dessa série a artista reafirma que “as limitações apresentadas às mulheres, cotidianamente, foram o gatilho para que minha densidade genética fosse amplificada”.

Desse modo, pondera que, em face às mazelas do mundo contemporâneo que impõem às minorias uma não-liberdade, “subverto essa construção de tanta violência ao materializar em minhas obras essa luta, ante um opressor intermitente”.

Akimi aborda também o assombro por não-verdades de que vivemos em um ambiente onde garantias de liberdade de voz e corpo foram conquistadas no século XXI. Ela considera importante “o referendo que é necessário continuar abrindo espaço para manifestações autênticas de cultura, raça e gênero.”

Watanabe, finaliza com uma citação de autoria desconhecida e que tem tudo a ver com o seu trabalho: “A arte amplia o que é ser humano para além da sobrevivência diária”.



Serviço:
Conversa artística com Akimi Watanabe e Rogério Carvalho
Exposição “Silenciamentos Indomáveis”
16 de novembro - 15h
Galeria Parangolé
Espaço Cultural Renato Russo 

segunda-feira, 14 de novembro de 2022

Se Liga, Juventude chega ao fim com dois grandes espetáculos


Duas atividades culturais relevantes acontecem nesta quarta e quinta-feira, 16 e 17 de novembro no Teatro Sesc Paulo Autran, em Taguatinga Norte. Cerca de 1200 adolescentes e jovens do Distrito Federal, ao longo deste ano, participaram do projeto Se Liga, Juventude! envolvendo criatividade, cultura, teatro e fotografia.

Nesses dois dias, o projeto, promovido pela IECAP - Agência de Transformação Social, será concluído, com grande evento aberto ao público, celebrando o talento e a colaboração dos jovens na exposição fotográfica “Olhares da Vila”, com curadoria do repórter fotográfico Celso Junior e produção executiva e direção editorial de Ian Nogueira, e na peça teatral “Equalliz, Um Eco de Integridade”, com direção de Dill Diaz.

Na definição de Renata Oliveira, diretora-presidente da IECAP, “o Se Liga, Juventude tem como tema a integridade ativada em três reflexões-chave: ‘Como eu me vejo’, ‘Eu com o outro’ e ‘Eu no mundo’.  Nele, a prioridade está no reconhecimento das capacidades do jovem, no resgate, construção ou fortalecimento de sua autoestima, tendo como meio a criatividade, a produção artística, a valorização das referências culturais, incluindo aquelas da comunidade a que ele pertence”.

Ela acrescenta que, ao mesmo tempo em que a dinâmica convida à colaboração, “estimula o protagonismo que cada um deve ter em relação à própria vida”.

Equalliz, Um Eco de Integridade é um espetáculo que propõe um diálogo entre a ficção e a realidade. Enquanto um grupo de jovens artistas tem a missão de explorar sua criatividade e buscar um enredo autoral, três personagens embarcam na fantástica jornada de restabelecer o equilíbrio num lugar utópico e cheio de mistérios.

A pergunta que se faz é o que une os dois caminhos? E a resposta, o tema. Por meio da metalinguagem, o espetáculo, que conta com a atuação de 44 jovens, traz para a cena os desafios, as lutas e as descobertas de se mergulhar num processo coletivo. Seja na realidade ou na ficção, o espetáculo nos convida a refletir sobre os limites e os entendimentos que possuímos sobre integridade.

Olhares da Vila reúne obras produzidas por 79 jovens e adolescentes ao longo do projeto Se Liga, Juventude!, partindo do estudo técnico e histórico da fotografia, assim como da reflexão sobre a função social de sua prática, os expositores propõem um diálogo, através de suas produções, sobre a sua formação identitária, segundo a sua faixa etária, os seus dilemas e os seus desafios.

Os momentos de criação ao longo dessa jornada foram marcados por importantes discussões sobre as noções de integridade nos mais diversos campos da vida. Dessa maneira, os jovens lançam mão de diversas feições do campo visual para representar as relações do eu com o mundo: em que medida nós somos aquilo que espelhamos, tendo em vista os nossos valores, princípios compartilhados e propósitos.

