sexta-feira, 8 de novembro de 2019

5º PPM é sucesso e já tem roteiro para o ano que vem

Roberto Menescal, Gisèle Santoro, Genildo Fonseca e Ronaldo Bastos
O Prêmio Profissionais da Música é o mais importante empreendimento musical e uma das atividades culturais mais significativas do Brasil de hoje. A premiação deste ano, ocorrida no Clube do Choro, na semana passada, foi a maior prova disso. Por tudo que aconteceu e por todos que compareceram e puderam prestigiar e usufruir de um belo e rico encontro musical. Foi excepcional, emocionante e enriquecedor.
A grandeza dessa premiação ganha ainda mais corpo quando se leva em conta as dificuldades encontradas para sua organização, existência e continuidade, desde o primeiro PPM, realizado no ano de 2015. Nadando contra essa maré, e a favor de uma valorização constante e à altura dos que vivem de e para a música, o produtor cultural Gustavo Ribeiro de Vasconcellos tem alcançado seu objetivo, e pode ser considerado, juntamente com toda sua equipe, um vitorioso.

O produtor Gustavo Vasconcellos e ao fundo imagem de Cláudio Santoro
O PPM de 2019 recebeu inscrições de 19 estados brasileiros. Ao todo, 1.436 inscritos, superando as 958 do ano anterior, mantendo o ritmo de crescimento, ano a ano. Na sessão de premiação, a presença de 300 dos 490 finalistas coroou o sucesso de um evento prestigiado por uma plateia de quase 400 pessoas.
Sucesso absoluto. Durante três dias, foram levadas ao público brasiliense as seguintes atividades: sete Workshop, três Work Shows, doze painéis, cinco Pocket Shows, três dias de show na Funarte, com sete artistas, uma sessão solene, dois documentários musicais exibidos, cinco lançamentos de livros e uma cerimônia de premiação para 67 categorias, com uma novidade de última hora: três premiações pelo voto popular.

O vocal Gente de Casa apresentou canções de Ronaldo Bastos
Três atrações musicais especiais marcaram a noite da premiação e reverenciaram os três homenageados deste ano.. O primeiro a se apresentar foi o violonista André Siqueira, interpretando “Amor em Lágrimas”, música de Claudio Santoro e letra de Vinícius de Morais. Em seguida, Diego Salvetti, interpretando “Aquarela”, sucesso de Toquinho, artista brasileiro empresariado por Genildo Fonseca há mais de 30 anos.  O grupo Gente de Casa brindou ao público com um bonito arranjo das músicas Trem Azul e Todo Azul do Mar, composições de Ronaldo Bastos, um dos fundadores do Clube da Esquina. No vídeo abaixo, Diego Salvetti interpretando a canção que apresentou na premiação.
Depois de todo esse sucesso, Gustavo Vasconcellos antecipa que “o próximo PPM vai homenagear os 60 anos de Brasília, simbolizados por três de seus grandes artistas reverenciados em todo o País”. A sexta edição vai ocorrer entre os dias 13, 14 e 15 de novembro. As inscrições para 80 categorias começam no dia 1º de março de 2020.
O mundo cultural, antecipadamente, agradece.

quarta-feira, 6 de novembro de 2019

O mundo do rádio é maior que nossas lembranças


O Brasil comemorou, nesta terça-feira (05), o Dia Nacional do Radioamador e, também, o Dia da Cultura. Amanhã (07) comemora-se o Dia do Radialista. Todas essas datas estão sempre bem associadas, andam juntas, principalmente em nossa memória. O universo do rádio, então, está embrenhado em minhas lembranças, por ser, sem dúvidas, uma das paixões da minha vida. Boa parte da infância e juventude, passei com o ouvido colado naqueles tradicionais aparelhos de rádio, que só existem como relíquias.
São deliciosas as surpresas que vêm pelas ondas sonoras, tanto nos noticiários, quanto nos programas de músicas e humorísticos. Acho prazeroso, por exemplo, colocar cinco discos e deixar tocar músicas aleatoriamente, recurso hoje sofisticadamente chamado de shuffle. Quando faço isso, os meninos lá em casa zombam: "lá vem o saudosista do rádio...".



