quarta-feira, 13 de dezembro de 2017

Dia de Gonzaga é também do forró de cabo a rabo


Posso até estar equivocado, mas acredito que o Brasil inteiro hoje, de alguma forma, fez referência a Luiz Gonzaga, o Rei do Baião, que nesta data faria 105 anos. Quanto mais por que hoje se comemora O Dia Nacional do Forró, e não poderia ser em outra data. Do Oiapoque ao Chuí, do Recôncavo Baiano a Ji-Paraná, no Mato Grosso, passando obviamente por Uruaçu (a cidade que fica no centro do Universo), alguém, neste dia, ouviu uma música do Lua, ou cantarolou um baião de sua autoria, ou dançou um xaxado em homenagem a sua doce figura.

Luiz Gonzaga nasceu, viveu e morreu como artista. Foi um apaixonado pelo seu povo, o nordestino pobre e sofrido. Amou o sertão, a caatinga, os gerais e o litoral desse Brasil tão imenso quanto desigual. Conciliou e reconciliou famílias afastadas por brigas sem pé nem cabeça. Ajudou músicos novos, como Dominguinhos, Fagner e tantos outros.
Gonzagão era pai de Gonzaguinha e filho de Januário, músicos de extraordinário talento. Januário fazia chover com sua sanfona de apenas oito baixos. E Gonzaguinha mostrou um Brasil novo, rebelde e inconformado com as injustiças sociais.
Luiz Gonzaga do Nascimento é Luiz porque nasceu no dia de Santa Luzia. Gonzaga porque este é o segundo nome de São Luiz Gonzaga. E Nascimento porque o menino nasceu no mês do nascimento de Nosso Senhor Jesus Cristo. Um cidadão com essa história na algibeira e todo o talento musical na alma só poderia se tornar um fenômeno da música brasileira.
Só poderia ser ele, Luiz Gonzaga, o ponto de referência para o Brasil homenagear o forró. 


O termo “forró”, segundo o folclorista potiguar Luís da Câmara Cascudo, estudioso de manifestações culturais populares, vem da palavra “forrobodó”, de origem bantu (tronco linguístico africano, que influenciou o idioma brasileiro, sendo base cultural de identidade no brasil escravista). Significa: arrasta-pé, farra, confusão, desordem. 
A versão mais verossímil, apoiada pelo próprio historiador Câmara Cascudo, é a de que Forró é derivado do termo africano forrobodó e era uma festa que foi transformada em gênero musical, tal seu fascínio sobre as pessoas.
Mas, nesses 105 anos de Gonzagão, o ideal mesmo é ouvir o próprio Luiz cantando sua tradicional Asa Branca, acompanhado de Orquestra Sinfônica. E um pouquinho de forró não nos fará mal algum...


sábado, 2 de dezembro de 2017

Dia Nacional do Samba quando cai num sábado...



Ari Barroso, mineiro, genial compositor de Aquarela do Brasil, foi conhecer a Bahia somente depois de ter feito o samba Na Baixa do Sapateiro. O dia? Era 2 de dezembro do ano de 1940. E, por isso mesmo, essa data acabaria se tornando o dia nacional para as comemorações do Samba. Era comum essa comemoração ficar restrita a Salvador e Rio de Janeiro. Hoje, não... felizmente. Ela se espalha pelo Brasil inteiro, assim como a paixão pelo samba e pelo futebol. E este ano, ainda por cima, caiu num sábado...
O samba cresceu e se desenvolveu até mesmo em São Paulo, onde poucos acreditavam que isso viria a acontecer. Vinícius de Morais chegou a dizer que São Paulo era o túmulo do samba. O poetinha dessa vez errou – e feio! Graças à população negra do Largo da Banana, na Barra Funda, o samba começou a fincar suas raízes, que frutificariam na Escola de Samba Camisa Verde e Branco. Das comunidades do Bixiga, os cordões carnavalescos fariam nascer a escola Vai-Vai. Isso tudo entremeado pelo talento de compositores como Paulo Vanzolini e Adoniran Barbosa.


