domingo, 4 de agosto de 2013

"Rio Claro", onde um francês redescobre o interior do Brasil



 Jean-Marie Butruille é um francês, agricultor, nascido no ano de 1945, que se tornou brasileiro, goiano, graças aos quase trinta anos de vivência no interior do cerrado brasileiro, este chão maravilhoso que amamos tanto e conhecemos pouco. Chegou por aqui no ano de 1984 pra comprar e administrar fazendas. Depois foi montar projetos de pecuária pelo Brasil afora, lidando com formação, manejo, confinamentos e outras atividades desse universo.
Tem raízes nos campos da França e do Brasil. Bebeu da cultura do velho e do novo mundo, sempre observando que o homem do campo tem comportamentos e valores universalmente similares. Graças a uma sensibilidade aguda e senso de observação, foi capaz de captar e absorver histórias ricas contadas pelas pessoas com as quais conviveu no imenso interior goiano.
Criou uma história que virou um romance chamado Rio Claro. O cenário é o da região que conheceu com a palma da mão, entre os rios Maranhão, das Almas e o Paranã. Traz uma descrição rica dos lugarejos, sua gente, sua cultura e dos conflitos que se desenvolveram com intensidade nos anos da década de 1950. Grileiros e posseiros se engalfinharam, deixando mortos, feridos e algumas feridas que até hoje não se cicatrizam. Em meio aos conflitos, à luta pela posse de terras, surge o romance entre Abadia, 20 anos, filha de Maria e Waldemar, dono do quilombo chamado Santo Antônio das Antas, com o mineiro Antonio Cavalcante, 40 anos, lá das bandas de São João Del Rey e dono da fazenda Rio Claro.


Além de contar essa bela história, com riqueza de detalhes e descrição preciosa e precisa dos lugares e de sua gente, Jean Marie ilustra o livro com desenhos (acima), mostrando talento também para essa arte. Depois, foi mais ousado e me mandou um desenho abstrato (veja abaixo).
Minha identificação com o romance, os desenhos e as histórias de Jean Marie ocorreu de forma plena. A região demarcada é próxima a Uruaçu, minha terra natal, Niquelândia, Cavalcante, Corumbá, Pirenópolis, Formosa e Planaltina, que depois passaria a pertencer ao Distrito Federal. Os anos são os de 1952, 1953 e 1954, este último o que me viu nascer. O confronto entre grileiros e posseiros também envolveu minha família Camapum.
O romance mostra com precisão o que era o interior de Goiás, uma região ainda em formação, descrevendo com clareza a fauna, a flora e o nosso sertanejo. Anápolis era uma cidade madura, com comércio forte. Goiânia tinha acabado de completar sua primeira década, portanto, ainda sendo construída. Brasília era apenas um sonho que, logo, logo, começaria a sair do papel.
Faço minha as palavras de Márcia Duarte, em sua apresentação do livro, que ainda é um projeto aguardando patrocínio e apoio para ser impresso. Diz ela: “É um belíssimo romance, que apresenta a transformação de um homem ao se deparar com a essência da beleza ingênua e natural de uma jovem negra. Desmistifica o pecado diante da intensidade do amor e transporta-nos para outra dimensão, livre de estereótipos e pragmatismos sociais”.
Na França, Jean Marie tinha fazenda com fortes sinais do passado, com artefatos pré-históricos nos campos, telhas e lamparinas de origem galo-romana, túmulos do século IV no quintal, e uma casa do século XIV. No Brasil, garimpou o passado, trazendo-o para o presente numa obra que precisa ser editada. Tem um dom especial para achar água, que, segundo ele, vem da infância e o ajudou muito a penetrar e a conhecer cada vez mais o interior brasileiro.
É um romance a espera de uma editora e um país ainda carente de conhecer a si próprio, principalmente a realidade rica e profunda de um interior que já era pujante mesmo antes da chegada de Brasília. Jean-Marie é um garimpeiro de água, de histórias e de cultura. Um agricultor francês que veio lavrar um cerrado bruto, mas cheio de riquezas.

