sábado, 18 de maio de 2019

Viola Perfumosa lembra Inezita Barroso e Villa-Lobos


Continuo dizendo, como disse em outras oportunidades neste espaço, que a música brasileira é de uma riqueza inestimável e uma capacidade extraordinária de nos surpreender. Com a indústria cultural, o que aparece e faz sucesso são as músicas e os artistas descartáveis, nos quais a qualidade artística pouco importa, se ela existir é apenas um detalhe. Os bons compositores e intérpretes de qualidades transitam por um limbo, como se fossem almas penadas em busca da salvação.
Esse nariz de cera, ou prolegômenos, como queiram, está posto porque descobri mais um disco maravilhoso, lançado no ano passado, sobre o qual pouco se sabe, e muitos nada ficaram sabendo. Tem o delicioso nome de Viola Perfumosa. É obra e arte do trio formado pela mineira Ceumar (violão, canto e percussão), o carioca Lui Coimbra (canto e violoncelo) e o paulista Paulo Freire (viola e canto), que se juntaram para gravar um disco em homenagem à Inezita Barroso (para ler sobre ela, clique aqui), uma das mais emblemáticas artistas da música popular brasileira.


No repertório, estão sucessos como Luar do Sertão (João Pernambuco e Catulo da Paixão Cearense), Tamba-Tajá (Waldemar Henrique), Índia (versão de José Fortuna) e Amo-te Muito (João Chaves). Como é uma homenagem a Inezita, não poderia faltar A Marvada Pinga (Ochelsis Laureano). Esse é o disco que seria o dos sonhos dessa paulista, que nos deixou em março de 2015, aos 90 anos de idade, a maior parte deles dedicada a música popular e ao folclore brasileiro.
O álbum é basicamente executado pelos três, contando apenas com o pandeiro de Marcos Suzano, em algumas gravações. A instrumentação, toda ela conduzida basicamente pela viola de Paulo Freire, o violão e as percussões de Ceumar, o violão, violoncelo, rabeca e charango de Lui Coimbra, têm trejeitos de música de câmera.


O disco é conduzido em formato de prosa, com direito a “causos”, conversas, mas sem com isso perder, em momento algum, a ternura e um grande rigor na execução. Fui descobrir essa obra-prima graças a um zap recebido do amigo Nélio Bastos, como eu, um apaixonado pela boa música brasileira.
Em tempos de funk, sertanejos universitários e outros desarranjos que são tocados por aí, esse disco vem lavar a nossa alma, nos enche de ternura e contentamento. A interpretação de Horóscopo (Alvarenga, Ranchinho e Capitão Furtado), por Paulo Freire é uma graça, e nos remete à obra desse paulista, sempre repleta de prosas e “causos”. No álbum, Lui Coimbra é responsável pelo toque camerístico, que nos dá uma boa ideia do interessante diálogo da obra de Villa-Lobos com a cultura popular. Com o talento desse carioca, o disco acaba homenageando também Villa-Lobos.
Ouçam, apreciem essa Viola Perfumosa, ela tem brilho, cor, cheiro e gostinho de Brasil do interior!

domingo, 12 de maio de 2019

Ser mãe e todo o encantamento que ela nos traz


Falar sobre Mãe é ao mesmo tempo fácil e difícil. Todos nós temos muito a dizer sobre o valor e a grandeza desse ser tão especial. Mas, ao mesmo tempo, as dificuldades são muitas. A principal delas é ter a inspiração suficientemente grandiosa e à altura de tanta beleza, quantas qualidades e inúmeros exemplos de abdicação.
Mãe é uma palavra que não tem outra que com ela rime na língua portuguesa. Pelo menos, não encontrei. É tão diferente de tudo que inimaginável a existência de algo com essa mesma sonoridade, que vem da alma, das entranhas do coração.