As comemorações vão de Norte a Sul deste imenso Brasil. Percorrem o Norte e o Nordeste, passando pelo Centro-Oeste e desaguando em Porto Alegre. Até Brasília, capital da modernidade, tem seus espaços para os sambistas e apaixonados por esse ritmo tão brasileiro. Mas, tudo tem uma origem, e precisamos preservá-la.
No dia 27 de novembro de 1917, por exemplo, um cidadão chamado Ernesto Joaquim Maria dos Santos, popularmente conhecido por Donga, entrou na Biblioteca Nacional, no Rio de Janeiro, e registrou a partitura de Pelo Telefone, que ficaria conhecido como o primeiro samba gravado no Brasil. Cem anos depois, o Samba está aí, firme, forte, altivo, elegante, majestoso, popular e consagrado como o maior sustentáculo da verdadeira e autêntica Música Brasileira.

O samba sobreviveu aos ataques de mediocridade espalhados pelo universo da música pelos meios de comunicação, os mais poderosos principalmente. Neles, o espaço esteve sempre reservado para as músicas comerciais, descartáveis, no rol do sertanejo, do pagode, do funk e de um forró de baixa qualidade e pouco criativo.
O samba resistiu porque é capaz de aglutinar tendências e de estancar preconceitos e diferença de toda e qualquer natureza. Se enriqueceu ao receber influências diversas, sem perder a riqueza do seu sincopado, o tom do lamento e a variedade de temas. O historiador André Diniz tem uma frase lapidar, em seu livro o Almanaque do Samba (editora Zahar):  


“O samba é uma porta importante para entender a
 diversidade da cultura brasileira, as suas identidades. 
Acho que o samba tem as duas coisas, a construção modernista
 da valorização da mestiçagem e, é claro, a escolha 
pela própria sociedade como um gênero 
predileto nacional no século 20”.

Comemorar o século do samba é um orgulho para nós, apaixonados pela música e pela cultura popular brasileira. O samba não morreu, nem morrerá, jamais, e vai continuar a levantar nossa estima e a preservar a boa música e o bom gosto. De Donga e João da Baiana, passando por Noel Rosa, Ary Barroso, Dorival Caymmi, João Gilberto, Adoniran Barbosa, Paulo Vanzolini, até Paulinho da Viola, Chico Buarque, Caetano Veloso, Cartola, Dona Ivone Lara, Paulo César Pinheiro, e tantos outros! Podemos dizer com orgulho: O coração do brasileiro não bate, batuca!
Saravá, irmãos!



sábado, 2 de setembro de 2017

4º Prêmio Profissionais da Música homenageia Menescal


O acorde inicial do 4º Prêmio Profissionais da Música será no dia 12 de setembro, durante um brunch no Pier 21, no Setor de Clubes Sul de Brasília. Neste dia será lançada a campanha de divulgação desse evento que veio pra ficar, ganhou espaço próprio e se consolidou definitivamente no calendário artístico de Brasília. Sob o comando do músico Gustavo Ribeiro de Vasconcelos, a 4ª edição vai homenagear ninguém mais, ninguém menos do que Roberto Menescal (foto acima): músico, autor, produtor, instrumentista e um dos grandes ícones da música brasileira.


Roberto Menescal, aos 80 anos de idade, com 50 anos de carreira, é autor de clássicos como O Barquinho”, “Você, Nós e o Mar” e “Rio”. O artista capixaba também participou de trilhas sonoras de filmes como Joana FrancesaBye Bye Brasil e Sabor da Paixão, e tem quatro livros biográficos publicados. Menescal continua se apresentando ao redor do mundo, além de atuar como produtor musical. A escolha do homenageado não podia ser mais perfeita.


