terça-feira, 23 de novembro de 2021

Com Ansiedade, Izabella Rocha completa o álbum "Bella"

 

A Música Brasileira teve uma presença marcante neste mês de novembro. A cantora Izabella Rocha completou, com o lançamento de dois singles, o álbum Bella, agora 100% disponível nas plataformas de streamings. No início do mês, a cantora lançou Beatiful Love. Neste final de semana, no Clube do Choro, com a banda Bella Jazz Quarteto, foi lançada a música Ansiedade, composição do músico João Suplicy.

Mesmo com um início de noite chuvoso, na última sexta-feira, o público marcou presença na área externa do Clube do Choro para aplaudir Izabella Rocha. Com o single Ansiedade, a cantora completou o álbum que tem uma pegada que ela denomina “Jazz e Afins”.


João Suplicy, o autor da música, disse que ficou “feliz quando a Bella me disse que queria gravar essa música, pois acho que tem muito a ver com o momento que estamos vivendo. Num mundo em que somos bombardeados com excesso de informações o tempo todo, a ansiedade é algo que nos afeta muito. E adorei a roupagem ‘jazzy’ que ela deu pra canção. A cereja do bolo foi poder participar, cantando e tocando, no lançamento”.

No repertório, além das músicas que compõem o álbum, Izabella apresentou novas versões de hits do Natiruts, banda da qual fez parte por 10 anos, e um mix de sucessos internacionais com canções interpretadas em francês, inglês, italiano e espanhol.

Ao longo de um ano, combinando lives, plataformas digitais e alguma apresentações presenciais, Izabella Rocha apresentou ao público o álbum gota a gota, bem de acordo com o período de pandemia vivido pela população, no Brasil e no mundo. 


Nove canções compõem o trabalho feito com carinho e agora plenamente disponibilizado ao público: “O Carcará e a Rosa”, “Three Little Birds”, “Misteriosa Atração”, “Tambor”, “Carta pra Ele”, “God Bless the Child”, “Agora ou Nunca”, “Beautiful Love e “Ansiedade”. Das nove, sete foram complementadas por minidocs, assinados por Luciana Martuchelli e Sylvio Lima. O último deles, relacionado à canção Ansiedade, sai ainda este ano.

Izabella Rocha lembrou que “a pandemia exigiu de todos nós artistas muita criatividade e paciência. Foi um grande desafio, mas aí está o álbum ‘Bella’, 100% lançado e disponível para todo mundo nas plataformas de streaming”.

A cantora espera que, com essa abertura gradual, e a doença cada vez mais sob controle, ela possa levar “o álbum ‘Bella’ para os palcos e receber esse carinho da plateia, tão vital para nós artistas. Vem aí um novo ano, com muita música e novidades e eu só tenho a agradecer”.


quarta-feira, 17 de novembro de 2021

Literatura universal comemora 200 anos de Dostoiévski


A literatura universal comemora neste mês de novembro 200 anos do nascimento do escritor russo Fiódor Mikháilovitch Dostoiévski. Nasceu em Moscou, no dia 11 de novembro de 1821 – alguns registros apontam para 30 de outubro. Descobriu sua vocação literária com apenas quinze anos, enquanto estava na Escola Militar de São Petersburgo, influenciado por autores como Púchkin, Gogol, Byron, Victor Hugo, Shakespeare e Balzac.

Seu primeiro romance publicado foi Pobre Gente, em 1846, com vinte e cinco anos. O livro foi bem recebida pelos críticos e o público. Começava ali uma carreira brilhante, que marcaria a literatura do século XIX e iria influenciar autores importantes do século XX, mostrando que sua obra era atemporal e definitivamente universal.

O escritor húngaro Miklós Szabolcsi, em sua importante obra “Literatura Universal do Século XX”, ressalta a grandeza do escritor russo por revolucionar a psicologia, ao criar personagens que possuem caráter multifacetado e por destruir “a antiga representação da personalidade, desvendando uma nova, em que os indivíduos não são racionais, equilibrados, harmônicos, e não possuem caráter unívoco, mas polissêmico”.


