Descaso.
Desrespeito com a cultura e a memória nacional, com a pesquisa científica e até
mesmo com o turismo nacional. O incêndio no Museu Nacional, na Zona Norte do
Rio de Janeiro, não destruiu apenas um monumento histórico, tombado e admirado
nacional e internacionalmente, mas também, a nossa memória, a cultura
brasileira tão desprezada e abandonada pelas autoridades que deveriam ser responsáveis
pela sua preservação.
O
fogo começou por volta das 19h30 de domingo e se alastrou rapidamente porque
boa parte da estrutura do prédio era de madeira e o acervo tinha muito material
inflamável. Demorou a ser contido porque dois hidrantes próximos estavam com a
pressão baixa. Os bombeiros tiveram que recorrer a soluções inusitadas, como o
uso de carros-pipas e bombeamento de água de uma lagoa próxima. Perdeu-se tempo
e o fogo só foi controlado na madrugada desta segunda-feira.
As
causas do incêndio serão investigadas. Na verdade, a tragédia tem sua causa no
descaso que se acumulou ao longo de décadas. A instituição vinha sofrendo com a
falta de recursos e de pessoal, má conservação com fios elétricos aparentes e
paredes descascadas. Cupins
destruíram a base onde estava instalada a reconstrução do fóssil de um
dinossauro de 13 metros que foi descoberto em Minas Gerais e viveu há 80
milhões de anos.
Havia um repasse anual previsto de R$
550 mil, oriundo da Universidade Federal do Rio de Janeiro, que, em função de
uma crise financeira, só conseguia repassar 60% desse valor desde 2013. Neste
ano, inclusive, os serviços chegaram a ser suspensos porque não tinha dinheiro
para pagar pessoal.
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Funcionário, desesperado, tenta salvar equipamento do Museu Nacional |
Segundo o arqueólogo e historiador do Iphan, Claudio Prado de Mello, as perdas são "inestimáveis, incomensuráveis". Ele disse ao G1: “a gente está falando de um museu que formou uma coleção histórica na época em que os grandes museus da Europa estavam se formando. Tinha pesquisa acontecendo, tinha a reserva técnica de material arqueológico."
Podemos acrescentar que toda a História do Brasil estava ali dentro. Funcionários e voluntários, desesperados, tentaram salvar alguma coisa enquanto as chamas se espalhavam cada vez mais. Muitos trabalhadores, emocionados, se abraçavam aos prantos.
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O meteoro Bendegó, uma das poucas peças a resistir ao calor das chamas |
O Brasil
é isso. Um país que não respeita e não preserva sua memória, sua cultura e
relega a terceiro, quarto, quinto, último plano a manutenção, reforma e
ampliação de seus espaços culturais. Isso não tem valor. Se houvesse respeito,
tragédias como essa não seriam tão comuns na nossa história. Vale a pena ler o
que aconteceu em 2013 no incêndio do Museu da América Latina (clique aqui).
Triste,
muito triste. Estamos todos de luto.
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