Uma afirmação questionável é a de que mãe só se tem uma. Além da minha Iracema, o ser tão especial na minha vida e dos meus irmãos, tive várias que podem ser consideradas mães. Minha tia Enoy, que foi minha babá, minha madrinha Maria Camapum, Tia Vandira, tia Irani e tantas outras que já referenciei num post antigo aqui no blog (para ler, clique aqui). Nesta lista, acrescento Vanessa Dumont Barroso, a mãe do meu neto Juliano.
Dito isso, resolvi homenagear as mães, neste segundo domingo de maio, com essas belas e sublimes palavras do mestre Itaney Campos, grande amigo, desembargador, poeta e escritor, no poema Ode às Mães. Resgato a minha poesia Outro Ser, que traz o desejo maior de todos os seres: a possibilidade de ter em nossas vidas a beleza e a grandeza das mães.


É um dia muito especial. Nele, a humanidade faz uma pequena pausa para homenagear um ser que tem todas as qualidades que deveriam ser próprias da natureza humana: amor, dedicação, solidariedade e humildade.
Parabéns! Beijos a todas as mães do mundo! A elas ofereço essa bela canção de B. J. Thomas, que sempre tocou minha alma e a de milhões de pessoas em todo o mundo. Quando nasci, minha mãe Iracema tinha exatamente 16 anos, como na música.





Ode ao Dia das Mães


Itaney Campos


Mãe nunca morre sozinha.
Com ela morre um pouco do filho, da infância, da história e dos segredos da família.           
Só a mãe os registra no frontispício da alma, na sua memória amiga, onde mais que na lembrança do filho, se reúnem seus tropeços, a fala intraduzível dos primeiros anos, os momentos de medo e as horas de pranto.                      
Com a mãe se vai a ternura única da entrega, o olhar de proteção e de muda advertência. 
No colo de mãe continuam germinando as sementes da vida, ainda que a estação dos frutos haja se esgotado, e nos seus seios há um incessante jorrar de leite, a alimentar a fome dos rios da existência. 
Sem mãe, não há terreno seguro, porque as fendas se abrem continuamente nas horas agrestes dos dias. Não há calendários sem mãe. O tempo se esvai na linha do caos. Não há a leveza da água transparente, a chuva amiga, acalanto dos nossos sonhos mais remotos e mais fecundos. 
Mãe nunca morre sozinha, leva consigo um mundo, mas deixa o legado indelével da vida.

Outro ser

José Carlos 
Camapum Barroso

Quem me dera dar à luz
Um filho e iluminá-lo pela vida.
Dar a ele o carinho protetor,
Esconder dele o pesadelo
E trazer o sonho de amor.

Acordar de madrugada
Abraçando sua presença,
Temendo pela ausência,
Livrá-lo do mal e da dor.

Quem me dera alimentar
Um filho com o próprio leite...
Protegê-lo com o sangue
Que jorra suave das veias.
Embalsamá-lo, se preciso...
Amá-lo eternidade afora.
Sem perder seu sorriso,
Nem escorrer gotas de lágrimas,
Trazê-lo antes de ir embora.

Quem me dera ter e ser
Tudo isso, Senhor, em vida.
E sonhar com a felicidade
Que das estrelas cadentes
Um dia tornar-se-ia desejo.

Noutra dimensão do sonho,
Este ser, então benfazejo,
Agora mais que humano,
Seria simplesmente Mãe!

domingo, 5 de maio de 2019

Beth Carvalho foi, mas deixou o samba autêntico e sublime


Quem não gosta de samba bom sujeito não é. Quem não gosta, ou não gostou, de Beth Carvalho não sabe o que o samba é.  Nem a beleza e a formosura que o samba tem. Essa artista maravilhosa, que nos deixou no dia 30 de abril, poucos dias antes de completar 73 anos de idade, não é apenas a madrinha do samba como é nacionalmente conhecida. Mais que isso. Ela é o próprio samba e tudo o que ele representa para a cultura brasileira. Beth é responsável pela consolidação desse gênero musical no país, com repercussões além das nossas fronteiras e direito a apresentação sonora em Marte. O samba é a nossa alma e tornou-se a principal coluna de sustentação da boa música no Brasil. 
Sua voz viaja em ondas sonoras pelos infinitos campos do universo, depois que a engenheira brasileira da NASA Jaqueline Lyra programou “Coisinha do Pai”, na voz de Beth, para acordar o robô em Marte. Mas, toda essa carreira de sucesso teve início já aos oito anos de idade, quando começou a dançar e ganhou de presente um violão dos avós. Depois que o pai foi preso pela ditadura militar, em 1964, começou a dar aulas e, um ano depois, gravou o primeiro disco, um compacto que trazia a canção Por Quem Morreu de Amor. A década de 1960 foi a dos festivais e o lançamento do primeiro Long Play (LP), em 1969, com a música Andança, de Edmundo Souto, Paulinho Tapajós e Danilo Caymmi, terceira colocada no Festival Internacional da Canção (FIC), de 1968.



