quinta-feira, 14 de fevereiro de 2019

Bibi Ferreira, a luz e a voz a nos guiar para sempre


O que dizer de uma artista como Bibi Ferreira? Tarefa difícil porque o muito que já disseram ainda é pouco. Falar sobre personagens que são gênios não é tarefa fácil. Têm pessoas que se destacam ao longo da história humana pela excepcionalidade de suas atuações e ações naquilo que escolheram como profissão. Na música, a genialidade de Bach e Mozart impressionam há séculos. Na pintura, Monet, Picasso e Van Gogh... No futebol, o Pelé de dentro das quatros linhas era perfeito e, não por acaso, considerado o rei.
Nas artes cênicas, tanto dirigindo, quanto interpretando e cantando nos palcos, Bibi Ferreira tem lugar de destaque no cenário nacional e mundial. Expressão máxima de talento e profissionalismo. Dona de uma formação invejável, não apenas para atuar, mas também como cantora e dançarina. Subiu ao palco, pela primeira vez, conforme conta, quando tinha 24 dias de vida, no colo de uma atriz, substituindo uma boneca na peça “Manhãs de Sol”. Só se aposentou 94 anos depois dessa “estreia”, em dezembro de 2017.



Tive a oportunidade e o prazer de assistir dois espetáculos de Bibi Ferreira. O primeiro, nos anos 1980, em que ela interpretava a cantora francesa Edith Piaf, em “Piaf, A Vida de Uma Estrela da Canção”. Saímos do Teatro Nacional embasbacados, eu e minha mulher Stela, radiantes de alegria e contentamento. Um espetáculo e uma artista de se tirar o chapéu.
Depois, na década de 2010, vimos o show “Bibi – Histórias e Canções”, também no Teatro Nacional de Brasília. Levamos nosso filho Ramiro, que, então, tinha seu vinte e poucos anos. Ficou, como todo o público presente, encantado. E comentou: “como ela consegue, com essa idade, ter essa voz tão bonita, forte e limpa?”. 



Difícil responder a essa pergunta, bem como não é fácil falar de uma artista tão genial. Os gênios preenchem todos os espaços do universo por onde circulam e por onde fazem suas artes. Bibi é isso. Genial, insuperável, incontornável... uma luz eterna, que brilha com a mesma força e expressão da sua voz, independe da idade e em que dimensão esteja.
O mundo da cultura continuará a seguir seus passos, os caminhos deixados e guiar-se pela luz que brilha no horizonte. Seguem uns versinhos em sua homenagem...
Bibi é aqui,
Ali e além
De todos nós
Será sempre
Nossa luz
E nossa voz.



quinta-feira, 24 de janeiro de 2019

Cachaça Experience para harmonização e dose certa


Tudo nessa vida tem seu tempo certo, e sua dose certa, adequada. Com bebidas alcoólicas não é diferente. Muito pelo contrário. Além do tempo certo, é importante que o lugar seja adequado, as companhias agradáveis... e sempre na dose certa. Com a cachaça mais do que com outras bebidas é assim. Dose certa é o segredo.
Digo isso porque começa hoje, em Brasília, o Cachaça Experience, um evento para celebrar a mais genuína das bebidas brasileiras, a única que é 100% nacional. Acontece no Venâncio Shopping até sábado (26/01). Hoje e amanhã, das 18h30 às 20h, e no sábado, de 11h30 às 13. No cardápio, feira de produtores de cachaça, degustações, palestras, músicas e outras experiências.

Cachaças que estarão na feira que começa hoje e vai até sábado
Na programação de hoje, palestra sobre caipirinhas, com Kelly Costa. Para amanhã, está prevista “harmonização de cervejas, cachaças e petiscos”. Tema muito adequado para uma sexta-feira, à noite. No sábado, horário de almoço, adequadamente o tema é “do Le Cordon Bleu a mesa, a história da Authoral Cachaça”. O gastrônomo Eduardo Moreth, além de ter estudado gastronomia em Paris, tem passagem por diversas cozinhas como Le Bateau Ivre, La Vecchia Cucina, Mouraria, Quintal e Barracuda. Fala sobre esse tema e sobre sua trajetória na Authoral, que ajudou a ocupar o 14º lugar no Ranking da Cúpula da Cachaça.
A sabedoria popular ensina que quem não sabe beber cachaça não deve se meter a besta. Aliás, como toda e qualquer bebida, precisa ser apreciada com moderação, não por questões morais, mas, sim, por questões éticas e estéticas. A cachaça, popularmente também conhecida como pinga, é uma bebida que pode ser degustada prazerosamente, tal qual um bom uísque, um vinho de qualidade, uma cerveja ou rum.