Boa parte das minhas recordações de infância tem alguma coisa vinculada ao rádio. Lembro que certo dia estava sentado numa cadeira, ao lado da mesinha do rádio, cumprindo meu ritual, quando entra o amigo de infância Zé Renato Pereira (de saudosa memória), dizendo: “seu avô morreu, tá sabendo que seu avô morreu!”.
Tinha morrido, mesmo. E o corpo de seu Antônio Camapum, mais conhecido por seu Toinho, já estava chegando a Uruaçu, vindo de Goiânia, depois de uma temporada tentando debelar um câncer na capital do Estado. Lembro um pouco do velório, as pessoas chorando muito e eu assustado com tudo aquilo. Depois, durante alguns dias, o rádio ficou coberto com um pano preto. E eu sem entender o que estava acontecendo. Além de perder meu avô, ainda não podia ouvir rádio? Explicaram-me que era preciso guardar luto.


Adorava ir para casa do tio e padrinho Batista Coelho Barroso (foto ao lado), radioamadorista licenciado, que tornava as comunicações mais eficazes naqueles anos das décadas de 1950 e 1960, na pequena Uruaçu, encravada no coração do Brasil e do mundo - quiçá, do universo. Ele transmitia em PRK, um número tal, que já não me lembro, e com a deixa de Brasil-Guatemala-França. Sempre que falo do rádio, ou do radioamadorismo, lembro-me dele, que já nos deixou e foi surfar, com toda sua bondade e talento, em outras ondas desse imenso universo.
A comunicação via rádio é fácil, direta, objetiva. O seu poder de difusão e de penetração nas diversas classes sociais e pelo país afora é inestimável. Todos amam o rádio, sejam radialistas, jornalistas, comentaristas, músicos, e até mesmo, pasmem, os políticos!
Já temos três datas homenageando esse veículo de comunicação e seus profissionais. Uma dessas datas, o Dia do Radialista, em 21 de setembro, foi criado por Getúlio Vargas para comemorar a instituição do piso salarial da categoria; o outro Dia do Radialista, em 07 de novembro, foi instituído pelo presidente Lula, em 2006, para homenagear Ary Barroso, músico e locutor esportivo de raro talento; e o tradicional Dia do Rádio, que se comemora em 25 de setembro, criado para reverenciar Roquete Pinto – o pai do rádio no Brasil.
Até na criação do rádio tem dedo de brasileiro. O inventor, oficialmente, é o italiano Guglielmo Marconi, que criou o "telégrafo sem fio", um modelo inicial que se desenvolveu até o sistema que conhecemos hoje. Mas há também quem atribua essa invenção ao padre brasileiro Roberto Landell de Moura, que, em 1894, desenvolveu aparelho semelhante e efetuou a emissão e recepção de sinais a uma distância de oito quilômetros, do bairro de Santana para os altos da Avenida Paulista, em São Paulo. Religiosos fanáticos teriam destruído seu aparelho e anotações por se tratar de pacto com o demônio, o que atrasou o registro da invenção.

Ary Barroso (foto ao lado), merecidamente homenageado com o Dia do Radialista, era uma figura ilustre e folclórica do mundo do rádio. Flamenguista apaixonado, narrava os jogos de forma bastante peculiar. Quando o time adversário se aproximava da grande área do seu clube, em jogada perigosa, ele gritava: “Não quero nem ver!”. Se o Flamengo sofria um gol, então, ele acrescentava: “E deu-se a merda”.
Vale lembrar que o Radialista também é homenageado no dia 21 de setembro, data em que foi criado o salário base para esses profissionais, em 1943, durante o governo de Getúlio Vargas. No dia 25 de setembro é celebrado o Dia do Rádio, em homenagem a Edgard Roquette-Pinto, que nasceu nessa data no ano de 1884. Em 1923, ele criou a Rádio Sociedade do Rio de Janeiro, a primeira emissora do Brasil.
O rádio, os radioamadores e os radialistas merecem nossas homenagens. São veículos de comunicação fantásticos, cheios de histórias curiosas e intrigantes. Nessas ondas, podemos surfar com segurança e tranquilidade. Elas não nos oferecem riscos, só contentamento.

