sexta-feira, 4 de maio de 2012

Tinoco morre e deixa a música sertaneja ainda mais pobre

A música popular brasileira rural tem perdido muito em qualidade de umas duas décadas pra cá. Na madrugada de hoje, perdeu um de seus mais legítimos representantes, o cantor e compositor José Perez, o Tinoco da dupla sertaneja Tonico e Tinoco, que morreu em São Paulo, aos 91 anos de idade, vítima de insuficiência respiratória depois de sofrer duas paradas cardíacas.
Tinoco é um dos cantores de música popular brasileira que mais tempo ficaram na ativa. A dupla se desfez em 1994 com a morte do irmão Tonico, mas Tinoco continuou cantando e fazendo apresentações em palcos, rádio e televisão. Exerceu a profissão de cantor por cerca de 80 anos, mantendo sempre a tradição da viola caipira e valorizando temas voltados para o amor e a vida no campo.
Na segunda metade da década de 30, a dupla interpretava músicas de cunho social e político, com temas referentes à crise causada pelas revoluções de 1930 e de 1932. Diziam que eram modas de viola de um tal Jorginho do Sertão, autor imaginário. Antes de fazer sucesso, a dupla trabalhou pesado no campo, no cabo da enxada e em serviços gerais. Depois que a família mudou para a capital do estado, Tinoco foi trabalhar num depósito de ferro velho, Tonico alugou uma enxada e prestava serviço nas chácaras da região de Santo Amaro, enquanto as irmãs trabalhavam de domésticas.
Foi nessa época que os irmãos Perez conheceram a dupla mais famosa da época: Raul Torres e Florêncio. Tonico e Tinoco começaram a cantar em rádio e gravaram seu primeiro disco em 1944, com a música Invés de Me Agradecer, que acabou saindo num compacto simples gravado apenas de um lado. Na gravação do lado B, eles estouraram os microfones ao cantar alto, como faziam na roça.
O sucesso mesmo veio com Chico Mineiro, composição de Tonico e Francisco Ribeiro. Era o ano de 1946 e, com o fim da Segunda Guerra Mundial, o número de emissoras de rádio e de aparelhos receptores multiplicava-se rapidamente. A dupla tornou-se paixão nacional. Tonico e Tinoco chegaram a gravar cerca de 1.000 músicas, em 83 discos, vendendo mais de 150 milhões de cópias.
O Brasil perde muito do seu lado sertanejo, seu jeito caipira de ser. Quem ganha são os organizadores de festa lá no céu, que agora passa a contar com a dupla de irmãos Tonico e Tinoco. Nós, por aqui, vamos ter que continuar aguentando falsos sertanejos e os Luan Santana da vida. A vida é dura, mas continua...







Um comentário:

  1. Sobre a morte do Tinoco, recebi por e-mail este belo comentário do amigo Nélio Bastos:
    "Zé, nos resta um consolo: temos os “discos” da Dupla que, se já conservávamos com todo o cuidado, agora guardaremos como se fossem “velhas cartas” a nos lembrar do passado da música genuinamente sertaneja, amarelada - não pelo tempo - mas pelas duplas que se dizem de cantadores sertanejos e que ensandecidas agridem os nossos ouvidos. Lamentemos, já que o “mensageiro canário fechou os olhos e morreu”.

    ResponderExcluir