quarta-feira, 13 de novembro de 2013

Nas ondas do rádio é possível surfar com prazer e segurança


O rádio é uma das grandes paixões da minha vida. Passei a infância e a pré-adolescência com o ouvido colado num daqueles aparelhos tradicionais de rádio, que já nem se fabricam mais. Gosto das surpresas que vem pelas ondas sonoras, tanto no plano das notícias, quanto no das músicas e do humorismo. Acho prazeroso, por exemplo, colocar cinco discos e deixar tocar músicas aleatoriamente, recurso hoje sofisticadamente chamado de shuffle. Quando faço isso, os meninos lá em casa já zombam: "lá vem o saudosista do rádio...".
Boa parte das minhas recordações de infância tem alguma coisa vinculada ao rádio. Lembro que certo dia estava sentado numa cadeira, ao lado da mesinha do rádio, cumprindo meu ritual, quando entra o amigo de infância Zé Renato Pereira (de saudosa memória), dizendo: “seu avô morreu, tá sabendo que seu avô morreu!”.
Tinha morrido, mesmo. E o corpo de seu Antônio Camapum, mais conhecido por seu Toinho, já estava chegando a Uruaçu, vindo de Goiânia, depois de uma temporada tentando debelar um câncer na capital do Estado. Lembro um pouco do velório, as pessoas chorando muito e eu assustado com tudo aquilo. Depois, durante alguns dias, o rádio ficou coberto com um pano preto. E eu sem entender o que estava acontecendo. Além de perder meu avô, ainda não podia ouvir rádio? Explicaram-me que era preciso guardar luto.



Adorava ir para casa do tio e padrinho Batista Coelho Barroso, radioamadorista licenciado, que tornava as comunicações mais eficazes naqueles anos das décadas de 1950 e 1960, na pequena Uruaçu, encravada no coração do Brasil e do mundo - quiçá, do universo. Ele transmitia em PRK, um número tal, que já não me lembro, e com a deixa de Brasil-Guatemala-França. 
A comunicação via rádio é fácil, direta, objetiva. O seu poder de difusão e de penetração nas diversas classes sociais e pelo país afora é inestimável. Todos amam o rádio, sejam radialistas, jornalistas, comentaristas, músicos, e até mesmo, pasmem, os políticos!
Já temos três datas homenageando esse veículo de comunicação e seus profissionais. Uma dessas datas, o Dia do Radialista, em 21 de setembro, foi criado por Getúlio Vargas para comemorar a instituição do piso salarial da categoria; o outro Dia do Radialista, em 07 de novembro, foi instituído pelo presidente Lula, em 2006, para homenagear Ary Barroso, músico e locutor esportivo de raro talento; e o tradicional Dia do Rádio, que se comemora em 25 de setembro, criado para reverenciar Roquete Pinto – o pai do rádio no Brasil.
Até na criação do rádio tem dedo de brasileiro. O inventor, oficialmente, é o italiano Guglielmo Marconi, que criou o "telégrafo sem fio", um modelo inicial que se desenvolveu até o sistema que conhecemos hoje. Mas há também quem atribua essa invenção ao padre brasileiro Roberto Landell de Moura, que, em 1894, desenvolveu aparelho semelhante e efetuou a emissão e recepção de sinais a uma distância de oito quilômetros, do bairro de Santana para os altos da Avenida Paulista, em São Paulo. Religiosos fanáticos teriam destruído seu aparelho e anotações por se tratar de pacto com o demônio, o que atrasou o registro da invenção.
Ary Barroso, justamente homenageado com o Dia do Radialista, na semana passada, era uma figura ilustre e folclórica do mundo do rádio. Flamenguista apaixonado, narrava as transmissões dos jogos de forma bastante peculiar. Quando o time adversário se aproximava da área do seu clube, em jogada perigosa, ele gritava: “Não quero nem ver”. Se o Flamengo sofria um gol, então, ele narrava: “E deu-se a merda”.
O rádio e os radialistas merecem nossas homenagens. É um veículo de comunicação fantástico, cheio de histórias curiosas e intrigantes. Nessas ondas, podemos surfar com segurança e tranquilidade. Elas não nos oferecem riscos, só contentamento.

2 comentários:

  1. Beleza de crônica, Zé! Só sei dizer que eu também adoro rádio, naquele estilo de transmissão antiga! Vc disse tudo!

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