sexta-feira, 18 de novembro de 2011

Aos racistas, eu digo: black is beautiful, my brother...


Quem é branco tem dificuldades óbvias pra falar de racismo. Principalmente para sentir, dimensionar e avaliar todas as conseqüências desse fenômeno sobre as pessoas que foram, ou ainda são, vítimas de discriminações, preconceitos e injustiças raciais. É preciso refletir um pouco sobre isso, não apenas porque hoje é Dia Nacional do Combate ao Racismo, mas acima de tudo porque temos compromissos e responsabilidades com a sociedade que, querendo ou não, estamos construindo, ou pelo menos ajudando a construir diariamente.
Se alguma evolução houve – e eu tenho certeza que sim – nos relacionamentos diversos entre negros, brancos e mestiços na sociedade brasileira, os créditos devem ser dados aos que historicamente foram e ainda são, de alguma forma, vítimas da discriminação. Foram eles, por meio da altivez, da compostura e do amor próprio que nos forçaram e nos impuseram uma sociedade onde os direitos e os deveres devam ser iguais para todos.

E esse processo tornou-se cada vez mais efetivo pelas manifestações culturais e artísticas do povo brasileiro. O negro veio gradativamente se impondo e se apresentando com todo seu potencial – não apenas artísticos, mas também, e principalmente, intelectual – por meio da música, do teatro, do cinema, da dança, da literatura e de tantas outras manifestações desse Brasil tão rico culturalmente.
Concordo plenamente com a música de Marcos e Paulo Sérgio Vale: Black is Beautiful, que coloco abaixo na interpretação magistral de nossa saudosa Elis Regina. Várias manifestações contra o racismo foram postadas hoje em blogs, no Facebook, Orkut, Twitter e tantas outras redes sociais. O ZecaBlog não poderia deixar passar em branco, nem em negro, muito menos em cinzas, um dia tão significativo como esse para os cidadãos que se pretendem justos, íntegros e modernos.
Meu abraço afetuoso e fraternal às amigas e amigos negros, brancos, pardos, morenos, mestiços ou de qualquer outro matiz que se queira qualificá-los. Homenageio a todos saudando a memória de meu amigo Hamilton de Almeida, sobre quem já escrevi aqui neste blog. Um negro de coração negro até na alma.
Sinceramente? Acho que sou um branco de alma negra. E tenho muito orgulho disso.

Monólogo na Noite
Fernando Pessoa

Sou a Consciência em Ódio ao inconsciente.
Sou um símbolo encarnado em dor e ódio
Pedaço d’alma de possível Deus
Arremessado para o mundo
Com a saudade pávida da pátria
A cujo horror tremo ao pensar voltar
Mas sem nada da (...) e da ilusão
Para viver neste desterro. Amor,
Paz, amizade, tudo quanto ajuda
A viver a mentira do universo
Falha-me e eu (...)

Ó sistema mentido do universo
Estrelas-nadas, sóis irreais
Oh com que ódio carnal e estonteante
Meu ser de desterrado vos odeia.
Eu sou o inferno. Sou o Cristo negro
Pregado na cruz ígnea de mim mesmo
Sou o saber que ignora;

Sou a insânia da dor e do pensar
Sobre o livro de horror do mundo.

Por que fui eu, amaldiçoado horror
Que me fizeste ser e que eu nem posso
Pensar para te amaldiçoar, ou crer
Em ti, tão cheio do consciente e mensurante
Que o ódio me não cegue para ver
Que não sei que tu és para saber
Se sequer poderei pensar odiar-te.

2 comentários:

  1. Zé, não sei descrever o tamanho da minha admiração por você, por esse seu dom para a escrita. Sempre me impressiona com suas ideias, como as coloca em forma de letras, palavras e frases para o prazer de nossos olhos...
    Você é um homem bacana, ser humano do bem, faz jus a palavra irmão. Não sei ao certo se você é um branco de alma negra, ou um irmão de alma colorida. Pessoa que traz consigo de um lado a alegria e do outro o senso de justiça. Sempre sendo feliz em defender as lutas de seus parceiros, amigos de fé e irmãos camaradas. Isso é uma coisa linda de se ver... Só sendo um homem de alma colorida pra tanto poder com tanto bom senso, bom humor e ao mesmo tempo tomado de seriedade e determinação.

    O dia é da "Consciência Negra", mas o orgulho é nossos, os seus amigos negros e as vezes com outros predicados para o preconceito.
    Obrigado amigo... Obrigado por nos propor essas obras vindas de seu dom, obrigado pela fiel amizade e por esta postagem, grande homenagem!

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  2. Obrigado, Vanderlei, seu depoimento foi importante, não apenas por ser um grande amigo, mas principalmente por conhecer muito de perto as consequências do preconceito. Grande Abraço.

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