quinta-feira, 19 de junho de 2014

Chico Buarque, aos 70 anos, esbanja talento e genialidade

Chico Buarque, Tom Jobim e Vinícius de Moraes - bons tempos
Junto à nossa rua havia um bosque. Fértil, inspirador, acolhedor... Um muro alto tentava impedir que bebêssemos daquela fonte. Não era apenas a maçã que se tentava ocultar dos nossos olhos, ávidos de novidades, mas também outras frutas e flores, carregadas de esperança, lirismo, poesia e musicalidade. Eram os anos 60, 70 e 80 do século passado. E esse bosque se chamava Chico Buarque de Holanda. O muro alto era a desconstrução do desenho lógico, mágico, fantástico, que brotava dos sonhos de uma geração efervescente.
Foi assim que conhecemos e nos tornamos fãs de carteirinha do Chico que no dia de hoje faz 70 anos. Um longo e prazeroso caminho da Banda a Tipo um Baião, com versos, frases, letras e canções pra todos os gostos e desgostos. Chico desperta paixões e ódios com a intensidade própria que esses dois sentimentos trazem em si. Mas, a sua obra atravessa incólume todas as barreiras, do tempo, do vento, da política, da ditadura e principalmente da intransigência.
Como sou um apaixonado pelo samba, fiquei radiante quando li a opinião do compositor Ismael Silva de que “Chico Buarque é samba”. É, sim, essencialmente o samba que está na raiz da nossa cultura, mas um compositor que, graças a seu talento e sensibilidade, soube plainar por todos os estilos, ritmos, tendências e modismos, sem perder a ternura e sem abandonar suas raízes, jamais.
Chico foi o primeiro a voltar do exílio imposto ou não a dezenas de artistas brasileiros nos anos mais difíceis da ditadura militar. Em 1970, um ano depois do AI-5, seu talento estava de voltar pra alegria e glória de todos nós, que ficáramos órfãos da turma dos festivais: Edu Lobo, nos Estados Unidos, Geraldo Vandré, na França, e os baianos Caetano e Gil, em Londres.
Sua obra desse período é marcante. Distancia-se do lirismo nostálgico e descompromissado do início da carreira e nos apresenta sua Construção, voltada para o dia a dia, o sofrimento do povo, as tragédias cotidianas, num trabalho maduro, erguido tijolo por tijolo, com engenho e arte. Chico enfrenta o convencional, invertendo valores, subvertendo ordens, valorizando a cultura popular – a nos mostrar que a aceitação do status quo nada mais é do que a nossa própria desumanização.
Chico atravessou o tempo, gerações as mais diversas, avanços tecnológicos e modismo de todas as espécies, até chegar à era da comunicação on line, das redes sociais, da paixão e do ódio virtuais mesmo que flagrantemente reais. A obra dele é tão boa hoje como no passado, mas encontra dificuldade de se comunicar com o presente. O presente é cruel e superficial. Chico é tratado nas redes sociais como se fosse um burguesinho que acredita no socialismo, mas tem apartamento em Paris e representa o universo acadêmico, por ser filho de um historiador. Tempos tão difíceis como os da ditadura militar. Agora, a ditadura da intransigência.
Mas Chico Buarque de Holanda é superior a tudo isso. É o compositor mais completo da Música Popular Brasileira, embora não seja o melhor músico e nem o único e extraordinário letrista. Sua obra é ampla, repleta, exuberante, sensível e apaixonante. Quem não a conhece por inteiro não sabe o que está perdendo. Mas, nunca é tarde para fazê-lo. Isso tudo sem falar do Chico da literatura, dos musicais, das trilhas sonoras e outras versatilidades.
Salve Chico. Parabéns por todos esses anos de dedicação plena à cultura. O ZecaBlog, humildemente, agradece.


           

Um comentário:

  1. Que perfeição esse texto!!!! você me apresentou o Chico, quando aos meus 13 aninhos, chegastes em Uruaçu voltando de BH para curtimos suas férias, com os LPs debaixo dos braços... Apaixonado pela arte de Chico. Parabéns, o homenageado precisava ler isso.

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