quinta-feira, 8 de dezembro de 2016

Ataques à Lei Rouanet visam mesmo é a cultura

                                                                                                                    grupoescolar.com
A cultura brasileira sofre com a crise econômica. Mas, não apenas por isso. A Lei Rouanet está sob fogo cruzado de usuários das redes sociais, que fazem acusações absurdas e às vezes falsas quanto à utilização do projeto e a respeito de seus beneficiários. Da mesma forma, ela tem sido achincalhada por uma Comissão Parlamentar de Inquérito, que tem objetivos acima de tudo político. A estratégia em vigor é a de criminalizar a legislação e assustar investidores interessados nos incentivos fiscais.

A Lei Rouanet foi, até aqui, um importante e eficaz instrumento de estímulo à cultura no Brasil. A inversão dessa trajetória é assustadora. O número de projetos aprovados sofreu uma queda de 43% este ano em relação ao ano passado. Os recursos captados, em 2015, atingiram o montante de 1,2 bilhões de reais. Mas, este ano, ficará no patamar de 583 milhões de reais, representando uma queda da ordem de 53%.
Ainda tem os ignorantes que atacam o cantor e compositor Chico Buarque de Holanda por supostamente ser beneficiário desse incentivo. E ainda bradavam: “está contra o impeachment da presidente Dilma Rousseff porque está mamando na Lei Rouanet; têm diversos projetos financiados pela Lei”. Aí você pergunta: “pode me citar pelo menos um projeto do Chico que foi agraciado pela Lei Rouanet? Basta um? não precisa citar vários...” Se calam. A atriz Ingrid Guimarães também foi hostilizada e “acusada” de ter usado a Lei Rouanet. Triste Brasil...
Infelizmente, 2016 fica na história como um ano muito ruim para a Cultura. Chegaram a extinguir o Ministério da Cultura, depois voltaram atrás. 2017? Quem sabe... vai depender muito mais da mobilização dos artistas, que não podem abandonar essa bandeira, nem por um dia sequer.



domingo, 4 de dezembro de 2016

Ferreira Gullar morre, mas deixa o prazer do poema entre nós


Os poetas não morrem, jamais. Transitam entre vidas, estágios de existência, ou qualquer outro nome que se queira dar a essa – e a outras – passagem por algum modo de existência. Então, dito isso, Ferreira Gullar, um dos grandes poetas da língua portuguesa, nos deixou hoje, ao morrer no Rio de Janeiro, vítima de complicações pulmonares, depois de ficar 20 dias internado no Hospital Copa D’Or.
Ferreira Gullar nasceu em São Luís do Maranhão, no dia 10 de setembro de 1930. Além de poeta, era crítico de arte, tradutor, ensaísta e colaborou com diversos jornais e revistas. Tinha só 19 anos quando publicou seu primeiro livro: Um pouco acima do chão. Dois anos depois, mudou para o Rio de Janeiro, onde viveu até a manhã deste domingo.


Foi ativista e analista de política. Esteve exilado entre 1971 e 1977, nos anos duros da ditadura militar, em Buenos Aires, onde escreveu sua mais bela obra: Poema sujo. O mais importante reconhecimento da língua portuguesa a um poeta, o Prêmio Camões, foi dado a ele em 2010, pelo conjunto da obra. No ano seguinte, seu livro Em alguma parte alguma ganhou o Prêmio Jabuti, na categoria poesia, e foi considerado o melhor livro do ano na mesma premiação.
No ano em que foi eleito para a Academia Brasileira de Letras, Ferreira Gullar nos deu o Prazer do poema, resultado de uma seleção pessoal feita ao longo de três décadas. Uma antologia que reúne poemas que deslumbraram o poeta ao serem lidos. Tenho esse livro sempre perto de mim. Num dos primeiros poemas, estão os versos de Walt Whitman, traduzidos por Ferreira Gullar: “Quando leias isto, eu, que agora sou visível, terei me tornado invisível, enquanto tu serás consistente e visível, e darás realidade a meus poemas, voltando-te para mim”.