domingo, 13 de outubro de 2019

Caridade e tolerância tornam santa a brasileira Irmã Dulce

Irmã Dulce, em desenho do jornalista Bartolomeu Rodrigues
Religião, assim como nacionalismo, são dois temas complexos e difíceis de serem abordados. No caso do primeiro, tenho percebido que pode ajudar, e tem ajudado muito pessoas a superarem suas dores, até mesmo propiciando conforto e alento aos mais necessitados. Quando atua no âmbito da família, nos seus respectivos lares, e nas igrejas, a religião pode e tem feito o bem. O perigo começa quando avança para temas mais amplos da sociedade e tenta impor convicções às pessoas e grupos de pessoas. Se a carga de fanatismo for intensa, os riscos de interferir negativamente é bem maior. Os exemplos ao longo da história são muitos, desde as Cruzadas e a Santa Inquisição – ações promovidas pela então poderosa Igreja Católica.


O ponto nevrálgico é a intolerância. Na sociedade moderna, exemplos estão no fundamentalismo islâmico e na não-aceitação de alguns cristãos, evangélicos principalmente, com relação a outras crenças, como o candomblé, o espiritismo e os pais-de-santo. Onde a intolerância predomina, a capacidade de se fazer o bem, sem olhar a quem, sofre considerável enfraquecimento.
Faço essa reflexão porque a Igreja Católica, neste domingo, tornou Santa a brasileira, da Bahia, Irmã Dulce. Um exemplo de pessoa quando o quesito é justamente a aceitação dos indivíduos como eles são. Foi um ser humano, durante toda a sua vida, extremamente caridoso.

Madre Teresa de Calcutá e e Irmã Dulce
Aliás, o tema caridade é um dos mais intrigantes no universo das relações humanas. O que leva uma pessoa a dedicar-se plena e integralmente a ajudar o próximo, sem maiores questionamentos sobre quem é o necessitado, sua origem, sua classe social? O que teria levado, por exemplo, madre Teresa de Calcutá a fazer exclusivamente o bem, sem olhar a quem? Ou mesmo a irmã Dulce, agora canonizada pelo Papa Francisco?
Alguns desses exemplos tornaram-se conhecidos mundialmente. Outros ficaram e permanecem no anonimato. Há também aqueles resgatados pela memória de algum escritor ou de algum dos seus socorridos.
Esse tema ocorre-me não apenas porque hoje a irmã Dulce tornou-se Santa, mas principalmente por relembrar um episódio que tive a oportunidade de ler no livro A Trégua, de Primo Levi. Conta ele que, depois de terem sido salvos pelos soldados russos, alguns dos seres que perambulavam pelo campo de concentração de Buna-Monowitz foram transferidos para Auschwitz.

Campo de concentração de Auschwitz, logo após o fim da guerra
Lá ele conheceu uma criança de aparentemente três anos de idade, que, como não tinha nome, acabou sendo chamada de Hurbineck. Ele era um nada, um filho da morte, um filho de Auschwitz. “Estava paralisado dos rins para baixo, e tinha as pernas atrofiadas, tão adelgaçadas como gravetos”. Não falava palavra e assim permaneceu por cerca de um mês.
Foi Henek-König, um dos poucos que não estavam doentes nem convalescentes, quem mais cuidou dele de forma tranquila e obstinada. “Sentava-se junto à pequena esfinge, imune à autoridade triste que dela emanava; levava-lhe comida, ajustava-lhe as cobertas, limpava-o com mãos habilidosas, desprovidas de repugnância; e falava-lhe, naturalmente, em húngaro, com voz lenta e paciente”. Hurbineck deu seu último suspiro nos primeiros dias de março de 1945, “liberto mas não redimido”.

