domingo, 25 de setembro de 2016

Quando a mãe liga para falar de saudades...


Minha mãe Iracema ligou hoje, bem cedo. Faz hoje 70 anos que sua mãe
Celina foi embora deste mundo, deixando-a órfã com menos de nove anos de idade. Dona Ira disse que chorou muito ao sair da missa matinal de domingo, que deu uma saudade imensa dos tempos de criança, de uma infância repentinamente colocada fora dos trilhos. Achou estranho todo esse sentimento a essa altura da vida...
Saudade não tem idade. Disse a ela, sem deixar de sublinhar que as lágrimas, vindas com esses sentimentos tão puros e autênticos, são parte do caráter das pessoas grandiosas, que têm bons exemplos a dar aos seus e a todos que com elas convivem. E ela está plenamente inserida nesse rol de seres humanos.
Saudade é uma palavra diretamente associada às emoções. Talvez, por isso mesmo, o dicionário Aurélio traz a seguinte definição: Recordação suave e melancólica de pessoa ausente, local ou coisa distante, que se deseja voltar a ver ou possuir.


Por ser assim tão associada às emoções, sobre ela criou-se o mito de que só existe essa palavra para expressar tais sentimentos em Português. Em alemão (ajuda aí, Ana Laura Campos!), existe a palavra sehnsucht, que tem esse entre outros significados. Em polonês, a palavra tesknota tem sentido igual. Claro, as palavras mudam de significado, expressam a mesma coisa com colorações diferentes, dependo do contexto, de questões culturais e outras variáveis.
Mais isso não tem maior importância. O que tentei dizer para dona Iracema, nesta manhã de domingo, foi o seguinte: o que interessa mesmo é o fato de saudade ser uma palavra deliciosa, sonora, poética e agradável. Ninguém fica triste porque sente saudade. É um sentimento um pouco diferente, mais em direção do nostálgico, que nos faz viajar no tempo e no espaço, superando distâncias, na maioria das vezes à velocidade da luz. Ficamos tristes quando perdemos um ente querido, é verdade. Mas o sentimento não é exatamente esse quando sentimos saudade dessa pessoa.


Falar sobre saudade é tão difícil. Muito mais fácil é senti-la a nos envolver, de maneira suave, gentil, como se fosse uma velha companheira que sempre esteve entre nós e não pretende, jamais, nos deixar. Mas, ela vai embora da mesma forma que chegou, suavemente, sem arrancar pedaços...
Mãe, dona Ira, ter saudade é bom demais da conta!

Saudade
José Carlos Camapum Barroso

Quero sentir saudade,
Mas a noite não deixa.
O latido do cão assusta,
A escuridão domina
O brilho das estrelas.
Até a lua se escondeu...

Como sentir saudade?
Saudade não se deseja,
Somos desejados por ela.
Saudade não se almeja.
Não se traça o quando
Nem por onde vai chegar.
Mostra sua face, se instala
E nem avisa ao se afastar...

De repente, estamos sós?
Nem saudade existe mais?

(Um vento bate na porta,
A brisa sopra pela janela...
Passos ecoam na calçada.
Não ouço latido do cão,
A lua traz réstia de luz
E um beijo doce na face.)

A saudade foi se embora.
Nem disse se vai voltar...



domingo, 11 de setembro de 2016

Resistência e encanto fazem a virada do Cerrado


O Cerrado é antes de tudo um forte, que resiste ao fogo das queimadas, à mão desalmada de uma civilização em busca desenfreada pelo progresso. O Cerrado tem sua cultura própria, um jeito especial de viver e de sobreviver, sem perder a imponência, jamais, em sua missão de resistir a intempéries.
Os desenhos retorcidos, distorcidos e encurvados das plantas do Cerrado enganam os que as julgam frágeis. Essas árvores saem do cinza-enegrecido, causado pelas queimadas, para um verde exuberante, basta chegar as primeiras chuvas do caju e do pequi nativos no Centro-Oeste. Em Brasília, já se pode ver algumas plantas mostrando um verde-novo em meio ao amarelecido da grama e do mato. Mesmo agora, já surgem lá no meio do cerrado o amarelo retumbante, exuberante, radiante, cheio de vida da flor do ipê.


