Enquanto
estava começando o velório de Gal Costa, em São Paulo, hoje (11/11), recebo pelo zap um texto
do jornalista, escritor e poeta Irnobel Maranhão Viegas. Como todos os
brasileiros, amantes da cultura, das artes e particularmente da música, o amigo
lamenta perda tão irreparável.
A
morte de Gal Costa mexeu com nossos nervos, tocou fundo na alma sensível dos
apaixonados pela beleza e grandeza do mundo das artes. O Brasil inteiro chorou,
ficamos comovidos e imbuídos de um sentimento avassalador de perda, como se tivéssemos
perdido alguém da família. O texto abaixo fala também de outras perdas nessa
nossa vida tão passageira e fugaz.
Sobre
Maranhão, já escrevi aqui no blog. Também já publiquei outros textos de sua
autoria, todos maravilhosos. O amigo foi o maior responsável pelo surgimento do
ZecaBlog. Leiam com atenção. Ajuda a manter viva a memória de uma artista tão
genial e, ao mesmo tempo, nos conforta de perdas irreparáveis.
Cinzas sem carnaval
Maranhão Viegas
A
quarta-feira se encaminhava para o fim da manhã quando chegou a notícia da
morte de Gal. A trilha sonora do dia perdeu o jeito. Impacto no peito. Gal,
não... Agora, não... Por favor.
E aí o pensamento viaja no tempo. Na ânsia de não perder nada. No afã de guardar tudo. Tudo o que for possível. De onde ela veio? Da Bahia. Os anos 1960 ainda nem tinham terminado e ela já cantarolava João Gilberto e Caymmi. Reza a lenda que, à primeira audição, João sentenciou: É a melhor cantora do Brasil. A lenda caminhou e tornou Caetano o autor da frase. Se foi dita ou não, pouco importa. Importa mesmo o que Gal era. E continuará sendo pela eternidade.
Fa-tal
Quando
eles – Gil e Caetano - tiveram que ir,
minha gente, empurrados pela ditadura, foi como se houvesse um ponto e vírgula
no Tropicalismo. Não um ponto final. Porque quem ficou por aqui foi a Gal. E
ela gravou coisas que não podiam ser gravadas. E lançou discos que só puderam
ser vendidos envoltos em plástico preto. Porque na capa estava exposta a
essência da liberdade, em forma de corpo de mulher. Ventre exuberante, peito à
mostra. Mas não era isso a razão do susto. O que valia mesmo estava lá dentro.
Além do que os olhos podiam ver. Impresso em acetato. Gravado com voz precisa.
Era aos ouvidos que aquilo interessava.
Gal
emprestava a voz à contracultura. Jards Macalé, Wally Salomão, Torquato Neto.
Seus timbres agudos desafiavam a guitarra. Seus gritos passaram sem restrições
pelos censores, triscando a harmonia dodecafônica (ou a ausência dela) e inaugurando
a beleza sonora do desassossego. Foi pela voz de Gal que soubemos, mais
explicitamente, a dimensão da tristeza e da solidão que Caetano viveu, em
Londres. London London, na gravação primeira e mais primorosa que a
música poderia ter, também passou incólume pela censura. João Marcelo Bôscoli,
produtor musical dos mais respeitados no país e filho de Elis, diz que a música
passou porque os censores não falavam inglês. Pode ser. E ainda bem que passou.
Na verdade, Gal a eternizou.
O fato é que ela não deixou que o ponto final fosse dado ao Tropicalismo. Movimento musical que surpreendeu os brasileiros. Ela encarnou a rebeldia como ninguém, pelas roupas que vestia ou que não. Pelos cabelos. Pelo sorriso largo. E pela voz inesquecível. Gal deu a vitória, o vigor, a visibilidade que o Tropicalismo precisava ter. A todo vapor, deu tempero ao Brasil insosso daquele momento. Seu nome é Gal. Gal Maria da Graça Penna Burgos Costa. Filha de dona Mariah Costa Penna. Que, de onde quer que esteja, deve estar sorrindo orgulhosa. Aquelas músicas clássicas que fez chegar ao ouvido da menina, quando ainda estava na barriga, de fato, fizeram sentido.
Quarta sem graça
Já estávamos tristes por perder Maria da Graça. E aí o tempo se fechou sobre o Sertão. Rolando Boldrin saiu de cena. Levou sua viola, aquela mesmo que falou sempre alto no seu peito humano, para dedilhar em outras plagas. Vá com Deus, e espalhe alegria ali também, por favor, Sr. Brasil.
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Ravi com Pepita, em álbum da família |
Para Ravi
Quando
a gente perde alguém de quem se gosta muito a dor é maiúscula. Mas a gente
sempre dá um jeito de transformar essa dor. De dar a ela o tamanho suportável.
Quando esse amigo-irmão que se foi é um cachorro, a gente sente falta da
companhia dele, das brincadeiras, dos passeios, dos olhares cúmplices e silenciosos.
Tem
hora na vida que parece que só aqueles bichinhos nos entendem.
Ontem,
a Pepita, cachorro que o Ravi definiu que seria sua irmã de alma, também deixou
esse plano. Pode chorar um pouquinho, Ravi. Não há feiura no choro. Chorar
nossas perdas alivia a nossa alma, esvazia os olhos transbordantes e mostra o
valor de uma ligação amorosa.
Mas olha, depois do choro, seque o rosto e não
esqueça a alegria da Pepita. Ela vai gostar de saber que você vai seguir sendo
sua companhia. Que você vai crescer guardando em um relicário a amizade que
construíram enquanto ela esteve por aqui. Aliás, ela não vai esquecer o carinho
que você lhe dedicou, sempre que ela precisou. E como precisou...
Grato pela sempre generosa acolhida, Zezão!
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