Foto de Ana Karoline de Santos Souza

Embora estes artistas vivenciem momentos semelhantes da vida e compartilhem o interesse pela descoberta do mundo através da fotografia, as suas formas de expressar suas questões através de seus trabalhos são as mais diversas e únicas. As fotos que serão apresentadas contaram com a curadoria do fotógrafo Celso Júnior e transitam pelos gêneros da fotografia de rua, do retrato, dos ensaios e da fotografia de arquitetura.

Se Liga, Juventude! 

O projeto é patrocinado por meio de lei de incentivo fiscal com aporte financeiro do Grupo Santa e da Modalmais, plataforma de investimento do Banco Modal, englobou duas trilhas formativas: uma on-line e uma presencial. Na presencial, foram formadas 16 turmas de adolescentes e jovens de 13 a 29 anos, totalizando 442 beneficiários em 9 meses de projeto realizado em Ceilândia, Taguatinga e na Estrutural.

Foto de Pedro Henrique Carvalho Barros

Já para o momento online, 750 pessoas da mesma faixa etária tiveram acesso a temas relacionados à criatividade e cultura por meio de conteúdos e uma experiência gamificada de ensino.

“O Modal é um ecossistema de bem-estar financeiro que acredita na cultura como ferramenta de mudança social. Buscamos transformar vidas por meio de cada serviço que oferecemos e o ‘Se liga, Juventude’ carrega esse mesmo propósito. Com esse incentivo, investimos diretamente no futuro desses jovens”, explica Isabela Sena, gerente de pessoas do Modal.

Foto de Gustavo Borges


SERVIÇO: 
Evento Vila da Juventude
16 e 17 de novembro
Teatro Sesc Paulo Autran- Taguatinga Norte
 
Espetáculo teatral Equalliz - Um Eco de Integridade
Horário: Primeira sessão às 15 e segunda às 20h
Retirada de ingressos na entrada do teatro por ordem de chegada
Entrada gratuita
 
Exposição fotográfica Olhares da Vila
Horário: 14h às 21h
Indicação: Livre
Entrada gratuita

sexta-feira, 11 de novembro de 2022

Gal Costa leva uma parte da alegria dos brasileiros

Enquanto estava começando o velório de Gal Costa, em São Paulo, hoje (11/11), recebo pelo zap um texto do jornalista, escritor e poeta Irnobel Maranhão Viegas. Como todos os brasileiros, amantes da cultura, das artes e particularmente da música, o amigo lamenta perda tão irreparável.

A morte de Gal Costa mexeu com nossos nervos, tocou fundo na alma sensível dos apaixonados pela beleza e grandeza do mundo das artes. O Brasil inteiro chorou, ficamos comovidos e imbuídos de um sentimento avassalador de perda, como se tivéssemos perdido alguém da família. O texto abaixo fala também de outras perdas nessa nossa vida tão passageira e fugaz.

Sobre Maranhão, já escrevi aqui no blog. Também já publiquei outros textos de sua autoria, todos maravilhosos. O amigo foi o maior responsável pelo surgimento do ZecaBlog. Leiam com atenção. Ajuda a manter viva a memória de uma artista tão genial e, ao mesmo tempo, nos conforta de perdas irreparáveis.


Cinzas sem carnaval

Maranhão Viegas

A quarta-feira se encaminhava para o fim da manhã quando chegou a notícia da morte de Gal. A trilha sonora do dia perdeu o jeito. Impacto no peito. Gal, não... Agora, não... Por favor.

E aí o pensamento viaja no tempo. Na ânsia de não perder nada. No afã de guardar tudo. Tudo o que for possível. De onde ela veio? Da Bahia. Os anos 1960 ainda nem tinham terminado e ela já cantarolava João Gilberto e Caymmi. Reza a lenda que, à primeira audição, João sentenciou: É a melhor cantora do Brasil. A lenda caminhou e tornou Caetano o autor da frase. Se foi dita ou não, pouco importa. Importa mesmo o que Gal era. E continuará sendo pela eternidade.

