quinta-feira, 4 de novembro de 2021

Falar alto no celular pode dar confusão e mal-entendido

Como compete a todo marido zeloso e dedicado, decidi acompanhar minha mulher ao posto de vacinação para receber a dose de reforço contra o terrivelmente avassalador vírus da covid-19. Não que ela se oponha à vacina, muito pelo contrário. É defensora da imunização, das medidas não-farmacológicas e da ciência acima de tudo. Mas, tem receio da picada da agulha, isso lá tem. E muito.

Chegamos por volta das 2 horas da tarde. Sol quente e a fila razoavelmente extensa. Mas, bem-organizada, e fluindo bem.

Lá pelas tantas ouço uma voz em alto e bom som de um cidadão gravando um áudio no celular. Algumas pessoas têm dificuldade de entender que suas conversas telefônicas só a ele e a pessoa do outro lado da linha interessam. Falam na maior altura como se todos os presentes, e até alguns ausentes, tivessem interessados nos seus negócios, segredos, casos amorosos e problemas pessoais, inclusive os financeiros.

Deus nos livre e guarde. A tecnologia trouxe muitas soluções, mas também uma série de problemas novos, agravados pela socialização da ignorância e do atraso. O sujeito que fala alto no telefone em locais públicos deveria ser multado, ter o aparelho confiscado e só devolvido depois que o proprietário, por castigo, fosse obrigado a ler a coleção completa de Machado de Assis. De lá sairia, com certeza, um  cidadão.

Mas, voltando à fala do dito cujo. Ele estava gravando um áudio para o filho que, segundo informou, não consegue encontrar, não recebe dele ligações, ou seja, um filho ingrato... Disse ele mais ou menos o seguinte.

“Ôi, filho. Tudo bem? Você não me liga, não dá notícia. Fico sem saber se você está bem, até mesmo se está vivo. Essa noite sonhei contigo. Foi um sonho até bom! Você tava pegando uma mulher casada. Imagina, um mulher casada! Cuidado, meu filho. Isso é perigoso. Tome cuidado. E veja se me liga. Dê notícias!”


Foi aquele clima na fila da vacinação. Todo mundo ouviu. Alguns riram discretamente, outros balançaram a cabeça negativamente. Uma senhora, ao meu lado, chegou a murmurar: “é muita falta de noção!”. Eu achei engraçado, mas, pra evitar qualquer mal-entendido, perigoso e preocupante, perguntei pro arauto de voz sonora.

- Meu senhor, por acaso essa mulher – “a vítima” –, ela está aqui nessa fila de vacinação? Ou não?

- Não, não! Ela mora e está em Sobradinho – disse complacente, como se estivesse fazendo um grande favor pra muita gente naquele local.

Fiquei aliviado. Descobrir que você é corno, aos 67 anos de idade, numa fila de vacinação, no calor de 2 horas da tarde, é meio muito.

A fila voltou a andar. Minha mulher foi atendida rapidamente. Saiu de lá imunizada. E eu, imune.

A gente passa cada uma nessa vida.

Nenhum comentário:

Postar um comentário