O Prêmio Profissionais da Música foi idealizado por Gustavo (foto) para expor e reconhecer a contribuição de diversos profissionais envolvidos na criação, produção e circulação de obras e produções musicais e audiovisuais. As inscrições nas 60 categorias concorrentes poderão ser realizadas a partir do dia 17 de setembro até o dia 17 de dezembro deste ano. O já consagrado evento será de 16 a 21 de abril de 2018, também no Pier 21. Veja o vídeo promocional do evento e uma pitada de Roberto Menescal com Nelson Faria.





sexta-feira, 1 de setembro de 2017

As Caravanas do Chico passam, enquanto os cães ladram


Muito se tem dito sobre Chico Buarque de Holanda. Boa parte, melhor seria se não tivesse sido pronunciada. Evitaríamos tanto dissabores, incorreções e até mesmo injustiças sobre esse cidadão que é sem dúvida um dos maiores e mais completos artistas da cultura brasileira. Intempéries ditas tanto no plano pessoal, político, ideológico, quanto no que diz respeito ao conteúdo do seu trabalho e às interpretações sobre peças que compõem seu universo artístico.
O volume de bobagens que já foi dito sobre Chico Buarque daria para escrever uma enciclopédia, um bê-à-bá da bestialogia que assola o país. A mais recente delas, a interpretação que fizeram feministas sobre a música Tua Cantiga, que compõem o belo e delicioso CD Caravanas, lançado no final do mês de agosto. Pequenas mentes medíocres que não conseguem enxergar na arte a diferença que existe entre personagem e pessoa.

Desde a Banda até As Caravanas, que dá nome ao novo disco, Chico atravessou o tempo, gerações as mais diversas, avanços tecnológicos e modismo de todas as espécies, até chegar aos tempos da comunicação on line, das redes sociais, da paixão e do ódio virtuais mesmo que flagrantemente reais. A obra dele é tão boa hoje como no passado, mas encontra dificuldade de se comunicar com o presente. O presente é cruel e superficial. Chico é tratado nas redes sociais como se fosse um burguesinho que acredita no socialismo, mas tem apartamento em Paris e representa o universo acadêmico, por ser filho de um historiador e de ter sido, sem nunca ter sido, beneficiado pelas benesses do poder, entre elas, a Lei Rouanet. Tempos tão difíceis como os da ditadura militar. Agora, a ditadura da intransigência.
Mas Chico Buarque de Holanda é superior a tudo isso. É o compositor mais completo da Música Popular Brasileira, embora não seja o melhor músico e nem o único e extraordinário letrista. Sua obra é ampla, repleta, exuberante, sensível e apaixonante. Quem não a conhece por inteiro não sabe o que está perdendo. Mas, nunca é tarde para fazê-lo. Isso tudo sem falar do Chico da literatura, dos musicais, das trilhas sonoras e outras versatilidades.
Mais uma boa oportunidade para conhecer e apreciar tanto talento está nesse impecável trabalho chamado Caravanas. O artista reforça o amadurecimento musical que já se mostrava no CD Chico. Vai do blues ao samba, passando pelo bolero, sem perder o lirismo, jamais, o talento e o bom gosto, que sempre fizeram parte de seu vasto repertório artístico.


Certa vez, li em algum lugar a opinião do compositor Ismael Silva de que “Chico Buarque é samba”. É, sim, essencialmente o samba que está na raiz da nossa cultura. Mas, um compositor que, graças a seu talento e sensibilidade, soube plainar por todos os estilos, ritmos, tendências e modismos, sem perder a ternura e sem abandonar suas raízes.
Salve Chico. Parabéns por todos esses anos de dedicação plena à cultura. Parabéns por mais um belo disco. O ZecaBlog, humildemente, agradece.
Pode-se até dizer que enquanto As Caravanas de Chico passam, os cães ladram!