Os personagens de Dostoiévski “são, ao mesmo tempo, heróis e covardes, santos e assassinos, que a um só tempo consolam, ferem e atormentam”, diz Miklós. E acrescenta que a obra do genial escritor russo reflete “as tempestades, fracassos e horrores do século XX, antes de Kafka, e no decorrer do pacífico e semi-apaziguado século XIX”.

A lista de grandes escritores influenciados por Dostoiévski é enorme. Segundo Miklós, vai de André Gide e Mikhail Bulgakov, de William Faulkner a Julio Cortázar e André Malraux. Nessa lista podem ser incluídos também Friedrich Nietzsche, William Faulkner, Jean Paul Sartre e, mais recentemente, Orhan Pamuk.

Dostoiévski faz parte da fantástica e pujante literatura russa, que tem nomes como Nikolai Karamzin, Aleksandr Púchkin, Nikolai Gógol, Vsiévolod Gárchin, Anton Tchekov, Lev Tolstói e Maksim Górki, entre tantos outros geniais. A Nova Antologia do Conto Russo (1792 a 1998) traz obras primas de todo esse pessoal. Deve ser lido. Recomendadíssimo.


Pra comemorar os dois séculos desse gênio da literatura, uma sugestão é a coleção lançada pela Editora 34, reunindo 24 volumes, todos com tradução direta do russo. A coleção reúne obras desde o primeiro romance do autor, Gente Pobre (1846), ao último, Os Irmãos Karamázov (1880), incluindo seus contos e as Crônicas de Petersburgo.

Faço um desafio aos leitores do ZecaBlog. Leiam pelo menos um livro de Dostoiévski neste mês de novembro. Uma boa forma de comemorar os dois séculos de nascimento desse autor genial.


terça-feira, 16 de novembro de 2021

Brasil precisa ouvir as vozes que pedem Tolerância


O grande boom da intolerância no Brasil ocorreu nas eleições de 2018. De lá pra cá, sua presença foi se consolidando na sociedade, estimulada pelo bolsonarismo enraizado no preconceito, no ódio, na vulgarização de ideias e ideais, tudo alimentado por uma cadeia de notícias falsas, mentiras, as chamadas fake news para usarmos o termo mais em voga na atualidade. O próprio presidente da República, líder maior da intolerância e do preconceito de todas os matizes, é flagrado em mentiras seguidamente, quase que diariamente.

Nas eleições passadas, acompanhamos e, de certa forma, participamos, de uma campanha eleitoral totalmente on line. A primeira da história brasileira tão marcada pelas redes sociais não foi um bom exemplo no quesito tolerância. Foram feitos disparos em massa de mentiras, difamações, todos de forma conectada, em cadeia, ao ponto que tudo foi reconhecido e constado pelo Tribunal Superior Eleitoral. O órgão, no entanto, sentiu-se incapacitado para aplicar penalidades por não conseguir estabelecer nexo entre a atuação nefasta e o resultado do pleito eleitoral.

Como saiu vitoriosa no período eleitoral a intolerância ganhou força e tornou-se um instrumento de uso corrente dos donos do poder da hora. Mas, nunca é tarde para acordamos e enfrentarmos tantos dissabores. Todos nós temos uma responsabilidade sobre esse estado de coisa. E, no dia de hoje, uma terça-feira (16/11), depois de um feriado, talvez seja mais uma boa oportunidade para reflexões.

Hoje é o Dia Internacional da Tolerância. Começou a ser gestado em 1993, quando a Conferência Geral da Unesco elegeu 1995 como o Ano das Nações Unidas para a Tolerância. E foi posto em prática, pela primeira vez, no dia 16 de novembro de 1996.


Um dia em que são desenvolvidas diversas ações para combater os mais variados tipos de intolerância cultural, econômica, religiosa, sexual e racial. Na definição dos membros da ONU, tolerância é o respeito, a aceitação e o apreço pela diversidade em todos os seus âmbitos. Mais interessante foi a determinação de que não deve ser considerada uma concessão, mas, sim, um reconhecimento dos direitos humanos universais e das liberdades fundamentais de cada pessoa.

