terça-feira, 23 de outubro de 2012

Apenas uma foto postada lá no Facebook... Mas, como doi

A saudade é dor pungente, que mata a gente, diz o verso da canção popular. Confesso que senti isso no fundo da alma ao ver essa foto do amigo Manoel Fernandes Teixeira, conhecido mesmo como Kubitschek, graças ao apelido que ganhou do avô apaixonado pelo ex-presidente Juscelino. A foto foi postada lá no Facebook pelo sobrinho do Kubitschek, o garoto Bruno, filho de Solange Campos e Rômulo Teixeira.
Foto é assim, mesmo. Tem o poder de num determinado momento nos encher de lembranças de um passado em que éramos felizes e sabíamos disso. Um passado que está preservado nas ruas de Uruaçu, nas calçadas por onde andávamos, nas praças por onde sentávamos, a ouvir o violão melodioso e harmonioso de Kubitschek, que para nós acabou virando apenas Chek. Talento musical que herdou do pai, Plínio Teixeira, que foi um dos melhores instrumentistas do estado de Goiás – tanto no cavaquinho e no bandolim, quanto no violão.
Rapaz tímido, mas cativante. Amigo leal e de todas as horas dessa vida: boas, difíceis e mais ou menos. Deixou-nos muito cedo, mas nunca esteve ausente nas horas em que em sua presença deveria ser obrigatória para todos os que o conheceram. Sempre esteve presente em todas as serenatas que fizemos desde que ele se ausentou das madrugadas uruaçuenses.
Sua presença continua lá na Ponte Velha, do velho Passa-Três, que sucumbiu à imensidão das águas do lago da Serra da Mesa. Continua presente a nos desafiar com sua rebeldia, serena e mansa, sempre que nos julgamos um pouco mais do que aquilo que construímos em nossa trajetória bem mais recheada de oportunidades.
Não somos muito, mas somos um pouco daquilo que Kubitschek impôs à nossa formação, pelo seu caráter e pela sua dignidade. Amigo é pra essas coisas. E o Chek foi um grande e inesquecível amigo.
A Kubitschek e aos seus familiares coloco abaixo uma poesia que escrevi há alguns anos. Posto também uma música que gostaria muito que ele tivesse tido a oportunidade de conhecer. E outra que ele conheceu e tocava muito bem.
Agora, sim, dá pra conciliar o sono, numa noite quente, de um mês de outubro.

Ausência
José Carlos Camapum Barroso
(Para o amigo Chek)

Onde estará a nota
De acordes dissonantes,
Que carregou pra longe
Olhares tristes, distantes?

Estará sob a ponte, velha,
Por onde água de mares
Levaram violas, violões,
Palavras, versos e luares?

Nesse rosto contido...
Não se encontra mais!
Há um gosto amargo,
Ausência de carnavais.

Tem branco na alma,
Arrancada de todos nós,
Sem velhas canções,
Tiradas de si... Em dós.

Traga nossa fumaça,
Nas noites, nos varais,
Rompe a medicina,
Rasga leis e jornais...

E bebe desta cachaça,
Com goles dos imortais!
Silêncio! Ouve-se algo...
Saudades. Nada mais.



12 comentários:

  1. Adorei ZéCarlos, realmente o Chek era mesmo uma presença bonita, serena, com seu violão sempre disposto a nos alegrar! Abraço

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. É isso aí, Cleide. Você disse bem: "com seu violão sempre disposto a nos alegrar". Obrigado pela sua participação aqui no blog. Abraço.

      Excluir
  2. O Check não morreu! Enquanto houver musica e poesia ele estará presente. Aqui em Vitória, Espírito Santo eu o encontro com frequencia...para minha alegria.

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. Não morreu mesmo, caro Ítalo. Você lembrou bem, ele continua presente nos meios musicais, nos ambientes de poesia, nas serestas e nos encontros dos amigos. Grande abraço.

      Excluir
  3. Que bom ver isso! Esse grande homem é meu pai,ainda corrego comigo um pedaço dele, pessoa fantástica, muito amada e querida até hoje! Amor da minha vida! Saudades eternas!

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. Laura, que bom que você tenha feito um comentário aqui no blog. Eu tive contato contigo somente quando você era criança. Quem me deu algumas notícias suas foi o nosso amigo Iliomar, lá de Uruaçu. Entre em contato comigo pelo e-mail jccbarroso@gmail.com. Grande abraço e obrigado pela participação.

      Excluir
  4. Do amigo, Nélio Bastos, que também compartilhou desse convívio maravilhoso com o Chek, recebi o e-mail abaixo:

    "Zé,
    Eclesiastes 3 nos diz que há tempo para todo o propósito debaixo do céu. A mim, me parece que, agora, estamos no tempo da saudade! As perdas foram se acumulando ao longo do caminho.
    Muito do que achamos, perdemos! Muito do que nos fez contentes, nos faz, agora, tristonhos, pela ausência!
    A ausência que castiga, não é de poucos, já soma muitos.
    Hoje, são muitas as saudades! Saudades que nos fazem compreender o que disse o Poeta:
    “Saudade, soledad, melancolia,
    És lejania.”
    Disso, penso que nós, ainda por aqui, não podemos nos dispersar.

    Abraços"

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. Tem razão, Nélio, não podemos nos dispersar. Temos que nos agrupar mais, valorizar o convívio e torná-lo mais intenso. Grande abraço.

      Excluir
  5. José Carlos, muito obrigado pela bela poesia e palavras de carinho dedicadas ao meu irmão e a meu pai. Já era de meu conhecimento, mais sempre que vejo esta poesia, não tem como não emocionar.
    Como sou católico e temente a Deus, não tinha o direito, mas fiquei muito bravo com Ele. Porque nós humanos, temos que passar por tantos sofrimentos e saudades dos amigos e familiares que se foram? Porem logo entendi que nossa vida só tem sentido se ligadas por amor e amizade, que se não passássemos por todas essas provações, seria inútil amar, seria inútil ter amigos e, sem sentimentos não faríamos poesia e músicas. Sem amor, sem amizade, sem sentimentos não haveria vida.

    Abraços.

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. Genial, Rômulo. Gostei muito das suas palavras. Grande abraço, amigo.

      Excluir
  6. Você disse o que todos nós gostaríamos de dizer, de Kubitschek: um violonista talentoso, autodidata, herdeiro da musicalidade maravilhosa do pai; Amigo simples, sincero, com um jeito irônico, inocente e ao mesmo tempo boêmio de viver e olhar a vida, sem maiores cuidados com as intempéries, e tào cedo ceifado do nosso convívio...sua foto revela saudade, silêncio, sons distantes de violão e uma contida emoção. Parece que com ele se foi um período romântico de nossa vida e de nossa cidade....E vc ainda insere, numa hora dessas, essa Valsinha do Chico, que é de fazer chorar!!

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. É isso, mestre Itaney. Faltou dizer isso aí que você colocou no comentário: "um jeito irônico, inocente e ao mesmo tempo boêmio de viver a vida". Nós aprendemos muito com Chek. E mais ainda com a ausência dele. Abraço e obrigado pela participação.

      Excluir