quinta-feira, 21 de julho de 2011

Novo CD mostra um Chico Buarque amadurecido

Em um texto anterior (para ler, clique aqui) falei sobre a ansiedade que toma conta de nós quando Chico Buarque de Holanda vai lançar um disco. Não foi diferente desta vez, com o CD Chico, lançado esta semana – eu o recebi em casa, ontem, dia 20 de julho. O disco está muito bonito, com arranjos interessantes, letras bem feitas (como sempre) e traz um Chico Buarque amadurecido do ponto de vista da musicalidade.
São apenas dez músicas, mas é um disco completo em melodias, ritmos e letras. Chico navega pelo samba, bossa, valsa, baião e blues. Nos acompanhamentos musicais não faltou espaço para a viola caipira em Querido Diário. Chico sempre valorizou boas parcerias. E desta vez não foi diferente, ao compor com João Bosco (Sinhá), Ivan Lins (Sou eu) e o seu baixista João Helder (Rubato). Também não deixa de valorizar os duetos com o próprio João Bosco, Wilson das Neves, Thais Gulin e o belo coro feito por Jurema Candia, Nair Candia e Viviane Godoy, em Tipo um Baião.
Chico investe na simplicidade e consegue um belo resultado, graças ao seu talento. Assim como geram expectativas, seus trabalhos costumam provocar polêmicas, algumas densas, outras nem tanto. A superficialidade de alguns críticos, estilo Veja, como o blogueiro Reinaldo Azevedo é assustadora. Ele finge não ter entendido a letra de Querido Diário, ao fazer uma crítica ácida, misturada com um discurso político contra as esquerdas, PT, Cuba, Che Guevara etc. Reinaldo ouviu o galo cantar, mas não sabe onde.
As críticas mais densas não resistem à simplicidade das canções, que esbanjam belezas de melodias, letras e arranjos. Um Chico amadurecido fala de amor, do passar do tempo, de Luiz Gonzaga, Zizinho, Pelé, Garrincha, Cartola e por aí afora... E o mundo vai passando, desde os tempos dos castigos, da escravidão, do poder dos senhores de engenho, de olhos azuis, para furar os olhos de quem nunca viu Sinhá.
Chico mostra sua genialidade nessa parceria com João Bosco, que canta e toca com ele a Sinhá, música que reproduzo abaixo, no vídeo de lançamento (achei a gravação do CD mais bonita, porém não tenho como publicá-la). Posto também a letra para que, juntos, possamos admirar mais essa beleza do talento de Chico. É um samba com cadência milongueira. Bom demais!
Infelizmente, em suas entrevistas, Chico Buarque tem dado a entender que vai demorar mais uns seis anos para voltar a compor um novo CD. Tomara que seja só uma brincadeira... Quem sabe, ele quis dizer daqui a seis meses...



Sinhá
João Bosco / Chico Buarque

Se a dona se banhou
Eu não estava lá
Por Deus Nosso Senhor
Eu não olhei Sinhá
Estava lá na roça
Sou de olhar ninguém
Não tenho mais cobiça
Nem enxergo bem

Para que me pôr no tronco
Pra que me aleijar
Eu juro a vosmecê
Que nunca vi Sinhá
Por que me faz tão mal
Com olhos tão azuis
Me benzo com sinal
Da santa cruz

Eu só cheguei no açude
Atrás da sabiá
Olhava o arvoredo
Eu não olhei Sinhá
Se a dona se despiu
Eu já andava além
Estava na moenda
Estava pra Xerém

Por que talhar meu corpo
Eu não olhei Sinhá
Pra que que vosmincê
Meus olhos vai furar
Eu choro em Iorubá
Mas oro por Jesus
Para que que vassuncê
Me tira a luz

E assim vai se encerrar
O conto de um cantor
Com voz de pelourinho
E ares de senhor
Cantor atormentado
Herdeiro sarará
Do nome e do renome
De um feroz senhor de engenho
E das mandingas de um escravo
Que no engenho enfeitiçou Sinhá

Um comentário:

  1. Sem querer ser "macaco de auditório" ou repetidor de chavões, mas é inegável que, em se tratando de Chico Buarque, por pior que seja a canção, ela tem brilhos de genialidade..se tem unanimidade não burra é essa...e atrevo-me a dizer isso(e não estou sozinhho)porque há quarenta anos escuto e leio a produção buarqueana....Cara, como é que pode?Viva o Chico!!

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