Na década de 1970, Beth Carvalho consolidou sua carreira chegando a lançar, depois de 1973, um disco por ano, com sucessos como 1.800 Colinas, Olho por Olho, Coisinha do Pai e Vou Festejar. Também gravou canções de Cartola, como As Rosas Não Falam, e de Nelson Cavaquinho, com Folhas Secas.
Neste milênio, a cantora deslanchou de vez sua portentosa carreira. Ganhou prêmios, gravou seu primeiro DVD, em 2004, “Beth Carvalho, a Madrinha do Samba”, que lhe rendeu um DVD de Platina. O CD com o mesmo nome deu à cantora o Disco de Ouro e uma indicação para o Grammy Latino, em 2005. Foi homenageada na edição 2009 do Grammy Latino, em Las Vegas. Na ocasião, a cantora foi a primeira sambista a receber um dos reconhecimentos mais importantes da cerimônia, o prêmio Lifetime Achievement Awards.



Na década de 2010, ainda gravou algumas músicas, um DVD e fez shows. Mas, esses anos foram marcados por problemas de saúde, que começaram com dores na coluna, agravada por uma neuropatia, cirurgias e internações. No dia 8 de janeiro deste ano, foi internada e no hospital ficou até sua morte, no dia 30 de abril, de infecção generalizada.
Torcedora do Botafogo, a cantora era apaixonada pela Mangueira e pelo bloco Cacique de Ramos, onde, debaixo da Tamarineira, conheceu vários de seus apadrinhados e os ajudou a deslanchar na carreira, entre eles Zeca Pagodinho. Beth era tudo de bom e no seu site está escrito, muito apropriadamente:

"Beth é inquieta. Não espera que as coisas 
lhe cheguem, vai mesmo buscar. Pagodeira, 
ela conhece a fertilidade dos compositores do povo 
e, mais do que isso, conhece os lugares onde estão, 
onde vivem, onde cantam, como cantam e como tocam"

sábado, 27 de abril de 2019

Talento da goiana Grace Carvalho rompe fronteiras

 

Porque hoje é sábado, vamos falar de música. E de uma novidade que tivemos a oportunidade de conhecer em Goiânia, a capital de Goiás, meu estado natal. A cantora Grace Carvalho apresentou-se em uma festa do amigo, poeta e desembargador Itaney Campos, muito bem acompanhada pelo violão de sete cordas de Gleyson Andrade, o bandolim de Maximira Luciano, e Diego Amaral na percussão.
Dona de uma voz muito bonita, afinadíssima e uma intérprete segura e criativa, Grace também compõem e já lançou dois discos no mercado brasileiro. Caminhante, em 2010, com composições próprias, foi sua primeira empreitada. Em 2013, no Rio de Janeiro, lançou o segundo álbum, que leva seu nome, e é todo dedicado ao samba. Dessa vez, com apenas uma música de sua autoria, Poesia Alheia, que bem poderia ter dado título ao disco. Nove regravações homenageiam grandes nomes da Música Brasileira, como Noel Rosa, Paulinho da Viola e Paulo César Pinheiro.
Começou sua carreira no final da década de 1990, participando de teatro e cantando em shows na Universidade Católica de Goiás (atual PUC), onde cursou Psicologia. Descoberta sua paixão pela música, nunca mais se afastou desse ramo artístico. Fez cursos de formação musical, inclusive de canto com a cantora Fátima Guedes, em Brasília. De lá para cá, muitos shows em bares, casas de espetáculos e participação em festivais, não apenas no eixo Goiânia-Brasília, mas também na Bahia, São Paulo, Rio de Janeiro e algumas incursões pela Europa.