Sempre que lermos um dos tantos belos e tocantes poemas de Ferreira Gullar, teremos a prazerosa sensação de tê-lo tornado visível, poderemos fazer de conta que ele estará conosco. Ao ler o poema Traduzir-se, ou ao ouvi-lo na versão musicada por Raimundo Fagner. Mesma sensação ao ouvir Borbulhas de amor, música que ele fez a versão para o português, em parceria com Fagner. Certa vez, disse a uma jornalista que era “o peixe” da música.
Poucas horas antes de morrer pediu aos médicos para que não fosse entubado. Não queria vegetar e prorrogar a existência por mais pouco tempo. E disse para a filha:
“Luciana, tudo isso é inútil. Me leva para Ipanema. Quero entrar no mar e ir embora”.
Sim, como um peixe, a singrar as águas que banham o belo Rio de Janeiro. Tanta grandeza, talvez explique por que os poetas não morrem, jamais.

Aprendizado
Ferreira Gullar

Do mesmo modo que te abriste à alegria
abre-te agora ao sofrimento
que é fruto dela
e seu avesso ardente.

Do mesmo modo
que da alegria foste
ao fundo
e te perdeste nela
e te achaste
nessa perda
deixa que a dor se exerça agora
sem mentiras
nem desculpas
e em tua carne vaporize
toda ilusão

que a vida só consome
o que a alimenta.






domingo, 27 de novembro de 2016

O Samba faz um século de alegria e talento brasileiros


No dia 27 de novembro de 1917, um cidadão chamado Ernesto Joaquim Maria dos Santos, popularmente conhecido por Donga, entrou na Biblioteca Nacional, no Rio de Janeiro, e registrou a partitura de Pelo Telefone, que ficaria conhecido como o primeiro samba gravado no Brasil. Cem anos depois, o samba está aí, firme, forte, altivo, elegante, majestoso, popular e o maior sustentáculo da verdadeira e autêntica Música Brasileira.


O samba sobreviveu aos ataques de mediocridade espalhados pelo universo da música pelos meios de comunicação, os mais poderosos principalmente. Neles, o espaço esteve sempre reservado para as músicas comerciais, descartáveis, no rol do sertanejo, do pagode, do funk e de um forró de baixa qualidade e pouco criativo.
O samba resistiu porque é capaz de aglutinar diferentes raças e classes sociais. Se enriqueceu ao receber influências diversas, sem perder a riqueza do seu sincopado, o tom do lamento e a variedade de temas. O historiador André Diniz tem uma frase lapidar, em seu livro o Almanaque do Samba (editora Zahar):  

O samba é uma porta importante para entender a
 diversidade da cultura brasileira, as suas identidades. 
Acho que o samba tem as duas coisas, a construção modernista
 da valorização da mestiçagem e, é claro, a escolha 
pela própria sociedade como um gênero 
predileto nacional no século 20”.

Comemorar o século do samba é um orgulho para nós, apaixonados pela música e pela cultura popular brasileira. O samba não morreu, nem morrerá, jamais, e vai continuar a levantar nossa estima e a preservar a boa música e o bom gosto. De Donga e João da Baiana, passando por Noel Rosa, Ary Barroso, Dorival Caymmi, João Gilberto, Adoniran Barbosa, Paulo Vanzolini, até Paulinho da Viola, Chico Buarque, Caetano Veloso, Paulo César Pinheiro, e tantos outros, podemos dizer com orgulho: O coração do brasileiro não bate, batuca!
Saravá, irmãos!