O Cerrado não é apenas essa beleza que nos enche de orgulho e satisfação. É também sinônimo de sustentabilidade para uma sociedade que mal consegue se manter em suas próprias raízes. O futuro está aqui, em meio a essa biodiversidade que salta aos olhos, capaz de produzir alimentos, medicamentos, energia e abrir portas para um turismo ímpar, sem similares em qualquer região do mundo.
O quadrilátero do Distrito Federal, desenhado e traçado pela Missão Cruls – sobre a qual já escrevi aqui no blog –, também está assentado em uma região do Cerrado de rara beleza e de riquezas ainda bastante desconhecidas. Nós goianos, temos orgulho de ter cedido a Brasília uma das mais belas e ricas áreas do Centro-Oeste. As principais fontes de água do Brasil nascem neste Planalto Central, que mostra força e pujança desde as entranhas da terra.


Estão em sintonia com essa realidade os órgãos e instituições que fazem eventos, encontros, seminários voltados para conscientizar a população do valor que traz em si mesma essa região do Cerrado. No Parque da Cidade está acontecendo, hoje (11/09), o encerramento da Virada do Cerrado, que começou no dia 7 de setembro, com diversos eventos no Distrito Federal.
Comemorar o Dia do Cerrado nos enche de alegria. Essa é uma região que amo de paixão e que me viu nascer e crescer, em meio aos pés de pequis, de buritis, de jatobás e das flores do cerrado e outras tantas maravilhas.
É simplesmente genial a música Flor do Cerrado, do saudoso Waldir Azevedo, que morou por essas bandas e sabia o valor de tamanha beleza. Admiro também os versos da música, com o mesmo título de Flor do Cerrado, composta por Caetano Veloso, na voz de Gal Costa e aqui intercalada por Garota de Ipanema, de Tom Jobim e Vinícius de Moraes. Dizem os versos: “Mas, da próxima vez que eu for a Brasília/Eu trago uma flor do Cerrado pra você”. É um belo presente para se oferecer à pessoa amada.


Admiro também as pessoas que interagem com a natureza e curtem essa convivência de forma respeitosa e saudável. A amiga Sinvaline Pinheiro faz um trabalho admirável no Memorial Serra da Mesa, em Uruaçu, Goiás. Minha irmã Juracema tem essa sensibilidade para admirar e valorizar as plantas e animais e sempre acampando, curtindo um riozinho, ou mesmo rego d’água aqui no DF ou lá pelas bandas de Goiás. Na Caesb, onde trabalho, o colega José Marcos Feitosa também merece ser homenageado. Além de ter participado de um trabalho de pesquisa, que rendeu um belo livro sobre a Área de Proteção Ambiental (APA) do Cafuringa, ele sempre reúne a família e vai acampar no Cerrado brasiliense, em meio a rios, cachoeiras, plantas e, claro, a incomparável Flor do Cerrado.


domingo, 4 de setembro de 2016

As maravilhas de Brasília em um fim de tarde...


Brasília é, há mais de quatro décadas, a cidade-minha. Aquela que escolhi pra estudar, trabalhar, morar, constituir uma família e viver em paz com os amigos. Brasília tem a capacidade de se internalizar na nossa alma e na forma de pensar e de agir de cada um de nós. Uma cidade que nos ajuda a projetar o futuro de forma ampla, traçado a partir de novos horizontes, com um visual moderno e um pensamento inclusivo. Talvez devamos isso ao seu desenho urbanístico e a sua ousadia arquitetônica, mas também ao que ela se propôs ao ser criada.
Quando aqui cheguei, em janeiro de 1973, Brasília era uma garota de quase 13 anos. Cheia de vitalidade, sonhos e esperanças. Os problemas maiores que cercam uma grande cidade ainda não se apresentavam de forma ostensiva, mas já davam os seus primeiros sinais, nas quadras, superquadras, eixos, vias e rodovias que desembocavam, cada vez mais, em novas cidades.