Tudo isso, como disse antes, na dose certa. Passamos a ter consciência dessa peculiaridade e grandiosidade da cachaça como bebida de algumas décadas para cá. Isso porque o produto ganhou em qualidade, aceitabilidade no mercado, e nos tornamos mais conscientes quanto à melhor forma de aprecia-lo.
Criada há mais de 500 anos, a cachaça pode ser considerada a primeira bebida destilada das Américas e é cada vez mais consumida e apreciada mundo afora. O crescimento da exportação brasileira de cachaça, em 2017, por exemplo, entrou no ritmo de economia chinesa. O salto foi de 13,4% em relação a 2016, que já havia sido um ano de crescimento relevante em relação a 2015. Saímos de uma receita de US$ 13,3 milhões para US$ 15,8 milhões em dois anos.
E tudo isso na dose certa, no tempo adequado, com tira-gostos apropriados, boa prosa e bons amigos. Harmonização tem que ser completa.
Saúde!

sábado, 29 de dezembro de 2018

Hora de dar graças e de renovar nossos sonhos



Sempre assim. Fim de ano é tempo de coisas novas e velhas ocuparem espaços midiáticos.  Agora, elas ocupam também as redes sociais, onde se tem e se vê de tudo; inclusive e principalmente, nada. Terminamos por descobrir, ao final e ao cabo, que as coisas velhas não são tão velhas assim, e as novas não chegam a ser novidades no ritual repetitivo das passagens de ano. 
O final de 2018 não foge muito ao padrão de outros finais de ano. Nem o fato de ter sido um ano de eleições e Copa do Mundo trouxe “novidades novas”, como gosta de dizer o amigo Marco Túlio, Tuim. O rol de expectativas foi grande, mas acabamos nas mesmices de sempre.
Os desejos de Ano Novo são renovados, e vêm cheios de esperanças e sonhos. Todos temos certeza de que 2019 será melhor do que 2018, mesmo que algumas previsões apontem em direção contrária. Danem-se as previsões, principalmente as alardeadas pelos economistas de plantão. Eles sempre erram mesmo.
Se as previsões boas não se confirmarem e os nossos desejos não se realizarem, também não será o fim do mundo. Depois de 2019, virá o de 2020, abrindo as portas para mais uma década de esperanças e sonhos. E assim será, sucessivamente. Sempre assim.



O mundo, como dizia o poeta maior Carlos Drummond de Andrade, é vasto. Ele continuará a dar sua volta elíptica em torno do sol; e nós, aqui na terra, continuaremos a sacudir a poeira e a dar a volta por cima. (Um parêntese para lembrar que está de volta a teoria de que a terra é plana... fechemos rápido o parêntese).
Passagem de ano é bom para desejarmos o que há de melhor a todos. Faço minhas as palavras de Drummond no poema abaixo, nos belos versos de Desejos.
Republico meus versos sobre o Velho Ano Novo. Pequena reflexão sobre este momento tão comemorado e comentado mundo afora. Que 2019 encha os nossos olhos de alegria! A humanidade de poesia! E de música, os corações! 
Teremos mais chance de sermos felizes e enterrar de vez as previsões dos pessimistas. No mais, agradecer a Deus pelas graças alcançadas. Melhor ainda ouvindo Gratias agimus tibi, de Johann Sebastian Bach.

Velho Ano Novo
José Carlos Camapum Barroso

Fim de ano é roupa branca,
Alma limpa e coração aberto.
O amor de sempre por perto
E um pipocar de esperanças.

Champanhe explode no ar
E os fogos, em artifícios,
Colorem o céu de ilusões...

Risos e abraços nos salões,
Gritos e choros nas calçadas
Cobertas de lágrimas e suor.
Papel picado e lata de cerveja...

Vai a noite, some a lua...
Os primeiros raios de sol
Trazem o ano novo pra rua.
Garis fantasiados de homens
Varrem restos de alegria.
O bar se fecha, abre a padaria.
Os jornais chegam mais cedo
A estampar notícias velhas
E as previsões de sempre.