Que razões, humanas ou sobre-humanas, levam uma pessoa que viveu, e ainda vivia os horrores da guerra e dos campos de concentração, a atitudes espontâneas e profundas de caridade? Justamente ele, Henek, que, segundo a narrativa do autor, “guardava instintos pacatamente sanguinários”? Justamente ele que, por razões de sobrevivência, quando havia seleção no Bloco das crianças, era quem as escolhia?
Dizem alguns filósofos que a caridade faz mais bem a quem a pratica do que a quem a recebe. Isso provavelmente ocorre quando exercida com desprendimento, sem objetivos outros que não o bem em si mesmo. Sem mesquinharias e sem vontade de aparecer. É um ato que deve vir do coração, do fundo da alma. Um ato de amor.
Madre Teresa de Calcutá fez a seguinte declaração, ao ouvir de uma pessoa que não daria banho em um leproso nem por um milhão de dólares: “Eu também não. Só por amor se pode dar banho em um leproso”.
Henek provavelmente deve ter tido os mesmos sentimentos ao cuidar do pequeno desconhecido Hurbineck. O que ele poderia querer em troca por ajudar uma criança isolada do mundo, em Auschwitz, no final de uma grande e tenebrosa Guerra Mundial?
A caridade é um tema intrigante. Ela é a base de tanta admiração e respeito por Irmã Dulce, agora santificada. Milhares de pessoas acorreram à Praça do Vaticano para comemorar essa decisão da Igreja Católica.
Outro tema intrigante é o da humildade... Mas aí é outra história...

sábado, 12 de outubro de 2019

Dia de ser a criança que há em todos os seres

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Hoje é Dia da Criança. Momento para refletir um pouco sobre o universo infantil. Os brinquedos de criança, por exemplo, não são apenas meros passatempos. Fazem parte também da nossa cultura, tanto que ficam arraigados em nossas memórias. São reminiscências que nos lembram de épocas, fatos passageiros e mesmo situações marcantes que estão associadas às nossas histórias. E isso não apenas no Brasil, nem tão pouco somente no interior, mas também nos grandes centros urbanos, cercados pela modernização, e nos países que alcançaram alto grau de desenvolvimento tecnológico.
O mundo de hoje está assentado na tecnologia, o que tirou as crianças dos brinquedos de rua, tipo peão, bolinhas de gude, soltar pipas, finca. Sobraram, talvez, as peladas de rua, skates, andar de bicicleta. Meus filhos viveram essa transição, com a chegada do computador e dos vídeos-games; inicialmente, bem simplesinhos e depois bastante sofisticados. Ramiro nasceu em 1983 e o Jordano, em 1989. Ainda brincaram de bolinhas de gude, as quais o Jojô dizia que eram de “vlido”.

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Já a minha memória dos brinquedos está fortemente associada a pessoas e às estações do tempo. Jogar bola era prazeroso sob o sol quente daquele interior goiano, ou mesmo debaixo de um toró daqueles que mal se conseguia enxergar a bola. Mas, rodar pião, que era um brinquedo maravilhoso, está associado ao tempo seco e quente. Já a finca – que chamávamos de triângulo por causa das casinhas que eram desenhadas com essa forma geométrica – só podia ser praticada no período das chuvas.
Meus brinquedos também estão associados de forma carinhosa a Antônio Seabra – um cidadão que frequentava a nossa casa, executava pequenos serviços e de certa forma fazia parte da família. Ele construía bilboquês, que a gente chamava de biloquês, e outros brinquedos. Arrasou quando construiu uma mesinha de sinuca, em torno da qual passávamos horas e mais horas nos divertindo.

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Buscar caju nas serras e pequi no mato era uma atividade plenamente associada à determinada época do ano. Chegávamos a chamar as primeiras chuvas de “chuva do caju”. Tomar banho nos córregos e nos rios só era possível e permitido em determinados períodos em que os riscos eram menores.
De noite, as brincadeiras enchiam as ruas e geralmente estavam associadas ao folclore brasileiro e português, com cantigas de roda e outras danças. Boa hora para se gastar bastante energia com o Pique de Lata, Cadeirinha Salve e o Pique Esconde. Descer calçada abaixo em carrinho de rolimã era adrenalina pura. Em Uruaçu, Goiás, descer a avenida Tocantins de bicicleta, serpenteando os postes de energia elétrica, dava um frio bom na barriga.