As pessoas precisam, sempre, se colocar no lugar do outro. A aceitação, e por consequência a tolerância, começa por aí. Importante deixar o lugar de dono da verdade. Observar como os outros lidam com determinados fatos de acordo com os seus valores, crenças, razões e motivações.



Alguém já disse que muitas vezes o que não aceitamos no outro é o reflexo daquilo que não suportamos em nós mesmos. Quando o conflito entre pessoas ocorre, o ideal é mesmo respirar fundo, e evitar que a irritação conduza nossos argumentos. Os membros da ONU pensaram em tudo isso e mais algumas coisas sobre as quais devemos refletir nesta data. Foi uma bela decisão.

Salve o Dia Internacional da Tolerância e sejamos todos adeptos dos princípios que a conduzem. Como está umbilicalmente ligado à cultura, o ZecaBlog adere a essa comemoração.

E que tenhamos todos uma vida mais tolerante, cheia de amor. Será bem melhor, nos sentiremos mais leves. E por falar em amor, um pouquinho desse tema com Chico Buarque e a cantora portuguesa Carminho...

"Tolerância é uma necessidade em todos os tempos e para todas as raças. Mas tolerância não significa aceitar o que se tolera." Mahatma Gandhi

"A primeira lei da natureza é a tolerância - já que temos uma porção de erros e fraquezas." Voltaire

sábado, 13 de novembro de 2021

Gentileza virou raridade na mesa dos brasileiros


Gentileza tem sido um prato muito pouco servido à mesa dos brasileiros de 2018 pra cá. Em seu lugar, uma salada de ódio com intransigência regada ao molho de negacionismo e, na sobremesa, bolo de preconceito com cobertura de vulgaridade.

Faço essa reflexão porque hoje, no mundo, comemora-se o Dia da Gentileza. Está provado que faz bem à saúde tanto de quem compartilha, quanto para quem recebe. O ato de ser gentil produz dopamina, hormônio do prazer e do bem-estar produzido pelo cérebro.

A ideia de instituir essa data surgiu numa conferência, realizada em Tóquio, em 1996, pelo World Kindness Movement (Movimento Mundial da Gentileza, em tradução livre). Mas, só no ano de 2000 foi oficialmente criado. A intenção do movimento era a de inspirar as pessoas a criarem um mundo mais gentil. Um abraço, um sorriso, uma palavra positiva, qualquer coisa nesse sentido pode mudar o dia de alguém.


Tem um ditado popular que diz “gentileza gera gentileza”. Essa frase foi criada por um homem chamado José Datrino, conhecido por carregar um estandarte escrito à mão anunciando o bem que faz ser gentil. Ele ficou conhecido como o Profeta Gentileza. E inspirou Luiz Gonzaga Júnior, o Gonzaguinha a compor a canção postado abaixo.

E Datrino está certo: a gentileza funciona como um “vírus” do bem. Quanto mais somos gentis, mais capacidade temos de exercer a gratidão. Isso contribui para que a nossa vida vá ficando melhor e mais alegre. É fácil perceber que, quando se é gentil, a “energia da gentileza” faz com que o ambiente fique melhor.


Bela D’Amor

Almeida Garret

 

Pois essa luz cintilante

Que brilha no teu semblante

Donde lhe vem o ‘splendor?

Não sentes no peito a chama

Que aos meus suspiros se inflama

E toda reluz de amor?

 

Pois a celeste fragrância

Que te sentes exalar,

Pois, dize, a ingénua elegância

Com que te vês ondular

Como se baloiça a flor

Na Primavera em verdor,

Dize, dize: a natureza

Pode dar tal gentileza?

Quem ta deu senão amor?

 

Vê-te a esse espelho, querida,

Ai!, vê-te por tua vida,

E diz se há no céu estrela,

Diz-me se há no prado flor

Que Deus fizesse tão bela

Como te faz meu amor.



domingo, 7 de novembro de 2021

Izabella Rocha lança mais uma canção do álbum Bella

Os artistas brasileiros têm feito verdadeiros milagres para sobreviver em meio a uma pandemia que condenou todos ao isolamento, afastando todos eles das gravadoras e do público. Não foi diferente com a cantora Izabella Rocha, que, no ano passado lançou o álbum Bella, e de lá pra cá vem apresentando singles de forma segmentada e constante.

