segunda-feira, 5 de fevereiro de 2018

Carnaval dos Amigos esquece a tradição e cai no lugar comum


Uma pena, mas, infelizmente, o Carnaval dos Amigos, em Goiânia, a cada ano que passa, na mesma proporção que cresce, está perdendo sua identidade e ficando distante das motivações pelas quais foi criado. Lá, no longínquo 2003, quando o Bloco dos Amigos, sozinho, desceu a avenida, do restaurante Flamingo até o Vaca Brava, o sonho de todos era o de resgatar o verdadeiro carnaval, embalado pelas marchinhas, frevos, sambas de enredo e sambas afinados com o espírito da festa. Não é bem isso que salta aos olhos, fere os ouvidos e dói na alma, depois de terminada a 16ª edição da festa, no último sábado.


Confesso que acordei com uma ressaca moral no domingo, com gosto de quarta-feira de cinzas na garganta, pois, pela primeira vez não pude participar do Carnaval dos Amigos, que ajudei a criar e pelo qual tenho orgulho. A ressaca piorou mais ainda quando comecei a receber os comentários sobre a festa e, também, pelas matérias estampadas nos jornais. O Carnaval dos Amigos passou a ter de tudo em seu repertório: rock, música sertaneja, Anitta, funk e outras músicas que nada têm a ver com o Carnaval.
No salão em que se concentra o Bloco dos Amigos, no Flamingo ou no Oliveira’s Place, não se tocava esse tipo de música, exatamente porque a proposta sempre foi a de resgatar a tradição dos carnavais de salão e de rua, com bandas e as músicas condizentes. Este ano, abriram as porteiras e o repertório foi contaminado por músicas sertanejas e outras querelas que não têm identificação com o Carnaval. A justificativa, se é que ela existe, dada pelos organizadores, é a de que o Bloco dos Amigos se uniu ao do Zeferino, e este toca tais músicas.


A rigor, o bloco do Zeferino, ou qualquer outro, ao decidir participar do Carnaval dos Amigos deveria estar imbuído do mesmo espírito carnavalesco. Caso contrário, todos esses blocos deveriam e poderiam ter criado um outro carnaval, dentro de outros padrões e propostas. Nada contra. Poderiam imitar os carnavais de Salvador, com músicas baianas, axé, sertanejas, rock e um cordão de isolamento para cada bloco.
Esse lado triste e empobrecedor da festa fica ainda mais notório, e decepcionante, quando olhamos as fotos do Carnaval dos Amigos. Muita gente bonita, fantasiada, com fantasias criativas, interessantes, bem dentro do espírito carnavalesco. Fico imaginando todos esses personagens dançando no salão e nas ruas ao som de música sertaneja, rock’n’roll, Anitta...


Não dá. É muito triste e decepcionante. E eu fico me perguntando, cá com meus botões: tem solução para as próximas jornadas? Pouco provável, mas, fica o desafio para todos nós, admiradores, organizadores, participantes e todos aqueles que amam e curtem o verdadeiro carnaval.
Vamos refletir juntos? Antes tarde do que nunca.



quinta-feira, 1 de fevereiro de 2018

O dia em que o publicitário nem sabe que é seu


Publicitário só não é mais desligado do que músico. Liguei para uma amiga. Queria dar a ela parabéns pelo Dia Mundial do Publicitário, que se comemora hoje. Ela fez a pergunta óbvia: “parabéns por quê, mesmo? ” Nem lembrava. Nove em cada dez publicitário não deve saber que o dia de hoje também é dedicado a eles. São tão especiais que as comemorações por essa profissão acontecem duas vezes no ano: neste 1º de fevereiro e no dia 4 de dezembro.
Provavelmente nem se lembram dessas coisas porque a cabeça deles anda num outro mundo: o da criatividade. Um universo que, para ser frequentado e vivido, exige sensibilidade, bom senso, autocrítica, bom gosto, cultura, em suma, uma inteligência refinada. Aprecio meus amigos publicitários. É tudo gente boa.


Tenho verdadeira paixão pelo poder de síntese. Aprendi a desenvolver, um pouco, essa habilidade no período em que fui editor de primeira página do Jornal de Brasília. O publicitário é necessariamente rico nesse quesito. Ou desenvolve essa qualidade ou não conseguirá dizer tudo que precisa ser dito em poucos segundos, com poucas palavras, num gesto só ou apenas uma imagem.