                                                                                              Foto de Ronaldo Silva
Vejo Brasília por vários ângulos. O que mais me seduz é o da beleza da sua arquitetura, que se espalha, principalmente, ao longo do Eixo Monumental, formando o corpo do avião. No vídeo abaixo, tendo retratar a beleza de um fim de tarde, início de noite, nesta cidade inspiradora. Brasília do futuro, mas que traz em sua bagagem um passado enriquecido pelos sonhos e esperanças de seus filhos-criadores, com um presente pujante e amplo de possibilidades.

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domingo, 21 de agosto de 2016

Encerramento das Olimpíadas e o Dia do Favelado, tudo a ver



Cerimônia de encerramento das Olimpíadas, no Brasil, no Rio de Janeiro, no Dia do Favelado tem tudo a ver. Impossível visualizar o Rio sem suas favelas, o esporte e a cultura carioca, e brasileira, sem a presença e a participação significativa de homens e mulheres faveladas. O samba desceu o morro para ganhar consistência e tornar-se a nossa representação cultural de maior visibilidade e forte valor artístico.
A definição clássica de favela é aquela que destaca nesse espaço geográfico a ausência de serviços públicos, sejam eles de infraestrutura, assistenciais, culturais e esportivos. Em regiões onde o poder público não se faz presente, é comum o surgimento de poderes alternativos, associados ao crime, ao tráfico e outras mazelas. São eles que “oferecem” justiça, proteção e alternativas. O poder público, nos últimos anos, tem buscado caminhos para superar essa realidade e se fazer presente nas comunidades faveladas.


Uma das opções tem sido a de se fazer presente pelo esporte, criando, estimulando, jovens atletas a seguirem carreira por esse mundo fantástico da competição esportiva. No universo da cultura, também, o estado precisa estar presente, dando oportunidade a artistas e grupos artísticos a se apresentarem no disputado mundo da cultura.
Olimpíadas, esportes e atividades culturais são o lado bom, produtivo e criativo do ser humano. O Brasil merece medalha de ouro pela condução dos jogos olímpicos de 2016, superando e abafando todas as críticas iniciais.
É vida que segue.

Morro da babilônia
(Carlos Drummond de Andrade)

À noite, do morro
descem vozes que criam o terror
(terror urbano, cinquenta por cento de cinema,
e o resto que veio de Luanda ou se perdeu na língua
geral).

Quando houve revolução, os soldados se
Espalharam no morro,
O quartel pegou fogo, eles não voltaram.
Alguns, chumbados, morreram.
O morro ficou mais encantado.

Mas as vozes do morro
Não são propriamente lúgubres.
Há mesmo um cavaquinho bem afinado
que domina os ruídos da pedra e da folhagem
e desce até nós, modesto e recreativo,
como uma gentileza do morro.




sexta-feira, 19 de agosto de 2016

Academia tornará imortal o poeta Itaney Campos


A Academia Goiana de Letras (AGL) reconheceu, finalmente, o valor no campo literário que tem o desembargador, poeta e escritor Itaney Francisco Campos, que, em meio a uma infinidade de referências tem a de ser natural de Uruaçu (GO), aquela cidade cortada pelas águas do córrego Machambombo e à beira do Lago Serra da Mesa. A AGL elegeu, por votação expressiva, o nosso mestre Itaney para ser mais um membro da Academia.
Itaney é autor de várias obras de cunho jurídico, histórico, literário e mais acentuadamente poético. Sua veia poética fala mais alto do que todo o talento e conhecimento que esbanja no universo jurídico e mesmo em suas pinceladas sobre História de Uruaçu e de Goiás.
Este ZecaBlog tem a presença do mestre Itaney desde sua origem até os dias de hoje, passando por vários posts ao longo dessa caminhada que já passou de cinco anos. A primeira publicação foi com a bela poesia Áspera Flor (para ler, clique aqui), com versos que passeiam pelo universo jurídico sem perder a leveza e a ternura dos poetas, jamais.


