terça-feira, 16 de fevereiro de 2016

Dia do Repórter e as nossas lembranças do jornalismo


Lá pelos idos da década de 1970, o jornalista e amigo Cláudio Cunha, com quem trabalhei muitos anos na redação do Jornal de Brasília, morava numa República em Porto Alegre, cercado de estudantes de Medicina por todos os lados. Sua então namorada Tânia chegou certo dia para visitá-lo. Perguntou à senhora que fazia faxina:
- O Cláudio está aí, minha senhora?
- Cláudio...? Num sei não.... Os doutor saiu tudo! Só tem o repórtir!
Tânia não se fez de rogada:
- Tem problema, não... Eu querendo é o repórtir, mesmo!
Lembrei-me dessa história por ser hoje o Dia do Repórter, o jornalista da linha de frente, geralmente mal compreendido e pouco valorizado. Sair da condição de repórtir e chegar à de repórter não é fácil, não. Tem que percorrer uma estrada longa e espinhosa. Trajetória seguida por tantos jornalistas que são referência para todos nós.
Quantos tombaram pelo caminho, a exemplo de Tim Lopes. Poucos alcançam a consagração, e pouquíssimos a tão sonhada estabilidade financeira.


No ano de 1985 (ou terá sido 1986?) quando era subeditor de Política e Nacional do Jornal de Brasília, foi apresentada na reunião de pauta uma foto de Carlos Menandro. Ele tinha feito o registro de um circo armado na Esplanada dos Ministérios. Ao fundo, coberta pelo circo, a abóbada do Senado Federal, no mesmo contorno. Quando estávamos saindo, após o fechamento das páginas de Política e Nacional, o grande e saudoso Gualter Loyola, gritou lá da primeira página:
- Zezão (era o meu apelido na redação), tem uma foto do circo em frente ao Congresso na Primeira, cadê o texto?
Expliquei que não tinha matéria sobre o assunto nas páginas internas. Deveria ser feito um texto-legenda apenas para a primeira página. Mas, insatisfeito, pediu que alguém produzisse o texto. Sobrou para o editor de Política, Luiz Turíbio, o Turiba. Voltou pra fazer a legenda. Fui me embora.
No dia seguinte, a repercussão foi assustadora, com dezenas de parlamentares se revezando na Tribuna da Câmara dos Deputados, então presidida por Ulysses Guimarães. Nos discursos, inflamados, os parlamentares protestavam contra a canalhice que os comparava a palhaços de circo. Detalhe: a Câmara, faziam vários dias, não conseguia quórum para votação de projetos; no dia da publicação da foto, o Plenário esteve lotado. O repórter fotográfico e o jornal foram atacados furiosamente. Carlos Menandro ganhou o prêmio Esso de Fotojornalismo.
Faltou ao jornal ousadia para dar a seguinte manchete ao noticiário da repercussão:
... E o Congresso pegou fogo!
Por todas essas e outras histórias, ficam minhas homenagens aos repórteres, que são a alma do jornalismo. Eu, que sempre me escondi por trás das edições, sou um grande admirador dessa turma.
Salve o Dia do Repórter!

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