A profissão passou a ser reconhecida, no Brasil, a partir de junho de 1965, com a promulgação da Lei 4.680. Já existiam os cursos de Comunicação com especialização em Publicidade. A Lei veio apenas regulamentá-los. Desde então, passaram a propiciar formação mais ampla nas áreas de ciências humanas – psicologia, sociologia e antropologia –, com reforço em redação publicitária, linguagem publicitária e criação.
A questão da ética também é fundamental, nessa e em qualquer outra profissão. É só dar uma olhadinha na história para ver os riscos que corremos com publicidades enganosas. São conhecidos os exemplos de que uma mentira dita muitas vezes pode virar verdade; nem que seja por pouco tempo, mas será suficiente para provocar estragos. Salve a publicidade de bom-gosto, criativa e inteligente! Forte abraço para os amigos publicitários e um beijo grande para as amigas publicitárias. E até 4 de dezembro em novas e instigantes comemorações.




quarta-feira, 31 de janeiro de 2018

Superlua volta a encantar em várias partes do mundo


Aprecio bastante os fenômenos da natureza. Principalmente os que envolvem a Lua. O amanhecer desta quarta-feira foi marcado por uma rara coincidência envolvendo o astro inspirador dos poetas e seresteiros. Em algumas regiões do planeta, o cidadão pode observar uma Superlua, uma Lua Azul e uma Lua de Sangue, esta última em decorrência de um eclipse lunar. A agência espacial americana, Nasa, está chamando essa junção de "Superlua Azul de Sangue" (Super Blue Blood Moon).
Infelizmente, no Brasil, o fenômeno ocorre na noite desta quarta-feira sem o eclipse, que poderá ser visto apenas em algumas localidades do extremo norte do país. Portanto, a maioria dos brasileiros poderá observar somente a Lua cheia em seu perigeu, o que se chama de Superlua e ocorre quando o satélite chega a um ponto muito próximo da Terra. Mesmo assim, de rara beleza.


A coincidência da Superlua com um eclipse não acontecia desde 1982. Ele pode ser visto melhor na América do Norte, Oriente Médio, Ásia, Rússia Oriental, Austrália e Nova Zelândia.
Esta Superlua é a terceira de uma série que começou em dezembro.
O termo Lua azul se refere a uma segunda Lua cheia em um mesmo mês, um fenômeno que ocorre em média a cada dois anos e meio. Já a Lua de sangue ocorre quando o astro não fica completamente negro durante o eclipse, visto que uma parte da luz do Sol, refletida pela atmosfera terrestre, alcança indiretamente a superfície lunar. Com isso, alguns raios solares também vazam, produzindo um reflexo avermelhado ou acobreado na Lua. Este fenômeno ocorre quando o astro alcança seu ponto orbital mais próximo à Terra.

O lado lunático da lua
(José Carlos Camapum Barroso)

A escuridão comeu a lua,
Em pleno céu de Brasília.
O homem que vinha pela rua
Nem notou, nem sentiu a mordida.

Então a lua, entristecida,
Meio amuada, meio contida,
Vestiu-se novamente de noiva:
Vagarosamente embranquecida.

São Jorge respirou, aliviado
Podia continuar a batalha
Eterna com o dragão, pela vida.

Os namorados, enternecidos
Beijaram-se aliviados, escondidos...
Temiam que a lua, enegrecida,
Jamais voltasse a produzir luar.

O que fazer pelas ruas, então?
Voltar ao lar, cabisbaixo,
Pro magnetismo da televisão?

- Não, não! Disse a lua constrangida.
- Eis-me aqui, noiva arrependida,
A clarear todas as noites de suas vidas.

E assim passou o eclipse lunar,
Como passa o passo do exibicionista.
E a lua, ainda lenta, continua a vagar...
Deixando a escuridão amortecida.