sexta-feira, 25 de novembro de 2016

Dia do não à violência contra as mulheres


É inacreditável que em pleno século XX, no terceiro milênio da Era Cristã, mais de três séculos depois do surgimento do iluminismo, ainda estejamos a ter que lutar para que não haja violência contra as mulheres. Violências de todas as espécies, acobertadas pelo machismo, e que foram ganhando corpo e se espalhando como vírus da intolerância.
Hoje é um dia dedicado ao combate, no âmbito internacional, à violência contra as mulheres. A escolha dessa data tem uma razão de ser.
O dia de 25 de novembro de 1960 ficou conhecido mundialmente por conta do maior ato de violência cometida contra mulheres. As irmãs Dominicanas Pátria, Minerva, e Maria Teresa, conhecidas como Las Mariposas, que lutavam por soluções para problemas sociais de seu país (República Dominicana) foram perseguidas, diversas vezes presas, até serem brutalmente assassinadas por agentes do governo militar. A ditadura simulou um acidente.
Em 1981, durante o I Encontro Feminista da América Latina e do Caribe, realizado em Bogotá, na Colômbia, o dia 25 de novembro foi escolhido como Dia Internacional da Não Violência contra a Mulher, em homenagem às três irmãs ativistas políticas.
Esse é um exemplo inspirador para essa luta que não deve cessar nunca, embora o ideal é que nunca houvesse a necessidade de existir. Ofereço esses versos a essa causa tão nobre e tão inspiradora.


Mulher
José Carlos Camapum Barroso

Nem com uma flor
Se bate numa mulher.
Ela é fonte de amor,
Pétala do bem-me-quer.

Nem com um buquê
De rosas deve apanhar...
Se nãos sabes por quê?
Logo, logo saberás

Ponhas num vaso
O buquê de flores.
Em cima, por acaso,
Um cartão de amores.

Em volta espalhes
Rosa, lírio, jasmim...
Como a lembrares
Um canto do jardim.

Verás, então, surgir
Nos lábios da mulher
Um sorriso, elixir
Para dor qualquer...

No rosto, corado,
Verás a expressão
De um ser amado
A revelar gratidão.

E olhos... brilhantes,
Marejados de prazer,
Desejos cintilantes
Estarão a oferecer

Abraços e beijos
Regados de emoção...
Revelam desejos
Que brotam do coração.

Saberás que mulher
Não é para apanhar.
Mas para ser o ser
Objeto do verbo amar.

(Brasília 25/11/16)

quarta-feira, 2 de novembro de 2016

Dia do fim da impunidade dos crimes contra jornalistas


A Organização das Nações Unidas (ONU) está lançando hoje o Dia Internacional pelo Fim da Impunidade dos Crimes contra Jornalistas. Parece uma decisão meramente burocrática e formal, mas não é, por uma razão muito simples e universal. Todos sabem que é uma verdade incontestável a de que impunidade gera impunidade. E, por consequência, injustiça para todos.
Martin Luther King foi preciso ao afirmar que “a injustiça que ocorre em qualquer lugar é uma ameaça para a justiça em todos os lugares. Nós estamos presos em uma rede inescapável de mutualidade, amarrados em um único tecido do destino. O que afeta uma pessoa diretamente afeta todos indiretamente”.


Os crimes contra a liberdade de expressão e o direito dos jornalistas de denunciarem as desigualdades, a exploração e a violência são verdadeiros atentados contra a humanidade, e a impunidade representa a perpetuação e ampliação das injustiças.
Só para se ter uma ideia parcial desse problema, basta lembrarmos que a Unesco condenou, desde 2006, o assassinato de mais de 800 jornalistas em todo o mundo. Menos de 7% desses crimes foram solucionados. A Federação Nacional dos Jornalistas do Brasil registrou, no início deste ano, que os crimes contra os profissionais da comunicação cresceram em 2015 na comparação com o ano anterior. Os principais responsáveis pela violência contra jornalistas são a polícia, políticos ou assessores de políticos e manifestantes.


Não restam dúvidas que a impunidade gera impunidade e espalha injustiças. É mais do que salutar essa decisão da ONU de criar um dia no calendário para que as Nações, os estados-membro da organização e todos os segmentos mais diversos das sociedades se empenhem neste compromisso: acabar com a impunidade nos crimes contra jornalistas em todo o mundo. 