O ano foi ruim... Este será bom!
O ano acabou... O mundo, não!
O mundo...? É vasto o mundo.
Eu nem me chamo Raimundo. 
Muito menos, Drummond.

Desejos
Carlos Drummond de Andrade

Desejo a vocês...
Fruto do mato
Cheiro de jardim
Namoro no portão
Domingo sem chuva
Segunda sem mau humor
Sábado com seu amor
Filme do Carlitos
Chope com amigos
Crônica de Rubem Braga
Viver sem inimigos
Filme antigo na TV
Ter uma pessoa especial
E que ela goste de você
Música de Tom com letra de Chico
Frango caipira em pensão do interior
Ouvir uma palavra amável
Ter uma surpresa agradável
Ver a Banda passar
Noite de lua cheia
Rever uma velha amizade
Ter fé em Deus
Não ter que ouvir a palavra não
Nem nunca, nem jamais e adeus.
Rir como criança
Ouvir canto de passarinho.
Sarar de resfriado
Escrever um poema de Amor
Que nunca será rasgado
Formar um par ideal
Tomar banho de cachoeira
Pegar um bronzeado legal
Aprender uma nova canção
Esperar alguém na estação
Queijo com goiabada
Pôr-do-Sol na roça
Uma festa
Um violão
Uma seresta
Recordar um amor antigo
Ter um ombro sempre amigo
Bater palmas de alegria
Uma tarde amena
Calçar um velho chinelo.


quarta-feira, 21 de novembro de 2018

Amal Hussain, mais uma criança vítima da indiferença

Campo de refugiados no Iêmen

Irreconhecível humanidade em que uma criança de sete anos morre à míngua, desnutrida, com fome, cercada de potências econômicas e armamentistas por todos os lados. Foi assim que a pequena Amal Hussain deixou sua mãe Mariam Ali aos prantos, e um pai revoltado porque não tinha dinheiro para encher o tanque do carro e leva-la a um hospital. 
Morreu no dia 26 de outubro, no norte do Iêmen, país cercado pelas teocracias rivais do Irã e da Arábia Saudita. O mundo inteiro viu, ouviu e acompanhou toda a tragédia que assola mais de dois milhões de crianças que sofrem de desnutrição no Iêmen.
O nome de Amal em Árabe significa “esperança”. Segue um acróstico em homenagem a essa vítima da desumanidade:


Amada esperança
Morta na infância
Antes de ser criança...
Longe da existência.


Hígida nos braços,
Um olhar destroçado.
Silêncio refugiado
Sem bandeira nem paz
Ávida, a mãe chora:
Inocente de outrora
Nuvens de agora

sábado, 17 de novembro de 2018

Mais médicos, menos ideologias e uma saúde pública

                                                                                  Foto: Araquém Alcântara
Resolvi falar um pouco sobre a saída dos médicos cubanos no programa Mais Médicos. Antes de qualquer coisa, e acima de tudo, deixo claro que o considero um belo programa de saúde pública, embora esteja muito longe de ser a solução para os nossos problemas nesse quesito. Aliás, muito longe disso.
O programa foi um bom achado para dar assistência mínima a quem, nos rincões e nas áreas indígenas, não tinha socorro médico algum. Aí, vem o argumento contrário de que nessas regiões não existem infraestrutura. Bom, penso que é melhor um médico onde não há infraestrutura, do que a ausência dos dois. Para essas pessoas, costumo argumentar que, nessas regiões, uma parteira, um enfermeiro, são pessoas capazes de ajudar a população pobre no sentido de ter reduzido seu sofrimento e até mesmo os riscos de morte. Mas, esse argumento nem sempre os convence. Reconheço, pode ser que eu esteja errado.


Na sequência, geralmente, vem o argumento ideológico. Esse é o pior. Querem nos convencer de que por serem de Cuba - portanto, filhotes da ditadura comunista - não têm diploma compatível com aqueles concedidos no Brasil; não têm preparo, conhecimento médico suficiente para cuidar da nossa gente humilde.
Foi por isso que pedi autorização a duas pessoas para narrar a experiência de suas famílias, lá nos rincões do Brasil esquecido, abandonado pelo poder público, pelos políticos, distante principalmente da saúde pública.
O primeiro caso é o da Jane, diarista aqui de casa aos sábados. Ela é uma pessoa de poucas letras, mas, de uma experiência de vida inigualável.  Veio para Brasília trazendo a filha mais nova e deixando dois filhos com a mãe, no interior do Maranhão. Foi explorada, trabalho escravo, quando aqui chegou, em plena capital da República. Trabalhou meses na casa de uma amiga da família sem receber um tostão.