sexta-feira, 26 de janeiro de 2018

Tristeza e impunidade nos 5 anos da tragédia em Santa Maria


Por mais incrível que possa parecer, a tragédia da boate Kiss, em Santa Maria, Rio Grande do Sul, está caindo no esquecimento. E o que restou, de fato, foi a impunidade, reinando sobre a nossa falta de memória, nossa incapacidade para dar sequência e consequência à indignação. O tempo passou rápido e a impunidade tornou-se presença marcante para quem visita hoje aquela cidade gaúcha.
Foi o que constataram repórteres da revista Veja, na edição da última semana. Numa bela e competente reportagem, mostraram que, da tragédia, restaram tristezas e impunidades. Sobrou também um processo em que o Ministério Público acusa a associação que representa os pais das vítimas de desrespeito para com as autoridades.  
Todas as tragédias acontecidas no Brasil desaparecem no tempo com sabor de impunidade. A da boate Kiss, que completa cinco anos neste 27 de janeiro de 2018, segue a mesma cartilha, embora tenha chocado o Brasil e o mundo, com saldo assustador de 242 jovens mortos de forma brutal, vítimas do descaso, irresponsabilidade e desleixo de autoridades, empresários e outras pessoas envolvidas naquele episódio.


Quantos pais ficaram sem seus filhos. Quantos filhos sem pais. Órfãos, talvez, de impunidades que marcaram tragédias anteriores. Dezenas de pessoas que sobreviveram àquela madrugada fatídica, ainda hoje vivem dramas difíceis de serem dimensionados. 
Quem, como nós, está distante de uma tragédia não consegue dimensioná-la adequadamente. Só nos resta rezar pela alma das vítimas fatais e pela plena recuperação dos que sobreviveram. Minha oração é essa abaixo, que já publiquei outras vezes e pretendo repetir por anos e anos. Desta vez, sai publicada em forma de vídeo. Quem sabe conseguiremos, assim, aplacar um pouco a dor de tantas famílias e alertar as autoridades para os riscos inerentes à impunidade.




"Concentra Mas Não Sai" desconcentra Goiânia neste sábado


Neste sábado, dia 27 de janeiro, o pessoal do Carnaval dos Amigos, em Goiânia, realiza o já tradicional Concentra, Mas Não Sai. Uma espécie de preparação para o grande dia, uma forma de desenferrujar as juntas da moçada e também da velha guarda, que ninguém é de ferro! O “Concentra” deste ano vai ser no Mercado Popular da Rua 74, a partir da 14h de sábado. Temos que elogiar o profissionalismo dessa turma. Carnaval não é coisa pra amadores.
Este ano, os organizadores pretendem reunir todos os blocos no Concentra. Além do Bloco dos Amigos, fundador da festa, vão aparecer por lá o Zeferino, Café Nice, Não Enche Meu Sax, Imprensa, Rocket 07, do Cerrado, Cateretê, Meu Pai Te Ama, Butcherry e Bloco do Aê. A filosofia do Concentra, Mas Não Sai é concentrar bastante, mas não sair mesmo! Tem que cumprir a profecia do beato que dizia: folião bom, de raça, é aquele que, consciente, só dá uma volta na praça, volta e concentra novamente.

Tem sido assim, sempre. Todo mundo concentrado, tomando uma cervejinha bem gelada, embalados por bandas de músicas, que resgatam velhas e tradicionais marchinhas carnavalescas. De vez em quando alguém grita “ na hora”! Todos se levantam, puxados por palhaços e outros foliões fantasiados, uma bandinha de grandes músicos, dão uma volta na praça e retornam para os seus lugares. É o finge que sai, mas não sai!  
Tenho orgulho de ser amigo dos amigos do carnaval, e ter contribuído para o surgimento dessa festa maravilhosa. Lá nos primórdios, fizemos, em parceria com Jorge Luís Carvalho, algumas músicas para ajudar a animar a turma e mostrar a cara do que se pretendia fazer. Deu certo. Hoje o Carnaval dos Amigos faz parte das atrações turísticas de Goiânia e é festa consagrada em todo o Centro-Oeste. E o Concentra Mas Não Sai também ganhou notoriedade.
Chega de conversa, vamos ouvir música e começar a preparar o espírito para o que vem aí. Que tal um vídeo com a música Frevo Goiano? Ajuda a esquentar porque, daqui pra frente, serão dois fins de semana de doer os ossos, e o fígado. Mas, a gente aguenta!



segunda-feira, 22 de janeiro de 2018

Minha mãe está entendendo até de vinho, pode?