Tinham alguns presentes que eram aguardados ansiosamente, nas festas de aniversário e no Natal: chuteiras (vejam a cara do garotão na foto), bola de cobertão, revólver de espoleta e depois, bicicleta. À medida que íamos crescendo, no entanto, as brincadeiras começavam a perder a pureza e a inocência, que ficavam depositadas lá na arte de brincar de cozinhadinho com as meninas...
Comecei a lembrar de tudo isso depois que vi um belo vídeo do grupo português Deolinda, sobre o qual já escrevi no blog (para ler ou reler clique aqui). Outro vídeo maravilhoso sobre o tema é o da canção Bola de Gude, Bola de Meia, de Fernando Brant e Milton Nascimento. Lembrei também da canção de João Bosco e de que nossos brinquedos não tinham correlações com o papel machê. Nem tão pouco tínhamos despertado nossas consciências para questões ecológicas. O politicamente correto ainda não havia entrado em pauta – até porque as agressões ao meio físico, se e quando elas existiam, eram realmente infantis e facilmente absorvidas pelo meio ambiente, até então, preservado.
Assim, de lá para cá, passaram-se alguns anos. É bom olhar pelo retrovisor e perceber que as nossas brincadeiras infantis estavam bem associadas ao universo cultural. Não só no Brasil. Também lá em Portugal, nossa origem. No velho e no novo mundo, ser criança sempre foi cultura.
Bom dia às crianças da criança que há em todos nós!


Ser criança
José Carlos Camapum Barroso

Há em mim uma criança
Que teima em existir,
Encher de esperança
Um coração frágil...

Quer abrir meus olhos
Fechados por anos no servir;
Erguer minha cabeça
Abaixada pelo tempo,
Virada pelo vento,
Tempestade do existir.
Quer a mente cheia
De sonhos e ilusões,
Distante de tensões,
Em paz com o porvir.

Traz uma voz suave,
Sussurra no ouvido
E então me acalma.
Uma criança rebelde,
Assim, é a própria paz,
Sabe resgatar a alma
Trazer de volta sonhos...
Tudo que perdi.




sexta-feira, 4 de outubro de 2019

Dia para se comemorar os poetas e seus sonhos


A magia da poesia está nos sonhos que irradia. Uma poção mágica capaz de transformar pessoas, resgatá-las do fundo de um poço onde, muitas vezes, nem percebiam que estavam mergulhadas. O poeta, com palavras, versos, estrofes, consegue inebriar os leitores com a mesma habilidade que os mágicos encantam as plateias nas ruas, palcos e picadeiros.
Fazemos essa reflexão porque hoje é o Dia Internacional do Poeta, e este ano caiu numa sexta-feira. O mundo deveria parar por alguns instantes para referenciar esses artistas que alcançaram uma linguagem universal, capaz de alcançar povos de diferentes culturas. Somos grandiosos quando o tema é poesia, pois, entre tantos outros, a humanidade pode produzir e conhecer poetas extraordinários como Homero, Shakespeare, T. S. Eliot, Fernando Pessoa, Baudelaire, Maiakovski...
A poesia conforta a alma, acalma a mente e dá sopro aos corações. O poeta é apenas um instrumento por meio do qual Deus espalha contentamento à humanidade. Florbela Espanca diz que...

Ser poeta é...
Florbela Espanca

Ser poeta é ser mais alto, é ser maior
Do que os homens! Morder como quem beija!
É ser mendigo e dar como quem seja
Rei do Reino de Aquém e de Além Dor!

É ter de mil desejos o esplendor
E não saber sequer que se deseja!
É ter cá dentro um astro que flameja,
É ter garras e asas de condor!

É ter fome, é ter sede de Infinito!
Por elmo, as manhãs de oiro e de cetim...
É condensar o mundo num só grito!

E é amar-te, assim, perdidamente...
É seres alma, e sangue, e vida em mim
E dizê-lo cantando a toda a gente!

Já o extraordinário poeta português Fernando Pessoa, preferiu dizer que o poeta é...

O fingidor
Fernando Pessoa

O poeta é um fingidor.
Finge tão completamente
Que chega a fingir que é dor
A dor que deveras sente.

E os que leem o que escreve,
Na dor lida sentem bem,
Não as duas que ele teve,
Mas só a que eles não têm.

E assim nas calhas da roda
Gira, a entreter a razão,
Esse comboio de corda
Que se chama o coração.