                                                                                 Foto: Araquém Alcântara
Pois bem. O Mais Médicos, na avaliação dela, é um programa salvador para o seu pai, sua família, amigos, conhecidos e desconhecidos da cidade de Serrana e de toda as outras daquela região. Quem são os médicos que estão por lá? Os cubanos. Foram eles que atenderem o pai da Jane, de um problema sério de saúde, oferecendo dedicação e carinho, coisas que todos precisam nesse momento.
Ficou triste, emocionada, quando soube que os médicos cubanos vão deixar o programa e sair daquele rincão maranhense. Tem esperança de que eles sejam substituídos pelos competentes e preparados médicos brasileiros, devidamente diplomados. Acredito que ela até enxergue um fator atrativo para a ida dos profissionais brasileiros: eles não terão que pagar 70% dos seus salários ao Estado. Se forem para essa região de fato, provavelmente, a tristeza da Jane terá sido em vão e todos voltarão a sorrir e a ter assistência médica básica, mínima.


Segundo caso. O da Eva, carinhosamente chamada por nós de Evinha. Doméstica, assalariada, também deixou a família no interior para tentar uma vida melhor na capital da República. Veio do norte de Minas, das barrancas do São Francisco. Não trabalhou em regime de escravidão, mas, foi explorada. Muito inteligente. Foi vítima de criação adotiva. Faltou estímulo, apoio, para avançar nos estudos, ficando só com o ensino primário completo.
Pois bem, seu depoimento é o de que o programa Mais Médicos foi a salvação de um povo esquecido naquele rincão abandonado na fronteira com a Bahia. Ela conhece pessoas que choraram e chegaram ao desespero com a notícia da saída desses profissionais, para eles, tão dedicados e atenciosos. Talvez, no entanto, sejam salvas pela adesão dos médicos brasileiros ao programa para substituir os cubanos. Isso não é impossível, mas está gerando preocupação.

                                                                                  Foto: Araquém Alcântara
Preocupações? Sim, e bem justificadas. Fico receoso quando vejo um relato no Facebook, reproduzido abaixo, feito por uma cidadã que me garantiu ser o retrato fiel da realidade. Ela mesma diz que só acredita porque ouviu com os dois ouvidos que Deus lhe deu. Se a maioria dos nossos profissionais de saúde pensar assim, começo a entender a tristeza da Jane, da Evinha e de todos os seus familiares. Não vai dar certo.


sexta-feira, 16 de novembro de 2018

Tolerância, já! Antes que seja tarde...


Tolerância é uma palavrinha mágica, que precisa ser cultivada, preservada e distribuída sem parcimônia. Principalmente depois de tudo que vimos, acompanhamos e, de certa forma, participamos, nesses meses de campanha eleitoral on line. A primeira da história brasileira tão marcada pelas redes sociais não foi bom exemplo no quesito tolerância.
Mas, nunca é tarde para nos redimirmos. Todos nós. No dia de hoje, uma sexta-feira depois de um feriado, melhor ainda porque hoje é o Dia Internacional da Tolerância. Começou a ser gestado em 1993, quando a Conferência Geral da Unesco elegeu 1995 como o Ano das Nações Unidas para a Tolerância. E foi posto em prática, pela primeira vez, no dia 16 de novembro de 1996. 


Um dia em que são desenvolvidas diversas ações para combater os mais variados tipos de intolerância cultural, econômica, religiosa, sexual e racial. Na definição dos membros da ONU, ela é o respeito, a aceitação e o apreço pela diversidade em todos os seus âmbitos. Mais interessante foi a determinação de que não deve ser considerada uma concessão, mas sim um reconhecimento dos direitos humanos universais e das liberdades fundamentais de cada pessoa.
Muitas opiniões foram assustadoras nessa campanha eleitoral no quesito intolerância. A imensa maioria esqueceu-se de uma outra palavrinha chave no relacionamento entre pessoas: gentileza, que, inclusive, também é referenciada neste mês de novembro (dia 13). As duas são irmãs siameses.
Pessoalmente, fiquei muito chocado com a intolerância para com os artistas. Mais particularmente as grosserias, xingatórios pra cima do Chico Buarque de Holanda, um artista que admiramos muito e que tem papel relevante na nossa cultura. País nenhum consegue um estágio avançado de desenvolvimento se não valorizar seus artistas e a cultura do seu povo.