Ao agradecer a escolha, Itaney lembrou que sempre procurou conciliar os afazeres jurídicos "com o meu lado literário mais pulsante, e a produção da escrita acaba tomando as duas áreas”. Ele já integra a União Brasileira dos Escritores Goianos, a Academia Goiana de Direito e o Instituto Histórico e Geográfico de Goiás.
Um dos momentos marcantes de sua carreira literária foi quando escreveu o poema Um Homem Quando Mata (clique aqui). Recebeu uma carta-comentário de uma mãe, que teve seu filho brutalmente assassinado, por motivos banais, e sentiu-se confortada pelos versos do poeta. O poema e a carta tiveram forte repercussão e foram analisados e comentados, em entrevista, pelo também poeta, escritor e psicanalista Ítalo Campos (clique aqui).
A posse de Itaney Francisco Campos para ocupar a cadeira de número 37 da AGL, cujo patrono é Crispiniano Tavares, está marcada para o dia 24 de novembro, às 17 horas, em Goiânia.
Palmas para a Academia Goiana de Letras por essa escolha tão sábia e merecida! O professor e Mestre Itaney vai engradecer ainda mais o saber literário, os debates acadêmicos e os projetos culturais e artísticos da AGL. Sentimo-nos, todos, uruaçuenses, goianos, poetas, juristas, blogueiros, escritores, plenamente homenageados com essa escolha. A cultura agradece.

Ao mestre, com carinho
José Carlos Camapum Barroso

Ao mestre, uma flor
Despida de espinhos
Recortada por versos,
Tirados do livrinho
Onde nos ensinou
A arte de aprender:
A soletrar palavras,
A redigir frases,
Compor as ideias
E traçar os ideais.

Ao mestre, teremos
Sempre, palavra nova,
Guardada com carinho
No canto da sala,
No teto da escola,
À beira do caminho
Aberto na imensidão...
Palavra de puro afeto
Agradecimento total
A quem nos deu luz:
Mestre, poeta, imortal!


sábado, 13 de agosto de 2016

Sabiá cantou mais cedo e traz esperança de chuva


Agosto está apenas chegando à metade dos seus dias considerados de azar, desgostos, clima muito seco, nenhuma chuva, muita poeira e o calor chegando, devagarinho, mas preocupante. Este ano, pelo menos, tem um alívio no ar. O Sabiá começou a cantar no nosso quintal, bem mais cedo do que nos últimos cinco anos. Os ipês amarelos já deram o ar da graça na imensidão do Planalto. De belo, mesmo, o alvorecer, o pôr do sol, os últimos raios de claridade a refletir na névoa seca... Enfim, agora, o canto divino do sabiá-laranjeira, a anunciar a chegada, ainda longe, da Primavera. É prenúncio de chuva? Talvez, ainda não. Mas traz uma paz para os nossos corações, alguma inspiração poética e a bela canção de Tom Jobim e Chico Buarque, vencedora do Festival Internacional da Canção, de 1968, na voz inesquecível de Elis Regina, que diz, com seu sorriso ancho: "Vou voltar, sei que ainda vou voltar..." Quem sabe, a esperança é a última que morre.
E hoje é dia 13 de agosto. Como caiu num sábado e não na sexta-feira, uma data boa para se ouvir, pela primeira vez no ano, o cantar desse pássaro tão querido pelos brasileiros.


