segunda-feira, 12 de outubro de 2026

Somos crianças de Nossa Senhora, a padroeira do Brasil

Escrevo sempre que posso sobre o Dia das Crianças. Volto no tempo, revivo a criança que há em mim e em todos nós. Resgato sempre os brinquedos como fio condutor do mundo das crianças através do tempo até os dias atuais, até nossa imersão na realidade adulta.

Sempre apreciei a comemoração do Dia das Crianças na mesma data em que se homenageia Nossa Senhora Aparecida, mãe de Jesus. Valorizo essa junção muito mais neste ano eleitoral, em que a padroeira do Brasil vem sendo vítima de ataques de uma extrema-direita atrasada, radical, destruidora, fascista mesmo.

Brinquedos marcam épocas, culturas, tecnologias e outras grandezas e até mesmo mazelas que atingem a nossa existência. O Dia das Crianças é sempre uma oportunidade interessante para refletirmos um pouco sobre o universo infantil.

Os brinquedos ficam arraigados em nossa memória. São reminiscências que nos lembram de épocas, fatos passageiros e mesmo situações marcantes que estão associadas às nossas histórias. E isso não apenas no Brasil, nem tão pouco somente no interior, mas também nos grandes centros urbanos, cercados pela modernização, e nos países que alcançaram alto grau de desenvolvimento tecnológico.

Minha memória dos brinquedos está fortemente associada a pessoas e às estações do tempo. Jogar bola era prazeroso sob o sol quente daquele interior goiano, ou mesmo debaixo de um toró daqueles que mal se conseguia enxergar a bola. Mas, rodar pião, que era um brinquedo maravilhoso, está associado ao tempo seco e quente. Já o triângulo, que tinha esse nome porque as casinhas eram desenhadas com essa forma geométrica, só podia ser praticado no período das chuvas.

Buscar caju nas serras e pequi no mato era uma atividade plenamente associada à determinada época do ano. Chegávamos a chamar as primeiras chuvas de “chuva do caju”. Tomar banho nos córregos e nos rios só era possível e permitido em determinadas épocas do ano.

De noite, as brincadeiras enchiam as ruas e geralmente estavam associadas ao folclore brasileiro e português, com cantigas de roda e outras danças. Boa hora para se gastar bastante energia com o “Pique de Lata”, “Cadeirinha Salve” e o “Pique Esconde”. Descer calçada abaixo em carrinho de rolimã era adrenalina pura. Correr de bicicleta pela Avenida Tocantins, serpenteando os postes de energia elétrica, dava um frio bom na barriga.

Meus filhos viveram um tempo de transição, com a chegada do computador e dos vídeos-games, inicialmente, bem simplesinhos. Depois, bastante sofisticados. Ramiro nasceu em 1983 e o Jordano, em 1989. Ainda brincaram um pouco de bolinhas de gude, às quais o pequeno Jojô dizia que eram de “vlido”.

Nossos netos, Juliano e Martina, são de um mundo tecnológico avançado, com todas as belezas e sonhos que os computadores e a Inteligência Artificial conseguem oferecer e disponibilizar, com rapidez e muita criatividade, às crianças do terceiro milênio. Têm um universo de escolhas muito mais amplo, até porque são influenciados pelos pais e, principalmente(!), pelos avós.

Graças aos estímulos dos avós, além de curtirem vídeo games supermodernos, conheceram e apreciaram brincadeiras como a de jogar peão, bolinha de gude, soltar pipas e bolinhas de sabão, até fazer e lançar ao ar aviõezinhos de papel. Têm um universo de escolha muito maior, mesmo vivendo em um tempo em que são mais vigiados do que os de outrora – as maldades também ganharam novas asas tecnológicas e avançadas.

E tudo isso é universal. Basta ver o vídeo do grupo português Deolinda, postado abaixo. Outro vídeo bem representativo desse universo é o da canção “Bola de Gude, Bola de Meia”, de Fernando Brant e Milton Nascimento. E pra colocar um pouco mais de molho nessa reflexão, resgato o poema “Ser Criança” de minha autoria.

Bom “Dia das Crianças”, boa viagem pelos sonhos e fantasias desse seres tão especiais. Beijos no coração infantil de todos nós!

Ser criança
José Carlos Camapum Barroso
 
Há em mim uma criança
Que teima em existir,
Encher de esperança
Um coração tão frágil...
 
Quer abrir meus olhos
Fechados por anos a servir.
Erguer minha cabeça
Abaixada pelo tempo,
Virada pelo vento
Tempestades do existir.
 
Quer a mente cheia
De sonhos e ilusões,
Distante das tensões,
Em paz com o porvir.
 
Uma voz suave
Sussurra no ouvido
E então me acalma.
 
Uma criança rebelde,
Assim, é a própria paz.
Resgata minha alma,
Traz de volta sonhos...
Tudo que perdi. 





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