As pessoas precisam, sempre, se colocar no lugar do outro. A aceitação, e por consequência a tolerância, começa por aí. Importante deixar o lugar de dono da verdade. Observar como os outros lidam com determinados fatos de acordo com os seus valores, crenças, razões e motivações.
Alguém já disse que muitas vezes o que não suportamos no outro é o reflexo daquilo que não suportamos em nós mesmos. Quando o conflito entre pessoas ocorre, o ideal é mesmo respirar fundo, e evitar que a irritação conduza nossos argumentos. Os membros da ONU pensaram em tudo isso e mais algumas coisas sobre as quais devemos refletir nesta data. Foi uma bela decisão.
Salve o Dia Internacional da Tolerância e sejamos todos adeptos dos princípios que a conduzem. Como está umbilicalmente ligada à cultura, o ZecaBlog adere a essa comemoração. 
E que tenhamos todos uma vida mais tolerante. Será bem melhor, nos sentiremos mais leves.


Tolerância é uma necessidade em todos os tempos e 
para todas as raças. Mas tolerância não significa aceitar o que se tolera.
Mahatma Gandhi

A primeira lei da natureza é a tolerância - já que
 temos uma porção de erros e fraquezas.
Voltaire

domingo, 11 de novembro de 2018

Do Barbeiro de Sevilha aos barbeiros do Machombombo


O amigo Baltazar Cardoso postou no Facebook essa foto acima. Barbeiro e cabeleireiro lá de Uruaçu – aquela cidade que fica no centro de Goiás, do Brasil, da Terra, quiçá, do Universo –, ele faz parte da nossa história, não apenas pela sua profissão, mas também por estar inserido na nossa cultura musical e folclórica. O cliente dele é doutor Cristovam Francisco Ávila, nosso mestre maior e sobre quem já escrevi neste blog (para ler, clique aqui).
A foto fez-me voltar no tempo e lembrar de quando erámos obrigados a ir ao barbeiro. Criança, de um modo geral, não gosta de cortar cabelo. No meu caso, era um pouco diferente. Frequentávamos a barbearia do Valdomiro, que era bem em frente da nossa casa. Só atravessar a rua. E nela tinha Zé Paraibano, um senhor sério, um pouco carrancudo, mas, engraçado, piadista, contador de histórias.


Então, ir ao barbeiro era interessante. Conversar e ouvir histórias. Lembro que estava um dia no armazém de meu pai, quando meu primo Luizinho entrou alvoraçado: “Zé, vamos lá na barbearia, Luís Coelho tá cortando o cabelo com Zé Paraibano”. Luís Coelho, piauiense, boêmio, primo da minha mãe, foi uma das pessoas mais engraçadas que conheci. Fomos pra lá e rimos até sair lágrimas pelo canto dos olhos e sentir dores na barriga.
Baltazar além de talento para a profissão, fez curso em Brasília de barbeiro e cabeleireiro, porque, segundo ele, são coisas diferentes. Mandou colocar uma placa na frente da barbearia enaltecendo esse item do seu currículo. O pintor escreveu: “Barbeiro e Cabeleireiro concursado”. Ou seja, em Uruaçu, pra exercer essa profissão era preciso fazer concurso.


Mas, a profissão é bem mais antiga do que a nossa memória alcança. Na Grécia, fonte da sabedoria com os filósofos, havia o culto também à beleza. Os guerreiros e os homens pertencentes à nobreza usavam cabelos compridos. Os filósofos também deixavam os cabelos crescerem e a barba, tradicionalmente, era densa, justamente para aparentar sabedoria. Os escravos não podiam ter barba, nem bigode, e usavam cabelos curtos e liso. Já os jovens imitavam os penteados de Apolo e Arquimedes.
Logo surgiram os primeiros salões de beleza e a profissão de barbeiro, exclusiva do sexo masculino. Fico imaginando se vivêssemos naquele tempo, meu primo Luizinho entraria lá em casa: “Zé, vamos lá na barbearia, Sócrates foi aparar a barba!”.
Mas, nos séculos XVI e XVII, a profissão era associada às de médico e de dentista. Os barbeiros foram acusados de praticar a sangria de forma exagerada, sem pudor. No século XIX, as profissões de dentista e de médico se afastaram da de barbeiro. E somente no século XX a mulher foi incorporada à profissão e também admitida como cliente. Surgiram os salões unissex.



