terça-feira, 27 de setembro de 2016

Poesia pra não esquecermos da tragédia no Realengo


Alguém se lembra do Massacre de Realengo? A chacina ocorrida no dia 7 de abril de 2011, por volta das 8h30 da manhã, na Escola Municipal Tasso da Silveira, localizada no bairro de Realengo, na cidade do Rio de Janeiro. Um rapaz de 23 anos, Wellington Menezes de Oliveira, invadiu a escola armado com dois revólveres calibre 38 e começou a disparar contra os alunos presentes, matando doze deles, com idade entre 13 e 16 anos, e deixando mais de treze feridos. O rapaz, ao ser interceptado por policiais, cometeu suicídio.
As grandes tragédias acontecem no Brasil, mas, rapidamente, caem no esquecimento. O crime causou comoção nacional e teve ampla repercussão internacional. Na época, chocado com a dimensão desse acontecimento, escrevi os versos abaixo, como uma forma de homenagear principalmente as mães daqueles garotos e garotas.
Resgato aqui para ajudar a refrescar nossa memória e não deixar que essas tragédias simplesmente caiam no esquecimento. São cinco anos e meio apenas, e, tenho certeza, muitos já esqueceram.

Rio de sangue
José Carlos Camapum Barroso

O sangue viscoso,
Que desce escadas,
Sobe pelas paredes
Até o quadro-negro...

Borra janelas,
Transpõe muros,
Atravessa ruas,
E escala morros...

Fere montanhas,
Arranha encostas.

Expõe-se ao mundo,
Nos braços abertos
Do Cristo, redentor...
Do pão, de açúcar,
Das praias, abertas,
Da cidade, maravilhosa.

O sangue é jovem.
Não para de jorrar
Por veias abertas
De um país, livre...
De um mundo, novo,
De uma Terra, global,
Do Universo, infinito.

O sangue é forte.
Lágrimas apenas
Não o contem.
O sangue é jovem,
Viscoso e vivo,
Afia e desafia
Dores de mães
Do Realengo.

O Rio é um mar,
Tinto de lágrimas.
O Rio é salgado...

domingo, 25 de setembro de 2016

Quando a mãe liga para falar de saudades...


Minha mãe Iracema ligou hoje, bem cedo. Faz hoje 70 anos que sua mãe Celina foi embora deste mundo, deixando-a órfã com menos de nove anos de idade. Dona Ira disse que chorou muito ao sair da missa matinal de domingo, que deu uma saudade imensa dos tempos de criança, de uma infância repentinamente colocada fora dos trilhos. Achou estranho todo esse sentimento a essa altura da vida...
Saudade não tem idade. Disse a ela, sem deixar de sublinhar que as lágrimas, vindas com esses sentimentos tão puros e autênticos, são parte do caráter das pessoas grandiosas, que têm bons exemplos a dar aos seus e a todos que com elas convivem. E ela está plenamente inserida nesse rol de seres humanos.
Saudade é uma palavra diretamente associada às emoções. Talvez, por isso mesmo, o dicionário Aurélio traz a seguinte definição: Recordação suave e melancólica de pessoa ausente, local ou coisa distante, que se deseja voltar a ver ou possuir.


Por ser assim tão associada às emoções, sobre ela criou-se o mito de que só existe essa palavra para expressar tais sentimentos em Português. Em alemão (ajuda aí, Ana Laura Campos!), existe a palavra sehnsucht, que tem esse entre outros significados. Em polonês, a palavra tesknota tem sentido igual. Claro, as palavras mudam de significado, expressam a mesma coisa com colorações diferentes, dependo do contexto, de questões culturais e outras variáveis.
Mais isso não tem maior importância. O que tentei dizer para dona Iracema, nesta manhã de domingo, foi o seguinte: o que interessa mesmo é o fato de saudade ser uma palavra deliciosa, sonora, poética e agradável. Ninguém fica triste porque sente saudade. É um sentimento um pouco diferente, mais em direção do nostálgico, que nos faz viajar no tempo e no espaço, superando distâncias, na maioria das vezes à velocidade da luz. Ficamos tristes quando perdemos um ente querido, é verdade. Mas o sentimento não é exatamente esse quando sentimos saudade dessa pessoa.


Falar sobre saudade é tão difícil. Muito mais fácil é senti-la a nos envolver, de maneira suave, gentil, como se fosse uma velha companheira que sempre esteve entre nós e não pretende, jamais, nos deixar. Mas, ela vai embora da mesma forma que chegou, suavemente, sem arrancar pedaços...
Mãe, dona Ira, ter saudade é bom demais da conta!

Saudade
José Carlos Camapum Barroso

Quero sentir saudade,
Mas a noite não deixa.
O latido do cão assusta,
A escuridão domina
O brilho das estrelas.
Até a lua se escondeu...

Como sentir saudade?
Saudade não se deseja,
Somos desejados por ela.
Saudade não se almeja.
Não se traça o quando
Nem por onde vai chegar.
Mostra sua face, se instala
E nem avisa ao se afastar...

De repente, estamos sós?
Nem saudade existe mais?

(Um vento bate na porta,
A brisa sopra pela janela...
Passos ecoam na calçada.
Não ouço latido do cão,
A lua traz réstia de luz
E um beijo doce na face.)