O cantar do Sabiá
(José Carlos Camapum Barroso)

Sabiá cantou no quintal, depois de um longo e tenebroso inverno...
Era fim de tarde, início de manhã? Sei apenas que o mundo mudou:
Veio o ar da Primavera, o gosto seco de chuva...

O vento de setembro pôs fim ao de agosto. Sabiá-laranjeira, ave do peito-roxo,
Canto de primeira, som de Altamiro Carrilho na flauta...
Meu sabiá, bandeira, Brasão infinito de um Brasil brasileiro.

Sabiá-ponga,
Sabiá-piranga,
Meu Caraxué!
O sabiá-laranja

Cantou um canto triste no terreiro? 
Barriga-vermelha, de um canto fino, um cantar sovina, bem brasileiro.

Sabiá, sabiá
Não me leve a mal...
Vem cantar de novo
Aqui no meu quintal.




quinta-feira, 11 de agosto de 2016

Versos que se tocam entre o corpo e a alma


Há quem não goste de falar sobre alma. Acredita que só o corpo e a mente são a razão do existir. Um tema profundo e delicado, só abordado com a dimensão precisa pelos filósofos. Mas, que é um tema interessante para a poesia, não tenho dúvidas. Carlos Drummond, falando do amor, desafiou “quem ousará dizer que ele é só alma/ quem não sente na alma o corpo expandir-se/ até desabrochar em puro grito/ de orgasmo, num instante infinito”.
Clarice Lispector foi mais longe e chegou a refletir sobre o peso que a alma tem, nesses versos de extraordinária beleza:

“Minha alma tem o peso da luz. Tem o peso da música.
Tem o peso da palavra nunca dita, prestes quem sabe a ser dita.
Tem o peso de uma lembrança. Tem o peso de uma saudade.
Tem o peso de um olhar. Pesa como pesa uma ausência.
E a lágrima que não se chorou.
Tem o imaterial peso da solidão no meio de outros. ”

(Clarice Lispector)


Os poetas são assim: enxergam a leveza do corpo e a materialidade da alma na imensidão da vida, do universo e dos sonhos. Ou conseguem sentir a dificuldade de se amar pela alma. Como Manuel Bandeira nesse belíssimo poema abaixo:

Arte de Amar
Manuel Bandeira

Se queres sentir a felicidade de amar, esquece a tua alma.
A alma é que estraga o amor.
Só em Deus ela pode encontrar satisfação.
Não noutra alma.
Só em Deus - ou fora do mundo.

As almas são incomunicáveis.

Deixa o teu corpo entender-se com outro corpo.

Porque os corpos se entendem, mas as almas não.


De corpo e alma
José Carlos Camapum Barroso

Amor é encontro de almas
Por águas calmas, profundas.
Um bater leve de palmas
A ressoar pelo mundo.

Atritos que geram faíscas
São desafio contínuo:
Se um trisca, o outro pisca,
O mundo torna-se vazio!

Pulsar diário, quântico!
Ondas desaguam na baía
E um toque romântico
Faz o levitar da travessia!

Em Deus, amor extremo,
Alma e corpo nus estão.
A graça do ser Supremo
Consola na solidão.

Riscos mundanos, eternos,
Entes celestes sem fim...
Nos pulsares incertos,
Corpo e alma dizem sim!

Em suave harmonia,
Coro de poetas a cantar,
Luz nova que alumia
Bandeira a desfraldar...

Amor de corpo e alma:
Terra, Fogo, Água e Ar.

