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Nagé, Maragogipe, Bahia |
José Américo, conhecido como “Das Américas”, além
de um grande amigo, é também um baita escritor, cronista e jornalista admirado
no cenário nacional. Tem um faro especial para a notícia, jornalismo
investigativo. Deve ser por isso que descobriu que há um plano traçado e pronto
para ser executado de fuga do presidente Bolsonaro.
O destino e outros meandros ele revela nessa bela
crônica publicada abaixo. Faz parte de sua coleção de textos sobre o cotidiano
de Joãozinho Naturá, figura típica do Recôncavo baiano. Um morador de Nagé,
ilha do município de Maragogipe, foz do Rio Paraguaçu.
A fuga do presidente
José Américo
Joãozinho Naturá* me ligou lá da ilha
de Nagé, Maragogipe, Bahia. Sempre liga quando acorda da madorna de depois do
almoço. Conta primeiro sobre o que comeu e depois desembesta a falar.
Desta vez, tava se gabando de uma
farofa de inhame com camarão defumado. A iguaria foi servida por Dorinha da
Gameleira, chamego dele de anos. Foi ela que, depois do almoço e enquanto se
deliciava com uma cocada mole, contou o segredo que ficou sabendo.
- Das Américas, vou te contar uma bomba. Bolsonaro vai fugir e se esconder em Maragogipe.
- Que história é essa, Naturá?
- Tá duvidando é, Das Américas?
Dorinha, como você tá careca de saber, é filha de
Iansã e, pra seu governo, foi só ela tocar no assunto que bateu uma ventania do
nada, envergou o coqueiro gigante na beira da praia, e fez roncar o tronco da
gameleira no terreiro da casa dela. Você é de santo e sabe muito bem do que tô
falando.
A história é longa mas eu vou resumir para não
gastar meus créditos.
Em todo lugar e em toda religião tem gente boa e
gente que não vale o que o gato enterra. Pois bem, aqui na região tem um pai de
santo que é da Igreja Universal, aquela do Bispo Macedo.
- Pelo amor de Deus, Naturá! Isso não
existe. Como pode uma criatura ser do candomblé e crente ao mesmo tempo? E ainda
por cima da Universal. Esse sincretismo seria uma anomalia, uma aberração a ser
estudada em Harvard. Aí você já tá curtindo com minha cara.
- Das Américas, já vi que depois de se isolar nessa
ilha da fantasia que é Brasília, você perdeu a noção do metabolismo social em
que vivem os simples mortais. Você parece um alienígena que chegou hoje no
Brasil e nada sabe do que acontece no cotidiano da nossa gente. Se liga ou vai
virar um morto vivo, desligado da realidade, como esses políticos, seus amigos
aí de Brasília.
- Joãozinho, você me aparece com uma
história estrambólica, dizendo que Bolsonaro vai fugir e se esconder em
Maragogipe, que tem um pai-de-santo evangélico envolvido na trama e quer que eu
reaja com naturalidade? Tenha paciência. Vai quebrar coquinho!
- Pois é, acredite porque eu não gosto de Fake News
e Dorinha fala a verdade até quando mente.
Você sabe que pelo andar da carruagem e pelos
desmandos que a equipe de transição do Lula tem revelado, Bolsonaro vai ser
preso logo que perder aquele tal foro privilegiado que o cargo de presidente
lhe confere.
Vai não, poderia ser. Só vai se não executar seu
plano de fuga, conforme planejado.
Tá tudo, milimetricamente, traçado com apoio dos
golpistas da Marinha do Brasil. Você sabe que o atual comandante da força naval
brasileira é bolsonarista até debaixo d’água.
Preste atenção no que vou lhe contar, em
detalhes.
O Bozo deixa Brasília na noite de 31 para 1º de
janeiro, desembarca no Rio de Janeiro, embarca numa van preta com vidros fumê e,
dentro do túnel Acústico que liga a Zona Sul à Barra da Tijuca, ele vai trocar
de carro, iniciando o audacioso plano de fuga.
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Nagé, Maragogipe, Bahia |
Daí segue até um ponto no litoral, nas imediações
da restinga da Marambaia, área sob domínio das Forças Armadas, embarca num
submarino de tecnologia venezuelana - veja a ironia do destino - pertencente à
milícia carioca, segue em direção a Maragogipe e, uma vez já na terra de São
Bartolomeu, segue para o terreiro do pai-de-santo evangélico, que já está sendo
reformado para escondê-lo.
- Caraca, Naturá! Essa história parece
livro de João Ubaldo, em parceria com Agatha Christie.
- Das Américas, a história realmente tem lances
cinematográficos, mas o roteiro é baseado em fatos. E vou lhe dar provas cabais
de que o plano já está em plena execução.
No dia do primeiro jogo do Brasil na Copa do
Qatar, enquanto toda a gente estava ligada na partida de futebol, um caminhão
camuflado na cor cinza - como são os veículos da Marinha - foi visto entrando
no terreiro e descarregando uma grande remessa de leite condensado ou leite
Moça, como queira. Quer evidência maior que essa? Parafraseando o lendário
detetive Sherlock Holmes: “Elementar meu caro Watson.”
- Joãozinho, você tem que denunciar
isso à polícia imediatamente.
- Você quer me ver na terra do pé junto, é? Tá
doido? Não quero virar herói defuntado. Quem tem que denunciar é você aí em
Brasília.
- Eu? Tá variando? Quem tem as
informações, inclusive a localização do esconderijo é você e Dorinha. Eu sou um
mero confidente seu.
- Das Américas, eu aqui lhe dando a oportunidade de
sair do ostracismo e entrar para a história com uma informação privilegiada
dessa e você arrega. Quem viu naninha! Não te reconheço mais naquele jovem e
intrépido foca do Jornal da Pituba, nos idos dos anos da década de 1980, ao
lado de feras como Zé de Jesus Barreto, Vander Prata, Césio Oliveira, Sonia
Carmo, Jair Dantas, Sérgio Guerra, e dos saudosos Renato Pinheiro, Claude e seu
guru Zé Roberto Berni. Que decepção.
- Peraí, Naturá! Você não tinha me
passado o controle da história, queria inicialmente que eu fosse um
delator, indo à polícia para contar a
trama. São coisas totalmente diferentes.
- Então trate logo de se reunir com esses
jornalistas tipo Remington, seus amigos, e veja uma estratégia para revelar a
trama nacionalmente. Lembre-se de que essa bomba tem que ser detonada no dia 1º de
janeiro de 2023. Vai ser a notícia do ano. Minha parte eu quero em dinheiro. E
vivo, viu! À moda Bolsonaro. Hahahahaha!
Como dizia Ibrahim Sued quando dava
um furo jornalístico: “Sorry,
periferia."
Fui!
*Joãozinho
Naturá é um amigo de infância que exagerou no desfrute do famoso chá de
cogumelos do Recôncavo baiano e hoje vive entre a filosofia, a crença em
extraterrestre e os devaneios. Conta que sonha coisas que muitas vezes
acontecem. Vive na ilha de Nagé, em Maragogipe, Recôncavo baiano.
Muito bom essa figura do Joãozinho Naturá... Esse plano é muito criativo... adorei o "abusou do chá de cogumelo"
ResponderExcluirTambém gostei muito do personagem. O Zé Américo é muito criativo. Abraço e obrigado.
ExcluirPelo visto, as previsões de Joãozinho Naturá nunca faia!
ResponderExcluirPois num é... O cabra é bom. Obrigado pela participação aqui no blog.
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