Grace se considera feliz com a carreira que abraçou. “O ano passado foi maravilhoso, de muito trabalho, e 2019 não está sendo diferente; me divido entre bares e eventos particulares”, acrescenta. Considera que a composição não é o seu forte, sendo “até mesmo uma frustração”, mas, “me permito experimentar e foi assim que abracei meu primeiro CD”. Depois, descobriu sua paixão pelo samba e com ele segue levando seu trabalho de intérprete, cheio de bossa e muito talento.
Grace Carvalho já tem um CD finalizado e só esperando o momento certo para ser lançado. Traz no repertório músicas autorais, de compositores goianos e do Rio de Janeiro. Como tem o gosto eclético, conta que dessa vez resolveu fazer incursões pelo reggae e pelo dub (estilo musical surgido na Jamaica na década de 1960) e que também são paixões da cantora.
Grace tem presença marcante no palco. Voz sua suave e muito bem colocada, mostra uma fina estampa e esbanja simpatia, nos palcos e fora deles. Considera que muitas cantoras a influenciaram, entre elas Elis Regina, Gal Costa, Marisa Monte, Mônica Salmaso, Jovelina Pérola Negra, Janis Joplin, Ella Fitzgerald e tantas outras que “foram e são minhas professoras”, conclui.



Com esse time a influenciá-la, todo o talento que tem e a boa formação musical, essa jovem nascida em Goiânia, no ano de 1980, tem muito futuro pela frente. O ZecaBlog recomenda aos amigos e amigas deste espaço, que conheçam o trabalho dessa cantora e compositora. Vale a pena. Nos dá prazer e contentamento nesse mundo tão carregado de superficialidades e de limitações.
Que venha o novo CD e muitas apresentações!

domingo, 31 de março de 2019

Nana Caymmi volta com um belo CD cantando Tito Madi


Nana Caymmi está de volta ao cenário musical. Como sempre, cantando maravilhosamente bem, com aquela voz bonita, bem colocada e afinadíssima. Mas, também, com a mesma verborreia que sempre caracterizou suas declarações e entrevista. Á Folha de S. Paulo, falou um monte de bobagem sobre política, mas, isso é outra história...
Vamos cuidar do novo CD. Nana Canta Tito Madi é uma obra à altura do compositor, que faleceu no final do mês de setembro do ano passado. E também um trabalho suficiente bom quando comparado com tudo que a cantora fez em sua bela carreira na Música Popular Brasileira. E lindo ad primeira interpretação à última, tendo seu ponto alto na ontológica canção Chove Lá Fora. Destaque também para Não Diga Não.
Nana disse que decidiu gravar um disco com canções de Tito Madi porque ele foi uma das primeiras paixões musicais da sua carreira. Segundo ela, são “memórias afetivas” as onze canções que compõem o CD. 

Pouco antes de ser internado, Tito Madi teve oportunidade de conhecer o disco ainda inacabado de Nana cantando suas canções. Ficou feliz e emocionado com o que ouviu. De lá pra cá, fiquei no pé da gravadora independente Biscoito Fino em busca de notícias sobre o lançamento do CD. Seis meses depois, está no mercado essa obra que marca a volta de Nana Caymmi ao cenário musical depois de mais de nove anos.
Tito Madi foi inspiração para nossa geração, influenciando o modo de cantar dos adolescentes do final dos anos 1960 e por toda a década seguinte. Nossa formação recebeu uma pitada da sua elegância, bem como o estilo de João Gilberto e dos cantores que estavam surgindo, como Caetano Veloso, Gilberto Gil, Chico Buarque, Geraldo Vandré, Milton Nascimento, e das cantoras Elis Regina, Gal Costa, Maria Bethânia e, claro, a própria Nana.
A notícia nada boa da entrevista de Nana Caymmi é a de que ela fará poucos shows com o repertório de Tito Madi. A notícia alvissareira é que ela pretende gravar, ainda no mês de abril, um CD com canções de Tom Jobim. E pretende incluir músicas desse futuro trabalho nos shows que irá fazer. Só citou São Paulo com uma das poucas cidades que receberão suas apresentações. Resta torcer para que Brasília seja contemplada com esse presente.