Neste fim de semana, Izabella apresentou ao seu público a bela interpretação de Beatiful Love, canção gravada na década de 1950 pela jazz singer americana Anitta O’Day. Na gravação, além de homenagear a intérprete dos Estados Unidos, a cantora brasileira buscou uma roupagem bossanovista para também destacar a importância de João Gilberto na nossa música.

Contemporânea das cantoras de jazz Billie Holliday, Sarah Vaughan e Ella Fitzgerald, Anita teve que lutar para abrir as portas do restrito universo do jazz. “Ela era uma branca em um universo de negros, que além da música, tinham outras pautas importantes para tocar como a questão racial. Foi nesse contexto que Anita teve que provar o seu valor e conquistar o seu espaço com muita personalidade e estilo. Ao lado de Billie e Ella é uma das estrelas da era de ouro do jazz, embora sempre tenha rejeitado o título e a postura de diva”, afirma Izabella, que discorre mais sobre Anitta e Beautiful Love em um trabalho que será lançado em 13 de novembro no canal de Youtube da cantora.

Na gravação de Beatiful Love, Izabella teve a companhia de Lourenço Vasconcellos (vibrafone), Paulo André (violão de seis cordas), Oswaldo Amorim (baixo acústico) e Leander Motta (bateria). Os arranjos levam a assinatura de  assinado por Renato Vasconcellos.

Utilizando de recursos que combinam lives, lançamentos nas plataformas digitais e apresentações presenciais, Izabella Rocha já lançou sete canções do álbum “Bella”: “O Carcará e a Rosa”, “Three Little Birds”, “Misteriosa Atração”, “Tambor”, “Carta pra Ele”, “God Bless the Child” e “Agora ou Nunca”. Depois de “Beautiful Love”, a artista lançará a última música do trabalho em um evento especial a ser informado em breve.  

Com 25 anos de carreira, a cantora Izabella Rocha iniciou sua trajetória solo em 2016 e encontra-se em fase de conclusão do lançamento de seu segundo álbum solo: “Bella”. Fundadora do Natiruts (1996), que está entre as principais bandas do Brasil, como backing vocal e cantora, ela gravou cinco discos de estúdio com esta banda: “Nativus” (1997), “Povo Brasileiro” (1999), “Verbalize” (2001), “Qu4tro” (2002) e “Nossa Missão” (2005) – e fez centenas de shows.

Em 2006 saiu em busca das raízes musicais e, no ano seguinte, criou – ao lado de Bruno Dourado (percussão) e Kiko Péres (guitarrista), também ex-integrantes do Natiruts – o grupo InNatura, com o qual gravou mais três álbuns: o ao vivo “Um Artista Brasileiro” (2007, lançado em DVD), “Bossa Ragga” (2010) e “Innatura 3” (2013).Com a maternidade – ela é mãe de Gabriela, Rafael e Elis –, entrou em contato profundo com a feminilidade e reforçou sua ligação com a natureza do planeta Terra, verdadeiro útero para toda a vida. Esta foi a base de “Gaia”, o primeiro disco solo e autoral, lançado em 2016, celebrando seus 20 anos de carreira com letras inspiradas pelo Sagrado Feminino e pela Mãe Natureza.


Serviço: 06/11

Lançamento Beautiful Love

Pré-salvar: https://bfan.link/beautiful-love

13/11

Lançamento minidoc As Cores da Música


Canais Izabella Rocha

YouTube: Izabella Rocha

Instagram e Facebook: @IzabellaRochaOficial

Spotify: Izabella Rocha


sábado, 6 de novembro de 2021

Marília Mendonça morre e deixa milhares de fãs desolados

O sofrido povo brasileiro, depois de dois anos de enfrentamento a uma grave pandemia e de três anos de um horrendo governo Bolsonaro - principalmente para a Cultura -, perdeu nesta sexta-feira uma cantora extraordinária que lhes dava tantas alegrias. A artista Marília Mendonça morreu, nesta sexta-feira (5/11), em um trágico acidente aéreo que tirou a vida de outras quatros ocupantes do avião.