Pra comemorar o Dia Internacional do Poeta também é prazeroso ouvir um pouco de Vinícius de Moraes. Saravá, grande poetinha!

quinta-feira, 3 de outubro de 2019

A invisível transparência que trespassa corações


Transparência
José Carlos Camapum Barroso

Invisível transparência
Nessa malemolência
Que endurece a pele
E blinda corações.

Almas que vagueiam
Pelos quatro lados
Dum espaço redondo...
Só mentes quadradas.

Almas que se perdem
No infinito adormecem
Em buracos-negros
De tantas indiferenças.

Mãos estendidas em vão
Não superam a solidão,
Inibem, traem a indignação
De tão poucos indignados.

Invisível transparência
Em tempos modernos
De tantas lentes, contatos
Instantaneamente sós...

Almas que se amoldam
Em becos, ruas e avenidas...
Não dormem mas tiram
O sono de passantes.

Porque não acordam
Trazem recordações
Sempre desprezíveis,
Preservadas na indiferença.

Invisível transparência
De uma dor trespassada,
Transpassada no tempo
De sempre para sempre.

sábado, 28 de setembro de 2019

Liberdade de expressão ainda sob ameaça dos poderosos


Parece pouca coisa, mas, não é. Liberdade de expressão é uma das mais belas e fundamentais conquistas da humanidade. Muito da evolução das sociedades deve-se a à ampliação e aprofundamento desse direito ao longo de décadas e séculos. Mesmo assim, historicamente, é talvez o bem mais ameaçado e vilipendiado da civilização. Os poderosos, os donos do poder, e até mesmo os pretendentes e candidatos a poderosos, têm pavor da liberdade de expressão. E isso vem de antanho, desde a antiguidade. Podemos buscar exemplos na condenação do filósofo Sócrates, na crucificação de Jesus Cristo, na condenação de pensadores como Giordano Bruno, até chegarmos a ditaduras mais recentes, como a do Brasil, que se utilizou da tortura e do assassinato para se impor à sociedade.


A cultura é a maior vítima desse incessante combate dos poderosos à liberdade de expressão. É essa a preocupação do ZecaBlog neste dia 28 de setembro em que se comemora o Dia Nacional da Liberdade de Expressão. Temos dedicado nossos esforços e preocupações à cultura, entendida no seu sentido amplo das diversas manifestações artísticas, de comportamentos e opiniões.
Vivemos uma época em que a intolerância predomina, destacando-se ações que passam pelo recolhimento de livros didáticos, perseguição a artistas, preconceitos, discriminações, intimidações e valorização do ódio e da violência como solução para conflitos. Em tempos de comunicação on line, em redes sociais, outra ameaça à liberdade de expressão é o uso e abuso de notícias falsas, as chamadas fakenews.


Nunca é demais lembrar o inciso IX do artigo 5º da nossa Constituição:

É livre a expressão da atividade intelectual,
 artística, científica e de comunicação,
independentemente de censura ou licença

Figuras expressivas da política brasileira pregam discriminações e preconceitos, publicam informações falsas, equivocadas e distorcidas. Opiniões e declarações que constituem ameaças não apenas ao direito que conquistamos de livre manifestação do pensamento, mas também, às instituições democráticas – todas elas! –, às minorias, mulheres, homossexuais, negros, intelectuais, artistas.
Resistir é preciso. Defender a liberdade de expressão é um dever de todos os cidadãos comprometidos com o futuro da sociedade.





quarta-feira, 18 de setembro de 2019

5º PPM traz novidades e agita semana cultural em novembro


Realizar qualquer atvidade no universo da música não é fácil no Brasil. Quanto mais um evento da dimensão e ousadia do Prêmio Profissionais da Música, que neste ano chega a sua 5ª Edição, melhorado, ampliado e cheio de novidades. Enfrentou inúmeras dificuldades, mas, está confirmado para os dias 1º, 2 e 3 de novembro, com vasta programação distribuída por painéis, oficinas, pocket shows, workshops, workshows, shows, laboratório, sessão solene, exibição de documentários e a grande e tradicional noite de premiação.
Nesta edição de 2019, os vencedores receberão o troféu A Parada da Música. O PPM recebeu inscrições de 19 estados brasileiros. Ao todo, 1.436, superando as 958 do ano anterior, mantendo o ritmo de crescimento, ano a ano. O processo de votação considerou votos atribuídos pelos próprios inscritos, público e júri, com pesos 1, 1/2, e 2, respectivamente. Ao final do processo, chegou-se a 490 finalistas, sendo 75 provenientes do Distrito Federal.