(Para Manuel Bandeira)



terça-feira, 9 de agosto de 2016

Dia Internacional dos Povos Indígenas é aqui e agora



Para comemorar o Dia Internacional dos Povos Indígenas é fundamental lembrar do Marechal Rondon, de origem indígena por parte de seus bisavós paternos e da bisavó materna. Percorreu mais de 100 mil quilômetros abrindo caminho por este Brasil afora. Foi responsável pela elaboração das cartas geográficas de cerca de 500 mil quilômetros quadrados deste mundão brasileiro. Fundou o Serviço de Proteção ao Índio, propôs a fundação do Parque Nacional do Xingu e inaugurou o Museu Nacional do Índio. Chegou a ser indicado para o Prêmio Nobel da Paz, em 1957.
Foi o espírito aventureiro e destemido de Cândido Mariano da Silva Rondon, o marechal patrono das comunicações do Exército Brasileiro, que abriu caminho para mudar a realidade de um Brasil litorâneo. Nos livros de História do Brasil, a constatação que se segue, feita em 1622, é bem conhecida:

"Da largura que a terra do Brasil tem 
para o sertão não trato, porque até
 agora não houve quem a andasse, 
por negligência dos portugueses que, 
sendo grandes conquistadores de terras, 
não se aproveitam delas, mas contentam-se
 de as andar arranhando
 ao longo do mar como caranguejos”.

(Frei Vicente de Salvador)

Carlos Drummond de Andrade fez ao grande brasileiro que foi Marechal Rondon uma bela e justa homenagem, com os versos que se seguem. De minha parte, uma singela lembrança em forma de Haicai sobre essa belíssima foto (acima) de Santi Asef. E, de Caetano Veloso, a maravilhosa canção Um Índio, nas voz de Milton Nascimento.

Pranto Geral dos Índios
Carlos Drummond de Andrade

Chamar-te Maíra Dyuna
 Criador seria mentir
pois os seres e as coisas respiravam antes de ti
mas tão desfolhados em seu abandono
que melhor fôra não existissem
As nações erravam em fuga e terror
Vieste e nos encontraste
Eras calmo pequeno determinado
Teu gesto paralisou o medo
tua voz nos consolou, era irmã

Protegidos do teu braço nos sentimos.
O akangatar mais púrpura e sol te cingiria
mas quiseste apenas nossa fidelidade.

Eras um dos nossos voltando às origens
e trazias na mão o fio que fala
e o foste estendendo até  o maior segredo da mata

A piranha a cobra a queixada a maleita
não te travavam o passo
militar e suave
nossas brigas eram separadas
e nossos campos de mandioca marcados
pelo sinal da paz
E dos que se assustavam pendia o punho
fascinado pela força de teu bem-querer
Ó Rondon, trazias contigo o sentimento da terra.
Uma terra sempre furtada
pelos que vêem de longe e não sabem
possuí-la
terra cada vez menor
onde o céu se esvazia da caça e o rio é memória
de peixes espavoridos pela dinamite
terra molhada de sangue
e de cinza estercada de lágrimas
e lues
em que o seringueiro o castanheiro o garimpeiro o
bugreiro colonial e moderno
Celebram festins de extermínio
Não nos deixaste sós quando te foste
Ficou a lembrança, rã pulando n’água
do Rio da Dúvida: voltarias?
Amigos que nos despachastes contavam de ti sem luz
antigo, entre pressas e erros, guardando
em ti, no teu amor tornado velho
o que não pode o tempo esfarinhar
e quanto nossa pena te doía

Afinal já regressas. É janeiro
tempo de milho verde. Uma andorinha
um broto de buriti nos anunciam
tua volta completa e sem palavra
A coisa amarga
Girirebboy circula nosso peito
e Karori a libélula pousando
no silêncio de velhos e de novos
é como o fim de todo movimento
A manada dos rios emudece
Um apagar de rastros um sossego
de errantes falas saudosas, uma paz
coroada de folhas nos roça
e te beijamos
como se beija a nuvem na tardinha
que vai dormir no rio ensanguentado
Agora dormes
um dormir tão sereno que dormimos
nas pregas de teu sono
Os que restam da glória velha feiticeiros
oleiros cantores bailarinos
estáticos debruçam-se em teu ombro
ron don  ron don
repouso de felinos toques lentos
de sinos na cidade murmurando
Rondon
Amigo e pai sorrindo na amplidão.