Eu apelo à mídia, à sociedade civil, à polícia e
ao sistema judiciário para que aprofundem os esforços
 para prevenir a violência contra jornalistas, para aumentar a proteção
 de jornalistas em perigo e para processar os autores dos ataques.
Encorajo todos para que se posicionem junto à UNESCO
 para condenar todos os ataques fatais contra jornalistas, para pedir a investigação completa de tais crimes, e para exigir a punição
adequada para os que cometeram tais violações.

(Mensagem de Irina Bokova – Unesco)



segunda-feira, 31 de outubro de 2016

Dia de hoje é de Drummond e não do Halloween


Desde o dia 31 de outubro de 2011, o Brasil passou a comemorar o nascimento de Carlos Drummond de Andrade, ocorrido nesta mesma data no ano de 1902, em Itabira, Minas Gerais, como o Dia D. Uma ideia maravilhosa que precisa ser preservada e ampliada, pois, realmente, o nascimento desse nosso poeta maior significa um marco para o nosso universo literário e cultural. Drummond, aquele mineiro contido, sutil e reservado, transpôs para o mundo das artes toda a profundidade da vida.

Drummond

Mundo
Mond
Rudond
Nomur
Domund
Do umor

Bem melhor comemorar esta data por Drummond do que pelo tal do Halloween, tão distante e descolado da nossa cultura. A arte de Drummond atravessou fronteiras e hoje é admirada e respeitada em vários cantos deste planeta. Nosso poeta maior é um mineiro, brasileiro, que nasceu para o mundo. A começar das letras que compõe seu nome até a universalidade da sua arte.
Para ajudar a compor mais esse Dia D, reproduzo abaixo uma singela homenagem que fiz ao poeta maior, no ano de 2011, e um vídeo muito bonito com o Poema de Sete Faces.


 

Drummond, se estivesse vivo fisicamente estaria fazendo hoje 114 anos. Digo, fisicamente, porque Drummond, assim como outras ilustres figuras do nosso mundo literário, artístico e cultural, não morreu, nem morrerá, jamais. A força do seu canto, a beleza de suas palavras e versos, a profundidade de suas frases, contidas e dilapidadas por um talento insuperável, tudo isso continua a percorrer o mundo e a encantar velhas e novas gerações.

Mundo vasto, mundo
José Carlos Camapum Barroso

O mundo de Drummond é vasto
Como a solidão dos homens.
Atravessa montanhas e mares
E se perde na imensidão da noite,
Na força do sol diante da lua...
Drummond é forte como ferro
Feito pedra arrancada de Itabira:
Montanhas mágicas de Minas.

Um homem-menino, calado...
Em meio a tantas palavras
Contidas e espalhadas
Pelo mundo, vasto mundo...

Cabisbaixo, o olhar distante,
Além, muito além do horizonte,
Belo e feio, corroído pelas mãos
Humanas, penetra almas.
A voz macia e rouca, vagarosamente
Desperta sonhos, prazeres
Entre homens e mulheres

Palavras de Drummond
São lâminas afiadas,
Que cortam águas, rios e oceanos.
Trespassam montanhas.
Inundam de lágrimas vales
Vazios de humanidade...

Versos drummondianos,
Em ondas longas e curtas,
Ao pé do ouvido de Deus,
Ecoando pelo Universo,
Mansamente, em silêncio.

O mundo é pequeno, contido...
O de Drummond é vasto,
Expansivo e expandido
Pelo poder do artista.

O coração de Drummond
É maior que ruas e avenidas...
O mundo e os homens são pequenos.

O mundo de Drummond é vasto.




quarta-feira, 26 de outubro de 2016

Pinturas de Maroli fazem sucesso nas redes sociais

 


Apreciar as pinturas de Maroli Camapum Miranda, postadas no Facebook, foi uma grata satisfação. Primeiro pela qualidade do seu trabalho, que demonstra talento e um traço seguro, limpo. Mas, também, pelo fato de ser essa artista plástica uma prima querida, com quem tive a oportunidade de conviver, nos tempos de criança, em Uruaçu. Depois, crescemos e a vida nos apresentou caminhos distintos.