domingo, 27 de agosto de 2017

"Ô, sorte"! gritam no céu ao receber Wilson das Neves


A cultura brasileira perde mais uma batalha na eterna luta pela sobrevivência e pela supremacia do talento e dos valores artísticos. Wilson das Neves se foi, neste sábado, aos 81 anos de idade, vítima de câncer, em um hospital na Ilha do Governador, no Rio de Janeiro. Carioca da gema, carregava consigo a alegria, a descontração e a paixão pelo samba. Músico, baterista, compositor e cantor, participou da gravação de 800 discos de artistas como Caetano Veloso, Elis Regina, Clara Nunes, Cartola, Nelson Cavaquinho, João Nogueira, Roberto Carlos e Sarah Vaughan, além de ser baterista de Chico Buarque de Holanda há mais de 30 anos.
Só se lançou como cantor em 1996, com o disco O Som Sagrado de Wilson das Neves, mas deixou gravados outros três álbuns: Brasão de Orfeu, Pra Gente Fazer Mais Um Samba e Se Me Chamar, Ô Sorte, brasão que o tornou conhecido no mundo artístico do Rio de Janeiro e teria sido criado pelo cantor Roberto Ribeiro.


Autor de sambas elegantes e melodias bem elaboradas, Das Neves era querido em todo o meio musical. Seu corpo será velado, neste domingo, na quadra de samba da escola Império Serrano, que declarou luto de três dias.
Mais uma perda significativa para a Música Popular Brasileira, que, muito recentemente, perdeu Luiz Melodia, também derrotado na luta contra um câncer. Wilson das Neves deixa uma contribuição extraordinária para a arte e a cultura brasileira. Mais um a reforçar o time de talentos que se aninham lá no céu. A turma de lá, com certeza, deve estar usando o bordão “ô, sorte”.
Nós, daqui, ficamos com a saudades e a bela herança que ele deixou no universo da música.






sábado, 26 de agosto de 2017

Mônica Salmaso resgata o talento caipira de um Brasil rural


Em 2014, Mônica Salmaso nos encantou com o belo CD Corpo de Baile (para ler clique aqui), resgatando e revelando canções maravilhosas de Guinga e Paulo César Pinheiro. Neste mês de agosto, lançou o disco Caipira, um mergulho profundo e requintado às raízes de um gênero musical que é a cara do interior brasileiro, principalmente de São Paulo, Minas Gerais, Goiás e Mato Grosso. Mônica alia seu talento de cantora à paixão pela pesquisa de informações e peças que compõem o cenário musical brasileiro.
Caipira é uma prova inconteste da importância dessa artista para a música popular brasileira. Um projeto que começou a tomar forma há 14 anos, quando ela foi apresentar o show Casa de Caboclo, promovido pelo Sesc de São Paulo. Nesse mergulho ao longo de mais de uma década, Mônica Salmaso visualiza um universo mais ruralista do que propriamente caipira, o que dá ao álbum, além de requinte de arranjos e harmonias, uma amplitude temática capaz de incluir Alvoradinha e a alma nordestina, com suas tradições orais e religiosas, o talento baiano de Roque Ferreira, Gilberto Gil e Nana Caymmi, além do requinte carioca de Cartola, com a tragédia passional de Feriado na Roça.


No bom sentido, Mônica Salmaso, dessa vez, pulou o corguinho, num salto de qualidade que leva consigo a viola caipira de Neymar Dias, um dueto com Rolando Boldrin, canções como Minha Vida (Carreirinho e Vieira, de 1955), a belíssima Leilão (Hekel Tavares e Joracy Camargo, de 1933) e o sucesso Saracura Três Potes (Cândido Canela e Téo Azevedo), gravada em 1983 por Tonico e Tinoco.