Outra informação boa. Ela não descarta a possibilidade de fazer mais um disco de músicas inéditas, que seria o último da sua carreira. Gravando ou não essa última obra da sua brilhante e longa carreira, disse à Folha que considera ter cumprido sua missão na música.
É verdade. Já cumpriu mesmo. Mas, nós, seus fãs, vamos continuar torcendo para que o CD de Jobim não seja o último. Que venham outras e tantas Nanas Caymmi. Com todo seu talento e sensibilidade musical invejáveis.
Aquele abraço, Nana!



quinta-feira, 14 de fevereiro de 2019

Bibi Ferreira, a luz e a voz a nos guiar para sempre


O que dizer de uma artista como Bibi Ferreira? Tarefa difícil porque o muito que já disseram ainda é pouco. Falar sobre personagens que são gênios não é tarefa fácil. Têm pessoas que se destacam ao longo da história humana pela excepcionalidade de suas atuações e ações naquilo que escolheram como profissão. Na música, a genialidade de Bach e Mozart impressionam há séculos. Na pintura, Monet, Picasso e Van Gogh... No futebol, o Pelé de dentro das quatros linhas era perfeito e, não por acaso, considerado o rei.
Nas artes cênicas, tanto dirigindo, quanto interpretando e cantando nos palcos, Bibi Ferreira tem lugar de destaque no cenário nacional e mundial. Expressão máxima de talento e profissionalismo. Dona de uma formação invejável, não apenas para atuar, mas também como cantora e dançarina. Subiu ao palco, pela primeira vez, conforme conta, quando tinha 24 dias de vida, no colo de uma atriz, substituindo uma boneca na peça “Manhãs de Sol”. Só se aposentou 94 anos depois dessa “estreia”, em dezembro de 2017.



Tive a oportunidade e o prazer de assistir dois espetáculos de Bibi Ferreira. O primeiro, nos anos 1980, em que ela interpretava a cantora francesa Edith Piaf, em “Piaf, A Vida de Uma Estrela da Canção”. Saímos do Teatro Nacional embasbacados, eu e minha mulher Stela, radiantes de alegria e contentamento. Um espetáculo e uma artista de se tirar o chapéu.
Depois, na década de 2010, vimos o show “Bibi – Histórias e Canções”, também no Teatro Nacional de Brasília. Levamos nosso filho Ramiro, que, então, tinha seu vinte e poucos anos. Ficou, como todo o público presente, encantado. E comentou: “como ela consegue, com essa idade, ter essa voz tão bonita, forte e limpa?”. 



Difícil responder a essa pergunta, bem como não é fácil falar de uma artista tão genial. Os gênios preenchem todos os espaços do universo por onde circulam e por onde fazem suas artes. Bibi é isso. Genial, insuperável, incontornável... uma luz eterna, que brilha com a mesma força e expressão da sua voz, independe da idade e em que dimensão esteja.
O mundo da cultura continuará a seguir seus passos, os caminhos deixados e guiar-se pela luz que brilha no horizonte. Seguem uns versinhos em sua homenagem...
Bibi é aqui,
Ali e além
De todos nós
Será sempre
Nossa luz
E nossa voz.



quinta-feira, 24 de janeiro de 2019

Cachaça Experience para harmonização e dose certa


Tudo nessa vida tem seu tempo certo, e sua dose certa, adequada. Com bebidas alcoólicas não é diferente. Muito pelo contrário. Além do tempo certo, é importante que o lugar seja adequado, as companhias agradáveis... e sempre na dose certa. Com a cachaça mais do que com outras bebidas é assim. Dose certa é o segredo.
Digo isso porque começa hoje, em Brasília, o Cachaça Experience, um evento para celebrar a mais genuína das bebidas brasileiras, a única que é 100% nacional. Acontece no Venâncio Shopping até sábado (26/01). Hoje e amanhã, das 18h30 às 20h, e no sábado, de 11h30 às 13. No cardápio, feira de produtores de cachaça, degustações, palestras, músicas e outras experiências.