Minha mãe agora está entendendo também de vinho. Mandou essa foto aí, via zapzap, e com o comentário esclarecedor de que é um Malbec, argentino, de boa qualidade. O nome do vinho é La Linda. Uma felícia, digitou errado, e logo veio a correção: *delícia. Brinca com dona Iracema... essa piauiense de São Raimundo Nonato é uma joia rara do universo nordestino.
Sempre apreciou, com moderação, uma dose de cachaça “da boa”, de alambique. Toma um conhaque também, mas diz que tem de ser bem pouquinho, pois “é muito forte”. Gosta mesmo é de uma cervejinha, geladinha, com um tira-gosto feito na hora – se for uma buchada ou uma dobradinha, melhor ainda.
Agora está apreciando também um bom vinho. Pode? E ainda me dá dica sobre qualidade do produto. Comentei que o vinho era La Finca, ela me corrigiu: “não é La Linda, Malbec argentino, de qualidade”. Para que não houvesse dúvida, mandou-me uma foto da garrafa. Aprende, ignorante! Agora, toda vez que for comprar, pedir ou encomendar um vinho, vou ligar antes para dona Ira. Não quero correr o risco de errar na qualidade do produto escolhido.
Ela esclareceu, cheia de modéstia, que “foi um pedido do Lucas, meu neto, que veio passar uns dias aqui com a mãe dele Juracema, em Camboriú”. Lucas é mais um que vai sair de lá escolado, depois de pegar umas aulas com a vozinha sobre bebidas e tira-gostos. Mozart, meu irmão, e a filha dele Domitila, também neta da vozinha, passaram uns dias por lá, entre o Natal e início deste ano. Voltaram entendendo até de cerveja belga e alemã.
Thiago, meu sobrinho e neto de dona Iracema, mora em Camboriú. Contou que depois da chegada da vozinha, ele está entendo de todas as bebidas e tira-gostos. Aprendeu até que um cochilo, depois do almoço, rejuvenesce e “recupera as forças para mais tarde”. 
Bom, essa parte, eu já sabia. Também, depois de 63 anos de convivência...

sábado, 20 de janeiro de 2018

Carnaval dos Amigos vai às ruas de Goiânia com onze blocos


Pronto. Mês de janeiro nem acabou. Fevereiro está lá na frente, faceiro, com seu ar carnavalesco de sempre. Por isso mesmo, chega de assuntos sérios! Vamos falar do que interessa de verdade para o povo brasileiro: Carnaval! E mais especificamente sobre o Carnaval dos Amigos, aquela festa que acontece todos os anos, em Goiânia, desde o ano de 2003, quando o Bloco dos Amigos saiu às ruas pela primeira vez, dando início a esse que é atualmente um dos melhores carnavais do Centro-Oeste.
É hora de esquecer assuntos chatos como crise econômica, lava-jato, inflação, desemprego, preço dos commodities, estado islâmico, Donald Trump. A partir do início do mês de fevereiro, as águas vão rolar e nenhum desses temas descem a avenida. A não ser que seja para serem ironizados, esculhambados pelas fantasias e tema de marchinhas espirituosas.


Felizmente, de algumas décadas para cá, o verdadeiro carnaval, de rua, das marchinhas, frevos e outras delícias, ganhou espaço pelo Brasil afora. Extrapolou o eixo Rio-Bahia-Pernambuco, num colorido bem brasileiro, de cores e ritmos diversos e enlouquecedores. De norte a sul, de leste a oeste, os blocos estão na rua.
Foi neste contexto que surgiu o Carnaval dos Amigos, em Goiânia, Goiás, que este ano comemora a sua 16ª edição. Como o próprio nome diz, nasceu do sonho de alguns amigos que adoravam curtir o Carnaval juntos, procurando sempre encontrar um local que pelo menos lembrasse a tradição dessa festa tão brasileira. No ano de 2003, pela primeira vez, saiu às ruas de Goiânia, o Bloco dos Amigos, depois de uma árdua e sofrida tarefa de concentração no Flamingo, às custas de muito chope, caipirinhas e feijoada.


Foi o suficiente para ser criada a tradição. Novos blocos foram surgindo, todos com a mesma filosofia de resgatar o verdadeiro carnaval de rua, dos blocos e da alegria, valorizando-se a espontaneidade. 
Este ano o evento acontece no dia 03 de fevereiro, primeiro sábado anterior ao sábado de carnaval. Pelo menos onze blocos já estão garantidos: Bloco dos Amigos, Zeferino, Café Nice, Não Enche Meu Sax, Imprensa, Rocket 07, do Cerrado, Cateretê, Meu Pai Te Ama, Butcherry e Bloco do Aê. 
A novidade deste ano é Neguinho da Beija-Flor no palco principal, lá no Vaca Brava, onde tudo termina, mas não acaba. Outra novidade: O Bloco dos Amigos e o Zeferino estarão, juntos, no mesmo salão. Deu certo com essa marchinha,  composta por Jorge Luís Carvalho e este blogueiro, alguns anos atrás, e que estava meio esquecida em algum arquivo do computador aqui de casa.