Baile Perfumado é uma toada cheia de melancolia, composição de Roque Ferreira e participação de Robertinho Silva na percussão. Ainda de Roque Ferreira, tem o samba Água da Minha Sede, em parceria com outro carioca, Dudu Nobre, e que foi gravada por Zeca Pagodinho. Com sofisticada musicalidade, Mônica Salmaso e Teco Cardoso – flautista, parceiro na direção e produtor do álbum – transpõem essa canção para o mundo caipira.
É preciso ouvir para sentir a delícia poética de Primeira Estrela de Prata (Rafael Alterio Rita Alterio, de 2013), que já foi gravada com o título de Lua Madrinha. O disco todo é um deleite para a nossa sensibilidade. Traduz e enaltece um Brasil rural, interiorano e ao mesmo tempo sofisticado e grandioso.
Mais um álbum para mostrar que a música popular brasileira não perdeu sua capacidade de produzir obras primas. Que venham outros.





sexta-feira, 4 de agosto de 2017

Luiz Melodia morre aos 66 anos e deixa saudades


A música popular brasileira perdeu hoje um dos seus maiores representantes. Morreu, vítima de um câncer que atacou a medula óssea, o cantor, compositor e músico carioca Luiz Melodia. Um talento a menos nesse universo tão pobre de novas revelações à altura da grandiosidade da música brasileira. Melodia tinha 66 anos e morreu às 5h da madrugada de hoje (04/08), no Hospital Quinta D’Or.
O que mais me impressionou na carreira desse artista, do Estácio, criado no morro de São Carlos, foi o seu talento como intérprete. Um timbre de voz muito bonito, e o que me encantava mesmo era sua capacidade de brincar com a melodia, inventando no fraseado, criando um estilo próprio e cheio de suingue. Sempre me chamou a atenção esse seu jeito muito próprio de interpretar, desde que lançou o LP Pérola Negra, em 1973.


Depois, veio o “Festival Abertura”, da TV Globo, no ano de 1974, em que ele chegou à final com a música Ébano. A partir daí, foram diversos discos, com músicas de sua própria composição, mas também interpretações de outros compositores, sempre dando à canção uma roupagem muito pessoal.
Esse surgimento de Luiz Melodia no cenário musical coincidiu com o meu período de estudante de Comunicação, na Universidade de Brasília. Via o cantor e compositor como um jovem que desceu o morro de São Carlos, no bairro do Estácio, para enfrentar, desafiar e zombar da classe média carioca. Negro e pobre, tinha apenas o talento musical para vencer na vida. Soube usá-lo com maestria.
As interpretações de Luiz Melodia com outros cantores são, de um modo geral, impressionantes. A sensação é a de que ele consegue transmitir para o parceiro toda sua garra de intérprete, toda a paixão que coloca em seu canto.
Chama-me a atenção particularmente esse vídeo abaixo, ao lado de Elza Soares. Também sua interpretação magistral para a belíssima Estácio Holly Estácio. Muito suingue, muita bossa e uma capacidade extraordinária de valorizar as músicas que escolhia para interpretação.
O Brasil inteiro está de luto. E o ZecaBlog rende, humildemente, suas homenagens ao extraordinário talento desse artista.




domingo, 30 de julho de 2017

Dia Mundial do Orgasmo cai numa segunda-feira...


O maridão tá trabalhando e recebe mensagem da esposa pelo WhatsApp.
- Amor, tô indo pra casa, e você?
- Tô trabalhando, né, meu bem. Alguém tem que trabalhar nessa família... rs. E você? Já está indo pra casa, nesse horário?! Chefe bom, hem...?
- Comemorar, né, querido!
- Comemorar?!? – Vichi! Baixa o desespero, começa a indagar a si mesmo: será o aniversário dela? Dia do casamento, não é. Dia dos Namorados... também, não.
- Hoje é Dia do Orgasmo, né, meu amor! Vai me dizer que já esqueceu?
- Ah... (mentindo) num tinha esquecido, não...! É que estou sobrecarregado de serviço, aqui. Tá difícil sair do trabalho...
- Bom, só pra te avisar: lá em casa vai ter comemoração de qualquer jeito! Com ou sem a sua presença!
O cara enlouquece. Dá um jeito de ir embora, mesmo correndo risco de perder o emprego.