Conheço pouco do repertório de Marília porque seu estilo, suas letras e melodias não se coadunavam com o meu universo musical. Como diz o ditado popular e tão propagado: “gosto não se discute”. Então, deixemo-lo de lado.

A cantora era dona de um timbre de voz belíssimo, afinadíssima e com uma presença de palco que empolgava e levava ao delírio milhares de fãs, no Brasil e em vários cantos do mundo.

É muito triste ver um talento desse ter sua carreira interrompida no auge, na flor da idade e com um futuro tão promissor pela frente. Deixa órfã uma criança de dois anos de idade, uma mãe desesperada pela dor de perder uma pessoa tão querida, parentes e uma legião de fãs inconsolável e incrédula.

Era, com razão, conhecida como a rainha da sofrência. Basta observar o título de alguns de seu sucesso para entender que a alcunha cai-lhe como uma luva: Infiel, Esqueça-me Se For Capaz, Todo Mundo Menos Você, Para de Me Chamar Pra Trair, Você Não Manda Em Mim, Sem Querer Querendo...

O segundo álbum de sua carreira tem o nome seco e direto de Realidade. Com ele consolidou seu sucesso nacional e recebeu indicação para o Grammy Latino, na categoria Melhor Álbum de Música Sertaneja. Premiação que viria a conquistar com o lançamento seguinte: Todos os Cantos.

A cantora nasceu na pequena Cristianópolis, em 22 de julho de 1995, tendo portanto apenas 26 anos de idade. Foi criada em Goiânia, onde ocorre o seu velório e será sepultada.

Mais um talento musical que perde a vida em acidente aéreo. Mais uma voz, que levava tantas alegrias a milhares de pessoas, se cala, de forma abrupta e sem sentido. Marília Mendonça encerra sua carreira num momento de grande sucesso, quando voltava a fazer apresentações presenciais para o público, não só no Brasil, mas em vários países.

Muito triste. Não tem como não lembrar de Guimarães Rosa e sua célebre frase: viver não é fácil.

Rest in peace, Marília Mendonça!


quinta-feira, 4 de novembro de 2021

Falar alto no celular pode dar confusão e mal-entendido

Como compete a todo marido zeloso e dedicado, decidi acompanhar minha mulher ao posto de vacinação para receber a dose de reforço contra o terrivelmente avassalador vírus da covid-19. Não que ela se oponha à vacina, muito pelo contrário. É defensora da imunização, das medidas não-farmacológicas e da ciência acima de tudo. Mas, tem receio da picada da agulha, isso lá tem. E muito.

Chegamos por volta das 2 horas da tarde. Sol quente e a fila razoavelmente extensa. Mas, bem-organizada, e fluindo bem.

Lá pelas tantas ouço uma voz em alto e bom som de um cidadão gravando um áudio no celular. Algumas pessoas têm dificuldade de entender que suas conversas telefônicas só a ele e a pessoa do outro lado da linha interessam. Falam na maior altura como se todos os presentes, e até alguns ausentes, tivessem interessados nos seus negócios, segredos, casos amorosos e problemas pessoais, inclusive os financeiros.

Deus nos livre e guarde. A tecnologia trouxe muitas soluções, mas também uma série de problemas novos, agravados pela socialização da ignorância e do atraso. O sujeito que fala alto no telefone em locais públicos deveria ser multado, ter o aparelho confiscado e só devolvido depois que o proprietário, por castigo, fosse obrigado a ler a coleção completa de Machado de Assis. De lá sairia, com certeza, um  cidadão.

Mas, voltando à fala do dito cujo. Ele estava gravando um áudio para o filho que, segundo informou, não consegue encontrar, não recebe dele ligações, ou seja, um filho ingrato... Disse ele mais ou menos o seguinte.

“Ôi, filho. Tudo bem? Você não me liga, não dá notícia. Fico sem saber se você está bem, até mesmo se está vivo. Essa noite sonhei contigo. Foi um sonho até bom! Você tava pegando uma mulher casada. Imagina, um mulher casada! Cuidado, meu filho. Isso é perigoso. Tome cuidado. E veja se me liga. Dê notícias!”


