quinta-feira, 9 de julho de 2015

O dia em que um anjo torto, chato, me viu nascer...


Quando nasci, o mesmo anjo que observou a chegada de Carlos Drummond de Andrade a este mundo estava de plantão. E ele disse com aquela mesma falta de criatividade de outrora: Vai, José Carlos, vai ser gauche na vida! Anjinho safado esse chato do querubim, como diria Chico Buarque de Holanda.
Que vaticínio! A tal da timidez resolveu me perseguir pela vida afora. E não adianta espernear, plantar bananeiras, correr que nem saci Pererê.... Ela não sai pelos poros.
Drummond pelo menos teve a capacidade e o talento de tornar-se o poeta maior da literatura brasileira. Chico Buarque faz sucesso, merecido, em prosa, versos e melodias.
Cá com meus botões, pensei: o que vou fazer na vida para compensar tanta incapacidade, essa enorme falta de aptidão para olhar o mundo e ser visto por ele?


Até tentei, ousadamente, fazer poesias, mas os mal traçados versos não conseguiram extrapolar a moldura que cerca os quatro lados da folha de papel. No campo da música, percebi logo ser mais um belo e tenaz apreciador do que um, pelo menos, mediano executor. Percebi que os dois brasileiros citados acima não conseguiriam abrir caminhos...
Então, vislumbrei uma outra possibilidade. Cercar-me de amigos por todos os lados. Com eles, poderia enfrentar os desaforos da vida, talvez até mesmo aquela brisa gelada da indiferença dos homens cercados de poucos amigos, muitas ambições e total desprezo para com os que sonham.


Então, fez-se a luz. E Deus mostrou que não havia me abandonado pelos caminhos tortuosos que formam a vida. Deve ter sido uma sensação semelhante àquela que Drummond sentiu quando formulou os primeiros versos. Com certeza, conscientizou-se logo: Deus existe. E nem precisou rimar mundo com Raimundo. O mesmo deve ter ocorrido com Chico Buarque quando viu Januária na janela, que simplesmente esperava a banda passar. Pode encher sua estrada da vida de caros amigos.
Aos 61 anos, percebo que uma das maiores conquistas desse uruaçuense da gema, criado às margens do córrego Machambombo, talvez tenha sido a capacidade de fazer amigos, juntá-los, agregá-los e mantê-los sempre por aqui: do lado esquerdo do peito, com bem disse Milton Nascimento.
Viva o dia 9 de julho. Dia da Juventude. Dia Internacional do Desarmamento. Dia da Revolução Constitucionalista de 1932. Dia em que o anjo torto, safado, o chato do querubim, me viu nascer. Aquele mesmo que me fez manso de alma e vasto de coração.

Aos amigos
José Carlos Camapum Barroso

Aos amigos, tudo
Aos inimigos, nada
Que não possa
Torná-los verdadeiros
Amigos do amanhã.

Para guardar amigos,
Trago o coração
E a mente, abertos;
Mãos e os braços
Sempre por perto;
Os pés e as pernas
À disposição...

Amigo do inimigo
Traz sempre em si
Boa dose de perdão...
Inimigo do amigo
Um dia ainda consigo
Mudá-lo de posição.

Amigo é pra se guardar
Debaixo de sete chaves
No cofre dos segredos
Distante dos medos
Que habitam a solidão.
Então, o anjo torto,
O chato do querubim
Estará longe de mim
E perto da imensidão...


6 comentários:

  1. Do grande amigo, Nélio Bastos, recebi o seguinte e-mail:

    Zé Carlos, grande amigo!
    Você pegou um pouco da safadeza do Anjo que lhe viu nascer e a usou com maestria; o desafino ficou mesmo só na voz. Na vida, você não sai do tom, e, no quesito “amigo”, você sempre tirou a nota dez. Na expressão de alma, deixe a modéstia de lado, Você é poeta e dos bons.
    PARABÉNS!!!! SEJA FELIZ NESSES 61, BEM MAIS DO QUE VOCÊ O FOI NO TEMPO QUE LEVOU PARA CHEGAR ATÉ ELES.
    GRANDE ABRAÇO! E PORQUE NÃO, NESTE DIA, GRANDE BEIJO TAMBÉM!!!!

    ResponderExcluir
  2. Jean-Marie Butruille9 de julho de 2015 19:39

    Não seja tão humildo, José Carlos. Você tem o talento de criar imagens e sentimentos através de seus poemas. Você não é Carlos Drummond de Andrade mas é Zé Carlos, para mim é muito, muito mais que do Carlos Drummond, tão famoso seja, pois eu conheço pessoalmente seu calor humano e o seu jeito de viver a sua poesia. Eu estou só esperando um um livro recolhendo estas poesias para saborear melhor a felicidade de poder lhe admirar, como Zé Carlos, único e original.

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. Valeu, Jean-Marie, obrigado pelas suas gentis palavras e por mais uma participação aqui no blog.

      Excluir
  3. Jean-Marie Butruille9 de julho de 2015 19:52

    Este comentário foi removido por um administrador do blog.

    ResponderExcluir
  4. Da amiga Selma Santos, recebi o seguinte comentário por e-mail:

    Será se estamos nesse rol de amigos seus? Quisera eu ter um pouquinho de seu talento para que pudesse expressar tão bem esse sentimento de amizade que aflora no ser. Parabéns! Esse anjo torto deve ter se endireitado quando leu seu blog. Abraços.
    A vida deve ser como as rosas que mesmo entremeadas de espinhos, florescem numa perfeita harmonia e beleza.
    Selma

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. Selminha, sempre atenciosa e cordial. Obrigado por mais essa participação. Grande abraço.

      Excluir