No mundo da artes, Fígaro, O Barbeiro de Sevilha, personagem da obra de Gioacchino Rossini, é um profissional que faz de tudo na sua cidade: arranja casamentos, ouve confissões e espalha boatos. A ópera conta a história de sua tentativa de ajudar um conde a conquistar o coração de uma jovem. 
No Brasil, a profissão foi trazida pelos jesuítas. Esteve durante muitos anos associada aos escravos. E por consequência ganhou um vínculo muito forte com a música. Com muita liberdade, eles tocavam lundus, dobrados, quadrilhas, fados, fandangos e chulas, muito em voga naqueles tempos. Estavam sempre presentes nas festas, nas portas das igrejas e eram até reverenciados com a alcunha de "música de barbeiro". Jean-Baptiste Depret retratou isso muito bem em suas belas pinturas.
A associação do amigo Baltazar e de sua profissão à música tem raízes históricas e culturais. Baltazar toca violão, canta e participa ativamente das folias de reis em Uruaçu. Nossas homenagens a ele, a todos os barbeiros, in memoriam, a Valdomiro e Zé Paraibano. Nossos barbeiros do Machombombo (córrego que corta Uruaçu).

quinta-feira, 1 de novembro de 2018

Véspera do Dia de Finados é o dia dos sepultadores


Tem um profissional que ninguém lembra de homenagear. Quando lembra quer esquecer. Mas, o dia dele também existe. E é comemorado hoje, dia do sepultador. Pesquisei e descobri – salvo um melhor trabalho no Google, o novo pai dos burros – que apenas São Paulo tem um dia dedicado a esses trabalhadores também conhecidos com coveiros. O paulista é mais realista... sei lá, menos chegado a sentimentalismos ultrapassados.
Essa homenagem existe graças à Lei 12.940 de 2008, quando era governador do estado José Serra. Piada pronta para o outro José, o macaco Simão, o colunista-humorista da Folha de São Paulo, que sempre comparou Serra ao Vampiro Anêmico. Serra, diria Simão, trabalhou nesse caso em causa própria.
A verdade verdadeira é que ninguém lembra dessa pobre gente. Os coveiros, melhor, os sepultadores, não são vistos, ou não são bem vistos, mesmo estando ali, atenciosos, dedicados e reservados, num momento tão difícil da vida das famílias. Com seus uniformes azuis, de faixas amarelas, cores nada tristes, não manifestam sentimentos, simpatia ou antipatia, alegria ou tristeza, comiseração, revolta... nada.


Estão ali porque esse é o ganha-pão deles de cada dia, de todos os dias, faça chuva ou faça sol, feriado, dias da semana, sábados e domingos. Até mesmo no Dia de Finados, comemorado no dia seguinte... Vai que alguém resolve morrer no Dia dos Mortos.
Fazem até piadas com o pobre do sepultador. Pode?

No cemitério o coveiro cavava uma nova cova, mas estava tão distraído que não percebeu que cavava demais. Após algum tempo ele olhou para cima e percebeu que não conseguiria sair dali sozinho. Ele gritou para pedir ajuda, mas ninguém apareceu. Passaram-se várias horas e ele já estava desesperado e com muito frio. Ele então escuta o som de passos e grita mais uma vez por ajuda, até que um bêbado se aproxima do buraco.
- O que aconteceu? - pergunta o bêbado.
- Você tem que me ajudar, eu estou preso nesse buraco, morrendo de frio - explica o coveiro.
O bêbado responde:
- É claro que está com frio, tiraram toda a terra de cima de você. Não se preocupe, pobre mortinho, vou te ajudar!
E o bêbado cuidadosamente começou a enterrar o coveiro.


Aos sepultadores nossas mais sinceras homenagens. Não existe motivo algum para eles se envergonharem da profissão. 
Num enterro de um amigo, até comentei com um desses profissionais. 
- Não é fácil essa profissão, né? Ter que enterrar uma pessoa.
Bem rápido e indiferente, me respondeu:
- Nem tanto... antes ele do que eu.

sexta-feira, 26 de outubro de 2018

Sobre saudades, existência e outras vidas...