quinta-feira, 4 de janeiro de 2018

Caminhar é uma arte que segue paralela aos sonhos


Mais um ano está começando. O que fazer? Buscar novos caminhos? Ou seguir, ajustando, estradas que percorremos no passado? Todo começo de ano é assim... Muitas dúvidas, poucas certezas e uma imensidão de sonhos a girar em nossos cabeças. Somos tocados por desejos, paixões e sonhos que mal cabem nas nossas mãos e nos escapam a todo momento.
O lugar ideal para guardar os nossos sonhos continua sendo o coração. A mente, basta que ela esteja aberta o suficiente para enxergar o mundo em sua grandeza. Uma dimensão que contempla a solidariedade, a caridade e o perdão. Se vamos atingir esse estágio, só o tempo nos dirá. O tempo que é senhor da razão.
Esse poema Caminhar, no vídeo abaixo, pode ser que nos ajude em mais essa empreitada. É vida que segue, amigos e amigas, cheia de desafios, mas que nos dará frutos se soubermos regá-la, dia a dia, com paciência e sabedoria.
Que a vida se realize em sua plenitude em mais um ano de nossa existência.

domingo, 31 de dezembro de 2017

Passagem de ano é assim: nada de novo, nem de velho


Fim de ano é tempo de coisas novas e velhas ocuparem os espaços midiáticos, agora reforçados pelas redes sociais, onde se tem e se vê de tudo; inclusive, nada. Sempre descobrimos, ao final e ao cabo, que as coisas velhas não são tão velhas assim, e as novas não chegam a ser novidades no ritual repetitivo das passagens de ano. O final de 2017 não foge muito ao padrão de outros finais de ano. A diferença está no ano de 2018, que terá eleições em todo o Brasil e Copa do Mundo. O rol de expectativas é bem diferente.
Os desejos de Ano Novo são renovados, e vêm cheios de esperanças e sonhos. Todos temos certeza de que 2018 será melhor do que 2017, mesmo que algumas previsões apontem em direção contrária. Danem-se as previsões, principalmente as alardeadas pelos economistas de plantão. Eles sempre erram mesmo.


Devemos atentar, sim, para os institutos de pesquisas. Estes não erram nunca e garantem que o ano de 2018 será muito pior ou muito melhor do que este que chega ao fim.
Se as previsões não se confirmarem. Também não será o fim do mundo. Depois de 2018, virá o de 2019 e assim, sucessivamente. O mundo, como dizia o poeta maior Carlos Drummond de Andrade, é vasto. Ele continuará a dar sua volta elíptica em torno do sol; e nós, aqui na terra, continuaremos a sacudir a poeira e a dar a volta por cima.
Passagem de ano é bom para desejarmos o que há de melhor a todos. Faço minhas as palavras de Drummond no poema abaixo.


Os meus versos, também postados abaixo, são apenas uma pequena reflexão sobre este momento tão comemorado e comentado pelo mundo afora. Que 2018 encha os nossos olhos de alegria, a humanidade de poesia, e de música, os corações! Teremos mais chance de sermos felizes e enterrar de vez as previsões dos pessimistas. No mais, agradecer as graças alcançadas, de preferência ouvindo Gratias agimus tibi, de Bach.

Velho Ano Novo
José Carlos Camapum Barroso

Fim de ano é roupa branca,
Alma limpa e coração aberto,
O amor de sempre por perto
E um pipocar de esperanças.

Champanhe explode no ar
E os fogos, em artifícios,
Colorem o céu de ilusões...

Risos e abraços nos salões,
Gritos e choros nas calçadas
Cobertas de lágrimas e suor.
Papel picado e latas de cerveja...

Vai a noite, some a lua...
Os primeiros raios de sol
Trazem o ano novo pra rua.
Garis fantasiados de homens
Varrem restos de alegria.
O bar se fecha, abre a padaria.
Os jornais chegam mais cedo
A estampar notícias velhas
E as previsões de sempre.
O ano foi ruim! Este será bom!
O ano acabou... O mundo, não.
O mundo? É vasto o mundo.
Eu nem me chamo Raimundo
Muito menos, Drummond.

