Eu
vi um realejo a tocar. Como diz a música Velho Realejo de Custódio
Mesquita e Sadi Cabral. Foi lá pelos anos de 1960, em frente à casa de tia
Maria Camapum e tio Oswaldo Barroso de Souza, em Anápolis, Goiás. Cidade onde
fui nascer e aonde íamos muito na nossa infância.
Esse
momento mágico nunca saiu da minha memória. Meus sentidos sempre foram bastante
voltados para a música. E ver e ouvir aquele senhor do outro lado da rua, a
manivelar um caixinha que emitia sonoridade tão bela e distinta, foi um prazer
inesquecível. Agasalhou a curiosidade aguçada de criança.
Então,
o realejo passou e passa até hoje como num sonho a tocar seus acordes
melodiosos, arrastados, como se nos puxassem para outro tempo e lugar, sempre distantes.
Fico
a imaginar que, quando o realejo afastou-se daquela rua, deixou aquele bairro,
mudou de cidade ou trocou essa existência por outra, tudo deve ter ficado
triste e deserto. E eu, distante, fui poupado dessa ausência, desse apagamento
de um página tão suave e delicada da nossa história cultural.
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Anápolis, Goiás, devia ser assim nos anos 1960 |
O
realejo teria surgido na Europa há mais de 200 anos. Chegou ao Brasil, onde
nunca foi fabricado, no início do século passado. No interior de São Paulo e em
alguns locais do país, ainda existem raros exemplares, que são levados como
atração a eventos, festas e feiras.
O
extraordinário poeta Mario Quintana (1906-1994), em seu livro Canções,
de 1946, tem um poema que começa justamente falando do tema aqui tratado: "O
outono toca realejo/ No pátio da minha vida./Velha canção, sempre a esma,/Sob a
vidraça descida". Fico a me ver da janela de tia Maria a contemplar tão
belo e inesquecível espetáculo.
E
o escritor João do Rio (1881-1921), numa crônica sobre músicos ambulantes, cita
o caso de um cidadão que compra um realejo com bonecos mecânicos e, mediante
certos truques, consegue juntar uma boa grana. Estendendo-se sobre o assunto, João
observa que há realejos que sustentam numerosas famílias, realejos
escravizadores, realejos solteiros e malandros e "realejos virgens prontos
para a fuga".
De
minha parte deixo esses versos abaixo, o vídeo com a música Velho Realejo, na voz
incrível de Nelson Gonçalves e o violão inesquecível do saudoso Raphael Rabello. É tudo memória de um tempo que não volta mais...
Lindo!
ResponderExcluirValeu, obrigado.
ExcluirLindo demais.
ResponderExcluirQue bom que você gostou. Obrigado.
ExcluirBelas lembranças a nostalgia nos inquieta e nos regogisa.
ResponderExcluirValeu, Rodrigo, obrigado.
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