Maroli mudou-se para o sul do Brasil, constituiu família e depois retornou para nossa Uruaçu. Saí para estudar em São José do Rio Preto, Belo Horizonte e desaguei em Brasília, constituindo família, mas, sem ter a honra de voltar a morar na terra natal.
Encontramo-nos algumas vezes, em Uruaçu e Goiânia. Conversamos, relembramos aqueles bons tempos, mas, sem ter tido a oportunidade de descobrir que ela tinha esse dom para a pintura. Esse é o lado bom das redes sociais. O agrupamento por meio da comunicação on line nos permite reencontrar pessoas amigas, parentes e conhecidos que não víamos há muito tempo. E com mais essa possibilidade de saber que muitos deles evoluíram, e estão a produzir arte, como nesse caso da Maroli.

As rosas de Maroli me lembram do quintal de tia Constância, avó de Maroli, que era florido e muito bem cuidado. Um lugar muito bom para se brincar e tirar fotos. As casas, riachos, fazendas, carro de boi, o beija-flor, tudo isso nos faz voltar àqueles tempos tão memoráveis, e que estão bem assinalados na pintura da artista.
Não sou especialista em artes plásticas, mas arrisco a dizer que falta muito pouco para Maroli produzir uma obra grandiosa, marcante, que possa ser reconhecida e admirada em exposições e museus. Percebo que falta a ela só uma certa dose de ousadia, irreverência, na busca por um trabalho mais contemporâneo e moderno. Mas, isso, não tira o valor dos trabalhos até aqui realizados, pois estão assentados em boa dose de talento e um traço invejavelmente firme.
Parabéns, Maroli, continue a pintar e não tenha medo de ser ousada. Solte a sua criatividade, com certeza, trabalhos ainda mais belos virão.

domingo, 23 de outubro de 2016

As cores e os sons da madrugada seresteira


A madruga é sagrada. É ali que o mundo se cala, o silêncio da noite toma conta e as cores dão sentido à vida. Os sons são diferentes, repercutem com maior intensidade, e ninguém passa despercebido. A noite é dos homens e das mulheres, dos prazeres. A madrugada é dos boêmios e seresteiros. O alvorecer é divino e supera todas as belezas que a Natureza nos oferece. É assim que aprendi a ver a madrugada, naquela Uruaçu distante, de tantos cantores e violeiros dedicados à arte das serenatas. 



Olhos da noite
José Carlos Camapum Barroso

Teus olhos são de prata
Por onde escorre a lua,
No luar da serenata,
Madrugada pela rua...

Esses olhos tão verdes
Trazem o brilho da mata
E espalham prazeres
Onde nasce a alvorada

Se tão azuis e fieis,
São os açaís da noite
A brilhar pelos anéis,
Recortados pelo açoite

Dos frios ventos Alísios
A inspirar os cantores,
Em seus maiores delírios:
Os soluços de amores.

Madrugada é violeta
Tão densa e espiritual...
E a paixão secreta
Do vermelho-laranjal

Enche a rua de prazer!
Na voz dos seus cantores,
A noite a resplandecer,
De gemidos e tremores.

Teus olhos são Índigos
E uma voz celestial
De belos tons e signos
Traz uma aurora boreal.

Quando então o astro-rei
Salpica os seus raios...
Madrugada pede arreio:
Olha o cantor de soslaio

E pede à mãe-natureza,
Que tão sábia lhe diz:
Tirei da noite a beleza
Mas dou-te o arco-íris!

Responde então a Lua
Àqueles olhos do luar:
Vamos dar adeus à rua
Logo, a noite irá voltar...



quinta-feira, 20 de outubro de 2016

Dia do Poeta traz alívio aos corações...


A magia da poesia está nos sonhos que ela irradia ao seu redor. Uma poção mágica capaz de transformar as pessoas, resgatá-las do fundo de um poço onde, muitas vezes, nem percebiam que estavam mergulhadas. O poeta, com palavras, versos e estrofes, consegue inebriar os leitores com a mesma habilidade que os mágicos encantam as plateias nas ruas, palcos e picadeiros.
A poesia conforta a alma, acalma a mente e dá sopro aos corações. O poeta é apenas um instrumento por meio do qual Deus espalha contentamento à humanidade.


