domingo, 28 de julho de 2013

Toda Poesia, de Leminski, cura de depressão a espinhela caída


Toda Poesia, de Paulo Leminski, vai fechar o mês de julho na 13ª posição dos livros de ficção mais vendidos no ano de 2013, no ranking do Publish News, acumulando até a semana passada um total de 32.116 exemplares vendidos. O poeta polaco louco paca, curitibano que viveu apenas 45 anos, de 1944 a 1989, é o único autor brasileiro entre os vinte livros de ficção mais vendidos nos primeiros sete meses de 2013, segundo a mesma fonte.
Esse é um quadro que nos enche de alegria. Vem para quebrar a máxima do mercado editorial de que livros de poesia não vendem. Toda Poesia tem 424 páginas, reúne 600 poemas desse autor extraordinário, custa a bagatela de R$ 46,00, e mesmo assim ocupa posição de destaque no ranking de vendagem, chegando, em algumas semanas a desbancar da primeira posição a trilogia de E. L. James (Cinquenta Tons de Cinza, Cinquenta Tons de Liberdade e Cinquenta Tons Mais Escuros).


Leminski é um poeta que traz contentamento. A leitura de seus livros nos propicia prazer seja pela capacidade de escrever respeitando e utilizando-se de construções formais, nas águas do concretismo, bem como pela sensibilidade em utilizar-se da linguagem coloquial, improvisando sem medo e sem risco de cair no lugar comum. Toda Poesia reúne em um livro todos os livros que o poeta publicou ao longo de uma carreira muito curta, mas intensa e reconhecidamente original. Sua estreia na poesia foi em 1976 e ele morreu poucos meses antes de completar 45 anos, em 1989.

Aviso aos náufragos
Paulo Leminski

Esta página, por exemplo,
não nasceu para ser lida.
Nasceu para ser pálida,
um mero plágio da Ilíada,
alguma coisa que cala,
folha que volta pro galho,
muito depois de caída.

Nasceu para ser praia,
quem sabe Andrômeda, Antártida
Himalaia, sílaba sentida,
nasceu para ser última
a que não nasceu ainda.

Palavras trazidas de longe
pelas águas do Nilo,
um dia, esta pagina, papiro,
vai ter que ser traduzida,
para o símbolo, para o sânscrito,
para todos os dialetos da Índia,
vai ter que dizer bom-dia
ao que só se diz ao pé do ouvido,
vai ter que ser a brusca pedra
onde alguém deixou cair o vidro.
Não e assim que é a vida?



Seu talento está intimamente ligado também à música popular brasileira, por meio de composições como Verdura, gravada por Caetano Veloso, e letras feitas para canções do próprio Caetano, Gilberto Gil, Moraes Moreira, Paulinho Boca de Cantor, Arnaldo Antunes, José Miguel Wisnik, Itamar Assumpção e tantos outros.
Escreveu ensaios sobre a poesia de Edgar Alan Poe em O Corvo. Agraciou os brasileiros com traduções para James Joyce, Samuel Beckett e o compositor John Lennon, entre outros. Também escreveu literatura infantil, como Guerra Dentro da Gente e A Lua Foi ao Cinema. Viveu intensamente a cultura, a boêmia e os amigos.
Toda Poesia pode ser apreciado de um gole só ou em doses homeopáticas. Não tem bula, muito menos contra indicações. O colega jornalista e amigo Maranhão Viegas disse que degustou todas as 424 páginas em uma noite de perda de sono. Eu preferi absorver todas as 600 poesias em doses bem dosadas ao longo da semana. Confesso que tive a sensação de que esse livro cura tudo, de depressão à espinhela caída.
De qualquer forma, é uma livro que todos os amantes da poesia, da riqueza cultural brasileira, têm obrigação de lê-lo e tê-lo na cabeceira da cama. É uma obra deliciosa a ser apreciada do início ao fim. Prazer que vem com certificado de garantia pra toda a vida.

Um comentário:

  1. É difícil comentar quando o poeta é muito bom . Os versos são viagens, prazer, melancolia,alegria pela sensibilidade . Bate no peito um respeito por aqueles que nos encanta, nos suaviza,nos faz pensar, chorar, amar...comprar o livro é melhor ainda.

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