É comemoração para todo gosto nesse mundão de Deus. Na verdade, começa a faltar dia no calendário e sobra comemoração. Os deputados distritais de Brasília, por exemplo, adoram incluir no calendário oficial eventos inimagináveis! Recentemente, foi publicado no Diário Oficial do DF, a inclusão no calendário do jogo “Casados e Solteiros”, dos moradores da Metropolitana do Núcleo Bandeirante. Pode?!
O mais complicado este ano é que o Dia Mundial do Orgasmo cai numa segunda-feira. Muita gente considera esse dia da semana brochante pela própria natureza. Para suavizar essa perspectiva (se é possível isso!), é bom lembrar que essa data está no calendário dos homens, não no de Deus! Pelo calendário religioso, dia 31 de julho é dia de Santo Inácio de Loyola, que era apaixonada pelas lutas nos campos de guerra e pelas noitadas festivas na corte. Tudo a ver... Mas, ele trocou a orgia para servir a Deus e salvar almas.
O que se deve fazer no dia consagrado mundialmente ao orgasmo? Buscar o prazer intenso, imensurável, durante as 24 horas do dia? Ou fazer um retiro espiritual, em agradecimento aos orgasmos alcançados desde a última comemoração?


Aqui em Brasília, nesta época, faz tempo seco, temperatura agradável, não faz calor e há um friozinho bastante sugestivo. Já passamos dos jogos olímpicos, é verdade, mas, pode-se até criar competições, maratonas, e quem alcançar melhor resultado, leva medalha de ouro.
Abro um parêntese para lembrar a situação daquele famoso personagem de uma sugestiva piada. Participando de um simpósio, respondeu à pergunta de quantas vezes fazia sexo por ano: “Uma vez, uma vez, uma vez! ”. E o coordenador do evento perguntou: “Tudo bem, mas por que tanta euforia? ”.  E ele, ainda eufórico, gritou: “Porque é hoje, é hoje, é hoje! ”. Suponhamos que o dia dele coincidisse com a data consagrada mundialmente ao orgasmo... O camarada iria arrebentar o auditório do simpósio...
Dizem os entendidos no assunto que não se deve ficar falando demais sobre sexo. Corre-se o risco de ser confundido com porta-voz do sexo oral. Por falar nisso, e já falando além da conta, lembro que tínhamos uma colega de trabalho, nos tempos de funcionários do Banco do Brasil, que achava que sexo oral era conversar sobre sexo. Revelou tal ignorância sobre o tema morrendo de rir, com o rosto vermelho e as lágrimas escorrendo pela face.
Já falei demais. Daqui a pouco, vão dizer que eu não tenho qualquer vocação para comemorar tal data... É melhor ler poesia e ouvir música.

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Mademoiselle Furta-Cor
Armando Freitas Filho

Eu conheço o seu começo:
ponto e novelo,
meada de mel e langor
de lentos elos
que a minha língua lambe
no calor despido,
no meio das suas pernas:
anéis de cabelos,
anelos e nós se desmancham
em nada ou nódoa
por todo o lençol do corpo
nu e amarrotado:
nós aqui somos todos laços
e nos rasgamos
devagar – poro por poro;
rumor de sedas
ou de uma pele toda feita
de suor e suspiro:
eu soluço a cada susto seu
que nos dissolve.


Lugar
Simone Teodoro

Aqui
onde foi abolido o hímen
úmido hífen

Aqui
onde a língua é dinâmica
e dedos são talheres

Aqui
onde o grelo
destrona o falo

É rijo
É lindo
É talo




sábado, 29 de julho de 2017

Pequenos instantes, porque hoje é sábado


Instantes
Nadine Stair

Se eu pudesse novamente viver a minha vida,
na próxima trataria de cometer mais erros.
Não tentaria ser tão perfeito,
relaxaria mais, seria mais tolo do que tenho sido.

