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Charles
Baudelaire, sem dúvidas, está entre os maiores poetas da humanidade. Seu livro
Flores do Mal é uma obra-prima da literatura mundial. Ao ser lançado, na
França, no ano de 1857, o livro tinha cem poemas e provocaria uma reação que
iria repercutir por toda a vida do poeta. Por abordar temas controversos para a
época, como o lesbianismo e o satanismo, a obra chocou leitores e críticos.
O jornal Le Figaro fez uma crítica mordaz a Baudelaire, que
iria marcá-lo para o resto da vida. A partir de então passou a ser
estigmatizado como poeta maldito. Foi multado e seis poemas, considerados
exageradamente imorais, proibidos de serem divulgados. Só voltariam a fazer
parte da obra do poeta na edição de 1911, quando ele já havia morrido.
Baudelaire foi
um gênio para as artes, mas sua vida social e econômica, sempre um caos.
É difícil
escolher um poema de Charles Baudelaire. Todos são maravilhosos, de uma beleza
poética indescritível. Opto pelo poema de nome estranho – Heautontimoroumenos – por considerá-lo
o que mais retrata a vida de Baudelaire, sua capacidade de contestar a
existência, seu radicalismo e o caráter insólito. O título foi inspirado na peça grega
“Heauton Timoroumenos” do século IV A.C., do poeta ateniense
Menandro, e que literalmente significa “carrasco de si mesmo”. Tudo a ver com
Baudelaire, um gênio da poesia.
Heautontimoroumenos
Charles Baudelaire - À J.G.F.
Sem cólera te espancarei,
Como o açougueiro abate a rês,
Como Moisés à rocha fez!
De tuas pálpebras farei,
Para o meu Saara inundar,
Correr as águas do tormento
O meu desejo ébrio de alento
Sobre o teu pranto irá flutuar
Como um navio no mar alto,
E nem meu saciado coração
Os teus soluços ressoarão
Como um tambor que toca o assalto!
Não sou acaso um falso acorde
Nessa divina sinfonia,
Graças à voraz Ironia
Que me sacode e que me morde?
Em minha voz ela é quem grita!
E anda em meu sangue envenenado!
Eu sou o espelho amaldiçoado
Onde a megera se olha aflita.
Eu sou a faca e o talho atroz!
Eu sou o rosto e a bofetada!
Eu sou a roda e a mão crispada,
Eu sou a vítima e o algoz!
Sou um vampiro a me esvair
– Um desses tais abandonados
Ao risco eterno condenados,
E que não podem mais sorrir!
Tradução: Ivan Junqueira
Charles Baudelaire - À J.G.F.
Sem cólera te espancarei,
Como o açougueiro abate a rês,
Como Moisés à rocha fez!
De tuas pálpebras farei,
Para o meu Saara inundar,
Correr as águas do tormento
O meu desejo ébrio de alento
Sobre o teu pranto irá flutuar
Como um navio no mar alto,
E nem meu saciado coração
Os teus soluços ressoarão
Como um tambor que toca o assalto!
Não sou acaso um falso acorde
Nessa divina sinfonia,
Graças à voraz Ironia
Que me sacode e que me morde?
Em minha voz ela é quem grita!
E anda em meu sangue envenenado!
Eu sou o espelho amaldiçoado
Onde a megera se olha aflita.
Eu sou a faca e o talho atroz!
Eu sou o rosto e a bofetada!
Eu sou a roda e a mão crispada,
Eu sou a vítima e o algoz!
Sou um vampiro a me esvair
– Um desses tais abandonados
Ao risco eterno condenados,
E que não podem mais sorrir!
Tradução: Ivan Junqueira
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