Cachaças que estarão na feira que começa hoje e vai até sábado
Na programação de hoje, palestra sobre caipirinhas, com Kelly Costa. Para amanhã, está prevista “harmonização de cervejas, cachaças e petiscos”. Tema muito adequado para uma sexta-feira, à noite. No sábado, horário de almoço, adequadamente o tema é “do Le Cordon Bleu a mesa, a história da Authoral Cachaça”. O gastrônomo Eduardo Moreth, além de ter estudado gastronomia em Paris, tem passagem por diversas cozinhas como Le Bateau Ivre, La Vecchia Cucina, Mouraria, Quintal e Barracuda. Fala sobre esse tema e sobre sua trajetória na Authoral, que ajudou a ocupar o 14º lugar no Ranking da Cúpula da Cachaça.
A sabedoria popular ensina que quem não sabe beber cachaça não deve se meter a besta. Aliás, como toda e qualquer bebida, precisa ser apreciada com moderação, não por questões morais, mas, sim, por questões éticas e estéticas. A cachaça, popularmente também conhecida como pinga, é uma bebida que pode ser degustada prazerosamente, tal qual um bom uísque, um vinho de qualidade, uma cerveja ou rum.


Tudo isso, como disse antes, na dose certa. Passamos a ter consciência dessa peculiaridade e grandiosidade da cachaça como bebida de algumas décadas para cá. Isso porque o produto ganhou em qualidade, aceitabilidade no mercado, e nos tornamos mais conscientes quanto à melhor forma de aprecia-lo.
Criada há mais de 500 anos, a cachaça pode ser considerada a primeira bebida destilada das Américas e é cada vez mais consumida e apreciada mundo afora. O crescimento da exportação brasileira de cachaça, em 2017, por exemplo, entrou no ritmo de economia chinesa. O salto foi de 13,4% em relação a 2016, que já havia sido um ano de crescimento relevante em relação a 2015. Saímos de uma receita de US$ 13,3 milhões para US$ 15,8 milhões em dois anos.
E tudo isso na dose certa, no tempo adequado, com tira-gostos apropriados, boa prosa e bons amigos. Harmonização tem que ser completa.
Saúde!

sábado, 29 de dezembro de 2018

Hora de dar graças e de renovar nossos sonhos



Sempre assim. Fim de ano é tempo de coisas novas e velhas ocuparem espaços midiáticos.  Agora, elas ocupam também as redes sociais, onde se tem e se vê de tudo; inclusive e principalmente, nada. Terminamos por descobrir, ao final e ao cabo, que as coisas velhas não são tão velhas assim, e as novas não chegam a ser novidades no ritual repetitivo das passagens de ano. 
O final de 2018 não foge muito ao padrão de outros finais de ano. Nem o fato de ter sido um ano de eleições e Copa do Mundo trouxe “novidades novas”, como gosta de dizer o amigo Marco Túlio, Tuim. O rol de expectativas foi grande, mas acabamos nas mesmices de sempre.
Os desejos de Ano Novo são renovados, e vêm cheios de esperanças e sonhos. Todos temos certeza de que 2019 será melhor do que 2018, mesmo que algumas previsões apontem em direção contrária. Danem-se as previsões, principalmente as alardeadas pelos economistas de plantão. Eles sempre erram mesmo.
Se as previsões boas não se confirmarem e os nossos desejos não se realizarem, também não será o fim do mundo. Depois de 2019, virá o de 2020, abrindo as portas para mais uma década de esperanças e sonhos. E assim será, sucessivamente. Sempre assim.



O mundo, como dizia o poeta maior Carlos Drummond de Andrade, é vasto. Ele continuará a dar sua volta elíptica em torno do sol; e nós, aqui na terra, continuaremos a sacudir a poeira e a dar a volta por cima. (Um parêntese para lembrar que está de volta a teoria de que a terra é plana... fechemos rápido o parêntese).
Passagem de ano é bom para desejarmos o que há de melhor a todos. Faço minhas as palavras de Drummond no poema abaixo, nos belos versos de Desejos.
Republico meus versos sobre o Velho Ano Novo. Pequena reflexão sobre este momento tão comemorado e comentado mundo afora. Que 2019 encha os nossos olhos de alegria! A humanidade de poesia! E de música, os corações! 
Teremos mais chance de sermos felizes e enterrar de vez as previsões dos pessimistas. No mais, agradecer a Deus pelas graças alcançadas. Melhor ainda ouvindo Gratias agimus tibi, de Johann Sebastian Bach.