Ser poeta é...
Florbela Espanca

Ser poeta é ser mais alto, é ser maior
Do que os homens! Morder como quem beija!
É ser mendigo e dar como quem seja
Rei do Reino de Aquém e de Além Dor!

É ter de mil desejos o esplendor
E não saber sequer que se deseja!
É ter cá dentro um astro que flameja,
É ter garras e asas de condor!

É ter fome, é ter sede de Infinito!
Por elmo, as manhãs de oiro e de cetim...
É condensar o mundo num só grito!

E é amar-te, assim, perdidamente...
É seres alma, e sangue, e vida em mim
E dizê-lo cantando a toda a gente!


O fingidor
Fernando Pessoa

O poeta é um fingidor.
Finge tão completamente
Que chega a fingir que é dor
A dor que deveras sente.

E os que leem o que escreve,
Na dor lida sentem bem,
Não as duas que ele teve,
Mas só a que eles não têm.

E assim nas calhas da roda
Gira, a entreter a razão,
Esse comboio de corda
Que se chama o coração.

domingo, 16 de outubro de 2016

Dia nacional para salvar a música popular brasileira

A Música Popular Brasileira ganhou a data de hoje, em 17 de outubro de 2012, há exatamente quatro anos, para que seja comemorada, reverenciada e valorizada. Na verdade, um dia para tentarmos resgatar a beleza da MPB, tão ameaçada nas últimas décadas pela indústria do consumo, principalmente no rádio e na televisão. O investimento é no sucesso fácil, de baixa qualidade musical, letras ruins e apelativas, principalmente no quesito da sexualidade.
A valorosa música popular brasileira, que teve sua bela trajetória iniciada com Chiquinha Gonzaga (foto) e outros mestres do choro, da polca e do maxixe, lá pelos meados do século XIX, mergulhou numa crise sem precedentes, insultada pelo sertanejo brega, pelo funk de mau gosto e por um forró-eletrônico de baixíssima qualidade musical.
Todo esse quadro ainda foi agravado, nos últimos anos, pela pirataria de CDs e DVDs, ao ponto de desestimular por completo o trabalho artístico de quem tem talento e não se submete aos ditames das gravadoras, programas de auditórios na TV e outras chorumelas da comunicação.
O samba, com muita raça e talento, tem resistido a essa crise de qualidade que se abateu sobre a nossa música brasileira. Desde suas origens, na sequência e influenciado pelo ambiente criativo do chorinho, polca e maxixe, passando pelo fortalecimento na virada do século XIX para o século XX, o samba tem conseguido se impor pela qualidade e pelo talento de seus compositores.
O cenário obscuro da MPB está marcado pela falta de criatividade, principalmente nas letras, que sempre foram o nosso forte. Caímos na mediocridade de temas fáceis e exploradores de uma sexualidade, que nada tem de sensualidade. Um dos sucessos carnavalesco, para ficar apenas num exemplo, “A Muriçoca Soca-Soca”, diz na letra que “o cachorro lambe, o gato mia, a muriçoca pica”, para desaguar no refrão “lambe, minha pica”. É muita mediocridade.


Vamos nos agarrar, então, ao samba e lutar com unhas e dentes para superarmos essa falta de talento, regada a muita apelação. Aproveitemos a data de hoje para não deixar morrer a chama dessa que é, sem sombra de dúvidas, olhando no contexto geral, uma das mais belas músicas populares do mundo.
Chiquinha Gonzaga nasceu no dia de hoje, no ano de 1847. Mas, seu legado, de puro talento e inspiração, não morreu 170 anos depois. A luz no fim do túnel não se apagou, e a nossa esperança é a de que ela possa ganhar em vivacidade, o suficiente para nos tirar dessa fase tão ruim, obscurantista e reducionista da nossa cultura.
Salve o Dia Nacional da Música Popular Brasileira!