Difícil falar sobre saudades. Lembrar das pessoas que nos deixaram. Parentes e amigos, mesmo as pessoas apenas conhecidas, ficam por aí passeando nas nossas lembranças. Lembramos delas com alegria, mas, muitas vezes dá aquele aperto no coração. Foi numa situação assim que escrevi o poema abaixo, postado no vídeo. Perdemos, há seis anos, uma grande amiga em Belo Horizonte.
Mary Célia nos deixou muito cedo, bem antes do combinado. Foi levar seu sorriso lindo, sua simpatia e toda sua bondade para outra dimensão. Será sempre lembrada com alegria e contentamento. Hoje mesmo deu uma saudade arretada dela...
Este poema veio em virtude daquele momento muito especial que vivíamos. Muito provavelmente, outras pessoas, naquela ou em outras épocas, viveram algo semelhante. Um momento em que alguém que a gente ama esteja muito próximo de passar desta para outra vida, quem sabe mais glorificante e mais radiante do que esta. Uma passagem sempre difícil de aceitar, embora saibamos que seja inevitável.
Deixemos que os versos nos ajudem a expressar esse sentimento.

domingo, 21 de outubro de 2018

Moacyr Luz comemora 60 anos e nos dá dois presentes


Moacyr Luz, sambista da gema e de inegáveis talentos, completou 60 anos em abril, mas, foi ele quem nos deu presentes. Dois CDs com músicas suas e de vários parceiros. Um deles, o disco Nego Álvaro canta Sereno e Moacyr Luz, o segundo da carreira do cantor e sob a benção desses dois compositores cariocas. O outro presente é um disco do próprio Moacyr, com o belo título Natureza e Fé. Ambos, foram lançados pela Biscoito Fino.
Nego Álvaro conta que Moacyr Luz o chamou para conversar e disse que “como ia fazer 60 anos, queria fazer alguns discos, entre eles um dele mesmo, outro com suas parcerias com Sereno, do Fundo de Quintal, que também é um dos meus ídolos.” Não ficou apenas por aí. Moacyr também produziu e gravou Natureza e Fé, o 14º na carreira do artista e o primeiro que não tem parcerias com os tradicionais companheiros e amigos Aldir Blanc, Paulo César Pinheiro, Hermínio Bello de Carvalho e Ney Lopes.


Nas palavras do próprio Moacyr “são parceiros novos, como Fagner, Zélia Duncan, Pretinho da Serrinha, Fred Camacho. Martinho da Vila está novamente em um disco meu porque a gente havia acabado de fazer o samba Na ginga do amor, que ele gravou comigo no disco”. A faixa que dá título ao disco é uma parceria com Teresa Cristinha, que diz bem o que é o projeto.” Fagner é coautor em “Periga” e “Samba em Vão” (na segunda, faz dueto com Moacyr). Zélia, que havia gravado Moacyr em seu último projeto, surge em “Gosto” como parceira e intérprete. Com Serjão, seu primeiro parceiro de música, ainda nos anos 70, Moacyr compôs “Jorge da Cavalaria”. “Tenho várias músicas que falam de São Jorge, não seria diferente no meu disco de 60 anos. Para “Jorge da Cavalaria” chamamos 23 Jorges, que é o número do Santo Guerreiro, para cantar o refrão. Tirando um ou outro Jorge mais famoso, como o meu querido Jorge Aragão, o Jorge Cardoso e o Jorge Perlingeiro, os outros Jorges são pessoas do cotidiano, que entraram no estúdio e cantaram de uma forma que não vou mais esquecer”, pontua Moacyr. Já Fred Camacho é o convidado na gravação de “Gostei do Laiálaiá” (Pretinho da Serrinha / Fred Camacho / Moacyr Luz).


As 12 novas canções do projeto, na visão de Moacyr, resumem sua trajetória musical e celebram os 60 anos que acabou de completar. “Aprendi com Aldir que as letras não podem ser em vão. Quando você faz uma música coloca uma tatuagem no corpo, ela ficará marcada para sempre. Então, muito cuidado com as coisas, muito respeito à música quando você quiser registra-la em um disco”, finaliza o mestre, com sabedoria.
Moacyr Luz é um grande mestre, sim. Um dos talentos em vigor que não deixa a nossa música cair no abismo da mediocridade.
Salve, Moacyr e a sua luz que vem do samba!