Velho Ano Novo
José Carlos Camapum Barroso

Fim de ano é roupa branca,
Alma limpa e coração aberto.
O amor de sempre por perto
E um pipocar de esperanças.

Champanhe explode no ar
E os fogos, em artifícios,
Colorem o céu de ilusões...

Risos e abraços nos salões,
Gritos e choros nas calçadas
Cobertas de lágrimas e suor.
Papel picado e lata de cerveja...

Vai a noite, some a lua...
Os primeiros raios de sol
Trazem o ano novo pra rua.
Garis fantasiados de homens
Varrem restos de alegria.
O bar se fecha, abre a padaria.
Os jornais chegam mais cedo
A estampar notícias velhas
E as previsões de sempre.

O ano foi ruim... Este será bom!
O ano acabou... O mundo, não!
O mundo...? É vasto o mundo.
Eu nem me chamo Raimundo. 
Muito menos, Drummond.

Desejos
Carlos Drummond de Andrade

Desejo a vocês...
Fruto do mato
Cheiro de jardim
Namoro no portão
Domingo sem chuva
Segunda sem mau humor
Sábado com seu amor
Filme do Carlitos
Chope com amigos
Crônica de Rubem Braga
Viver sem inimigos
Filme antigo na TV
Ter uma pessoa especial
E que ela goste de você
Música de Tom com letra de Chico
Frango caipira em pensão do interior
Ouvir uma palavra amável
Ter uma surpresa agradável
Ver a Banda passar
Noite de lua cheia
Rever uma velha amizade
Ter fé em Deus
Não ter que ouvir a palavra não
Nem nunca, nem jamais e adeus.
Rir como criança
Ouvir canto de passarinho.
Sarar de resfriado
Escrever um poema de Amor
Que nunca será rasgado
Formar um par ideal
Tomar banho de cachoeira
Pegar um bronzeado legal
Aprender uma nova canção
Esperar alguém na estação
Queijo com goiabada
Pôr-do-Sol na roça
Uma festa
Um violão
Uma seresta
Recordar um amor antigo
Ter um ombro sempre amigo
Bater palmas de alegria
Uma tarde amena
Calçar um velho chinelo.


quarta-feira, 21 de novembro de 2018

Amal Hussain, mais uma criança vítima da indiferença

Campo de refugiados no Iêmen

Irreconhecível humanidade em que uma criança de sete anos morre à míngua, desnutrida, com fome, cercada de potências econômicas e armamentistas por todos os lados. Foi assim que a pequena Amal Hussain deixou sua mãe Mariam Ali aos prantos, e um pai revoltado porque não tinha dinheiro para encher o tanque do carro e leva-la a um hospital. 
Morreu no dia 26 de outubro, no norte do Iêmen, país cercado pelas teocracias rivais do Irã e da Arábia Saudita. O mundo inteiro viu, ouviu e acompanhou toda a tragédia que assola mais de dois milhões de crianças que sofrem de desnutrição no Iêmen.
O nome de Amal em Árabe significa “esperança”. Segue um acróstico em homenagem a essa vítima da desumanidade:


Amada esperança
Morta na infância
Antes de ser criança...
Longe da existência.


