quinta-feira, 13 de novembro de 2014

Manoel de Barros morre mas deixa um legado universal

A cultura brasileira amanheceu mais pobre nesta quinta-feira. Como se estivesse saindo para trabalhar em outras esferas desse imenso universo, às 8h05, desta quinta-feira, o poeta mato-grossense Manoel de Barros parou de respirar. Os médicos divulgaram como causa da morte a falência múltipla de órgãos que tanta vitalidade e sabedoria lhe deram ao longo de 97 anos de idade. Nasceu no Beco da Marinha, às margens do Rio Cuiabá, com o sonoro nome de Manoel Wenceslau Leite de Barros, no dia 19 de dezembro do ano de 1916.
Além de um extraordinário poeta, era advogado e fazendeiro. Cresceu brincando de pés descalços, no terreiro em frente à sua casa, em meio a coisas “desimportantes” que viriam a marcar sua obra, expressa em 18 livros publicados.

O apanhador de desperdícios
Manoel de Barros

Uso a palavra para compor meus silêncios.
Não gosto das palavras
fatigadas de informar.
Dou mais respeito
às que vivem de barriga no chão
tipo água pedra sapo.
Entendo bem o sotaque das águas
Dou respeito às coisas desimportantes
e aos seres desimportantes.
Prezo insetos mais que aviões.
Prezo a velocidade
das tartarugas mais que a dos mísseis.
Tenho em mim um atraso de nascença.
Eu fui aparelhado
para gostar de passarinhos.
Tenho abundância de ser feliz por isso.
Meu quintal é maior do que o mundo.
Sou um apanhador de desperdícios:
Amo os restos
como as boas moscas.
Queria que a minha voz tivesse um formato
de canto.
Porque eu não sou da informática:
eu sou da invencionática.
Só uso a palavra para compor meus silêncios.

Seus textos são originais e sua poesia reconhecida nacional e internacionalmente. João Guimarães Rosa, um dos escritores mais originais da literatura mundial, que fez uma verdadeira revolução na prosa brasileira, disse certa vez que o texto de Manoel de Barros era um “doce de coco”.
Sobre sua obra, Manoel de Barros dizia que a considerava difícil, embora usasse palavras fáceis. Explicava que seus poemas descrevem imagens, e elas não seguem uma linha reta. Não gostava de dar entrevista gravada. Não porque desconfiasse da seriedade dos jornalistas, mas porque tinha medo da palavra falada. Sempre lembrava um ditado chinês que dizia o seguinte: “A palavra falada não tem pudor”.
Teve forte participação política. Leu Karl Marx e fez parte da Juventude Comunista. Tinha grande admiração por Luiz Carlos Prestes até o dia em que ouviu o discurso do Cavaleiro da Esperança, logo após ter sido solto, depois de dez anos de prisão. Resumiu assim o episódio que o afastou definitivamente da política: "Quando escutei o discurso apoiando Getúlio — o mesmo Getúlio que havia entregue sua mulher, Olga Benário, aos nazistas — não agüentei. Sentei na calçada e chorei. Saí andando sem rumo, desconsolado. Rompi definitivamente com o Partido e fui para o Pantanal".
Sempre preferiu o anonimato e atribui a si mesmo a culpa por essa condição. Conta que sempre foi muito orgulhoso, “nunca procurei ninguém, nem frequentei rodas, nem mandei um bilhete. Uma vez pedi emprego a Carlos Drummond de Andrade no Ministério da Educação e ele anotou o meu nome. Estou esperando até hoje".
Manoel de Barros nos deixou. E eu, pobre mortal, entristecido, fiz esses versos em sua memória.

Morre um poeta
José Carlos Camapum Barroso

Quando um poeta morre
Lágrimas do céu escorrem
Por esse mundo de Deus...
As flores ficam murchas
Os pássaros se recolhem,
Silenciam os cantos seus...
A lua e o sol, entristecidos
O brilho e a luz escondem
No eclipse infindo de Zeus
A terra treme e o mar,
Revolto, as ondas cobrem
Areias de espuma em véus
Quando um poeta morre
Palavras frágeis escorrem
Por versos que não são meus...


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