A saudade foi se embora.
Nem disse se vai voltar...



domingo, 11 de setembro de 2016

Resistência e encanto fazem a virada do Cerrado


O Cerrado é antes de tudo um forte, que resiste ao fogo das queimadas, à mão desalmada de uma civilização em busca desenfreada pelo progresso. O Cerrado tem sua cultura própria, um jeito especial de viver e de sobreviver, sem perder a imponência, jamais, em sua missão de resistir a intempéries.
Os desenhos retorcidos, distorcidos e encurvados das plantas do Cerrado enganam os que as julgam frágeis. Essas árvores saem do cinza-enegrecido, causado pelas queimadas, para um verde exuberante, basta chegar as primeiras chuvas do caju e do pequi nativos no Centro-Oeste. Em Brasília, já se pode ver algumas plantas mostrando um verde-novo em meio ao amarelecido da grama e do mato. Mesmo agora, já surgem lá no meio do cerrado o amarelo retumbante, exuberante, radiante, cheio de vida da flor do ipê.


O Cerrado não é apenas essa beleza que nos enche de orgulho e satisfação. É também sinônimo de sustentabilidade para uma sociedade que mal consegue se manter em suas próprias raízes. O futuro está aqui, em meio a essa biodiversidade que salta aos olhos, capaz de produzir alimentos, medicamentos, energia e abrir portas para um turismo ímpar, sem similares em qualquer região do mundo.
O quadrilátero do Distrito Federal, desenhado e traçado pela Missão Cruls – sobre a qual já escrevi aqui no blog –, também está assentado em uma região do Cerrado de rara beleza e de riquezas ainda bastante desconhecidas. Nós goianos, temos orgulho de ter cedido a Brasília uma das mais belas e ricas áreas do Centro-Oeste. As principais fontes de água do Brasil nascem neste Planalto Central, que mostra força e pujança desde as entranhas da terra.


Estão em sintonia com essa realidade os órgãos e instituições que fazem eventos, encontros, seminários voltados para conscientizar a população do valor que traz em si mesma essa região do Cerrado. No Parque da Cidade está acontecendo, hoje (11/09), o encerramento da Virada do Cerrado, que começou no dia 7 de setembro, com diversos eventos no Distrito Federal.
Comemorar o Dia do Cerrado nos enche de alegria. Essa é uma região que amo de paixão e que me viu nascer e crescer, em meio aos pés de pequis, de buritis, de jatobás e das flores do cerrado e outras tantas maravilhas.
É simplesmente genial a música Flor do Cerrado, do saudoso Waldir Azevedo, que morou por essas bandas e sabia o valor de tamanha beleza. Admiro também os versos da música, com o mesmo título de Flor do Cerrado, composta por Caetano Veloso, na voz de Gal Costa e aqui intercalada por Garota de Ipanema, de Tom Jobim e Vinícius de Moraes. Dizem os versos: “Mas, da próxima vez que eu for a Brasília/Eu trago uma flor do Cerrado pra você”. É um belo presente para se oferecer à pessoa amada.


Admiro também as pessoas que interagem com a natureza e curtem essa convivência de forma respeitosa e saudável. A amiga Sinvaline Pinheiro faz um trabalho admirável no Memorial Serra da Mesa, em Uruaçu, Goiás. Minha irmã Juracema tem essa sensibilidade para admirar e valorizar as plantas e animais e sempre acampando, curtindo um riozinho, ou mesmo rego d’água aqui no DF ou lá pelas bandas de Goiás. Na Caesb, onde trabalho, o colega José Marcos Feitosa também merece ser homenageado. Além de ter participado de um trabalho de pesquisa, que rendeu um belo livro sobre a Área de Proteção Ambiental (APA) do Cafuringa, ele sempre reúne a família e vai acampar no Cerrado brasiliense, em meio a rios, cachoeiras, plantas e, claro, a incomparável Flor do Cerrado.


domingo, 4 de setembro de 2016

As maravilhas de Brasília em um fim de tarde...


Brasília é, há mais de quatro décadas, a cidade-minha. Aquela que escolhi pra estudar, trabalhar, morar, constituir uma família e viver em paz com os amigos. Brasília tem a capacidade de se internalizar na nossa alma e na forma de pensar e de agir de cada um de nós. Uma cidade que nos ajuda a projetar o futuro de forma ampla, traçado a partir de novos horizontes, com um visual moderno e um pensamento inclusivo. Talvez devamos isso ao seu desenho urbanístico e a sua ousadia arquitetônica, mas também ao que ela se propôs ao ser criada.
Quando aqui cheguei, em janeiro de 1973, Brasília era uma garota de quase 13 anos. Cheia de vitalidade, sonhos e esperanças. Os problemas maiores que cercam uma grande cidade ainda não se apresentavam de forma ostensiva, mas já davam os seus primeiros sinais, nas quadras, superquadras, eixos, vias e rodovias que desembocavam, cada vez mais, em novas cidades.

                                                                                              Foto de Ronaldo Silva
Vejo Brasília por vários ângulos. O que mais me seduz é o da beleza da sua arquitetura, que se espalha, principalmente, ao longo do Eixo Monumental, formando o corpo do avião. No vídeo abaixo, tendo retratar a beleza de um fim de tarde, início de noite, nesta cidade inspiradora. Brasília do futuro, mas que traz em sua bagagem um passado enriquecido pelos sonhos e esperanças de seus filhos-criadores, com um presente pujante e amplo de possibilidades.

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