Hígida nos braços,
Um olhar destroçado.
Silêncio refugiado
Sem bandeira nem paz
Ávida, a mãe chora:
Inocente de outrora
Nuvens de agora

sábado, 17 de novembro de 2018

Mais médicos, menos ideologias e uma saúde pública

                                                                                  Foto: Araquém Alcântara
Resolvi falar um pouco sobre a saída dos médicos cubanos no programa Mais Médicos. Antes de qualquer coisa, e acima de tudo, deixo claro que o considero um belo programa de saúde pública, embora esteja muito longe de ser a solução para os nossos problemas nesse quesito. Aliás, muito longe disso.
O programa foi um bom achado para dar assistência mínima a quem, nos rincões e nas áreas indígenas, não tinha socorro médico algum. Aí, vem o argumento contrário de que nessas regiões não existem infraestrutura. Bom, penso que é melhor um médico onde não há infraestrutura, do que a ausência dos dois. Para essas pessoas, costumo argumentar que, nessas regiões, uma parteira, um enfermeiro, são pessoas capazes de ajudar a população pobre no sentido de ter reduzido seu sofrimento e até mesmo os riscos de morte. Mas, esse argumento nem sempre os convence. Reconheço, pode ser que eu esteja errado.


Na sequência, geralmente, vem o argumento ideológico. Esse é o pior. Querem nos convencer de que por serem de Cuba - portanto, filhotes da ditadura comunista - não têm diploma compatível com aqueles concedidos no Brasil; não têm preparo, conhecimento médico suficiente para cuidar da nossa gente humilde.
Foi por isso que pedi autorização a duas pessoas para narrar a experiência de suas famílias, lá nos rincões do Brasil esquecido, abandonado pelo poder público, pelos políticos, distante principalmente da saúde pública.
O primeiro caso é o da Jane, diarista aqui de casa aos sábados. Ela é uma pessoa de poucas letras, mas, de uma experiência de vida inigualável.  Veio para Brasília trazendo a filha mais nova e deixando dois filhos com a mãe, no interior do Maranhão. Foi explorada, trabalho escravo, quando aqui chegou, em plena capital da República. Trabalhou meses na casa de uma amiga da família sem receber um tostão.

                                                                                 Foto: Araquém Alcântara
Pois bem. O Mais Médicos, na avaliação dela, é um programa salvador para o seu pai, sua família, amigos, conhecidos e desconhecidos da cidade de Serrana e de toda as outras daquela região. Quem são os médicos que estão por lá? Os cubanos. Foram eles que atenderem o pai da Jane, de um problema sério de saúde, oferecendo dedicação e carinho, coisas que todos precisam nesse momento.
Ficou triste, emocionada, quando soube que os médicos cubanos vão deixar o programa e sair daquele rincão maranhense. Tem esperança de que eles sejam substituídos pelos competentes e preparados médicos brasileiros, devidamente diplomados. Acredito que ela até enxergue um fator atrativo para a ida dos profissionais brasileiros: eles não terão que pagar 70% dos seus salários ao Estado. Se forem para essa região de fato, provavelmente, a tristeza da Jane terá sido em vão e todos voltarão a sorrir e a ter assistência médica básica, mínima.


Segundo caso. O da Eva, carinhosamente chamada por nós de Evinha. Doméstica, assalariada, também deixou a família no interior para tentar uma vida melhor na capital da República. Veio do norte de Minas, das barrancas do São Francisco. Não trabalhou em regime de escravidão, mas, foi explorada. Muito inteligente. Foi vítima de criação adotiva. Faltou estímulo, apoio, para avançar nos estudos, ficando só com o ensino primário completo.
Pois bem, seu depoimento é o de que o programa Mais Médicos foi a salvação de um povo esquecido naquele rincão abandonado na fronteira com a Bahia. Ela conhece pessoas que choraram e chegaram ao desespero com a notícia da saída desses profissionais, para eles, tão dedicados e atenciosos. Talvez, no entanto, sejam salvas pela adesão dos médicos brasileiros ao programa para substituir os cubanos. Isso não é impossível, mas está gerando preocupação.

                                                                                  Foto: Araquém Alcântara
Preocupações? Sim, e bem justificadas. Fico receoso quando vejo um relato no Facebook, reproduzido abaixo, feito por uma cidadã que me garantiu ser o retrato fiel da realidade. Ela mesma diz que só acredita porque ouviu com os dois ouvidos que Deus lhe deu. Se a maioria dos nossos profissionais de saúde pensar assim, começo a entender a tristeza da Jane, da Evinha e de todos os seus familiares. Não vai dar certo.