Cláudio Santoro (in memorian) será homenageado - Foto: Rafael Seixas
Os homenageados desta edição são o compositor Ronaldo Bastos, na modalidade Criação, Genildo Fonseca, na Produção, e Cláudio Santoro (in memorian), na modalidade Convergência. O homenageado de 2018, o músico e compositor Roberto Menescal, um dos ícones da Bossa Nova, está de volta, desta vez como presidente do júri, ao qual este jornalista e responsável pelo ZecaBlog tem a honra de participar.
O idealizador do PPM, produtor cultural Gustavo Ribeiro de Vasconcellos, lembra que a premiação “está cada vez mais popular e conhecida Brasil afora entre os profissionais da música, com recordes não só no número de concorrentes, mas também de audiência, que conseguimos medir pela participação do público na fase de votação popular e presença durante o evento”. Ele ressalta as dificuldades encontradas porque “os ventos não estão favoráveis para a cultura, por isso, a importância desse reconhecimento, dessa confraternização e desse reencontro entre pessoas que vivem de e para a música”.

Gustavo Vasconcellos, idealizador do PPM, anuncia novidades
Outra novidade desta edição está justamente no quesito participação popular. Como forma de reconhecer a entusiasmada participação do público na etapa da votação via internet, bem como a energia dos concorrentes em mobilizar suas redes sociais em busca de votação expressiva, o PPM, a partir desta edição, também destinará três troféus aos mais votados pela internet, um para cada segmento: Criação, Produção e Convergência.
A 5ª Edição do Prêmio Profissionais da Música, como nas anteriores, promete movimentar a vida cultural de Brasília. O Clube do Choro entrará na programação, além de locais como Shopping Pier 21, Espaço Funarte, Sesc, Museu dos Correios e Câmara Legislativa do DF. Preparem suas agendas. Os três primeiros dias do mês de novembro serão intenso em atividades culturais.
A seguir, uma pequena mostra da genialidade de dois dos homenageados: Cláudio Santoro, com o arranjo para Orquestra de Cordas na música Ponteio; e um Teaser para Nuvem Cigano, belo CD de Ronaldo Bastos.




terça-feira, 17 de setembro de 2019

Compreensão Mundial, o caminho para paz e harmonia


Se a gente falasse menos, talvez compreendesse mais. Esse verso do saudoso Luiz Melodia vem a calhar no dia de hoje, consagrado como Dia da Compreensão Mundial. Principalmente por alertar para o tanto que se fala, escreve e publica sem a devida e necessária compreensão, nesses tempos modernos das redes sociais. Ao mesmo tempo, a compreensão inexiste, muitas vezes, porque as pessoas deixam de falar, em situações em que o diálogo é essencial para superar divergências e desavenças.
Sem compreensão não se alcançará a paz, pois as diferenças são enormes e variadas entre pessoas e povos, sejam de ordem estética, cultural, religiosa, sexual e mais ainda político-ideológica. Mahtma Ganhdi disse que “não há caminho para a paz, a paz é o caminho”, mas, ele mesmo mostrou para a humanidade que o caminho mais seguro para se alcançar a paz passa pela compreensão.

Compreensão não significa que a pessoa, o indivíduo, deva se anular ou apagar sua existência diante de tantas divergências e diversidades. Pelo contrário, pode ser o melhor caminho para afirmar e destacar também as suas peculiaridades e os diferentes aspectos do seu pensamento, modo de ser e de agir.
Faltou compreensão ao compositor Wilson Batista na polêmica musical com o colega Noel Rosa, lá pelo início da década de 1930. O último lance da pendenga foi a música de Wilson que chamava Noel de o Frankestein da Vila, apelando para um defeito que o artista genial de Vila Izabel tinha no queixo. Noel deu por encerrada a polêmica e outros sambas geniais deixaram de ser criados, além dos inesquecíveis Lenço no Pescoço, Rapaz Folgado, Mocinho da Vila e Feitiço da Vila.