Foi aquele clima na fila da vacinação. Todo mundo ouviu. Alguns riram discretamente, outros balançaram a cabeça negativamente. Uma senhora, ao meu lado, chegou a murmurar: “é muita falta de noção!”. Eu achei engraçado, mas, pra evitar qualquer mal-entendido, perigoso e preocupante, perguntei pro arauto de voz sonora.

- Meu senhor, por acaso essa mulher – “a vítima” –, ela está aqui nessa fila de vacinação? Ou não?

- Não, não! Ela mora e está em Sobradinho – disse complacente, como se estivesse fazendo um grande favor pra muita gente naquele local.

Fiquei aliviado. Descobrir que você é corno, aos 67 anos de idade, numa fila de vacinação, no calor de 2 horas da tarde, é meio muito.

A fila voltou a andar. Minha mulher foi atendida rapidamente. Saiu de lá imunizada. E eu, imune.

A gente passa cada uma nessa vida.

segunda-feira, 1 de novembro de 2021

Covid tira a vida e os sonhos do jovem Bruno de 38 anos

A Covid-19 levou a óbito mais uma pessoa querida, um moço novo, cheio de vida, de sonhos e aspirações. Bruno Campos de Ávila Teixeira, filho do casal de amigos, Rômulo e Solange, não resistiu a 45 dias de internação em uma UTI de Goiânia. Foram mais de seis semanas de luta, orações e torcida. Mas, infelizmente, perdemos a batalha.

Bruno, na flor da idade, aos 38 anos, deixa a esposa Cinthia Manso Sales, grávida de cinco meses, e o filho Davi de sete anos. Deixa pais arrasados, irmãos e primos, destroçados, e uma infinidade de parentes e amigos incrédulos e estupefatos com esse tremendo absurdo. Mais um jovem perde a vida para essa doença que já matou mais de 600 mil pessoas no Brasil e mais de cinco milhões no mundo.

Ele nos deixa, eu e minha mulher Stela, com um sentimento pesado de derrota, uma tristeza infinita. Particularmente, estou arrasado porque esse garoto tinha um carinho muito grande e especial pela minha pessoa. Toda às vezes que nos encontrávamos, ele fazia questão de dizer que era meu fã. Dizia de forma franca e simpática: Zé Carlos, meu ídolo!

Eu tinha um fã e agora não tenho mais. Solange e Rômulo tinham um filho querido e agora não o possuem mais. Cinthia perde o esposo amado; Davi, o pai dedicado e dileto; Vanessa e Michel deixam de ter, nessa existência, a companhia, o carinho e a amizade de um irmão tão querido.

É tudo muito triste, sombrio. Uma existência fugaz e cheia de percalços e acidentes sempre a nos surpreender. Perplexidade e tristeza são as palavras-chave desta segunda-feira, dia 1º de novembro, Dia de Todos os Santos. Certamente, eles estão reunidos, fazendo a passagem de alguém tão especial e tão admirado.

Viver não é fácil, como dizia Guimarães Rosa.

 

PS – Leitoras e leitores, que acompanham esse blog voltado para os temas culturais, perdoem o texto em desabafo. Oremos.

Brasil perde o talento do pianista Nelson Freire

A semana começou terrivelmente triste. Morreu o músico Nelson Freire, aos 77 anos, na madrugada desta segunda-feira (1º/11), um dos maiores pianistas do mundo. A empresária do artista confirmou a morte, mas não soube dar detalhes da causa que o teria levado a óbito. Ele foi encontrado morto em sua casa, no Rio de Janeiro.

No ano de 2019, Freire sofreu um acidente fazendo caminhada e teve que se submeter a uma cirurgia no ombro. Apesar do sucesso da cirurgia, pessoas amigas contam que ele andava deprimido. Sua volta aos palcos estava prevista para o ano passado. Os concertos tiveram que ser cancelados por causa da pandemia do novo coronavírus.

Nelson Freire é um dos maiores artistas brasileiro. Ao longo de sua carreira subiu aos principais palcos do mundo. Além do virtuosismo e técnica invejável, era admirado pela extraordinária sensibilidade para tocar temas dos compositores da música clássica. Seu CD de interpretações de composições de Chopin é elogiado pela crítica internacional e recebeu os prêmios Diapason d’Or e "Choc", do periódico francês Monde de La Musique.