Na verdade, bem poucas coisas levaria a sério.
Seria menos higiênico. Correria mais riscos,
viajaria mais, contemplaria mais entardeceres,
subiria mais montanhas, nadaria mais rios.
Iria a mais lugares onde nunca fui,
tomaria mais sorvetes e menos lentilha,
teria mais problemas reais e menos problemas imaginários.

Eu fui uma dessas pessoas que viveu sensata
e profundamente cada minuto de sua vida;
claro que tive momentos de alegria.
Mas se eu pudesse voltar a viver trataria somente
de ter bons momentos.

Porque se não sabem, disso é feita a vida, só de momentos;
não percam o agora.
Eu era um daqueles que nunca ia
a parte alguma sem um termômetro,
uma bolsa de água quente, um guarda-chuva e um paraquedas e,
se voltasse a viver, viajaria mais leve.

Se eu pudesse voltar a viver,
começaria a andar descalço no começo da primavera
e continuaria assim até o fim do outono.
Daria mais voltas na minha rua,
contemplaria mais amanheceres e brincaria com mais crianças,
se tivesse outra vez uma vida pela frente.
Mas, já viram, tenho 85 anos e estou morrendo.


Instantes
José Carlos Camapum Barroso

Felicidade, uma constante
Derivada do instante
Que se perde no infinito.
Ecoar do próprio grito,
Na imensidão da noite,
Desperta no alvorecer.

O nascer e o renascer
De quem viu a escuridão:
Um dia, sim; outro, não.
Lusco-fusco do entardecer,
De repente, opõe à luz
Um ser postado em cruz...

A felicidade retorna... e vai.
O dia passa, a noite cai,
Como estrela cadente...

Como recolher de passarinhos
Ao ninho, depois do último canto.
O sereno encanto,
Da felicidade ao amanhecer.

Como o despertar do ser,
Na dimensão do próprio grito,
Na imensidão do Universo...

A vida segue os versos
Da eternidade do infinito.

quarta-feira, 26 de julho de 2017

Dia de Santana, dos avós e Bodas de Aventurina


Dia 26 de julho é uma data especial para esta criatura, meus vínculos com a cidade de Uruaçu (GO) e por ter casado justamente nesse dia. No calendário, o 26 de julho está reservado a Nossa Senhora Santana, padroeira de Uruaçu. É também Dia dos Avós, personagens tão singulares em nossas vidas, principalmente nas nossas memórias de infância e pré-adolescência.
Meus avós paternos, Ana de Alencar Camapum e Antônio Pereira Camapum, estão sedimentados, de forma carinhosa, na minha memória. Ana de Alencar, dona Naninha, era uma figura esquálida, pequena, de pouca visibilidade. Não se enquadrava naquele exemplo clássico de vó.  Não era de nos agasalhar no colo, fazer gracinhas, dengos e outras peripécias que tanto entusiasmam as crianças. Mas, gostava de presentear. Costumava aproximar-se de nós com um dinheirinho enrolado na mão, dizendo: “toma meu filho, para comprar um refrigerante”.


Meu avô Toinho, Antônio Pereira Camapum, era mais pragmático. Convivi poucos anos com ele, que era bem mais velho do que minha avó. Foi o suficiente para aprender o lado prático da vida. Ensinou-me a fazer poupança, ganhar dinheiro vendendo laranja, pirulito, engraxando sapatos nas ruas. Dele era difícil conseguir algum trocado; o bolso da calça era muito fundo...
Nossos avós nos ensinaram a sermos caridosos, solidários e a fazer orações antes de dormir – rezar um Padre-Nosso, uma Ave-Maria e concluir, dizendo: “Com Deus me deito, com Deus me levanto, na graça de Deus, Espírito Santo”. Amém. Recentemente, descobri que vovô Toinho e vovó Naninha são padrinhos de batismo de Benigna Cardoso da Silva, de Santana do Cariri, no Ceará, mártir daquela cidade cearense e que está em processo de beatificação junto ao Vaticano.