Menos de uma semana antes do Dia da Compreensão Mundial, o Supremo Tribunal Federal decidiu, por unanimidade, que o conceito de família não pode ser restrito a uniões heterossexuais, estabelecendo de forma inequívoca que o conceito de entidade familiar deve prever a união homoafetiva. Foi considerada inconstitucional uma lei da Câmara Legislativa do DF que tentava restringir aos casais heterossexuais a instituição de uma família.
Faltou compreensão a quem propôs o então projeto de lei. Mais ainda aos deputados que o tornaram lei. O STF deu provas de que está atento às diversidades de relacionamentos e comportamentos numa sociedade complexa, e pronto para impedir imposições de preconceitos, sejam de ordem sexual ou religiosa. Por falta de compreensão, a Igreja Católica condenava a morrerem queimadas na fogueira as pessoas consideradas bruxas, nos tempos da Santa Inquisição.


A compreensão é vital para todas as áreas da existência humana e convivência entre pessoas. Palavra mágica. Precisa e deve ser incorporada às diversas culturas de diferentes pontos do planeta Terra.
Salve o Dia Mundial da Compreensão e viva a diversidade.



sábado, 17 de agosto de 2019

Agosto de bom gosto: sabiá cantou mais cedo

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Agosto é mês do desgosto, diz o dito popular. Existem dezenas de casos que são citados para dar guarida a essa máxima. E ela vem se sustentando ou sendo sustentada, aqui no Brasil, há décadas.
Mas, sempre tem um porém, o mês de agosto, pelo menos aqui em casa, deu um bom sinal este ano. Apesar do clima muito seco, nenhuma chuva, muita poeira, queimadas e o calor chegando, devagarinho, pude sentir pelo menos um alívio no ar. O Sabiá começou a cantar no nosso quintal, bem mais cedo. 


Os ipês amarelos já deram o ar da graça na imensidão do Planalto e bem aqui no conjunto onde moro. Além do belo, de todos os anos, o alvorecer, o pôr do sol, os últimos raios de claridade a refletir na névoa seca...
Enfim, agora, o canto divino do sabiá-laranjeira, a anunciar a chegada, ainda longe, da Primavera. É prenúncio de chuva? Talvez, ainda não. Mas traz uma paz para os nossos corações, alguma inspiração poética e a bela canção de Tom Jobim e Chico Buarque, vencedora do Festival Internacional da Canção, de 1968, na voz inesquecível de Elis Regina, que diz, com seu sorriso ancho: "Vou voltar, sei que ainda vou voltar..." Quem sabe. A esperança é a última que morre e está sempre a alimentar nossos sonhos.

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Hoje, dia 17 de agosto, um sábado, a Stela, minha mulher e companheira de tantas primaveras, chamou minha atenção: “olha o Sabiá está cantando”. É sempre bom ouvir, pela primeira vez no ano, o cantar desse pássaro tão querido pelos brasileiros. Já estava com saudade desse canto suave e acolhedor.
Que venham a Primavera, a chuva do caju e o cantar de todos os pássaros.

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O cantar do Sabiá
(José Carlos Camapum Barroso)

Sabiá, no quintal, cantou, depois de um longo e tenebroso inverno...
Era fim de tarde, início de manhã? Sei apenas que o mundo mudou:
Veio o ar da Primavera, o gosto seco de chuva...

O vento de setembro pôs fim ao de agosto.
Sabiá-laranjeira, ave do peito-roxo,
Canto de primeira, som de Altamiro Carrilho na flauta...
Meu sabiá, bandeira, Brasão infinito de um Brasil brasileiro.

Sabiá-ponga,
Sabiá-piranga,
Meu Caraxué!
O sabiá-laranja

Cantou um canto triste no terreiro? 
Barriga-vermelha, de um canto fino,
Um cantar sovina, bem brasileiro.

Sabiá, sabiá
Não me leve a mal...
Vem cantar de novo

Aqui no meu quintal.