sexta-feira, 21 de abril de 2017

Brasília, 57 anos, em três vértices de um triângulo de paixões


Tenho Brasília como minha cidade há 44 anos. Cheguei por aqui em janeiro de 1973. Agora, a cidade chega aos 57 anos de fundação. Aquela que escolhi para estudar, trabalhar, morar, constituir família e viver em paz com os amigos. Brasília tem a capacidade de se internalizar na nossa alma e na forma de pensar e de agir de cada um de nós. Uma cidade que nos ajuda a projetar o futuro de forma ampla, traçado a partir de novos horizontes, com um visual moderno e um pensamento inclusivo. Talvez devamos isso ao seu desenho urbanístico e a sua ousadia arquitetônica, mas também ao que ela se propôs desde sua criação.
Quando aqui cheguei, Brasília era uma garota, uma adolescente de quase 13 anos. Cheia de vitalidade, sonhos e esperanças. Os problemas maiores que cercam uma cidade grande ainda não se apresentavam de forma ostensiva, mas já davam os seus primeiros sinais, nas quadras, superquadras, eixos, vias e rodovias que desembocavam, cada vez mais, em novas cidades.
Vejo Brasília em três vértices. Tento expressá-los nos poemas que se seguem. E deixo aqui, mais uma vez, meus parabéns a essa cidade tão querida e inspiradora. Cidade do futuro, mas que traz em sua bagagem um passado enriquecido pelos sonhos e esperanças de seus filhos-criadores, com um presente pujante e amplo de possibilidades.


Horizonte em tela

Final de tarde em Brasília
Traz uma beleza infinita,
Que se perde no horizonte
E se encontra nos corações.

Da Catedral ao Cruzeiro,
Em pleno inverno seco,
As luzes se dissipam
Convergem-se ao passar
Pelo memorial de JK,
Como um prisma de nuvens.

E as imagens da Esplanada
Seguem pela torre, engalanadas,
Como se o centro do Universo
Fosse aqui, nas convenções
Criadas pelo traço do artista
Eterno, criador da natureza.

A cruz primeira do Cruzeiro
É o gesto final, derradeiro,
Para que o cavalete divino
Estique a tela do Senhor.
Faz-se a pintura maior,
Tingem-se as cores no céu
E o poeta crê que isso é amor...
Fecham-se as cortinas lentamente...

A lua dá os matizes finais,
As estrelas salpicam no pano,
E a cidade dorme suavemente...


Superquadras

Quadras quadradas,
Retângulos obtusos,
Saídas em círculos
De retas infinitas...
Triângulo (in) vértice,
Curvas imaginárias,
Onde paralelas finitas
Enfim se encontram
Entre duas asas.

Povo e povoado
Distantes do amanhã.
Casa e casebre...
Longe, perto, edifício...
Um mato que mata
Um sonho, pesadelo.
Árvore arvoredo...
De buscar bem cedo
Antes que o retorno
Sombrio da noite
Tire o Eixo dos eixos.

Brasília em brasa.
Círculo do circo
Que teima em circular.
Brasília de traços
Vistos do horizonte...
Hoje ainda de manhã,
Belas tardes de ontem.


Acorda Brasília!

Brasília, Brasília
Não és mais uma ilha,
Cercada de fantasias...
És senhora, adulta,
Cortada por viadutos
E vias congestionadas.
Por cidades-satélites,
De luzes reticentes
Que não brilham como a tua...
Por ruas que não se cruzam
No esplendor da simetria,
Na grandeza de monumentos
Que ostentas em curvas,
Entre retas infinitas...

Avião de asas cortadas,
Piloto sem plano de voo,
Perdido no quadrilátero
Incrustado no coração
De um Brasil Central,
Pleno de indiferenças...

Brasília, Brasília...
Não mais sorris aos filhos
Adotados e aos que são teus,
Que te ergueram e foram
Erguidos aos céus,
No sonho de dom Bosco,
Entre suor e lágrimas candangas.

Acorda antes que o sonho
Desperte o medo,
No século do pesadelo.
Acorda Brasília!

Ouça a voz que ecoa
No Planalto Central:
Ainda és sonho,
Esperança de vida!

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