Nelson Freire nasceu em Boa Esperança, no interior de Minas Gerais, em outubro de 1944. Começou ao piano aos três anos de idade e, ainda em Minas, foi aluno de Nise Obino. Mudou-se para o Rio de Janeiro, onde teve aulas com Lúcia Branco.

Em entrevista ao jornal Estado de S. Paulo, em 2015, Freire relembrou a infância e o começo de sua relação com a música. Assim como do primeiro recital, aos 5 anos de idade, no Cine-Teatro Brasil.


"Eu toquei peças como La vie em rose, La Paloma e Quizas, quizas, quizas. Foi um começo cross-over", ele brincou. "Mas eu me divertia também. A família era grande, eu tinha muitos primos, além dos meus irmãos. Eu adorava andar a cavalo, tomar banho no córrego, partir minhoca no meio e ver as metades se mexendo. Eles matavam passarinho com estilingue, mas isso eu não gostava. Só teve uma vez que eu tirei as asas de uma mosca, fui olhar ela com uma lente e acabei queimando a bichinha."

Tendo começado a estudar piano desde cedo, Nelson Freire, aos 12 anos de idade, foi o sétimo colocado no Concurso Internacional de Piano do Rio de Janeiro. Logo em seguida, ganhou uma bolsa de estudos para estudar em Viena.


Ao final da década de 1950, Freire já fazia recitais e concertos nas capitais europeias e se apresentava com célebres regentes como Isaac Karabtchevsky e Rudolf Kempe.

No ano de 1964 Freire ganhou o Concurso Internacional de Piano Vianna da Motta em Lisboa e recebeu, em Londres, as medalhas de ouro Dinu Lipatti e Harriet Cohen

Entre as orquestras com as quais Nelson Freire se apresentou estão a Filarmônica de Berlim, a Orquestra Sinfônica de Londres, Orquestra Filarmônica de São Petersburgo e a Orquestra Sinfônica do Estado de São Paulo.

No início dos anos 2000, o pianista foi tema de um documentário de João Moreira Salles. O filme mostrava a personalidade do pianista: tímido, avesso a entrevistas, ele preferia se comunicar ao piano. "Quanto tenho de falar é um problema", ele brincava sempre que começava uma entrevista. No filme, vemos ainda sua paixão pelo jazz, pela pianista Guiomar Novaes, a relação de amizade com Martha Argerich e com o próprio instrumento: uma das cenas mais célebres é aquela em que, na Sala São Paulo, chega à conclusão de que aquele piano não gosta dele.




O sucesso do filme coincidiu com uma nova etapa da carreira de Freire, que passou a realizar novas gravações após quase duas décadas longe dos estúdios. "Eu não gosto de gravar, todo o ritual me incomoda. Mas depois que comecei de novo acho que peguei gosto pela coisa. Agora, quero gravar cada vez mais. E tem outra coisa, para um músico como eu, que não gosta de ficar viajando o tempo todo, o disco tem uma outra vantagem: ele viaja para mim e eu fico em casa", brincou em entrevista de 2004.


As gravações para o selo Decca renderam registros de referência de peças como os dois concertos de Brahms, o Concerto Imperador de Brahms e o Concerto nº 2 de Chopin. Também foram marcantes os discos solo dedicados a Beethoven, Schumann e Debussy, além de Encores, em que gravou uma série de autores brasileiros.


Na lembrança do público, no entanto, fica gravada para sempre uma outra peça, que Nelson Freire costumava sempre apresentar como bis em suas apresentações: a Melodia de Orfeu e Eurídice, de Gluck. A delicadeza, o lirismo - ali ficava sempre clara a relação íntima entre o artista, seu instrumento, sua música. O que sua morte agora transforma em memória inesquecível.


É mais uma perda imensurável para a nossa cultura. O céu está ficando repleto de talentos e por aqui vamos ficando cada vez mais pobres do ponto de vista musical, e por consequência mais tristes.

(Com informações publicadas nas redes sociais e em veículos de comunicação)