Desejos
Carlos Drummond de Andrade

Desejo a vocês...
Fruto do mato
Cheiro de jardim
Namoro no portão
Domingo sem chuva
Segunda sem mau humor
Sábado com seu amor
Filme do Carlitos
Chope com amigos
Crônica de Rubem Braga
Viver sem inimigos
Filme antigo na TV
Ter uma pessoa especial
E que ela goste de você
Música de Tom com letra de Chico
Frango caipira em pensão do interior
Ouvir uma palavra amável
Ter uma surpresa agradável
Ver a Banda passar
Noite de lua cheia
Rever uma velha amizade
Ter fé em Deus
Não ter que ouvir a palavra não
Nem nunca, nem jamais e adeus.
Rir como criança
Ouvir canto de passarinho.
Sarar de resfriado
Escrever um poema de Amor
Que nunca será rasgado
Formar um par ideal
Tomar banho de cachoeira
Pegar um bronzeado legal
Aprender uma nova canção
Esperar alguém na estação
Queijo com goiabada
Pôr-do-Sol na roça
Uma festa
Um violão
Uma seresta
Recordar um amor antigo
Ter um ombro sempre amigo
Bater palmas de alegria
Uma tarde amena
Calçar um velho chinelo.



sábado, 30 de dezembro de 2017

2017 foi um ano bem musical, apesar de tantos pesares

Por mais incrível que possa parecer, o ano de 2017 foi bom demais da conta para a música brasileira. No sentido de termos tido produção de coisas boas, de qualidade, e não no sentido de que elas tenham obtido sucesso e veiculação nos meios de comunicação. A indústria cultural, como sói acontecer, valorizou a produção de baixa qualidade musical, descartável e que assegura lucro fácil, e isso vai de Anita a Wesley Safadão, passando por tanto lixo cultural que anda por aí.
Mas, este ano entra para a história musical pelo belo disco de Chico Buarque de Holanda, Caravanas; pelo trabalho cuidadoso e talentoso de Mônica Salmaso, em Caipira; também pelo CD maravilhoso de João Bosco, Mano Que Zuera; pelo álbum duplo de Hermeto Pascoal, No Mundo dos Sons; e, como se não bastasse, fomos presenteados com Viajando Com o Som, uma gravação de 1976 de Hermeto com o Grupo Vice-Versa, que estava desaparecida, com quatro faixas inéditas; além de shows maravilhosos como o de Caetano Veloso com seus filhos, entre outros.


João Bosco, um mineiro cada vez mais carioca, mostra a cidade maravilhosa, em Quantos Rios e na faixa Ultra Leve, que tem a participação de Julia Bosco. O disco traz bons arranjos e destaques para instrumentos de sopro, com a presença sempre marcante do violão do cantor e compositor. Destaque também para a gravação do clássico Sinhá, composição em parceria com Chico Buarque.
Hermeto Pascoal dispensa comentários. Sua genialidade assusta. Não é à toa que o compositor Miles Davis o considerava “o músico mais impressionante do mundo”. No álbum duplo, No Mundos dos Sons, ele homenageia cidades, lugares e músicos que ele admirava, como Tom Jobim, Carlos Malta, Edu Lobo, Chick Corea, Astor Piazzolla, Miles Davis e Ron Carter.


Viajando Com o Som é de fato uma viagem pelo som e pelas infinitas possibilidades que a musicalidade dos artistas propicia. Em 1976, depois de um belo show no Teatro Bandeirantes, em São Paulo, Hermeto e o Grupo Vice-Versa foram para o Vice-Versa Studio Session, do maestro Rogério Duprat, e gravaram quatro faixas: Dança do Pajé, Navumvavumpefoco, Natal e Casinha Pequenina. Essas quatro gravações estavam desaparecidas e foram agora resgatadas pela Far Out Recording.
Músicos que faziam parte desse Grupo Vice-Versa: Zé Eduardo Nazario (bateria), Zeca Assumpção (baixo), Lelo Nazario (piano elétrico), Toninho Horta (guitarra), o trio Mauro Senise, Raul Mascarenhas e Nivaldo Ornelas comandando a sessão de metais, além da cantora Aleuda Chaves.
Pois é, amigos e amigas aqui do ZecaBlog, 2017 foi um ano especial para a música brasileira, apesar de tantos pesares.
Que 2018 seja melhor ainda!