São lembranças que veem à memória neste dia 26 de julho, dos Avós e de Nossa Senhora Santana, padroeira de Uruaçu. Época também das barraquinhas, com seus leilões, correios elegantes e outras tradições que quase não se veem mais.
É também a data do meu casamento com a Stela, que chega aos 37 anos de vivência, convivência e sobrevivência. Acrescentei mais alguns versos ao poema que começou a ser elaborado quando fizemos 31 anos de casados. Nesse ritmo, vai ficar maior do que os Lusíadas, de Camões. 
Como o tempo passa a rápido, mas as lembranças ficam guardadas nos nossos corações.

O passar do tempo
José Carlos Camapum Barroso

O amor, quando faz
Trinta e alguns anos,
Deixa a concha
De madrepérola,
Pois, ao sair do papel,
Em plena lua de mel,
Enrolou-se no algodão.
Em meio a buquê de flores.
Fez-se duro como madeira,
Entrelaçada de amores...

O sabor do açúcar trouxe
O perfume da papoula,
Que passou pelo barro
E foi virar cerâmica
(Sem quebrar a louça).
Ah... todos esses anos...

Quantos desenganos
A envergar o aço,
A desafiar o abraço,
A rasgar seda, cetim.
O linho trouxe a renda
E as bodas viraram marfim.
No resplandecer do cristal,
A turmalina cor de rosa
Desaguou na turquesa...
Ao amor e sua beleza,
Juntou-se a maioridade.

O que fazer agora, então?
A água-marinha já não
Banha a mesma porcelana...
Resiste a louça, coberta
Em palha, guardada
Em opala, que desperta
O brilho fino da prata...

Como passam os anos...
Novos e novos desenganos
Trazem um cheiro de erva
Ao amor balzaquiano...
Tudo agora é pérola!
E a força do Nácar ajudou
A passar trinta e um anos.

Como não ficar sozinho...?
Entre anos e desenganos,
Vieram as Bodas de Pinho.
E nós, em nosso ninho,
A aguardar indecisos:
O que será meu Deus
Essa tal Bodas de Crizo?
Aos trinta e três anos...
Melhor seria “Bodas de Cristo”.

Os dias se passaram...
Agora podemos caminhar
Rumo às Oliveiras...
Símbolo da amizade,
Da paz e prosperidade.
Um ramo apenas bastará,
A nos encher de esperança.
Depois de tanta turbulência,
Teremos “terra à vista”.
Sinal que a vida continuará
A nos oferecer conquistas!

Debaixo da Oliveira,
O tempo passa devagar,
Suas folhas são perenes,
Nos deixam mais serenos
A espera do amanhecer...
Árvore da prosperidade,
Bendita e bem-vinda
Até que o sol possa nascer.
Vamos caminhar pela praia,
Onde os corais de uma nova
Vida irão resplandecer.

Corais sedimentados,
Incrustados e fortalecidos
Pelos grãos de areia...
Depósito compartilhado
De alegrias, dores e amor...
Logo, logo, chegarão
As Bodas de Cedro,
Árvore de tronco largo,
A sustentar sonhos
E lembranças tão altos,
Distantes e altivos,
Que nem a vista alcança.

Madeira de lei
A sustentar nosso leito,
A fortalecer no peito
Mais um ano de caminhada.
Essa a nossa estrada,
Com sabores e dissabores
Superados pelo chá
Do Cedro-Rosa
E pelo óleo milagroso
Dessa madeira vermelha.
Do alto de seus galhos,
Podemos o futuro avistar:
Há uma pedra no meio
Do caminho... no meio
Do caminho, uma pedra há:
Nossa aventurina,
De tantas aventuras,
Com seus fluidos benignos,
Pronta para nos agasalhar.
Pedra esverdeada
Que emociona e purifica.
Traduz a maturidade
De uma vida tão rica
De prazer e criatividade.

Novas bodas vão chegar,
Desta vez no Carvalho
De um barril de vinho
Armazenado no coração.
Serão, então, 38 anos,
Outros tantos ainda virão!