7 comentários:

  1. Do francês Jean-Marie, recebi o seguinte comentário por e-mail:
    "Eu estou muito orgulhoso da apresentação que você esta fazendo do meu livro. Nos compartilhamos o mesmo amor para esta região descrita no livro "Rio Claro", eu por adoção, você, pois está fazendo parte da sua essência. Isto está me encorajando a continuar desenhando, escrevendo e lutando para publicá-lo. Realmente eu estou tocado fundo pela sua apreciação. Muito obrigado, José Carlos!
    Cordialmente,
    Jean-Marie"

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  2. Eu, também nascido em 1954, só que em Anápolis, tive a oportunidade de ler o livro "Rio Claro" ainda em sua versão inicial em Francês, parabenizo o autor deste Blog pelo seu post. O romance, de leitura fluida e agradável nos transporta para o momento de transformação que precedeu a transferência da capital brasileira para o planalto central e nos mostra também, com incrível realismo, o dia-a-dia das pessoas, transformando uma terra intocada em uma fazenda moderna, o relacionamento de empregados e patrões, os conflitos pela posse da terra e a violência dos poderosos. Não parece ter sido escrito para ser um documentário histórico, mas inúmeras vezes me peguei reconhecendo neste livro, paisagens, locais, comportamentos, veículos, objetos e fatos que presenciei na minha infância ou contados pelos meus pais. A população de Brasília e de toda a região afetada pela mudança da capital ganharia muito lendo este livro. Jean Marie nos leva a entender o impacto social sofrido pela população, que vivia em uma cultura quase medieval e, que de repente viu o cerrado transformado em culturas mecanizadas e irrigadas, viu estradas asfaltadas e ferrovias e viu Brasília, bem pertinho, ser construída e ocupada. A leitura, pra mim, preencheu um vazio que eu nem sabia existir e me ajudou a entender as raízes do fato de eu gostar tanto do planalto central. O projeto de publicação deste livro do Jean Marie merece sair do papel.

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    1. Muito esclarecedor esse seu depoimento, caro Jânio Barbosa. Realmente, Jean-Marie é uma figura rica culturalmente e o livro é o atestado maior dessa riqueza. Vamos somar esforços para que a obra seja publicado. Obrigado pela participação.

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    2. Alguns leitores fizeram confusão com o Jânio Barbosa (responsável pela tradução). Ele não é responsável pela tradução do livro "Rio Claro". Ele apenas o leu no original, em francês. Quem "passou" para o português foi o próprio Jean-Marie. E digo passou entre aspas porque ainda precisa de um melhor adaptação para o nosso idioma. Na verdade, Jânio Barbosa traduziu para o português um ensaio de Jean-Marie, que se chama "Muquém". Acabei de recebê-lo e ainda vou ler.

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  3. Jean-Marie, maravilha, o livro será esperado por todos nós
    filhos da região, ficamos agradecidos pelo seu olhar ao rico cerrado, que rapidamente está desaparecendo. Parabéns também pela sua arte nas telas.Lindas !

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  4. Esses comentários, tão bem postos, despertou em mim o desejo de ler o livro. Também tenho minhas raízes fincadas bem fundo na região central de Goiás, de sorte que essas histórias dos conflitos sociais, da expansão agrícola, do avanço do capitalismo pelo sertão adentro confundem-se com a minha própria história familiar. Muito interessante a resenha crítica do competente blogueiro, ratificada pelas palavras convincentes do Jânio...sem dúvida que o livro merece ser editado e lido. Se puder, gostaria de ter acesso aos originais...

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  5. Juracema e Itaney,
    Todos nós curtimos muito essa região e as suas histórias de conflitos pela posse da terra. Esse livro tem tudo a ver com a nossa formação cultural, por isso me identifiquei tanto com a obra e também com o seu autor. Abraço e, mais uma vez, grato pela participação de vocês aqui no ZecaBlog.

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