sexta-feira, 28 de março de 2014

Pra não dizer que não falei de flores e nem de Vandré


A vida não se resume a festivais. Nem a canções. A vida é muito mais do que todas as coisas das quais participamos, ou mesmo das que deixamos de participar. A vida é complexa antes, durante e depois dos anos de chumbo que nos foram impostos pela ditadura militar. Geraldo Vandré disse que a vida não se resumia a festivais e começou a cantar Caminhando (Pra não dizer que não falei de flores), música simples (dois acordes), mas de rara beleza, despojada, de comunicação direta e imediata com o público. Perdeu aquele festival, mas foi superada pela belíssima Sabiá, de Chico Buarque e Tom Jobim.
Vandré não ganhou o III Festival Internacional da Canção, realizado em 1968, mas conquistou o público, as ruas e o coração de gerações e gerações que se sucederam àquela noite histórica para a Música Popular Brasileira. Na saída, centenas de jovens cercaram o carro do cantor. Pediram que ele cantasse, e ele cantou. Talvez, a última vez com aquela dimensão e intensidade. Disse ali mesmo: "Isso está virando comício, por favor, me deixem ir embora".
Foi embora, não apenas daquele local. Começava, ali, uma nova peregrinação que o aproximaria mais do Vandré romântico, aquele do início da carreira, autodenominado Carlos Dias, em homenagem ao ídolo Carlos José. Logo, logo, Vandré passaria a cantar o amor e a paz, fortemente influenciado, no exílio, pela saudade de sua terra e pelos cantadores de festas e feiras do interior nordestino. Nascia, em 1973, ano de sua volta para o Brasil, o LP, lançado aqui pela Philips, Das Terras de Benvirá.
Lá pelos idos de 1976, salvo engano, quando estudava na UnB e morava na Asa Norte, encontrei-me com um grupo de amigos, que me disseram, mais ou menos, o seguinte: Zé, você perdeu, ontem, Geraldo Vandré estava no Zebrinha (bar da Asa Norte de Brasília). Era verdade, encontraram-no por lá, e o convidaram para uma prosa no apartamento dos irmãos Lúcio e Roberto. Pelo que ouvi dos amigos, pude concluir que havia perdido, sim, a oportunidade de conhecer um novo Vandré, que começava a tomar corpo naquela época. Mas, não tinha perdido a oportunidade – e nem teria como – de conhecer o Vandré dos anos 60.
Este - e também aquele romântico, sonhador - o cantor e compositor enterrou definitivamente no ano de 1978, quando o advogado Geraldo Pedrosa de Araújo Dias disse, em entrevista, que tinha inventado o Geraldo Vandré. Nascia, ali, um terceiro Geraldo, distante tanto das canções engajadas, quanto das românticas. Não iria cantar mais e nem subiria mais nos palcos para participar de shows.
Isso, até o fim de semana passado, quando, em São Paulo, a cantora Joan Baez conseguiu fazer com que ele subisse ao palco. Não cantou, mas declamou alguns versos e foi homenageado pela cantora e pelo público. Um momento histórico, que pode ser visto abaixo, num vídeo gravado de forma amadora por um espectador, mas denso e cheio de simbolismo.
Geraldo realmente enterrou pra sempre o Vandré. Justamente o autor de Pequeno Concerto que Virou Canção, que, em 1965, dizia o seguinte:

“Não, não há porque mentir/ou esconder a dor que foi maior/do que é capaz meu coração/não, nem há porque seguir cantando/ só pra explicar/não vai nunca entender de amor/quem nunca soube amar/ah, eu vou voltar pra mim/seguir sozinho assim/até me consumir/ou consumir toda essa dor/até sentir de novo o coração/capaz de amor”.


É importante também lembrar o post script colocado por ele no disco Canto Geral, de 1968, que tenho aqui em casa em vinil:

“Vós que vireis na crista da onda em que nos afogamos, quando falardes de nossas fraquezas, pensai também no tempo sombrio a que haveis escapado” (Bertolt Brecht).

Premonição pura. Vandré era assim. Simplesmente, um cantador das coisas que aprendeu a ver, ouvir, pensar e sentir a respeito do seu tempo, do seu lugar e da gente que vivia pelas terras do Benvirá. Pena que a mesma vida, complexa, que o fez assim, também o levou por caminhos diversos.
É, realmente, a vida não se resume a festivais.

 

4 comentários:

  1. Ótima postagem. Parabéns como sempre Ze Carlos. Selma

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. Obrigado, Selminha. Sempre atenta com as coisas do blog. Valeu.

      Excluir
  2. José Carlos, estive no show da Joan baez aqui em Porto Alegre e foi emocionante demais qdo ela e nós cantamos a linda marselhesa brasileira.
    Sabe informar como consigo o livro de poesia que Vandré escreveu no Chile ou na França?

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. Imagino que deve ter sido lindo esse show da Joan Baez. Vou pesquisar sobre o livro de poesias do Vandré, assim que descobrir onde encontra-lo, aviso pra você. Obrigado pela participação.

      Excluir