Fa-tal

Quando eles – Gil e Caetano -  tiveram que ir, minha gente, empurrados pela ditadura, foi como se houvesse um ponto e vírgula no Tropicalismo. Não um ponto final. Porque quem ficou por aqui foi a Gal. E ela gravou coisas que não podiam ser gravadas. E lançou discos que só puderam ser vendidos envoltos em plástico preto. Porque na capa estava exposta a essência da liberdade, em forma de corpo de mulher. Ventre exuberante, peito à mostra. Mas não era isso a razão do susto. O que valia mesmo estava lá dentro. Além do que os olhos podiam ver. Impresso em acetato. Gravado com voz precisa. Era aos ouvidos que aquilo interessava. 

Gal emprestava a voz à contracultura. Jards Macalé, Wally Salomão, Torquato Neto. Seus timbres agudos desafiavam a guitarra. Seus gritos passaram sem restrições pelos censores, triscando a harmonia dodecafônica (ou a ausência dela) e inaugurando a beleza sonora do desassossego. Foi pela voz de Gal que soubemos, mais explicitamente, a dimensão da tristeza e da solidão que Caetano viveu, em Londres. London London, na gravação primeira e mais primorosa que a música poderia ter, também passou incólume pela censura. João Marcelo Bôscoli, produtor musical dos mais respeitados no país e filho de Elis, diz que a música passou porque os censores não falavam inglês. Pode ser. E ainda bem que passou. Na verdade, Gal a eternizou.

O fato é que ela não deixou que o ponto final fosse dado ao Tropicalismo. Movimento musical que surpreendeu os brasileiros. Ela encarnou a rebeldia como ninguém, pelas roupas que vestia ou que não. Pelos cabelos. Pelo sorriso largo. E pela voz inesquecível. Gal deu a vitória, o vigor, a visibilidade que o Tropicalismo precisava ter. A todo vapor, deu tempero ao Brasil insosso daquele momento. Seu nome é Gal. Gal Maria da Graça Penna Burgos Costa. Filha de dona Mariah Costa Penna. Que, de onde quer que esteja, deve estar sorrindo orgulhosa. Aquelas músicas clássicas que fez chegar ao ouvido da menina, quando ainda estava na barriga, de fato, fizeram sentido.

Quarta sem graça

Já estávamos tristes por perder Maria da Graça. E aí o tempo se fechou sobre o Sertão. Rolando Boldrin saiu de cena. Levou sua viola, aquela mesmo que falou sempre alto no seu peito humano, para dedilhar em outras plagas. Vá com Deus, e espalhe alegria ali também, por favor, Sr. Brasil.

Ravi com Pepita, em álbum da família

Para Ravi

Quando a gente perde alguém de quem se gosta muito a dor é maiúscula. Mas a gente sempre dá um jeito de transformar essa dor. De dar a ela o tamanho suportável. Quando esse amigo-irmão que se foi é um cachorro, a gente sente falta da companhia dele, das brincadeiras, dos passeios, dos olhares cúmplices e silenciosos.

Tem hora na vida que parece que só aqueles bichinhos nos entendem.

Ontem, a Pepita, cachorro que o Ravi definiu que seria sua irmã de alma, também deixou esse plano. Pode chorar um pouquinho, Ravi. Não há feiura no choro. Chorar nossas perdas alivia a nossa alma, esvazia os olhos transbordantes e mostra o valor de uma ligação amorosa.

Mas olha, depois do choro, seque o rosto e não esqueça a alegria da Pepita. Ela vai gostar de saber que você vai seguir sendo sua companhia. Que você vai crescer guardando em um relicário a amizade que construíram enquanto ela esteve por aqui. Aliás, ela não vai esquecer o carinho que você lhe dedicou, sempre que ela precisou. E como precisou...