domingo, 7 de abril de 2013

Dia do Jornalista é dia de trabalhar pela liberdade


Jornalista trabalha até no dia em que se comemora e se homenageia a profissão, mesmo quando esse dia cai num domingo. Assim, em vez de comemorar ou bebemorar este 07 de abril – data instituída pela Associação Brasileira de Imprensa em homenagem ao médico e jornalista Giovanni Badaró, assassinado por inimigos políticos –, costumamos aproveitar essa data para refletir sobre a profissão, a liberdade de expressão e as responsabilidades do jornalista.
Não é fácil. O tema é espinhoso e envolve aspectos racionais, emocionais e algumas vezes até completamente absurdos. Sempre que se fala em exercer algum tipo de controle sobre o que a imprensa publica a discussão vem eivada de interesses políticos partidários. Não há equilíbrio, bom-senso e muito menos racionalidade no trato da questão. O que nos faz supor que muito menos ainda esses atributos sobreviverão numa possível e provável comissão de acompanhamento do que os meios de comunicação podem tornar público.
O xis da questão reside no que se quer a priori e o que existe, de fato, a posteriori. No Brasil, a legislação é falha e frágil, e os caminhos são tortuosos para executar o que já está previsto em lei, quando se trata de garantir direitos ao cidadão atingido em sua honra, vida moral ou profissional, por notícias inverídicas, mal apuradas e divulgadas de forma distorcida pelos meios de comunicação. Até o preliminar e elementar direito de resposta não está regulamentado de forma adequada e justa. Muito menos as punições penais aos que abusaram do direito de informar e os ressarcimentos financeiros para aqueles que, comprovadamente, sofreram abuso do constitucional direito de livremente informar. O resultado: injustiças e sentenças inadequadas com a realidade dos fatos.
Esse é um prato cheio e o cenário ideal para os que sonham em colocar em prática ações que limitem a liberdade de informação, preocupados exclusivamente com interesses pessoais e/ou partidários. Têm cheiro de revanchismo e oportunismo as pregações contra a imprensa livre, que deveria ser regulamentada por comissão criada pelo Estado, leia-se governo, com intuito de evitar os abusos do “quarto poder”.
Coincidentemente, são os mesmo que condenaram as divulgações iniciais do esquema do mensalão. Quando as denúncias surgiram, até Marcos Valério era inocente, coitado. Depois, tentou-se o argumento perigoso de que ministros da Suprema Corte da Justiça brasileira estariam condenando à prisão, e ao pagamento de pesadas multas, cidadãos inocentes, sem a existência de provas. Só pra dar um exemplo, custo a crer que um juiz da estirpe do ministro Celso de Melo condenaria à prisão alguém sem provas nos autos. Assim como ele, todos os outros.


No passo seguinte, passaram a defender, principalmente nas redes sociais, que a mídia burguesa precisa e deve ser regulada. Os meios de comunicação, que aí estão, são “tucanos” e querem derrubar os atuais detentores do poder. Podem até usar esse argumento para se fortalecerem política e eleitoralmente, mas é inaceitável que a retórica seja colocada na pauta para consolidar uma espécie de censura prévia disfarçada.
Sou testemunha de que, quando trabalhei como assessor de Comunicação do então ministro Luiz Carlos Santos (de saudosa memória), ouvi por diversas vezes, nos corredores do Congresso Nacional e do Palácio do Planalto, acusações dos então detentores do poder de que a mídia, principalmente a Folha de São Paulo, era "petista". Vários jornalistas constantemente condenados ao fogo do inferno porque eram vermelhos. Agora, não, os jornais viraram "tucanos" e os jornalistas reacionários, conservadores. Isso tudo num curto espaço de tempo inferior a uma década.
No dia Nacional do Jornalista é preciso refletir muito sobre essas idiossincrasias. Mudanças a toque de caixa podem não ser as mais sensatas, principalmente quando trazem riscos a um dos mais sagrados direitos da humanidade, que é o da liberdade de expressão, onde se abriga a liberdade de imprensa.
Como disse no início do texto, até no dia consagrado a nos homenagear, os jornalistas trabalhamos. Ainda bem que é assim, pois a principal ferramenta desse labor é o pensar, e não devemos abandoná-la nem quando dormimos. Não custa nada sonhar acordado. É quando surgem os verdadeiros e melhores sonhos. Por isso mesmo, e por tantas outras coisas, temos orgulho de ser Jornalistas.


Liberdade

Ai que prazer 
Não cumprir um dever, 
Ter um livro para ler 
E não fazer! 
Ler é maçada, 
Estudar é nada. 
Sol doira 
Sem literatura 
O rio corre, bem ou mal, 
Sem edição original. 
E a brisa, essa, 
De tão naturalmente matinal, 
Como o tempo não tem pressa... 

Livros são papéis pintados com tinta. 
Estudar é uma coisa em que está indistinta 
A distinção entre nada e coisa nenhuma. 

Quanto é melhor, quanto há bruma, 
Esperar por D.Sebastião, 
Quer venha ou não! 

Grande é a poesia, a bondade e as danças... 
Mas o melhor do mundo são as crianças, 

Flores, música, o luar, e o sol, que peca 
Só quando, em vez de criar, seca. 

Mais que isto 
É Jesus Cristo, 
Que não sabia nada de finanças 
Nem consta que tivesse biblioteca... 

Fernando Pessoa, in "Cancioneiro"




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